"GRILHÕES DE SEDA" CAP. XXV

by YASMIN PALOMO ESTRADA

 


Juan estava no Verdeales e revisava alguns papéis quando Zulmira entrou.
- Posso saber por que o senhor não tem mais aparecido em minha casa?
A senhora parecia realmente aborrecida, mas Juan não pôde evitar o riso. Ele puxou uma cadeira e convidou-a a sentar.
Zulmira sentou-se e continuou olhando para Juan de modo sério.
- Então, vai me dizer ou não o que está acontecendo?
- Zulmira, sabe muito bem o quanto gosto de você e te prezo, mas não vais querer concorrer com Sabrinne, vai?
O rosto da velha senhora iluminou-se.
- Tem estado com ela? Por que ela não veio me visitar?
- Ela anda um pouco cansada...- a cara maliciosa de Juan corou a velha senhora.
Ela bateu em Juan com sua bolsa.
- Seu safado! Exijo que me respeite!
Ele riu e Zulmira prosseguiu.
- Estou acompanhando os trabalhos lá na casa da enseada e as coisas estão indo bem. Acho que dentre duas ou três semanas ela esteja pronta.
- Tudo isso?! Combinei com Sabrinne que ela se mudaria em dois dias!
- Juan, você tem ido àquela casa? Há quanto tempo não vai lá?
Ele ficou um pouco sem graça.
- Não sei...Uns doze anos?
Zulmira fez uma cara de repreensão.
- Bem, estou indo. Vê se aparece para saber se estou viva. – disse, fazendo manha.
Juan a abraçou com carinho e acompanhou a antiga ama até o convés.

###~~~###

A tarde estava quente e Sabrinne sentou-se na varanda para ler uma peça de Fausto.
- Que bela imagem!
Sabrinne assustou-se e o livro caiu no chão.
- Perdoe-me bela senhorita...Não quis assusta-la.
O jovem Normando Corrales estava com o rosto por entre as grades e a observava.
Sabrinne sorriu, aliviada do susto.
- Realmente me assustou...O que faz aí?
- Estou revigorando minhas retinas!
Sabrinne se divertia com as lisonjas do nobre artista.
- Por que não entra?
- Por que não me convida?
- Sinta-se convidado.
Ele entrou e foram conversar na sala. Ele lhe contou que é filho de um Barão do sul da Espanha e que veio à Barcelona atrás de um amor, mas esse amor já não o quer. Disse também que a família o sustenta para que se mantenha longe. O consideram uma vergonha por causa da sua veia artística.
Sabrinne o admirava cada vez mais e ele a divertia muito.
- Querida Sabrinne... Posso chamá-la assim?
- Claro. – disse sorrindo.
- Você conhece muitas pessoas, não?
Ela pensou um pouco e respondeu.
- Menos do que imaginas.
- Mas conhece mais que eu.
- Acho que sim.
- O que tem escutado a respeito da rainha?
- Pouca coisa... Sei que a coroa corre perigo, mas também que ela sente-se segura pela cobertura da Itália, e a depender de quem tente tomar o trono, será protegida pela França também.
- Hummm...Está bem mais informada que eu!
Ambos riram.
- Sabrinne...É verdade que você tem um grande amor?
Ela corou levemente.
- Sim...Tenho. Mas, e você? Onde está esse amor?
Sabrinne sempre fora muito reservada e não queria expor sua vida.
- Meu amor está comprometido. Os pais arranjaram-lhe um casamento.
- E por que você não foi o escolhido?
- Porque seus pais não me acham...Adequado.
- Porque é um artista.
Ele pensou um pouco e depois respondeu.
- Não, acho que não. – Sabrinne pôde notar um sorriso disfarçado, como se sentisse vergonha.
Mercedes, a criada, entrou na sala.
- Senhorita, um senhor deseja vê-la e disse que é de muita importância.
- Que senhor?
- O senhor Santiago.
Sabrinne respirou fundo e Normando notou seu semblante cansado.
- Acho que está na hora de’u ir.
Ela sorriu, admirando a sensibilidade do novo amigo.
- Eu te acompanho e vejo o que esse senhor quer.
Saíram e Carlos tremeu ao ver Sabrinne. Ela estava tão linda quando a tarde. Num delicado vestido cor da pele e seus cabelos em um coque frouxo.
Ela despediu-se do amigo e cumprimentou Carlos.
- Boa tarde Carlos.
Normando passou por Carlos e se cumprimentaram cordialmente.
- Como vai Sabrinne?
- Muito bem, e você?
Carlos estava apoiado no portão e fez menção de entrar, mas Sabrinne o deteve apenas com o olhar.
- Eu só quero conversar...
- Não tenho nada contra você Carlos, mas vou me casar com Juan e ele ficará muito aborrecido se...
- Ele não está, está? Que mal há? Só quero me desculpar e conversar com você.
Carlos tinha lindos olhos azuis e um rosto de anjo. Ele jamais fizera nada de ruim com ela ou com Juan, a não ser por tentar corteja-la, mas sempre a respeitou.
- Está certo, mas você será breve, tudo bem?
Ela não tinha muita certeza de que estava fazendo o certo. Se Juan viesse a saber que ela recebera Carlos Santiago...
- Sente-se.- ela lhe ofereceu o sofá.
Carlos sentou-se num sofá e Sabrinne em outro. Ficaram em silêncio, e esse silêncio começava a incomodar Sabrinne.
- Você o ama?- ele perguntou de supetão.
A pergunta assustou um pouco Sabrinne. “Não acredito que ele veio aqui para perguntar isso!!!”, ela pensou. Mas também pensou que seria uma boa oportunidade para esclarecer de uma vez por todas que entre eles jamais haveria algo.
- Se é que quer saber...Amo, amo muito.
Carlos abaixou a cabeça e depois levantou-se e sentou ao lado de Sabrinne. Ela recuou um pouco, mas não pôde fugir.
- Sabrinne, ele não te merece! Olha o tipo de homem que ele é!
- Carlos, por favor...
- Sabrinne, me escute ao menos uma vez! – ele tomou um pouco de ar.- Preciso te dizer tudo o que sinto...
- Carlos, você não precisa passar por isso...
Ele segurou as mãos dela.
- Eu preciso! – ele suspirou profundamente.- Eu nunca me apaixonei por ninguém, nunca me prendi a mulher alguma, mas...Assim que te conheci, naquela maldita confeitaria, minha vida passou a ser um inferno! Eu não durmo direito, não como...- Sabrinne o olhava assustada. Pela primeira vez ela reparava um brilho diferente em seu olhar. Algo muito estranho estava acontecendo com Carlos. – Só penso em você!
Sabrinne sentiu um frio percorrer sua espinha e quando tentou retirar suas mãos das dele, ele a segurou com mais força.
- Sabrinne...O que você quer? Dou-lhe o mundo para que sejas minha!
Sabrinne entendeu que ele não estava nada bem, que ele estava claramente desequilibrado.
- Carlos...Eu não preciso de nada, não quero nada.
- Diga! – ele falou um pouco mais alto, mas logo depois baixou seu tom. – Diga que eu lhe darei...Tudo. Quer uma casa sua? Maior que essa? Eu te dou!
- Carlos...Você não pode comprar o meu amor. – ela falava suavemente, com receio de deixa-lo nervoso.
Ele a olhava sem nem mesmo piscar. Carlos aproximou-se de Sabrinne e ela voltou a recuar.
- Vá embora, por favor.
- Sabrinne... O que ele tem, que eu não tenho?
Ela soltou um risinho nervoso.
- Que bobagem Carlos...Você é um homem encantador! Belo, gentil, educado...Mas, não mandamos no coração. Eu o amo por...
Carlos a calou com um beijo repentino e lançou seu corpo contra o dela, forçando-a a deitar-se. Sabrinne o empurrava e lutava para desvencilhar-se de seus braços, mas ele era forte demais. Finalmente, ela mordeu sua boca e num gesto automático, ele a esbofeteou. Sabrinne gritou e foi parar no chão. Carlos ficou sobre e ela e disse quase num sussurro:
- Te darei uma última chance... Se realmente ama aquele marginal, afaste-se dele. Eu não quero vê-la com ele nunca mais!
A voz do rapaz estava rouca e agressiva. Ele parecia outro. Estava tomado por um ódio assustador, como se houvessem dois Carlos.
- Saia de cima de mim. – ela ordenou por entre os dentes.
Na casa só havia um empregado, que se encontrava capinando o quintal e certamente não ouvira o grito de Sabrinne. Sua mãe e Mercedes haviam saído.
- Já ouviu falar no interesse que os ingleses têm por descobrir quem trafica a seda da Espanha? – os olhos de Sabrinne saltaram. – Tem idéia do quanto eles gostariam de colocar as mãos nesse marginal?
- Você não teria coragem...Juan é muito influente e tem como se sair.
- Se os ingleses estivessem longe, sim. Mas eles estão aqui meu amor...E eu os conheço. Para falar a verdade, eu os trouxe.- agora ele falava com grande sarcasmo.
Sabrinne engoliu seco.
- A coroa não permitiria que os ingleses o levassem.
Carlos gargalhou.
- Ninguém vai querer levar o corpo de um contrabandista! Não precisaremos leva-lo, se é que me entende.
- Carlos, por Deus, deixe o Juan em paz!
Ele segurou no rosto de Sabrinne, obrigando-a a levantar-se e colocando seu rosto bem próximo ao dela.
- Só depende de você. Só precisarei mostrar-lhes quem é Juan e dentro de uma hora ele estará morto!
- Seus ingleses não têm a menor chance! Juan é esperto e saberá se cuidar.
- Você realmente acha que eu darei chance para ele se cuidar?!!! – ele gritou e ela pôde sentir seu hálito contra o rosto.- Ele não poderá fugir. Há navios ingleses no mediterrâneo e bastará uma ordem minha, um tiro de canhão para que afundem um por um os navios dele. E por terra...ele morrerá muito antes de alcançar qualquer estrada. – ele passeou os olhos pelos lábios de Sabrinne e tornou a falar com um misto de ódio e desejo. - Os ingleses estão sedentos pelo nome desse canalha e se não dei até agora, foi por sua causa. Porque a quero.
Sabrinne estava trêmula. Ela sabia que com a confusão que estava na corte, a rainha não daria muita importância para o comércio da seda e que se realmente os ingleses estivessem no mediterrâneo, Juan estaria perdido.
- Se você realmente o ama...Salve-o! Livre-se dele. Não quero vê-lo nunca mais em sua companhia.
- Está bem Carlos...Não o verei mais. – doía-lhe profundamente dizer isso, mas não pensava em cumprir com sua promessa antes de averiguar se tudo o que dizia era verdade.
Ele a olhava desconfiado.
- Não está tentando me enganar, está?
Ela tentava conter a tremedeira.
- Claro que não, Carlos! Acha que brincaria com algo sério assim?
Ele levantou e ajudou-a a levantar-se também.
- Fui bem claro. Afaste-se ou ele aparecerá morto em alguma esquina. Se o ama como diz, saberá o que fazer.
Carlos ajeitou seu terno e foi embora.
Sabrinne estava paralisada no meio da sala. Tremia tanto que não pôde manter-se de pé por muito tempo.
“ Deus! O que farei?”, Sabrinne estava completamente desnorteada.” Me afastar de Juan? Como?”.
Ela correu até o fundo e gritou o criado.
- José! José!
- Pois não senhorinha!
- Corra e siga o rapaz que acabou de sair daqui. Ele é loiro e está usando um terno cinza claro. Rápido! Siga-o e preste atenção a tudo o que vir e ouvir.
O jovem saiu rápido como uma flecha!
Sabrinne voltou a sala e tentou subir a escada, mas estava zonza e perdida. Sentou-se no terceiro degrau e tentou organizar os pensamentos, mas lágrimas inundaram seus olhos. Novamente os Santiago vinham cruzar seu caminho e trazer desgraças!

####~~~###
Madeleine chegou com Mercedes e traziam algumas coisas de sua velha casa, que estavam guardadas na casa de um dos antigos soldados de Manolo. Eram roupas e algumas peças de uso pessoal da senhora. Entraram sorridentes e não notaram Sabrinne na escada. Somente quando ia para seu quarto, Madeleine viu a filha com o olhar perdido.
- Sabrinne? O que houve?
Sabrinne ergueu o olhar e sua expressão era de desolação.
- Os Santiago nos trouxe mais uma desgraça.
Madeleine largou os objetos e sentou-se ao lado da filha.
- Quem esteve aqui? A Carmen?
- Não. O Carlos.
- Ele teve coragem?
- Teve. Certamente mandou que alguém vigiasse Juan antes de vir falar comigo.
- O que ele disse?
Sabrinne ainda estava muito abalada, mas precisava desabafar com alguém.
- Veio me ameaçar.
Sabrinne contou tudo o que havia ocorrido, mas ocultou o tapa que levou. Não queria dar motivo para sua mãe cometer mais um crime.
- Deus do céu! Você não tem saída!
- Não tenho mamãe. Acho que ele planejou tudo para eu ficasse de mãos e pés atados. Se eu contar a Juan, não só tentará fugir, como vai tentar matar o Carlos. Seria como um presente, ver o Carlos morto, mas conseqüentemente, Juan seria preso.
- É verdade...Deus do céu! Você vai terminar tudo com ele novamente! Sabrinne minha filha...Eu não quero nem ver como ele vai reagir!
- Eu não sei como dizer...O que falar...
Madeleine a abraçou e o criado chegou esbaforido.
- Senhorinha! Eu segui o tal senhor.
Sabrinne ergueu a cabeça.
- E então?
- Ele saiu daqui muito desconfiado e foi em direção ao paço, mas duas esquinas antes ele virou e encontrou três homens altos e loiros como ele.
- Você os escutou? Notou algo diferente?
- Eles estavam na entrada de uma taberna e eu passei por eles para entrar na taberna e fiquei atrás da porta para escuta-los.
- E o que diziam? – Sabrinne estava aflita e nervosa.
- Eu não sei não senhora. Eles falavam numa língua estranha, toda embolada.
Sabrinne empalideceu e no mesmo instante desmaiou. Se Madeleine não a segurasse, teria rolado três degraus.






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