| Mensagem Original |
Giu Posted Jun 13, 2002 9:13 PM

parte 3
No dia seguinte, Alex recebeu um recado de Avery, pedindo que fosse a Lyndonwood com urgência. Com o clíper quase todo abastecido, ela partiu.
Seu estado de espírito esfriou bastante quando chegou e viu uma imponente carruagem lá.
O mordomo a recebeu.
_Que bom que chegou, senhorita! Estão todos lhe esperando no escritório.
_Todos....? quem?
_Seus irmãos... lady Hampton... lorde Carrington e mais alguns senhores.
Alex empertigou o corpo e seguiu a passos duros... as botas ecoando. O mordomo anunciou sua chegada, abrindo a porta para ela e saindo em seguida.
Os homens presentes, seus irmãos, o dr. Graham, lorde Carrington e mais dois que ela não conhecia, ficaram de pé assim que entrou. Alex aproximou-se do advogado.
_Contou a eles? - perguntou bem baixinho.
_Ainda não.
_Ótimo.
_Alexandra... - ela olhou para Avery, surpresa. Ele nunca, nunca a chamava assim...- Acho que já deve saber a razão disso.
Um sem números de motivos passaram por sua mente.... nenhum deles agradável, mas respondeu com aparente inocência.
_Não faço idéia, Avery.
_Lorde Carrington pediu sua mão em casamento.
Aquilo não foi exatamente uma surpresa, na verdade, ela já esperava por algo assim. O que ninguém esperava foi por sua reação. Uma gostosa gargalhada que os deixou atônitos.
_Alex! - Leigh, que estava sentada numa poltrona próxima a Avery, a repreendeu.
_Desculpe! - ela não parecia nem um pouco arrependida. Virou-se para fitar Carrington. Ele exibia uma expressão fria. - Mas você foi tão previsível, que não pude me conter... – havia um tom de vitória que mal conseguia disfarçar em sua voz.
_Alex!
Ela olhou para Avery.
_Se foi por isso, eu acho que... – disse sem a menor preocupação com o clima tenso.
_Poderia falar em particular com Alexandra? - David a interrompeu.
_Acha necessário? - ela indagou com o sorriso mal-contido.
_Acho.
Alex assentiu.
_Quer me acompanhar até a biblioteca, milorde?
Ele fez sinal para que ela passasse. Atravessaram o corredor em silêncio. Já na biblioteca, ele encostou-se na porta, após fechá-la.
_Ah, Lorde Carrington... devo dizer que...
_Aceitará meu pedido! - a interrompeu, muito sério.- Estou com meus advogados e nós assinaremos um contrato de casamento. Eu já dei entrada com o pedido na igreja e os proclamas sairão em um mês.
Ela cruzou os braços e arqueou as sobrancelhas.
_Devia ouvir o que eu tenho a dizer antes.
_Estou farto de seus jogos, senhorita. Não estamos brincando e não vou permitir que engane o governo favorecendo aos americanos.
_Não cometi nada do que possa me envergonhar. E nunca traí meu país.
_Se nada do que foi acertado for suficiente para fazê-la agir como uma verdadeira cidadã inglesa, então, eu mesmo me encarregarei de colocar seus esforços a nosso favor.
_Verdade?! - debochou.
_Esse contrato nos tornará legalmente casados.
_Meus irmãos jamais concordarão com isso!
_O casamento na igreja será realizado tão logo sigam os trâmites normais... afinal, não queremos especulações sobre tanta urgência, não? – ele a ignorou.
Ela o fitava por entre as pálpebras semicerradas.
_E com isso o senhor pretende assumir meus negócios e me impedir de partir com o meu....
_A senhorita continuará com suas atividades.- sorriu, cínico.- Suas habilidades são importantes para a Inglaterra. Não podemos abrir mão de um ‘comandante’ tão eficiente.
_Mas... - ela o fitou, confusa.- .. se eu continuarei com o que venho fazendo... para quê esse casamento?
_Para garantir que você agirá de acordo com o previsto.. sem favorecimento aos americanos, minha cara.
Alex deu-lhe as costas para que não visse seu ar de vitória.
_Ah, sim... para me controlar. Controlar minha companhia para me manter na linha. É isso?
_Você sempre foi muito inteligente.
Alex levou uma das mãos à boca para sufocar o riso.
_E como pretende me obrigar a casar com você, milorde? Não vejo como!
_Você sempre foi um motivo de escândalo e vergonha para sua família.- ele falou num tom cortante. Alex virou-se, furiosa.- Nunca soube das humilhações que sua cunhada sofreu por sua causa? - o rosto dela empalideceu e David riu.- Ah, lady Leigh nunca lhe contou... Não me admira. Leigh Hampton é uma dama e gosta muito de você. Muito embora sua imagem perante a sociedade seja a de uma mulher de moral duvidosa.
Alex ficou sem ação... por ele lhe jogar isso tão ostensivamente na cara.
_Ah, querida, não me diga que não sabia? O que achou que aconteceria depois de passar tanto tempo em um navio cercada de homens? Achou que sairia intacta disso?
_Não me importo com o que pensam de mim. A opinião de gente frívola e mesquinha como você nunca me....
_Ou falam! - ele completou, ignorando- a . - Sim, eu sei. Mas isso não atinge só você... atinge sua cunhada e futuramente, sua sobrinha.
Alex inspirou fundo.
_Onde está querendo chegar?
_Que eu posso piorar muito sua situação... tanto que atingiria até mesmo o conde de Lyndonwood... de forma irreparável.
Uma sombra de dúvida cruzou o olhar dela.
_Ah, vejo que não acredita, mas creia-me.. boatos são capazes de causar tanto estrago quanto as balas dos canhões de seu navio.
Alex tentou pensar com clareza, mas só conseguia ver Leigh sendo vítima das línguas ferinas daquelas mulheres que se escondiam sob a fachada de ‘damas’.
_E quanto à sua imagem? - contra-atacou, não se deu por vencida.- Não tem medo do que pode acontecer a você casando-se comigo? Um nobre... um membro do conselho militar.... se casando com uma pirata? Uma mulher de moral duvidosa? - jogou as próprias palavras contra ele.
_Posso sobreviver a isso. Além do mais... tenho como acabar com isso e reverter a situação, transformando-a numa heroína para o povo inglês! Uma mulher corajosa que se arrisca para defender os interesses de seu país! Que acha, minha cara?!
Ela ferveu de ódio e David soube, com toda certeza que, se ela tivesse uma arma à mão, teria atirado nele.
_Então é isso... o fim justifica os meios.
_Estamos em guerra e minha função é garantir nossa supremacia. Não importa o preço.
_Até mesmo se casar comigo.
_Não é um preço tão alto assim.
“Veremos se continuará achando isso quando descobrir que não tem nada nas mãos para barganhar!”, pensou, sufocando a custo um sorriso de desdém.
_Eu poderia procurar nosso príncipe e pedir sua proteção... - disse, com raiva.- Todos sabem que sua majestade não negaria nada do que lhe pedisse....
Carrington deu um passo à frente, perigoso.
_Verdade, milady?! Sim... é de conhecimento geral o fascínio que provoca em nosso príncipe..... mas também é verdade... que mais até do que o rei..... George deseja humilhar os americanos com a derrota.... Ele comanda o conselho militar... já que nosso rei não está..... digamos.... muito senhor de suas ações.... O que ele faria, minha cara... se soubesse de suas tendências a favorecer o inimigo?
Alexandra sentiu o fel subir por sua garganta.
_Está bem, milorde... o senhor tem as cartas na mão...
_Vamos? Assinaremos o contrato agora....
_Agora?!
Ele riu... um som baixo... e perigoso.
_Não me subestime, milady.... como eu também não o faço consigo.....
_Eu... eu preciso ficar um pouco sozinha...- percebeu o ceticismo dele.- Não se preocupe. Não vou pular a janela! Quero apenas me controlar...meus irmãos me conhecem muito bem. Se me virem assim, desconfiarão de algo.... e isso não interessa a nenhum de nós.
David a observou por um momento.
_Confio em sua palavra...- disse secamente.- Creia-me, Alexandra.... não valeria a pena me desafiar.
Alex esperou que ele se afastasse e correu para o corredor, onde quase trombou com uma criada.
_Ah, me desculpe, senhorita. Eu não tive intenção de...
_Tudo bem, Rosie... a culpa foi minha...- agarrou a moça pelo braço.- Faça-me um favor, sim? Vá, depressa, ao escritório e avise ao dr. Graham que chegou um mensageiro que deseja vê-lo com urgência.
_Mas, senhorita...
_Faça isso, Rosie.. por favor.
A moça sorriu.
_Está bem, senhorita.
Alex a acompanhou até bem perto da porta e esperou no corredor. Ela entrou e pouco depois saía, acompanhada pelo advogado.
_Psiu! - Alex chamou-lhe a atenção. Quando a viu, o dr. Graham fez uma expressão de desânimo. Foi até ela.
_Não acha que estou um pouco velho para isso, senhorita Alexandra?
_Dr. Graham, o senhor não falou nada a ninguém...
_Não tive chance! Seus irmãos estão fora de si. Quando lorde Carrington avisou que você voltaria para comunicar sua resposta, Reese quase pulou no pescoço dele.
Alex suspirou.
_Foi por causa dele que me pediu para fazer a transferência? – o advogado indagou.
_Sim, mas o caso é mais complicado e não posso explicar. Ele falou sobre o contrato de casamento?
_Sim.
_E...?
_Lorde Carrington não poderá intervir em nada. O contrato de serviço que assinou é pessoal e intransferível, mesmo sendo mulher e se casando.
_Ótimo. Mas o senhor não pode mencionar isso até amanhã... invente uma desculpa... atrase, mas só resolva isso com o advogado dele amanhã.
_Por quê?
_Amanhã eu espero já estar em alto-mar e ele não poderá fazer nada contra mim! - sorriu.- Recebi a liberação para partir há dois dias!
_Não é arriscado desafiar um homem como ele? Carrington goza de muita influência nas altas rodas do governo. É um dos membros do Conselho de Guerra e suas relações com o Príncipe de Gales.... – a alertou, preocupado.
_Eu sei, mas é por isso que tenho de escapar ao controle dele. O mais rápido que puder. Em alto-mar, ele não poderá fazer nada contra mim.
_Está bem, vamos voltar e resolver isso.
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Alex tinha um sorriso estampado no rosto quando comunicou que aceitava o pedido de casamento e concordou com o contrato pré-nupcial.
_Esse contrato torna o casamento válido legalmente.- o advogado explicou.
_Mas... e a igreja? - Leigh estava perplexa.
_David já deu início aos proclamas, Leigh! - Alex explicou, surpreendendo-os.
_Então, por que não esperar?
_Ele tem medo de que eu desista! - ela brincou, recebendo um olhar de advertência do ‘noivo’.- Sinceramente, eu não me importo.- olhou para o advogado.- Onde eu assino?
_Alex?! - Avery estava, no mínimo, indignado.- Por que essa pressa toda? Que decisão repentina é essa?
_Eu sou assim mesmo, querido! Não se preocupem! Tenho plena consciência de meus atos.- olhou para Carrington.- E não vou me arrepender de nada... muito pelo contrário! - frisou bem cada palavra, deixando enfatizado para ele.
Não houve argumento que a fizesse mudar de idéia. Na realidade, Alex mal cabia em si de euforia. Fora muito estúpida achando que Carrington não agiria com mais afinco, mas no fim... quase sorriu ao assinar seu nome... seria ela a dar a última palavra.
Como combinado, o dr. Graham adiou os acertos legais para o dia seguinte, alegando ter um compromisso já marcado para hoje. Ele o sr. Phillips, advogado de Carrington, se reuniriam no escritório dele para acertar tudo.
_Acho que... devemos... comemorar?! ..- Leigh estava confusa e desnorteada com a situação.
_Deixemos isso para o dia do casamento na igreja.- Alex a salvou.- Você poderá organizar tudo a seu modo, sabe que não tenho jeito para isso e confio em seu bom gosto, Leigh.
_Claro! - Leigh já imaginava como seria a festa, a ornamentação da igreja e tudo mais.
_Você irá ao cais hoje? - David indagou quando já iam embora.
Alex se colocou na defensiva.
_Sim, provavelmente.
_Nesse caso..- virou-se para o outro homem que o acompanhava.- Fique aqui, Norton, e acompanhe a sra. Carrington. Você já sabe o que tem a fazer.
Alex o encarou, sem entender nada. David quase riu de sua expressão.
_Esse é Edward Norton, querida. Eu o encarreguei de acompanhá-la sempre... aonde for, Norton estará a seu dispor e...
Os olhos dela pareciam queimar como duas chamas verdes.
_Você... você colocou esse... esse... - ela não encontrou a palavra.-... para me ...
_Acompanhar! - ele completou por ela e aproximou-se, falando baixo, apenas para que ela o ouvisse. - Norton irá relatar cada passo seu, meu bem. E quando você zarpar, irá com você.
Alex o encarou, sentindo ganas de matá-lo.
_Posso lhe falar... a sós?!
David sorriu.
_Claro...querida!
Os dois voltaram para a biblioteca.
_Se acha que eu vou zarpar com esse almofadinha no meu encalço, você perdeu o juízo.
_Norton lhe poupará o trabalho de fazer os relatórios.
_Vai me espionar! - ela arregalou os olhos, furiosa.- Aquele...
_Não se engane, querida. Por trás da fachada de fragilidade...
_Ele continua sendo um almofadinha! - quase gritou.- E pare de me chamar de querida!
_Ele sabe se cuidar e tratará de cuidar de você também.
_Há!
_Norton zelará por sua ‘reputação’. Não achou que eu iria deixar você agir como sempre, não é?
_E se eu simplesmente lançá-lo ao mar, milorde?!
_Nesse caso, arcará com as conseqüências disso. - disse sem nenhum traço de humor.- Norton irá como meu representante militar no seu navio. E de cuja integridade física você terá de zelar. Caso contrário...
Alex levou as mãos à cintura....
_Como?! Como eu posso zelar por ele? Acha que estou fazendo uma viagem de turismo? Enfrentaremos navios hostis, “Lorde Carrington”! Homens são feridos e mortos. E ainda há os acidentes e doenças. Como pode pensar que posso garantir a vida de um sujeito que parece tão frágil quanto... - agarrou uma pequena estatueta de porcelana e atirou-a contra a lareira.-... quanto essa droga de porcelana? - os cacos espalharam-se pelo chão.
_Isso será problema seu. Mas como eu disse, não se fie na aparência dele.
_Cafajeste miserável!
David apenas sorriu.
_Controle-se. Lembre-se de que é uma mulher casada.
Alex não se controlou e ergueu a mão para esbofeteá-lo. Mas foi rapidamente dominada. David agarrou seu pulso, puxando-a contra si.
_Cuidado com as aparências, querida...- ele avisou num tom de voz velado.
_Largue-me! - ela exigiu.
_Claro. Depois disso....
Puxou-a para perto, beijando-a com violência. Alex tentou atingi-lo com a outra mão, mas foi capturada. David era muito forte e ainda a pressionou contra a mesa, atrás dela.
Quando finalmente a soltou, ambos estavam ofegantes, com a raiva fervendo no sangue.
_Pense muito bem antes de me desafiar, Alexandra.
Ela estava muda de ódio. David ajeitou as roupas. Fitaram-se por um longo e tenso momento...medindo forças. Ele saiu.
Alex fechou os olhos com força, agarrando as bordas da mesa com as mãos trêmulas. Proferiu uma carreira de palavrões capazes de fazer o cozinheiro do Perse corar!
Abriu os olhos e tocou os lábios inchados com as pontas dos dedos.
_Tem razão, milorde! As aparências enganam... e eu o farei pagar muito caro por isso.
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Alguns minutos depois da saída de Carrington, Leigh foi procurá-la na biblioteca. Encontrou-a sentada na poltrona, analisando a jóia que David colocara em seu dedo, durante a ‘assinatura do contrato’.
_É um anel belíssimo.- ela comentou, aproximando-se.
_Sim... é... - os olhos verdes estavam fixos na jóia... o anel era cravejado de esmeraldas, mas Leigh podia jurar que ela não o enxergava.
_Aquele sr. Norton ficou... está sentado no hall.
_Cão de guarda...- murmurou.
_O que disse?
_Ele me aguarda...- falou mais alto.
_Ah.. bem! Lorde Carrington foi muito atencioso em se preocupar com sua segurança.
_Sim, foi....
_E agora, você...
Alex ficou de pé.
_Preciso voltar ao cais, Leigh.
_Seus irmãos querem falar com você.
_Isso terá que ficar para depois.
_Você vai adiar a viagem?
_Sim, claro! - mentiu e antes que pudesse sair, Avery e Reese entraram.
_Vamos conversar agora, Alex.
_Lamento, mas não posso.
_Não é uma questão de querer, Alexandra......- Avery a pressionou.- Como a situação chegou a esse ponto? O que Carrington fez para pressioná-la dessa forma?
Ela fitou o irmão, sentindo o peso daquela aliança em seu dedo.
_Lamento, Avery.... mas esse assunto não lhe diz respeito.
_Sou seu irmão... e tudo que lhe diz respeito...
_Diz respeito a mim. São meus assuntos. E com Carrington, eu me entendo. - olhou para Reese.- Converse com o dr. Graham depois, Reese. Amo você... amo todos vocês.
_Alex...
_Tenho que ir. - saiu sem olhar para trás.
Quando alcançou o hall, Edward Norton se pôs de pé.
_Vai sair, sra. Carrington?
Ela rilhou os dentes. “Sra. Carrington!”
_ “Vamos”, sr. Norton.
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O trajeto foi feito em silêncio. Alex podia até se julgar sozinha, não fosse a figura franzina do sr. Norton sentado à sua frente.
O homem era mesmo como uma sombra. Silenciosa, mas presente. Olhou pela janela, observando a cidade. Quando chegasse no navio, teria que dar um jeito de trancá-lo no porão até zarparem. Franziu o cenho. Só esperava que David não tivesse colocado espiões no porto.
Suspirou, massageando as têmporas. Quando sua vida se complicara tanto? Tudo começara a sair dos eixos há quase sete meses.... quando desembarcara na Carolina do Sul.. e conhecera Brendan O’Neill.
“Oh, céus!”. Aquele não era o momento de pensar no americano.
Mais rápido do que pensara, alcançaram o porto. Norton desceu primeiro e se ofereceu para ajudá-la. Já fora, Alex o encarou. Teve que inclinar a cabeça para fitá-lo. Ela era bem mais alta que a maioria das mulheres, mas nem tanto. Com seu um metro e setenta, muito dos homens que encontrara estavam ao seu nível...mas Edward Norton parecia ter menos que um metro e sessenta e seu aspecto franzino parecia diminuí-lo ainda mais.
_Vamos esclarecer algumas coisas de uma vez, sr. Norton. Como vai notar daqui para frente, não sou do tipo frágil e delicada. Comando um navio pirata.... ou corsário, se preferir. Posso e sei cuidar de mim, por isso, preocupe-se consigo mesmo e se mantenha longe de problemas. Não temos tempo, nem disposição para ficar pajeando um.. - ia falar almofadinha, mas calou-se.-... alguém que não sabe se cuidar.
_Não terá que se preocupar comigo, sra. Carrington.- ele frisou bem, os olhos pequenos e castanhos fitando-a, astutos.- Estou aqui para cuidar da senhora... e é o que farei.
Alex olhou para o céu claro.
_Oh, céus... o que eu fiz para merecer isso...- resmungou, irritada.
_Casou-se com meu senhor... - ela o fitou e percebeu o sarcasmo.-... ‘senhora’!
Furiosa, deu meia volta, indo para o escritório da companhia, com o homenzinho em seu encalço.
Joshua estava lá. Ergueu o olhar quando ouviu os passos e alteou as sobrancelhas quando viu o homem atrás dela.
Entrou na sala com Norton atrás. Virou-se, quase gritando de ódio.
_Sr. Norton. Já fez o seu trabalho. Faça o favor de esperar.... ‘lá fora’.
_Devo acompanha-la sempre... onde for, sra. Carrington! - retrucou, impassível.
_Sra. Carrington? - Joshua repetiu, estupefato.
Ela procurou se acalmar e mentalmente contou até dez.
_Sr. Norton... preciso colocar o sr. Crown a par da situação....
_Não se importe comigo, senhora. - sem demonstrar nada além de neutralidade, o homem sentou-se numa cadeira, ao canto.
Alex rogou paciência aos céus. Virou-se para Joshua, que estava sem ação.
_Que história é essa de ‘sra. Carrington’?
De costas para Norton, ela deu de ombros.
_Me casei com David Carrington.
_Carrington??? Aquele David Carrington?? - ela confirmou.- Perdeu o juízo, Alex?
_Não tive escolha.
Joshua percebeu que ela precisava falar com ele a sós e por isso tomou cuidado com o que ia dizer na frente do tal Norton.
_E o que mais?
_Teremos que adiar a partida em pelo menos um mês.
_O quê?
_Só zarparemos depois do meu casamento no religioso.
_Você também vai conosco? – ele a encarava, completamente atordoado com a situação.
_Acompanhada por mim, sr. Crown.- Norton explicou.
_Alex? - Joshua olhou para ela em busca de uma explicação melhor.
_Não se preocupe com isso, Josh... - o fitou atentamente.- Tudo correu bem hoje? - implorou mentalmente para que ele entendesse.
_Sim. Como o previsto.- ele se referia à liberação do embarque.- Já guardei tudo na sua cabine.
Ela permitiu-se um leve sorriso.
_Nesse caso, teremos que trazer de volta.- piscou para ele e voltou-se para sua sombra. - Bem, sr. Norton, terá que me acompanhar ao Persepholes. Tenho documentos lá que meu advogado irá precisar agora.
_Será um prazer, senhora. Ouvi muito falar sobre seu navio e gostaria de conhecê-lo.
_Aproveite para se familiarizar com ele, afinal, será sua casa por muitos meses...- saiu na frente com Joshua. Ele já tinha preparado toda a documentação e as ordens. Trancou a porta do escritório e rumaram para o navio.
Lá, a movimentação era grande. Ao ser avistada, os marinheiros acenaram.
_Por que toda a tripulação está aqui? - Norton indagou ao subirem na prancha e passarem ao navio.
_Não foram liberados ainda.. havia muitos reparos a serem feitos..- Joshua inventou.
_Chegou cedo, capitão! - um dos ajudantes de ordem aproximou-se.- Pensei que...
_Viemos resolver alguns assuntos.- Joshua o interrompeu.
Já embarcados, Alex chamou dois dos marinheiros.
_Jeffrey! Ronnie!
_Sim, capitão.
_Acompanhem o sr. Norton aqui, ao porão. E fiquem com ele até termos nos afastado.
_O quê? - Norton estacou no meio do convés.
_Ah, e por favor, cuidem bem dele. O sr. Norton deve voltar à Inglaterra no mesmo estado que partir.
_Sim, capitão. - os dois agarraram os braços dele, arrastando-o para baixo.
_A senhora não pode fazer isso. Lorde Carrington vai...
_O senhor irá conosco, e isso foi o que tratamos. Sr. Crown... vamos zarpar. - disse ao contramestre.
_Homens! Preparar para zarpar.
A ordem foi repetida, enquanto o sr. Norton era levado ao porão, sob protestos.
_E esse sujeitinho?
Alex desviou o olhar para o porto.
_São os olhos e ouvidos do comando de guerra.
_Mas que porcaria!
_Tirou as palavras de minha boca, Josh.- ela foi para sua cabine trocar de roupa. Trocou o vestido pelo culote negro e camisa branca. Na cintura, amarrou uma faixa vermelha onde prendeu seu punhal. Os cabelos foram trançados numa única trança que caía pelas costas, até a cintura.
Quando voltou ao convés, já estavam deixando lentamente o cais.
_Antes de soltarmos o peixinho... - Josh se aproximou.-... que tal me explicar o que está acontecendo?
Ela ainda ficou em silêncio por um instante.
_Foi ele quem lhe deu o xeque-mate, não é?
Alex suspirou.
_Você tinha razão... veja onde minha arrogância me levou...- estendeu a mão esquerda, onde brilhavam o anel de compromisso e a aliança de ouro.
Joshua balançou a cabeça e suspirou, contrito.
_Conte-me.
Afastaram-se até a proa do navio.
_Carrington já não confiava em mim há muito tempo.
_Você nunca fez segredo de seu desagrado em cumprir certas ordens.
_Mas cumpria.
_Mas não tão bem quanto eles queriam.
_É. Ele me deu um ultimato quando tentou me pressionar com o “Estrela Solitária”. Fiquei muito desconfiada... não tinha certeza de como ele ia agir, mas sabia que seria através da companhia e do Persepholes... não poderia perdê-los, Josh. Isso é tudo o que tenho de meu!!! E tudo o que eu sou. Falei com o dr. Graham e passei tudo para o nome de Reese... dessa forma, fosse qual fosse o método que ele usasse, permaneço como comandante do Perse e controlando minha... quero dizer, a companhia de Reese.
_Tudo continua igual.. só que apenas no nome de seu irmão.
_Sim.
_E mesmo assim, ele insistiu no casamento?
Ela riu, amarga.
_Ele só vai descobrir isso amanhã.
_Quando estaremos fora do alcance.
_Mas mesmo assim... Carrington colocou esse espião atrás de mim... Norton está encarregado de relatar cada passo que tomarmos.
_Isso pode se tornar um problema... se encontrarmos com Flint.
_Flint está no Caribe... e é para lá que nós vamos.
_O quê?
_Preciso descobrir como Carrington ficou sabendo do pequeno ‘apoio’ que dei a ele..
_E se a mesma pessoa que a entregou , vir você procurando por Flint?
_Darei um jeito.
_E esse Norton? Não vai ficar de olho em você?
_Avise a todos sobre ele. Ele pode estar aqui para nos vigiar... mas seremos nós a vigiá-lo.
_Está bem...- deu de ombros.- Aqui as regras são nossas e se quiser se sair bem, ele terá que dançar conforme a música.
Ela não disse nada.
_O que Carrington fez para te obrigar a casar com ele? - perguntou, curioso.
Alex riu... de si mesma.
_Usou a verdade, meu amigo.
_Verdade?
_Algo que eu não queria ver....
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O porto era apenas uma mancha no horizonte quando finalmente liberaram Edward Norton. Ele entrou, furioso e indignado na cabine de Alex. Ela estava analisando os mapas e traçando a rota, junto com Joshua e Daniels.
_Sra. Carrington, isso foi um ultraje e eu exijo que voltemos agora mesmo.- ele estava com as roupas amassadas, os cabelos em desalinho... e vermelho!!!
_Devo lembrá-lo, sr. Norton, que agora está a bordo do Persepholes, e aqui, vai se dirigir a mim como ‘capitão Hampton’.- ela nem se dignou a fitá-lo, concentrada nos cálculos que executavam.- O sr. Jones o levará à cabine que ocupará durante nossa viagem.. é pequena, mas terá uma cama e sua privacidade para escrever seus ‘relatórios’.- só então, ergueu o olhar. O homenzinho estava ‘espumando’ de raiva.- Sou responsável por sua ‘segurança’, mas fique avisado... não interferirei caso se indisponha com algum de meus tripulantes. Aqui no Persepholes, as regras são diferentes, sr. Norton. Cada membro dessa tripulação zela pelo bem estar de todos... faça o seu ‘trabalho’, sr. Norton...mas fique fora do nosso caminho.
_Notificarei o sr. Carrington sobre esse...
_Faça isso.- ela desviou o olhar para os mapas. - Enquanto estiver no meu navio, sua integridade estará garantida.
Norton franziu o cenho.
_O que está querendo insinuar, sra...- ela ergueu o olhar e ele corrigiu-se.-... capitão?
_Que deve tomar muito cuidado quando voltar a colocar os pés na Inglaterra... - alteou uma sobrancelha e apoiou o braço sobre a mesa. - Lorde Carrington não me disse nada sobre ser responsável pelo senhor quando voltarmos.
O homem empalideceu. Olhou nervosamente para os outros dois que ladeavam a mulher. Joshua tinha os braços cruzados sobre o peito e o observava com o semblante tranqüilo... o outro tinha um sorriso cínico.
_Está... está me ameaçando?
Alex deu de ombros.
_Acidentes acontecem, sr. Norton... e se acontecer algo... fora do meu navio... - um sorriso frio curvou o canto esquerdo de seus lábios.- Lorde Carrington não poderá me culpar... não é? - ela olhou para o rapaz que estava atrás dele.- Sr. Jones, acompanhe o sr. Norton até sua cabine e o coloque a par de nossa rotina.- voltou a fitá-lo.- Pode ir, sr. Norton.
Ele a fuzilou com o olhar, e saiu, acompanhado pelo rapaz. Quando a porta se fechou, Daniels riu alto.
_Acho que o nosso espiãozinho vai precisar trocar as calças.
Joshua suspirou.
_Esse janota ainda vai nos criar problemas, Alex.
Ela batia os dedos sobre a mesa, o cenho franzido.
_Talvez... mas não há nada que eu possa fazer... - olhou para a jóia em seu dedo. Furiosa, retirou o anel e a aliança, jogando-a dentro de uma gaveta.- Vamos voltar ao trabalho.
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