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Mensagem enviada Oct 3, 2009, 8:06 AM do endereço IP 88.25.80.148
A HISTÓRIA DE UM AMOR POLÊMICO QUE TRANSGRIDE TODAS AS LEIS!
O mais profundo desespero assaltava Connaught. Contra todos os valores de guerreiro medieval, apaixonara-se por outro homem! Amava Drue Duxton, ansiava desesperadamente pelo corpo dourado de mel e o sol do lendário cavaleiro que o tornara prisioneiro em terras inglesas. Como desejava expirar esse sentimento que ameaçava sua vida e sua alma com o fogo do inferno!Seu amor por Drue era ao mesmo tempo benção e maldição!Drue compadecia-se do prisioneiro, cujos olhos azuis cheios de céu refletiam os peso de todos os pecados!Mas não podia lhe aliviar os tormentos. Ela havia renegado seu sexo por juramento e por opção.Ela era e sempre seria um cavaleiro do reino, e não uma mulher!
Mensagem enviada Jul 23, 2008, 5:55 PM do endereço IP 201.51.79.143
O eco do trovão veio se juntar ao tropel dos cavalos, ligando céu e terra num estrondo uníssono, quando os cavaleiro cavalgaram velozmente rumo aos escombros fumegantes do castelo Duxton.
Do alto de uma torre, por trás da quase invisível fresta da seteira, um par de olhos dourados e esperançosos presenciava a chegada dos cavaleiros. Eram os olhos de uma criança que amadurecera em poucos dias, subjugada pelo panorama de terror e destruição que se descortinara nos últimos dias. A criança vira com crescente desespero as fracas mulheres atirarem desajeitadamente flechas no inimigo, numa vão tentativa de defesa. Vira-as tentar manejar as armas mais pesadas e sucumbir ao peso delas. Vira-as chorar e gritar de desespero e aflição.
Druanna e o irmão, Garith, haviam sido escondidos num quartinho secreto, oculto atrás da enorme lareira do castelo, numa tentativa de escapar da sanha dos inimigos que apertavam inexoravelmente o sítio e estavam a ponto de invadir o bastião dos Duxtons. E também para fugir da peste que estendera suas garras negras para apanhar quem quer que ousasse sobreviver ao ataque.
— Quem vem aí? — perguntou a vozinha fraca de Garith. O menino jazia deitado, magro e doentio, recuperando-se de uma guerra particular que travara com a peste.
— É o senhor nosso pai que vem para nos salvar! — exclamou Druanna, cheia de orgulho.
Ela grudou o olho na flecheira mais uma vez, esforçando-se para distinguir sob o tênue véu da chuva miúda as feições dos cavaleiros que se aproximavam.
— Turlock está com ele! — sussurrou, triunfante, os olhos brilhando de admiração e respeito.
Turlock era um caso especial na vida de Druanna. Paladino de Eduardo I da Inglaterra e aclamado como um dos mais valentes guerreiros do mundo cristão, era um verdadeiro herói aos olhos da menina. E, embora vivesse ocupado com as guerras, sempre achava alguns momentos para brincar com os dois filhos de seu primo, o duque de Duxton.
Um grito varreu a noite chuvosa. Druanna recuou, alerta, esperando que o som fosse acompanhado de novo ataque. Não temia muito as flechas, mas tinha pavor das catapultas. Essas sim, destruíam o que encontrassem pelo caminho. Mas como não ouviu nada mais, voltou ao posto, grudando a vista na fresta.
— Faz um tempão que você está aí, mana — queixou-se Garith. — Acho que não lhe faz muito bem ver essa batalha. É muito violenta!
Druanna sacudiu a cabeça.
— Já estou vendo batalhas há mais de uma semana, Garith. Agora quero ver a vitória. Quando Turlock e papai chegarem, vão dar uma surra nos invasores, e eu não quero perder essa.
— Damas não devem observar as guerras, é o que mamãe sempre diz. Ela mesma já foi dormir!
— Não sou uma dama, já disse mil vezes! — rebateu ela, batendo o pé. — Nem quero ser nunca!
Do esconderijo, Druanna presenciara quando as mulheres foram arrastadas pelo cabelo e tiveram suas roupas arrancadas brutalmente. Não entendera o que se passara depois; só sabia que elas gritavam e se debatiam em desespero, enquanto outros soldados riam e bebiam, observando os colegas lutando com as pobres infelizes.
— Essa história de ser mulher não vale a pena, Garith. Eu vou ser um guerreiro, igual a Turlock!
O menino ficou pensativo, absorvendo as palavras da irmã, que no momento lhe pareceram muito naturais. Prostrado pela terrível doença, sentia que sua mente se tornara confusa e complicada, às vezes, o simples ato de pensar o cansava. Não viu objeção quanto ao fato de ela se tornar guerreira, uma vez que ele próprio também queria ser armado cavaleiro. E Druanna era mais alta e mais forte, embora fosse um ano mais nova. Satisfeita com a silenciosa aprovação do irmão, a menina voltou para seu posto de observação. De lá, observou quando o pai deu ordens aos outros cavaleiros e estes se dispersaram, em busca do cruel inimigo que ousara cercar e ameaçar seus domínios.
Duxton correu os olhos pela terra queimada e ressequida. Uma terra que ele deixara coberta de grama exuberante, havia poucos meses, a fim de se juntar ao exército de Eduardo I.
0 duque de Duxton era de grande estatura, nos dois sentidos. Tinha os cabelos quase brancos, de tão loiros, o que indicava sangue saxão e viking. Contudo, os olhos escuros denunciavam também a presença de sangue normando, e essa mistura conferia-lhe beleza e distinção. Mal passara dos trinta, e achava-se em plena força da maturidade.
— Não quero nenhum prisioneiro! — comandou, manobrando o cavalo para perto dos corpos que jaziam no pátio.
Turlock repetiu a ordem aos oficiais, que deram início à busca de inimigos ainda vivos. Máquinas de guerra, que antes haviam cuspido fogo e morte, repousavam no campo devastado como brinquedos quebrados. As árvores queimadas erguiam silenciosamente os braços descarnados para o céu. Mas não havia sinal de vida em nenhum corpo.
— Lady Duxton soube lutar com bravura — comentou Turlock, com admiração. — Deve ter dado um trabalhão aos invasores!
— Se o rei nos tivesse dispensado uma semana mais cedo, teríamos chegado a tempo para ajudá-la!
A voz do duque estava rouca, carregada de remorso e tristeza. Palavras amargas subiram-lhe aos lábios, mas ele as refreou, voltando o rosto para o vento cortante e frio. As rajadas envolveram-no uivando, como que entendendo sua mágoa e frustração, arrancando-lhe do peito a explosão ardente de ódio e carregando-a para longe, para além da fronteira.
Outro relâmpago iluminou fugazmente os cavaleiros, que atravessaram a ponte elevadiça e adentraram o pátio do castelo, seguidos pelos soldados.
Sob o véu esgarçado da chuva fininha, o pátio oferecia um quadro de morte e desolação pior que a de fora das muralhas. Os soldados se espalharam, em busca ansiosa e sofrida.
Às vezes um reconhecia a própria mulher e gemia, tomando-a nos braços carinhosamente, enquanto o duque contemplava a cena com raiva impotente e feroz.
— Malditos! — murmurou, entre dentes.
— Graças a Deus! — exclamou Turlock, emocionado. — A torre principal... está de pé!
A um sinal do duque, todos se aproximaram devagar, um peso de morte nas expressões apreensivas. Cada um se preparava para aceitar o pior, pois eram soldados, e a morte fazia parte de suas vidas. Mas outra coisa, bastante diferente, era a morte dos entes queridos. Alguns, não obstante já terem perdido as mulheres, alimentavam a esperança de encontrar irmãos e filhos ainda com vida.
Embora primo do duque, Turlock, grisalho e rude, possuía uma aparência que desmentia seu sangue nobre. Era homem de guerra, afeito ao sol e às agruras de longas cruzadas. Seu corpo portentoso parecia ter sido talhado num bloco de aço, não obstante a barriga proeminente, devido ao gosto pela boa mesa e pela cerveja. Lutava para viver e vivia para lutar, nunca nenhum homem o vencera num combate corpo-a-corpo. Contudo, sua mão tremia ligeiramente quando a porta da torre foi aberta.
O saguão parecia um matadouro. Mesas viradas, cadeiras partidas a machadadas e corpos de criados espalhados como folhas secas numa tarde depois da tempestade.
Edmund de Duxton suspirou.
— Cuidem que sejam enterrados como cristãos — falou. Cruzando o salão, subiu pelas escadas, cujas pedras lisas indicavam anos de uso ininterrupto. Os outros não se moveram, respeitando a busca ansiosa do castelão, rumo aos aposentos de sua mulher. Cada um mantinha-se alerta, as mãos fechadas sobre a empunhadura das espadas, como que querendo travar combate com o odor de morte que se espalhava, insidioso.
Duxton respirou fundo e abriu a porta com violência. Sua mulher jazia na cama, tendo ao lado o velho capelão, que rezava.
— Não entre! — gritou ele, derrubando o breviário e erguendo-se da cadeira, num gesto instintivo de defesa. — Não há nada aqui além da morte!
Antes de perceber que era o castelão, o capelão caiu de joelhos, tomado de pânico. Mas, ao reconhecer seu senhor, soltou um grito selvagem de vitória:
— Graças ao Santíssimo, que ouviu minhas preces! Seja bem-vindo, meu senhor!
Mas Duxton não respondeu, os olhos fixos e esgazeados em sua mulher. Ela tinha as feições calmas, embora se pudessem ver marcas de privação e sofrimento recentes. Seus olhos de miosótis, profundos e misteriosos, haviam-se cerrado para sempre. Os cabelos longos e sedosos fechavam-se sobre os ombros delicados como um véu dourado.
Nunca mais conheceria o refúgio e o conforto de seus braços ternos. Em sua curta vida, Gillian igualara-se ao marido em inteligência e coragem. Alta e esguia, dera-lhe felicidade e um par de filhos saudáveis. O duque deteve os pensamentos, sobressaltado. E seus filhos? Volveu os olhos doridos para o capelão, sem coragem de perguntar.
— Ela morreu de peste, meu senhor — explicou o clérigo, balançando tristemente a cabeça. — A peste infestou nosso castelo durante o sítio, e não podíamos mandar chamar ninguém para nos socorrer. Quando os escoceses souberam que havia peste aqui, deixaram esta parte do castelo em paz e fugiram. Foi o que salvou muitos dos nossos.
— As crianças... — o duque murmurou baixinho, a respiração opressa de medo da verdade.
— O menino ficou doente, mas está melhorando. E nossa Druanna está bem. Nós achamos melhor escondê-los, no caso de os escoceses resolverem atacar também esta ala.
O velho caminhou coxeando até a grande lareira e se abaixou, tateando a parede enegrecida. Duxton imediatamente entendeu o que o capelão fazia e ajudou-o a empurrar a pesada pedra, que cedeu com um rangido seco e abriu-se para mostrar os dois pequenos, emagrecidos, mas em bom estado de saúde.
Duxton tomou Garith nos braços, contendo quentes lágrimas de alívio, incapaz de falar. Seu filho, seu herdeiro, estava vivo!
Turlock entrou e, sem dizer palavra, ergueu Druanna no colo, sorrindo-lhe afetuosamente.
— Temos de providenciar enterros decentes para essa gente — anunciou-lhe o duque, em tom seco e incisivo. — E precisamos prestar assistência aos que estão vivos.
— Não há mais alimento para tantos, primo — retrucou Turlock, apontando pela janela os campos devastados.
— Os que puderem viajar seguirão sem demora para meu outro castelo na Umbria do Norte. Os demais ficarão por aqui, com as provisões que conseguirmos arranjar. Temos de trabalhar o mais depressa possível. Não podemos ficar neste castelo por muito tempo.
Como os saqueadores escoceses, Duxton também temia a peste e não tencionava apanhá-la.
— E os dois inocentes? — indagou o capelão, preocupado.
Duxton pousou os olhos cansados nos filhos. Parecidos como duas ervilhas na vagem, dizia Gillian. A garota, embora mais nova, tinha o mesmo tamanho que o irmão, e certamente poderia usar as roupas dele e passar por gêmeo de Garith. E o menino começaria a aprender a arte de guerrear ao lado do pai.
O duque tomou a decisão no mesmo instante, já sofrera uma perda preciosa, e não sofreria nenhuma outra.
— Eles irão comigo — anunciou.
— Meu primo! Não pode levá-los! — protestou Turlock.
— Posso e vou! Nunca mais me separo deles! Não haverá mais perigo num campo de batalha que num castelo. Acabamos de ter uma boa prova disso!
— Mas o campo de batalha não é lugar para um garoto de cinco anos! Muito menos para lady Druanna!
— Perdi meus criados, meu lar, minha mulher. A única pessoa que pode cuidar bem dessas crianças sou eu. Não tenho coragem de enviá-los para minha sogra, nem para nenhum outro parente, Turlock. Quero senti-los vivos à minha volta. Eu não agüentaria viver longe desses dois, entenda!
O gigante suspirou, vencido. Não havia como convencer o teimoso duque — sabia-o melhor que ninguém.
— Muito bem- Vou procurar algumas roupas adequadas para os dois.
— Sim, faça isso. Que meus homens não reparem muito em Druanna, principalmente. Quero-a vestida com roupas de menino e de cabelos cortados.
Turlock assentiu com um gesto. Mas nesse momento jamais lhe passaria pela mente que aquele dia seria o último em que veria Druanna usando um vestido.
Os soldados toleraram com boa vontade a intrusão dos dois precoces filhos do duque no acampamento. Ao fim e ao cabo, haviam chegado à conclusão que a peste fora, em última análise, uma espécie de bênção às avessas para o castelo de Duxton, pois fora graças à morte da suave lady Gillian que os escoceses, com medo da peste, haviam fugido sem ter causado maiores estragos. Desse modo, aceitaram sem discutir a tarefa de cuidar dos pequeninos órfãos. Garith era calmo e relativamente bem comportado, levando a sério seus primeiros deveres de pajem. Quanto a Druanna, fora mantida durante várias semanas em absoluta e severa reclusão; mas, à medida que a vigilância do duque afrouxava, sua presença começou a se fazer mais constante entre os soldados. Como ela se vestia com as mesmas roupas do irmão, havia muita confusão em identificar um e outro, pois o duque tratava a garota como um homenzinho, referindo-se sempre aos dois e Druanna aceitou a situação com naturalidade, não estranhava quando a chamavam de "meu amiguinho" ou de "valente rapazinho".
Cedo, Turlock se arvorou em guardião oficial dos dois pequenos. Foi ele que encurtou o nome de Druanna para Drue; com isso, inadvertidamente, Turlock aos poucos foi apagando da memória dos guerreiros que ela pertencia ao sexo feminino. E também foi Turlock que insistiu que ambos usassem roupas de couro bem curtido, para diminuir a chance de receberem uma flechada no peito. Com o passar do tempo, Edmund Duxton foi trocando a soldadesca aos poucos; sua intenção era não manter ninguém que se lembrasse da identidade feminina de Drue. Cioso de que a presença da filha poderia se tornar, no futuro, uma fonte de problemas, tinha longas conversas com ela, inculcando-lhe na mente a idéia de que ela devia se considerar um homenzinho enquanto permanecesse no acampamento de guerra.
As crianças dormiram durante anos na tenda do pai, até que Garith completou seu décimo verão e foi considerado com idade suficiente para assumir as funções de escudeiro. Deram-lhe uma cama e um canto onde ele poderia ficar só. A princípio, tudo correu muito bem, pois o menino ficara evidentemente honrado com a distinção, mas não tardou para que Turlock pressentisse alguns problemas.
— Drue, vá chamar seu irmão. Está na hora dos treinos com a espada. Céus, esse menino vive sonhando!
— Não, não vive — retorquiu Druanna, belicosamente. — É que hoje ele está cansado, porque não dormiu bem. Teve um pesadelo de novo. Da minha cama eu ouvi os gritos dele. Pobre maninho!
— Sabe que pesadelos são esses? Vocês já conversaram sobre isso?
Turlock estava apreensivo. Os pesadelos de Garith, longe de diminuir com o tempo, pareciam aumentar de intensidade. Se os soldados ouvissem seus gritos em véspera de batalha, certamente levariam longe a imaginação supersticiosa. E isso os enfraqueceria perante o inimigo, sem sombra de dúvida.
— Não, ele diz que não consegue se lembrar — respondeu a menina, fitando-o com seus olhos dourados cobertos de espessos cílios da mesma cor.
Turlock pegou-a pela mão e levou-a até a arena, pensando no que aconteceria a Drue quando se tornasse mocinha. Na verdade, ela era meio sem graça e descolorida, toda em tons de mel — inclusive a roupa. Parecia uma raposinha nova, os cabelos muito curtinhos brincando ao vento.
Ele se abaixou, apoiando-se nos calcanhares, e pousou carinhosamente as enormes mãos peludas nos ombros da menina:
— Escute, Drue. Sem dúvida você já percebeu que nossos guerreiros são bastante valentes, mas supersticiosos, não é?
Ela anuiu solenemente.
— Já. Eles usam santinhos, amuletos e cantam umas músicas que têm letra esquisita. E falam em sinais de desgraça e de sorte que são capazes de decidir uma batalha antes que ela comece.
— Então preste atenção no que vou lhe dizer. Os pesadelos de seu irmão podem ser considerados um sinal de azar, compreende? Principalmente se ele sonhar na véspera de um dia de batalha. Se ouvirem os gritos de Garith, nossos homens poderão ficar confusos, sabe como é. E nós não queremos que isso aconteça. Precisamos dar um jeito de não deixá-lo gritar de noite, mesmo que ele sonhe com o próprio inferno. Sabe como podemos conseguir isso?
Ela mergulhou os olhos dourados nos do enorme Turlock, com ar confiante.
— Garith não grita quando dorme ao meu lado. Quando ele virou escudeiro é que começaram os pesadelos. Acho que vou levar minha cama para perto dele, então. Para falar a verdade, sinto falta de meu irmão, principalmente nas noites mais frias.
Turlock sorriu e ergueu-se satisfeito, afagando os cabelos sedosos e mal cortados da menina. Em nenhum momento lhe passou pela cabeça que Drue estava crescendo e que poderia ter alguns problemas embaraçosos quanto ao fato de os dois dormirem juntos. Na verdade, ele raramente se lembrava da mimosa garotinha que corria nos campos verdes do castelo de Duxton, atrapalhando-se com as saias volumosas. Turlock era um dos poucos que sabia da verdadeira identidade de Druanna; os soldados haviam sido trocados aos poucos no correr dos anos, e quase mais nenhum sabia que Drue era, na verdade, uma menina, pois ela se portava como um rapazinho valente e destemido.
— Venha, Drue. Quer aprender um pouco a manejar a espada também?
Diante de tamanha e inesperada generosidade, os olhinhos dela brilharam intensamente.
— Quero! E você vai continuar a me ensinar enquanto Garith dormir perto de mim? Vai ser meu tutor particular?
— Isso não sei, criança. Seu pai não vai gostar muito disso não.
— Então Garith vai gritar de noite de novo. E papai vai. gostar muito menos.
— Drue, você não está sendo razoável. Isso é chantagem, sabia?
A testa da menina se enrugou, enquanto ela refletia sobre a declaração do amigo. Depois de um silêncio, Druanna rebateu com lógica irrefutável:
— Você me pediu um favor, e eu concordei. Agora eu lhe peço outro favor, e você me diz que eu não estou sendo razoável?
— Mas, Drue — argumentou Turlock, coçando a cabeça — , você é pequeno demais para aprender a lutar! E que história é essa de trocar favores? Favor se faz, não se barganha.
— Vê? Até você me chama de "pequeno" e se esquece que a palavra adequada seria "pequena". Todos aqui me tratam como rapaz, e eu não me importo com isso, até gosto. Então, se sou um garoto, posso muito bem aprender esgrima. Garith não está aprendendo?
— É diferente, meu bem. Você é muito novinho. Um ano inteirinho atrás de Garith!
— Pois muito bem, se eu sou pequeno demais para receber favores, também sou pequeno demais para fazer favores. O trato fica desfeito. Durma você com Garith, pronto! Seus roncos vão servir para abafar os gritos dele. E passe muito bem!
A garotinha girou nos calcanhares, depois de lançar um olhar furioso e desafiante ao indefeso Golias.
Este permaneceu parado, contemplando a figurinha que se afastava pisando duro, admirado com a firmeza precoce que aquela criança já demonstrava. Suspirou, correu para ela e colheu-a no colo, rindo às gargalhadas.
— Está bem, coração, você ganhou. Mas não pense que vai ser fácil, não senhorzinho! Se quer que eu dispense minha atenção a você, terá que trabalhar duro para isso, entendido? Os treinos são cansativos, mas eu não vou ter piedade nenhuma, é bom que saiba desde já. Pretendo ensiná-lo muito bem. E no dia em que você bancar o molenga, nesse dia eu paro minhas lições. Combinado?
— Combinado! — gritou ela, exultante.
— Então vamos começar — anunciou Turlock, colocando-a de volta no chão.
Entregou-lhe uma espada leve e pequena, muito menor que as comuns. A de Turlock era enorme, tão pesada quanto uma laje, mas para ele era como se brandisse uma pena. Os soldados não se cansavam de admirar sua incrível perícia, e vezes sem conta haviam se reunido para comentar os golpes certeiros e mortais que o gigante aplicava nos inimigos, que fugiam dele como o diabo da cruz. Em dias de batalha, desde as primeiras horas da madrugada até o lusco-fusco do entardecer, Turlock agitava furiosamente sua arma, sem dar mostras de cansaço. E era isso que ele iria ensinar à pequena e frágil Drue. Sua intenção era fazê-la ganhar corpo e volume, e tratou de catequizá-la nesse sentido. Não foi difícil convencê-la; após ouvi-lo com atenção, a pequena Drue logo compreendeu que precisava crescer e engordar, a fim de agüentar as lutas sem desmaiar ou entrar em colapso.
Por seu turno Turlock decidiu que continuaria a dar aos dois uma ração reforçada de comida. Nada das espartanas refeições que os soldados recebiam! Garith e Drue eram e como tal continuariam a ser tratados. Instintivamente, Turlock percebia que os nobres costumavam gerar filhos sadios e fortes, e que isso se devia principalmente à mesa farta. E assim seria com essas duas crianças. Mesmo que morassem num acampamento de soldados e não tivessem o conforto de um castelo, receberiam as ferramentas necessárias para sobreviver bem.
Drue firmou as pernas abertas na terra fofa e se agachou, como Turlock lhe ensinou, procurando imitá-lo aplicadamente.
Fiel aos seus propósitos, Drue passou a treinar todos os dias. Foi nomeada ''escudeiro" oficial de Turlock, e para deleite deste, executava as tarefas que lhe confiava com rapidez e habilidade. E embora a compleição de Drue fosse ainda franzina, sua extrema agilidade e inteligência logo despertaram a admiração dos outros.
Drue lembrava-se bem do cruel ataque ao castelo de Duxton e das deploráveis tentativas que as mulheres haviam feito para se defender. Os jovens e inexperientes pajens a serviço do castelo também tinham sucumbido ao inimigo com a mesma facilidade. Os gritos de angústia e pavor daquela semana fatídica ainda ecoavam em seus ouvidos, e certamente eram os causadores dos fantásticos pesadelos do irmão. Não, com ela seria muito, muito diferente. Lutaria até encontrar a morte, se preciso, mas lutaria como homem. Usando armas de homem, desenvolvendo a força de um homem. No fundo, Drue se esquecia freqüentemente que era mulher, e encarava-se simplesmente como um escudeiro. Seu sexo pouco importava, o que importava era, tão somente, desenvolver músculos e agilidade.
Não que Drue nunca mais fosse passar alguns dias num castelo, seu pai possuía terras tanto na Inglaterra quanto no País de Gales. Mas essas visitas eram rápidas e agitadas, ela se sentia sufocar num castelo, por maior que fossem seus jardins. Preferia mil vezes a vida vagabunda de cavaleiro, os efêmeros embates com escoceses nas fronteiras. Na véspera de uma batalha, seu coração costumava saltar no peito, fremente de expectativa. Com quatorze anos, Drue foi admitida como porta-estandarte do brasão dos Duxtons, coisa que a deixou profundamente orgulhosa.
Naquela noite, haviam todos avistado inúmeras fogueiras acesas nas colinas. Era o sinal, já estabelecido havia um século, para avisar os ingleses que os escoceses tinham mais uma vez atravessado à fronteira para roubar e saquear. Drue cavalgava ladeada pelo pai e por Turlock, enquanto a distância que os separava dos assaltantes ia diminuindo gradativamente.
— Estamos quase alcançando os malditos escoceses — comentou o duque. — Eles têm de andar mais devagar por causa do gado que roubaram.
— Não compreendo — tornou Turlock, com ar soturno, coçando a barba grisalha. — Já devíamos tê-los avistado, que diabos! Não estavam tão adiantados assim.
— Sim, é estranho. Quem será o líder deles?
— É aquela raposa do Connaught, aposto! — rosnou Turlock. — O pai enviou-o recentemente a serviço de Robert Bruce, porque a tia de Connaught é Elizabeth de Ulster, mulher de Bruce. Parece que o pai dele teve de fazer isso, porque Connaught ganhou a ira de todos os pais e maridos do condado irlandês. O grande safado é tão bom na cama quanto na espada, dizem.
O duque soltou uma risada.
— Ah, eu bem que gostaria de imitá-lo, se tivesse tempo! A gargalhada trovejante de Turlock cortou os ares.
— E eu, se tivesse paciência, desafiaria esse maroto para ver qual dos dois é melhor...
—Na espada? — arriscou Drue, timidamente.
— Não, meu rapaz, na cama!
As risadas estouraram, rascando a noite.
Drue se juntou a elas, mas sua mente analisava as informações que entreouvira no acampamento. Robert Bruce era o novo rei da Escócia, recentemente coroado por suas próprias mãos, e ainda não fora reconhecido pelo mundo cristão. A astúcia desse homem era lendária, e Drue esperava que jovem Connaught não tivesse aprendido lições de estratégia com o rei.
— Então esse que vocês chamam de Connaught não é escocês? — perguntou, curiosa.
— Não, é irlandês dos quatro costados. Mas freqüentemente luta sob a bandeira escocesa, e é considerado o paladino de Robert Bruce. Homem valente e temerário, pelo que dizem.
Drue ruminou a informação, estocando-a cuidadosamente na cabeça. Talvez fosse interessante se defrontar com esse irlandês lendário!
Ao chegarem numa curva fechada da estrada, caíram numa mata fechada, escura e silenciosa. Quando os últimos soldados adentraram o matagal, o estalido de um galho quebrado. chamou a atenção de Drue, que se virou depressa, gritando:
— Emboscada! Emboscada!
Ouviu-se um brado selvagem de guerra e logo em seguida centenas de soldados inimigos despencaram das árvores como frutos maduros, caindo sobre os ingleses.
A luta tornou-se encarniçada e violenta, sendo quase impossível distinguir aliados de inimigos. Drue manteve-se perto do pai, erguendo alto o estandarte a fim de que fosse visto pelos ingleses. Era absolutamente imperioso que os aliados tivessem um ponto de reunião e apoio.
Conhecedores experientes da região, os ingleses começaram a formar fileiras organizadas de ataque, desbaratando lentamente os escoceses. Apesar das ameaças e dos rugidos do chefe, os inimigos acabaram desaparecendo por entre as árvores.
Turlock esporeou o cavalo, destacando-se do grupo aliada
— Sigam-me! — berrou. — Eles estão fugindo! Segundos depois um grito de alarme ecoou na escuridão.
Duxton dirigiu-se velozmente para a direção do grito, que reconhecera como sendo do primo. No instante em que alcançaram a clareira, Drue logo identificou o inimigo que ameaçava , Turlock, pois ele portava as cores da Irlanda. Connaught! Ela e Duxton viram-no erguer a espada, enquanto Turlock levantava o escudo para aparar o golpe. O irlandês mudou rapidamente a direção da lâmina, e, baixando o próprio escudo, enfiou sua espada na virilha do homenzarrão. Duxton lançou seu brado de guerra, avançando em desesperado galope, enquanto Turlock: desabava pesadamente do cavalo. O irlandês ergueu a cabeça. Ao ver que se achava diante de morte certa, desistiu de dar o golpe final e embrenhou-se como flecha na espessa mata, dissolvendo-se nas trevas da noite.
Drue saltou da montaria e correu para se ajoelhar ao lado de Turlock. A espada atingira fundo, bem entre as costuras de couro e aço que protegiam o gigante. Ele sangrava abundantemente e sofria como tigre ferido, mas os olhos experientes de Drue logo perceberam que o amigo sobreviveria, caso recebesse cuidados depressa. Em silêncio, ela jurou que trataria de Turlock com amor e carinho, até vê-lo restabelecido. E, ao mesmo tempo, jurou que procuraria aquele maldito irlandês até os confins do inferno e o faria pagar pelo ultraje de ter ferido seu grande e querido amigo.
— O rapaz foi esperto demais — explicou Turlock, reclinado numa cama ao lado da tenda — , mas também foi temerário. Ele usou de um velho truque, reservado para torneios. É o que a gente chama de "largar o ponto''. Finge que vai dar um golpe por cima, baixa a guarda e ataca por baixo. Mas é um truque extremamente perigoso, e por isso mesmo muito pouco usado. Quando larga o ponto daquele jeito, o homem fica exposto demais. Acho que já estou ficando meio velho, porque quando percebi foi tarde demais. Da próxima vez ele que se cuide!
— Quantos truques iguais a esse se usam num torneio?
— Ah, está interessado, não é? — sorriu Turlock. — Meu querido protegido está sempre querendo saber mais e mais sobre a arte da espada...
Bem, eu não quero ser apanhado de surpresa. Você, que é experiente, quase foi!
Drue estremeceu involuntariamente. Pela primeira vez na vida, vira Turlock fora de combate, caído no chão. Em inúmeras ocasiões tivera de cuidar de suas feridas depois de um combate, mas Turlock sempre voltara caminhando, rindo dos arranhões como costumava gracejar.
— Bem, quando eu estiver melhor, vou ensinar a você e a Garith como são esses truques de justa. Vocês terão de treinar com espadas sem gume nem ponta, porque é perigoso. Pelo menos você me deixará em paz depois disso?
Drue sorriu.
— Sou tão aborrecido assim?
— Nem sempre. Mas últimos tempos você vem me bombardeando com perguntas sobre Connaught, aquele filhote de raposa...
— Porque ele feriu meu melhor amigo — revidou ela, os olhos dourados brilhando. — Quero que me ensine todos os truques que ele sabe, ou pode saber. Depois disso, prometo que nunca mais toco nesse nome.
Turlock piscou-lhe um olho.
— Cá entre nós, acho que Connaught merecia uma bela lição. E nós o traríamos de volta à Inglaterra, bem amarrado como peru em véspera de Natal.
Drue não acompanhou o riso tonitruante do amigo. Para ela, a captura do homem que aleijara Turlock não era motivo de riso, e sim de obsessão.
Mensagem enviada Jul 23, 2008, 6:14 PM do endereço IP 201.51.79.143
Connaught! Aquele maldito prosélito do demônio que ferira seu amigo e mentor, Turlock. Connaught! O furacão mortal que continuamente atacava as fronteiras, transformando os soldados ingleses num bando de baratas tontas, fazendo-os marchar em círculo em busca desvairada do inimigo, para no fim apanhar apenas o vento. Connaught, que não hesitava em lançar mão de truques velhacos para alcançar seus objetivos e passar a perna nos oponentes, Como Drue o odiava! A simples menção desse nome deixava-a possessa. Como ansiava enfrentá-lo no campo de batalha!
O que mais atormentava Drue era o mal irreparável que Connaught causara em Turlock. Desde aquele encontro na clareira, que acontecera fazia um ano, o bravo e valente amigo envelhecera. Seu passo, outrora confiante e ágil, tornara-se arrastado; embora ele nunca proferisse uma só queixa, Drue sabia que o golpe fora fundo demais e o alquebrara para sempre.
Apenas quando montado Turlock reassumia a antiga postura de paladino invencível, e lutava com a mesma bravura. Contudo, se fosse forçado a apear do cavalo, estaria muitos pontos em desvantagem. Não era justo! Ah, mas Connaught pagaria caro pela estocada traiçoeira! Assim pensando, Drue dirigiu-se ao barril de água e lavou o suor que pingava de seu rosto em grossas bagas.
— Mais uma? — perguntou, enquanto se enxugava.
— Céus não! — gemeu Garith, deixando-se escorregar para o chão - Você sempre quer lutar mais, mais, mais! apesar de treinar de sol a sol todos os dias. Por hoje chega, que este calor está torrando meus miolos.
— Ufa, menino! Se eu não me cuidar, você fica mais forte que eu!
— Eu já sou mais forte que você — anunciou Drue, orgulhosa — Turlock não deixa você encarar uma luta romana comigo, por que não ficaria bem,eu, o caçula, ganhar do futuro duque de Duxton.
Garith se impertigou furioso.
— Mentira!
— É isso aí, irmãozinho — riu Drue, flexionando o braço para mostrar os músculos salientes sob a pele dourada — Olha só que muque. Tão firme e confiável quanto a minha espada. Não acha que tenho razão?
Garith considerou-a por algum tempo, medindo-a. Os dois tinham a mesma altura e quase o mesmo peso; ele era um pouco mais encorpado.
— Cuide-se, Garith, senão eu sou armado cavaleiro antes de você. Não tem nem um pouquinho de medo que isso aconteça?
Sim, Garith tinha muito medo, mas nada no mundo o faria admiti-lo. Eram raríssimos os casos de um membro da mesma família sagrar-se cavaleiro antes do herdeiro; e quando isso acontecia, seguiam-se comentários irônicos e maldosos.
— O problema, Garith, é que quando você luta, não põe seu coração na ponta da espada. Você luta para se defender, não para conquistar. Seu sangue não ferve quando ouve as notas insuportáveis e irritantes das gaitas escocesas. Não, Garith, você se afina mais com tardes bonitas, versos e namoricos. Vamos fazer uma coisa: você fica com as galanterias, que eu cá fico com minha espada.
Foi no fim daquele verão que a crise estourou. Como uma aparição, o sexo de Drue veio assombrá-la no dia em que seu pai convocou-a para uma reunião na tenda ducal.
— Ficou decidido que Garith irá servir o duque de Arrundel — anunciou Duxton. — É hora de você também assumir seu espaço na vida e começar a aprender as prenda próprias de uma mulher.
— Mas que conversa é essa? — protestou Drue, irritada até o âmago da alma. — Nada disso, senhor meu pai! Vou ficar aqui ao seu lado. E ao lado de Turlock.
— Impossível, Drue. Está na hora de aprender a ser feminina. Adiei o quanto pude este momento, mas a verdade é que você ficou tempo demais comigo. Sinto que estou cumprindo mal meus deveres de pai!
Drue ajoelhou-se e beijou a mão do duque.
— Engana-se, papai. Nenhum homem do mundo poderia dar melhor exemplo que você. E não existem filhos mais orgulhosos que Garith e eu.
O duque fechou os olhos, lutando contra as lágrimas. Sentiria demais a falta dessa criança valente, cuja presença de espírito enchia-o de orgulho.
— Isto não é vida para você, Drue. É hora de pensar num lar, em filhos, num marido. Como dote, prometo-lhe muitas terras, as mais bonitas que tenho.
— Pai, eu vou ganhar minhas terras com minha espada e com minhas lutas. Não quero ser presenteado com terras, mas quero merecê-las, como qualquer cavaleiro que se preza!
Duxton desviou os olhos para não vê-la tão humilde e implorante. O espetáculo doía-lhe no fundo da alma.
— Não. Você irá para meu castelo na Umbria do Norte, está resolvido. Aliás, era o que eu já devia ter feito há muito tempo!
Drue ergueu-se devagar, tremendo. Nunca enfrentara o pai, mas agora sentia que não havia outra alternativa. Sua própria vida estava em jogo.
— Você deixou que Garith escolhesse o que queria fazer. A mim, nega-me esse direito. Esta é a única vida que conheço papai e não quero outra para mim. Você favorece Garith porque ele é seu herdeiro. Não é justo.
Duxton cerrou o punho e esmurrou a mesa. — Ousa me desafiar? A mim, seu pai? — trovejou, ainda que seu escondido do coração admirasse a coragem e a ousadia da moça.
— Não a você, pai, mas se me permitir, gostaria de desafiar Garith. Deixe-me lutar com ele. Se eu perder prometo ir para a Umbria sem reclamar mais. Mas se eu ganhar, quero sua palavra de que ficarei aqui com você e Turlock.
— Bobagem! Garith é mais velho e mais experiente. Você não teria a menor chance.
Na verdade, o duque usou o frágil argumento porque não gostava da idéia de ver os dois filhos lutando. Muito menos de ver um deles vencido.
— Então seu desejo de que eu vá para a Umbria será satisfeito, meu pai, sem mais protestos de minha parte — declarou Drue espetando o nariz no ar.
— Com protesto ou sem protesto, você iria do mesmo jeito!
— E quando eu chegar lá, vou fugir e me unir a outros, guerreiros. Eles saberão dar valor a um bom espadachim como eu.
— Ninguém se atreverá a lhe dar abrigo contra minha, vontade! — berrou o duque, vermelho como um camarão.? — Não na Inglaterra!
— Pois então eu vou para a Escócia.
O duque ergueu os olhos e as mãos para o céu.
— Então seja! Vá! Lute de uma vez com Garith e acabo com essa choradeira intolerável.
— Não estou chorando.
— Dá no mesmo, maldição. E não se atreva a desmenti seu pai!
— Desculpe.
— Quanto mais depressa terminar essa... essa futilidade inútil, tanto melhor. Quero ver você na Umbria o mais pressa possível!
Drue, com medo de que o pai mudasse de idéia, apressou-se para fora, quase colidindo com o maciço Turlock, que entrava. A piscadela gaiata que o amigo lhe dirigiu revelou-lhe que ele ouvira toda a conversa.
— Entre, Turlock — comandou Duxton, ainda meio irritado com a discussão. — Comece a arrumar a trouxa Drue. Tudo o que for dele... hã, quero dizer, dela, deve ser enviado ao castelo da Umbria do Norte. Assim que essa ópera bufa terminar, você leva meu filho Drue... hã, minha filha para lá.
— Então está tão certo assim de que Drue vai perder? — perguntou Turlock, servindo-se de vinho.
Duxton tomou a taça das mãos de Turlock, distraidamente.
— Ei, esse vinho é meu!
— Ha? Oh, desculpe. Onde está o meu?
— Bem à sua frente, primo — riu o outro. — Pelo visto, essa pequena discussão familiar mexeu com seus nervos.
— Que nada, foi uma besteira atrás da outra. Mas respondendo à sua pergunta, é claro que Drue vai perder. Não pode dar outra.
— Bem, acho que no seu lugar eu me prepararia para uma pequena surpresa!
A gargalhada do gigante sacudiu a tenda e ecoou pelas montanhas, como se estas, subitamente, também se pusessem a rir.
Os irmãos se enfrentaram naquela tarde. Embora usassem fortes armaduras protetoras e as armas estivessem envoltas em tiras de couro, ambos sabiam que a luta seria para valer.
Para Garith, era uma questão de orgulho. Se Drue o vencesse, ele passaria a ser objeto de gozação e ironia entre os pares. Perder esse embate seria o mesmo que destruir sua carreira de cavaleiro mesmo antes que esta tivesse começado. Para Drue, era questão de sobrevivência. Se não triunfasse, Seria banida da vida que amava, a única vida que conhecia. Uma vez tomada a decisão, ela resolveu concentrar toda a força e agilidade no torneio, sem dar nem pedir trégua. As espadas se encontraram com um ruído surdo e seco. Os golpes se sucediam, acompanhados pelos gritos vibrantes das pessoas que apertava o cerco à medida que a luta ficava renhida. Começaram a surgir apostas de ambos os dois oponentes pareciam medir forças equilibradas, o que aumentava o interesse. À medida que o tempo passava, os golpes foram se espaçando, mas a força dos dois parecia inesgotável.
A perseverança de Drue nos exaustivos treinos foi o que lhe trouxe a vantagem decisiva. Garith costumava negligenciar os penosos exercícios, que o aborreciam depois de algumas horas, enquanto Drue nunca se dava por satisfeita. Dessa maneira, depois de algumas horas, Garith principiou a dar sinais evidentes de cansaço, enquanto a irmã permanecia fresca como uma rosa.
Alarmado, Duxton cutucou Turlock em mudo espanto. O primo abriu um amplo sorriso, que não disfarçava seu orgulho:
— Eu tentei avisar, mas você não acreditou em mim.
Nesse instante, Garith cambaleou na diminuta arena, quase desabando. Drue preparou a espada para dar o golpe de misericórdia, mas o irmão conseguiu se desviar. Todavia, sua inferioridade agora começava a se tornar mais evidente, pelo menos aos olhos dos mais experientes.
— Turlock, ponha já um fim nisso — rosnou Duxton. — Garith não vai agüentar mais cinco minutos.
Declare a luta empatada! E avise a Drue que retiro minhas ordens por enquanto, até Garith ser sagrado cavaleiro. Depois disso, o futuro de Drue será novamente estudado por mim.
Encantado com o resultado da luta e com a inegável vitória de "seu protegido", Turlock avançou e separou os contendores:
— Vocês pelejaram bravamente — proclamou, com sua voz de leão — e, devido ao limite de tempo, o duque declara que a luta empatou. Parabéns aos dois!
Garith seguiu viagem para Arundel, onde seria treinado para cavaleiro, enquanto Drue continuou no acampamento do pai. Todo o dia ela treinava com afinco e dedicação, não só nas artes marciais, mas nos exercícios físicos, a fim manter seu corpo em excelentes condições. Os resultados na se fizeram esperar; em pouco tempo seus braços e pernas tornaram-se fibrosos e bem torneados, enquanto o corpo, apesar de delgado, escondia uma força espantosa. Os treinos deram cabo de todas as gordurinhas mal localizadas, transformando-as em fibras elásticas. Turlock observava com crescente orgulho os progressos do jovem escudeiro, sentindo seus esforços recompensados. Drue era o mais audaz e valente entre os seus pares, sem falar na beleza estranha e selvagem que adquirira ao longo dos anos. Quanto ao seu sexo, ninguém mais se lembrava dele.
Embora alguns guerreiros achassem os modos de Drue um tanto afetados, prudentemente guardavam para si suas impressões, pois ninguém estava disposto a enfrentar a ira da valente moça, que para eles era um rapaz. Além do mais, considerando que ela era filho de um poderoso senhor, esses modos adamados eram considerados como naturais.
— Esse rapaz é diferente. Jamais se interessou por mulheres, e nunca nos acompanha quando vamos às noitadas — comentou um soldado, Henry Romsley. — Nunca vai procurar as prostitutas que rondam nosso acampamento, e está sempre isolado de noite.
— Nada mais natural — rebateu outro. — A educação dele tem sido muito mais severa e dura que a de qualquer um de nós. Acho que é o duque que exige isso, para não parecer que o protege. Por mim, se tivesse de treinar tanto quanto Drue, ao fim do dia estaria um caco velho.
— Verdade — acudiu um terceiro. — Drue parece feito de ferro! E está sempre ajudando todo o mundo. Só de noite é que gosta de ficar sozinho Não acho errado que ele tenha uma tenda só para si. Afinal, é filho do duque ou não é?
— Shh, ele vem aí.
Com efeito, Drue se aproximava, montada num belo zaino.
- Como é? Ainda está de mau humor por causa da ausência de seu irmão? - perguntou Henry.
- Nunca fiquei de mal humor, Henry! — protestou Drue ressentida.
- Foi a impressão que nos deu, afinal, você não foi promovida, e continuou no mesmo posto de porta-estandarte. Garith logo mais será sagrado cavaleiro, não é assim? Ela caiu numa risada gostosa.
— Ora e daí? Ele merece. E meu pai estava tão encantado com a viagem dele a Arundel, que mal notou minha presença nestes últimos dias.
— Sim, mas você também quer ser sagrado cavaleiro. Estou certo?
— Está, não vou negar. Mas eu me tornarei cavaleiro no momento adequado — disse ela, dando de ombros com indiferença. — E isso só Turlock poderá decidir quando será.
— Mas, Drue, se você imitasse seu irmão e fosse servil num desses castelos, talvez alcançasse o grau de cavaleiro mais depressa. Aqui no acampamento a coisa pode demorar muito.
— Mmmf! — fez Drue, torcendo a boca com desgosto. — Não me interessam os jogos da corte. Sou um guerreiro antes de mais nada.
— Cruzes! — gemeu Henry, fazendo uma careta. — Pobre do inimigo que atravessar seu caminho! Você sozinho vale por uma catapulta!
O riso de todos flutuou alegremente no ar frio da manhã, misturando-se ao canto estridente dos pássaros.
Havia dois caminhos para um homem ser sagrado cavaleiro. Um consistia em trabalhar a serviço num castelo qualificado pelo rei durante um determinado período. Nessa modalidade, o aspirante teria uma vida mais leve e fácil, embora fosse obrigado a treinar todos os dias. Pelo outro caminho atingia-se o grau através de lutas no campo de batalha o que era mil vezes mais difícil e perigoso, pois o aspirante arriscava seu pescoço quase todo o dia. Drue escolhera segundo caminho sem hesitar, embora seus pares tentassem convencê-la a seguir o caminho escolhido por Garith.
Nada a excitava mais que uma boa peleja, e ela estava se tornando verdadeira mestra no manejo da espada. Contudo, depois da partida de Garith, muito poucas batalhas aconteceram. Drue já começava a se entediar, quando Duxton recebeu uma carta do jovem rei Eduardo II, convidando-o para visitá-lo na corte.
— Maçada! — resmungou Turlock, sacudindo a juba grisalha. — Não estou com a menor vontade de ir. — Ora — atalhou Drue, batendo-lhe nas costas afetuosamente — até que vai ser bom ver você dentro daquele manto de veludo e pele. Vai ficar um pedaço de homem! — Pois eu me dou muito melhor dentro desta pele de lobo — respondeu ele, mal-humorado, apontando para o colete — Gosto até do cheiro desta roupa, feita por mim, de um animal caçado por mim. Tem muito mais valor que um manto de ouro.
— E mais cheiro também! — riu ela.
Turlock parou, desconcertado, e cheirou o colete.
— Hum, tem cheiro de lobo mesmo. Que é que há de errado com isso?
_ Nada. Mas às vezes é bom variar.
O rei resplandecia em ouro e arminho quando os recebeu. Mas a irreverente Drue mal conseguiu reprimir o riso quando viu as botas do rei, cujas longas biqueiras se assemelhavam às de um bobo da corte.
— Shh, essa é a última moda — cutucou-a Turlock, também escondendo o riso com a mãozorra.
— Drue, não me faça me arrepender de tê-lo trazido! — repreendeu-a o duque.
Ah, como seria bom se Garith estivesse ali! Quanto eles ririam diante daquele reizinho efeminado! À noite, sozinhos na tenda, ambos comentariam, às gargalhadas, os trejeitos e ademanes do homem mais poderoso da Inglaterra. Poucos minutos mais tarde, Piers Gaveston, amigo e conselheiro do rei, entrou com um par de botas cuja biqueira parecia um fole de dois palmos. Nesse instante, Drue caiu ma gargalhada sufocada, e foi arrastada por um aflito Turlock para fora do salão.
— Sossegue menino! — ralhou ele. — Pode nos deixar em maus lençóis!
— Desculpe, Turlock — volveu ela, rindo a mais não poder. — Mas você viu que ridículo?
— Vi, e também estou querendo rolar no chão de rir. Mas estou conseguindo me controlar. Agora, vá dar uma volta, senão minha ausência vai ser notada. E trate de se recompor!
Drue obedeceu, se fingido contrita. Afastou-se em direção ao jardim, coberto com um grande toldo de listras vermelhas e brancas, forçando-se a parar de rir. Seu passo longíguo e ágil logo a levou para mais além, em campo aberto, onde um punhado de cavaleiros exibiam sua perícia diante de outros convidados.
Passado o ataque de riso, Drue acabou se irritando com o rei, cuja aparência bufa tornava-o objeto de graçolas das cortesãs. Afinal, um rei devia se portar como rei, não como palhaço. Sentiu vontade de socar o ar, de gritar, de fugir dali. Definitivamente, aquele não era seu lugar.
— Ei, rapaz! — chamou um cavaleiro alto e elegante oferecendo-lhe uma espada. — Aceita desafiar nosso campeão?
Ela nem pensou duas vezes, contente de poder desabafar sua raiva em alguma coisa. Apanhou a arma com naturalidade, como se esta fosse um alongamento de seu braçal
— Se ganhar, tem uma moeda de ouro, meu valentão — falou o homem, não sem ironia na voz. — Mas aviso que nosso campeão bate qualquer um aqui.
Ela avaliou os cavaleiros, incluindo o tal campeão, e decidiu que estava diante de um bando de fracotes.
— Pois seja, vale uma moeda de ouro — disse, com desenvoltura. — Mas o campeão não é um cavaleiro a serviço do rei?
— Claro que é! — respondeu o outro, algo ofendido com a pergunta.
— Então, como eu ainda sou aspirante, creio que deveria receber um bônus. Isto é — corrigiu-se depressa, fingir do humildade — , se eu ganhar.
O homem estudou Drue com olho crítico. O rapazinho era muito jovem e tinha corpo delgado, embora parecesse bastante forte. Meio incerto, preferiu não arriscar uma decisão e gritou alto, chamando a atenção dos outros:
— Que acha, meu senhor? O rapaz merece um prêmio especial se conseguir vencê-lo?
Uma risada reboou no ar.
Meu velho, se esse filhinho mimado da corte me vencer, darei a ele o que se costuma dar em desafios verdadeiros: meu cavalo e minha armadura.
— E se ele perder?
Houve um instante de silêncio.
— Ele me servirá como pajem e escudeiro da corte. Turlock chegou a tempo de ouvir a voz de Drue responder, serenamente:
— Aceito o desafio.
Desesperado, correu para a protegida, sacudindo-a pelo ombro.
— Está louco?! — sussurrou entre dentes. — Não sabe que esta corte é um exemplo vivo de corrupção e decadência? Com mil demônios, seu pai nunca devia tê-lo trazido aqui! Você nunca lutou numa justa como esta, meu filho! Eles vão fazer barba e cabelo de você, um novato! Céus, céus! Se você perder, terá de ficar morando neste antro imoral!? Não, mil vezes não. Eu lutarei em seu lugar.
— Em primeiro lugar, meu amigo, bem sabe que as regras não permitiriam essa troca agora. Em segundo lugar, tive o melhor treino da Inglaterra e o melhor professor do mundo. Aprendi todos os truques para derrubar o inimigo sem quebrar as regras da boa honra, não aprendi? Fique sabendo, Turlock, que não tenho a menor intenção de perder esta justa.
Deixando o velho urso plantado, foi apanhar a armadura.
Quando voltou, Turlock ajudou-a nervosamente a afivelar peitoral enquanto se lamuriava baixinho. Seu pai vai cair na sua pele Ele odeia esse tipo de aposta. E se você perder então...vai desabar um terremoto por aqui!
— Não vou perder — cortou-o Drue, com frieza.
As notícias sobre o desafio de um novato desconhecido fizeram com que pequena multidão se reunisse em volta da arena. Muitos torcedores eram soldados de Duxton, e este fizeram tremenda algazarra quando Drue adentrou o peque no círculo de areia. Era ligeiramente mais alta que o oponente, mas bem menos encorpada. Como de praxe saudaram-se polidamente e esperaram que o lacaio — subitamente investido dos poderes de juiz — lesse a lista de regras. Em seguida recuaram, afastando-se um do outro.
O cavaleiro mal havia assumido posição de combate quando Drue aplicou-lhe um golpe certeiro. Ele rodopiou, incapacitado de fazer mais que se defender do inesperado assalto Equilibrando-se nas pernas, conseguiu endireitar o corpo mas Drue não lhe deu trégua. Aproveitando-se da vantagem inicial, arremeteu novamente, desferindo uma saraivada de espadadas a torto e a direito, com tanta fúria e precisão que o cavaleiro caiu de costas, indefeso. Rápida como um relâmpago, Drue encostou a ponta da espada entre o elmo o peitoral do antagonista, não lhe dando a menor chance.
— Rendei-vos? — perguntou o improvisado juiz, atarantado, sem querer acreditar no que via.
O cavaleiro fitou os olhos do vencedor, que se estreitaram ameaçadores. Havia qualquer coisa de mortalmente perigoso naquele olhar, algo que o assustou. A luta fora mero esporte, um jogo apenas — não uma batalha verdadeira. Rapidamente, aquilatou a possibilidade de lograr o adversário; queria destemperadamente encontrar uma saída para salvar da humilhação.
Mas Drue leu-lhe os pensamentos. Pressionou a ponta espada no pescoço nu do inimigo e murmurou, com voz implacável:
— Mesmo espadas sem fio podem matar, milorde. Finalmente, o outro largou a arma.
— Eu me rendo — falou, baixinho, fervendo de humilhação, enquanto seus amigos soltavam exclamações pontadas.
Drue deu um passo atrás e ofereceu-lhe a mão, a fim de ajudá-lo a se levantar. Gritos e ovações explodiram em uníssono da multidão, criando ligeira confusão. Os companheiros de Drue acorreram para abraçá-la, orgulhosos do jovem e promissor amigo, quando uma voz fininha silenciou todas as bocas:
— Impressionante! Sim, senhores, impressionante!
Drue virou-se para o rei, que se aproximava acompanhado de Piers Gaveston e um bando de cortesãos.
Inclinou-se profundamente, fechando os olhos para não ver as inacreditáveis e grotescas botas pontudas.
— Nunca vi tanta agilidade agressiva! — exclamou o rei. — Por acaso você já era inimigo deste homem?
— Não, Majestade. Não o conhecia.
— Então ele disse alguma coisa que o desagradou, com certeza — interveio Piers.
— Não, milorde — volveu Drue, encarando o conselheiro com firmeza. — Foi apenas esporte.
— Bem, se isso é esporte —- falou o vencido, limpando-se da areia — , eu não gostaria de enfrentá-lo numa batalha verdadeira, quando esse rapaz estivesse realmente zangado.
O rei deu uma risadinha afetada.
— E, sei o que quer dizer. Depois, voltando-se para Drue:
— Costuma brigar sempre com esse vigor?
— Lutar e vencer é viver, Majestade, enquanto perder é morrer — respondeu ela, tom altiva serenidade.
_ Mas por dentro, Drue não pensava no que dizia. Sentia imensa vontade de rir novamente, agora que vira melhor as botinhas do conselheiro — lilás, com um incrível laçarote verde na longa biqueira!
Sabia que era apenas uma questão de segundo para acabar estourando na gargalhada— Sua mente pregou-lhe uma peça naquele momento, fazendo-a imaginar o duque de Turlock usando aquilo. Mordendo o lábio até senti-lo sangrar, conseguiu manter uma calma aparente, imaginando como poderia fugir dali sem ser indelicada.
— Bonita frase, meu valente — disse o rei. — Diga-me, seria capaz de defender outra pessoa tão bem como defendeu a si mesmo?
Drue vacilou.
— Se houvesse necessidade, sim. E se a pessoa fosse digna de minha defesa.
O rei riu novamente, divertido, e pousou uma mão lânguida no ombro de Piers, enquanto os cortesãos sorriam nervosamente. Certamente havia um segredo entre o monarca e seu favorito, desconhecido dos demais.
— Ouviu só, meu caro? Se a pessoa for digna de defesa, diz ele!
— Suponha, meu jovem — falou Piers — , que você esteja a serviço de alguém. Defenderia esse alguém do mesmo modo como lutou agora?
— Certamente, milorde. Porque eu só estaria a serviço de quem eu julgasse digno e honrado.
O rei estudou-a de alto a baixo.
— Você ainda não foi sagrado cavaleiro.
— Não, Majestade.
— E costuma acompanhar o duque de Duxton. Não eram perguntas que o rei fazia, mas afirmações.
— Meu nome é Drue, e sou escudeiro de meu senhor Turlock. O duque de Duxton é meu pai.
O rei coçou o queixo, assentindo com a cabeça.
— Turlock vive nos campos de batalha e gaba-se de não ter castelo. Para onde pretende ir, a fim de completar os treinos e ser sagrado cavaleiro?
— Minha vontade é ganhar minhas esporas combatendo. — disse Drue, utilizando um termo em voga, que significava "ser armado cavaleiro". — Meu irmão foi a Arundel para aprender as etiquetas da corte, uma vez que ele é o herdeiro de nossa casa. Mas meu lugar é ao lado de meu pai e meu senhor Turlock. Com eles, pretendo lutar muitas contra os inimigos de Vossa Majestade.
Eduardo II sorriu diante do entusiasmo adolescente.
— E qual de meus inimigos você imaginou ter diante de si quando atacou o pobre Raoul aqui? — perguntou, indicando o recém-deposto campeão.
— Connaught.
O odiado nome explodiu nos lábios de Drue sem um instante de hesitação.
— Ah. Está falando daquele jovem irlandês que serve ao lado de Robert Bruce?
— Sim, Majestade.
— Parabéns pela escolha. É um inimigo formidável e temível.
— Obrigado.
— Gostaria de enfrentá-lo?
— Muito, Majestade.
— Desde que você estivesse defendendo alguém que... como foi mesmo que disse? Ah, sim, alguém que fosse digno de sua defesa.
— Meu senhor Turlock é inteiramente digno.
— E o senhor seu rei? Acha que ele é digno? — perguntou Piers, com voz macia.
— A Inglaterra não é digna, milorde — redargüiu Drue. — Rei e país são uma coisa só.
Pelos olhares de aprovação, viu que acertara na resposta. Mas Turlock parecia preocupado, a enorme testa vincada por um sulco profundo. Drue não fazia idéia do que aquelas perguntas queriam dizer, mas instintivamente sabia que precisava medir com cuidado cada resposta que desse, pois estava diante de gente poderosa e astuta.
O rei correu os olhos entre os cortesãos, fixando-os no Pai de Drue, que se aproximava com alguns amigos, parecendo tão preocupado quanto Turlock.
—Duxton, meu amigo, venha cá.
Todos se afastaram para dar passagem ao duque, que se adiantou respeitosamente, detendo-se a distância protocolar. - Decidi favorecer sua nobre casa, meu amigo, que disfarçou um movimento nervoso, aguardando as palavras do monarca. Se o rei queria honrar sua casa melhor o faria se dirigisse seus favores a Garith, e não a Drue cujo sexo poderia facilmente se transformar numa fonte problemas.
— Desejo manter seu filho Drue ao meu lado. Quero que ele me acompanhe nas batalhas e carregue minha bandeira.
O duque engoliu em seco, embaraçado. A inesperada distinção constituía, efetivamente, uma honra. Mas era uma honra inoportuna e indesejável. Mudo e espantado, Duxton não sabia o que responder, receoso de se mostrar indelicado. Drue, porém, não tinha esse tipo de escrúpulo. A se imaginar vestida de bufão, usando botinhas com laçarotes no bico, abandonou a discrição que vinha mantendo até então.
— Majestade — falou, colocando um joelho no chão — sinto-me realmente grato e honrado. Nada me alegraria mais que levar sua bandeira e enfrentar batalhas a seu lado. Mas nunca vivi num castelo, em toda a minha vida; acredito que eu me tornaria um foco de aborrecimento para Vossa Graça, pois não conheço as regras da etiqueta palaciana. Sou rude e selvagem como um gato do mato. Invoco sua real inteligência para permitir que eu permaneça ao lado de meu pai. Vossa Majestade poderá mandar me chamar quando houver necessidade de meus serviços numa guerra. Atende rei ao chamado no mesmo instante, asseguro-lhe!
Um murmúrio assustado percorreu a audiência. Nunca ninguém se atrevera a recusar um convite feito pelo rei, exceto, talvez, Piers. Duxton, sabendo disso, colocou uma mão protetora no ombro da filha, enquanto Turlock se adiantava com seu andar de urso. Os dois estavam prontos a enfrentar o que viesse.
Mas, surpreendentemente, a ajuda veio pela mão de Piers Gaveston, Este, com muita argúcia, percebera o fervoroso interesse do rei por Drue, e sentira ameaçada sua posição de favorito absoluto. Por essa razão, decidira que apoiaria a idéia de Drue.
— Estamos diante de um rapaz sincero e ponderado, Majestade — saudou ele, tomando Drue pela mão e fazendo-a erguer-se. — De fato, quantas vezes nosso rei sofreu ofendas de guerreiros grosseiros e mal educados? Se o jovem Drue prefere não aprender nossa etiqueta, talvez seja mesmo melhor deixá-lo viver nos acampamentos de guerra. Pois é lá que ele se tornará mais bravo e forte, e é lá que poderá se tornar ainda mais útil a nosso amado rei. Quanto a mandar chamá-lo quando dele necessitarmos, esteja certo, meu bom jovem, que o faremos. Com certeza. Eduardo II hesitou um pouco, mas resolveu aceitar as palavras do favorito.
— Seja, então. Contudo, de hoje em diante o duque de Duxton e seus homens deverão me seguir em todas as batalhas que meu exército travar. E o duque será, a partir de hoje, membro de meu conselho de guerra.
Antes que a atônita platéia se recuperasse, o rei e Piers se afastaram, rumo ao palácio.
Sentada do lado de fora da tenda, na agitada região de Bannockburn, Drue polia suas armas. Seu coração batia forte e compassado, já antecipando o gosto de mergulhar na batalha iminente. Gotas de suor perlavam-lhe a testa enquanto ela trabalhava em profunda concentração. Dos vinte verões que vivera, este era certamente o mais quente de todos.
Fazendo uma pausa para enxugar o rosto, Drue alçou a vista para o vulto ominoso e escuro que se desenhava no horizonte, quieto como uma fera antes do bote. O castelo Stirling! O duque planejava apossar-se dele antes do solstício de verão.
Turlock desabou na cadeira de lona, abanando-se furiosamente. O chão, de tanto sofrer pisoteios e galopes, tornara-se seco e árido como o do deserto. A poeira se levantava ao menor sopro do vento, cobrindo os soldados de uma fina camada marrom que custava a sair, mesmo com banhos e esfregadelas com seixos rolados. Fiozinhos brilhantes de suor formavam regatos no rosto do grande guerreiro, insinuando-se sob os fios grisalhos da barba e pingando do queixo para a terra fofa.
— Que horror, estamos no meio de um caldeirão de Lúcifer! Diabos, não sei o que o rei está esperando. Já deveríamos ter atacado os malditos escoceses há tempos. Ma é um tal de decide daqui, decide dali que não tem mais fim.
— Ele diz que aguarda o momento oportuno — fez Drue torcendo a boca num muxoxo desdenhoso.
— Pois esse maldito momento oportuno já veio e já passou um milhão de vezes, E o rei senta a branca bundinh na tenda, bebe vinho e canta, enquanto seus guerreiros torram neste sol infernal.
Drue sorriu.
— É assim que gosto de você, Turlock. Sem papas na língua, sem trejeitos efeminados.
— Diga a verdade, Drue. Você não se arrepende de tei recusado o convite do rei? Nem um pouquinho?
— Nem um tiquinho, ora que pergunta. Odeio esse negócio de corte, de reverência pra cá, salamaleque pra lá.
— Sim, mas se você tivesse aceitado, hoje já seria cavaleiro. Ficando conosco, a coisa se torna muito mais dura como é.
— Depende do ponto de vista. Para mim, seria mil veze mais duro bancar o palhaço da corte. Não, muito obrigado! Prefiro continuar a ser seu fiel escudeiro.
— Cuidado com a língua, Drue. Pode falar o que quiser, mas só para meus ouvidos, entendeu? O rei tem você em alta consideração, mas se souber dessas ideias... nem quero pensar.
— Sossegue, meu amigo. É só para você mesmo que eu confio meus pensamentos. Nem meu pai me conhece como você. Turlock.
— Ainda bem. Porque ele pensa que você é um aspirante perfeito, e nem imagina que Drue Duxton é um diabinho de cabeça quente.
Os dois riram a valer, enquanto uma idéia se insinuava na mente de Turlock, fazendo-o franzir a larga testa
Impossível sagrar Drue cavaleiro. Era contra as leis dos homens, contra as leis da própria natureza. Duxton trouxera duas criancinhas das ruínas do antigo lar, sendo que uma delas era do sexo feminino. Verdade que pouco havia de femenino e delicado naquele jovem rapazinho que tinha diante de si. O rosto de Drue tinha força e personalidade, com maçãs salientes e queixo altivo, levemente quadrado. Seus lábios, carnudos e bem desenhados, prontos a sorrir, enquadravam-se admiravelmente sob os olhos imensamente dourados e expressivos.
Até mesmo o corpo contradizia seu sexo. Bem proporcionado, esbelto e forte, estava longe do corpo branco e lânguido das moças da corte. Os músculos saltavam-lhe dos bíceps enquanto ela lustrava as armas, e as pernas firmes pareciam enfeixar toda a agilidade e potência do mundo. Era um belo espécime do sexo masculino, decidiu Turlock. Intrigado, ele examinou com o canto dos olhos o peito de Drue.
— Chato como uma tábua — murmurou, espantado.
— Que foi que disse? — perguntou Drue, distraída.
— Que o dia está muito chato — disfarçou o homenzarrão, pigarreando fortemente. — E quente também.
Mas que diabos, Drue parecia mesmo um homem. Belo, valente e altivo. Certamente, ela enfaixava os seios para que ninguém os percebesse. Ou não? A curiosidade o espicaçava, mas Turlock jamais tocaria nesse assunto. Taívez Drue nem se lembrasse que nascera mulher, afinal. Talvez Deus a tivesse transformado milagrosamente num homem.
O velho combatente não estava muito longe da verdade. Drue, de fato, pouco pensava nos problemas de seu sexo, embora tivesse plena consciência de que sua anatomia era bem diferente da de um homem. Desde pequena, cuidara de jamais se despir diante de terceiros, pois encarava o fato de ter nascido mulher como seu maior inimigo, o maior empecilho para sua promissora carreira de guerreiro. Agia, pois, como homem. Como os moldados do pai, sentia frio no inverrno, calor no verão e renegava a época das chuvas. Como eles, comia quando tinha fome e bebia quando tinha sede como eles, de vez em quando apanhava gripe e resfriado Mas, diferente deles, jamais fazia suas necessidades diante de ninguém, nem mesmo de Turlock. Quando ficara menstruada aos catorze anos, achara aquilo a coisa mais natural do mundo, atribuindo-a à simples disenteria. Como os soldados costumavam ter também.
Mas logo percebeu que todos os meses era atacada pela mesma disenteria, e resignou-se a permanecer na tenda durante esse período, descansando. Depois saía para lavar sua roupa no rio mais próximo. Qualquer coisa, porém, avisava-a que aquilo era "coisa de mulher", o que a deixava preocupada e irritadiça.
Certa vez, quando estava descansando na grama, estirada ao lado de um riacho, ouviu vozes femininas. Duas mulheres se aproximavam, portando grandes cestos de roupa suja. Drue, meio sonolenta, deixou-se ficar por ali mesmo em dar grande atenção às duas tagarelas, que nem nota am sua presença.
— Meu homem vai ficar danado quando souber que já faz dois meses que meu fluxo não desce — comentou uma. - Todos os dias eu examino minhas calcinhas e não vejo sinal de sangue. Céus, que aborrecimento!
— É sempre assim — riu a outra. — Quando o fluxo vem, uma amolação. E quando não vem, é aquela preocupação de estar grávida. Vida de mulher é assim mesmo, minha cara.
As palavras entraram como agulhadas no crânio de Drue, então era essa a sua "disenteria" mensal? Teria esse tipo aborrecimento todos os meses, até o fim da vida? Pelo que ouvira, o natural era ter o fluxo. Sua falha é que podia preocupar.
Drue sentiu um calor súbito e uma onda de vergonha varreu seu corpo. Por quanto tempo conseguiria esconder os fluxos de TurlocK, do irmão e dos outros guerreiros? Nesse dia, voltara apreensiva para sua tenda. Mas, à medida que os dias passaram, esquecera-se da novidade que aprendera e mergulhara de corpo e alma nos treinos. Drue fora se aperfeiçoando de tal modo nas lutas que acabara se transformando numa espécie de mascote do acampamento dos Duxtons. Todos queriam lutar com ela, mesmo os mais velhos, pois consideravam-na um adversário de respeito.
Embora as justas fossem estritamente proibidas para os menores, estes eram encorajados a exibir sua destreza nos arremessos de lança e na quintana. A Quintana era um poste alto, em cuja extremidade era colocada uma tábua giratória; numa das extremidades dessa tábua achava-se um broquel, ou pequeno escudo; na outra, um pesado saco de areia. A habilidade consistia em acertar no centro do broquel com um longo chuço, e ao mesmo tempo não ser atingido pelo saco de areia. Era um treino difícil e exaustivo, porém de resultados altamente compensatórios. Foi numa dessas exibições que Drue se livrou do menstruo, num dia assim que conheceu o filho de um lorde irlandês que viera visitar o acampamento de Duxton.
A história se passou quando os três — ela, Garith e o jovem visitante — estavam no exercício do arremesso simples de lança. Quando Garith tomou posição para atirar a sua, o irlandês fez um movimento brusco e a lança passou longe do alvo.
— Falta! — gritou Drue.
— Não — protestou o irlandês — , não foi por minha causa que ele não acertou no alvo! Garith foi muito desastrado, essa é que é a verdade. Se tivesse mantido o olho no alvo, o arremesso seria certeiro. Foi falta de concentração!
Embora Drue soubesse que o outro tinha razão, jamais admitiria a falha do irmão.
— Concentração! -- imitou, desdenhosamente. — Bem, então vamos ver se você sabe se concentrar. Aceita um desafio?
— Claro.
— Vamos a justa a cavalo. Quem acertar melhor o escudo do outro ganha.
— Feito! — gritou o irlandesinho, já se virando para buscar seu cavalo.
— Turlock proibiu a justa! — sussurrou Garith, assustado.
— Fique quieto e ajude-me a colocar o elmo. Além de que isto é diferente, porque não estamos num campo de verdade. Calma, maninho! Eu sou ótima nesse negócio.
Quanto a isso, Garith não tinha dúvida. A mira e a agilidade de Drue haviam se transformado quase em lenda.
— E seu cavalo, Drue? Turlock saiu com ele hoje de manhã.
— Empreste-me o seu. Foi com ele que treinei na quintana ainda há pouco.
Garith abriu a boca para protestar mais um pouco contra a desobediência frontal da irmã, mas fechou-a prudentemente quando viu o olhar incisivo e determinado de Drue.
As pontas dos chuços — que eram cegas, para não ma chuçar — foram besuntadas com piche, a fim de que o ponto em que tocassem o escudo ficasse bem à vista, sem oferecer razão para discussões. Os contendores trocaram as saudações de praxe e foram se postar nos pólos opostos do campo. Quando Garith deu o sinal, ouviu-se o tropel do galope enquanto se levantava uma nuvem de pó sob o casco dos. cavalos. O primeiro ponto foi de Drue, que atingiu com facilidade o escudo do irlandês.
— Bem no meio do escudo! — gritou ela, triunfante. Vai ser difícil igualar meu golpe!
— É o que veremos — retorquiu o irlandês, cujos olho brilhavam sob o elmo.
De fato, o segundo ponto ficou com ele. Agora, restava o desempate.
No minuto em que, pela terceira vez, Drue enristava o chuço para atingir o adversário, o cavalo se tornou agitado Acostumado ao pulso brando de Garith, o animal estranho" a rudeza de Drue e se assustou com os gritos que ela soltava. Empinou no momento do embate, o que a fez ergue um braço, a fim de manter o equilíbrio. O chuço do irlandês atingiu a em cheio, derrubando-a fragorosamente na areia fofa do chão.
Garith foi o primeiro a correr e se ajoelhar ao lado da irmã, aflito.
- Deus, ele não está respirando! — gritou, torcendo as mãos.
O jovem irlandês apeou do cavalo e se aproximou.
— O cavalo empinou na hora do embate. Não tive tempo de recuar, nem de fazer mais nada. Seu irmão levou um golpe e tanto, mas acho que vai sobreviver. Ajude-me a desafivelar o peitoral, depressa.
Garith batia no rosto pálido da irmã, sacudia-a, chamava-a pelo nome.
— Drue, Drue!
O irlandês tirou o elmo e se ajoelhou. Curvando-se, colou sua boca à de Drue, expirando ar para dentro dos pulmões dela. Repetiu a operação algumas vezes, até que finalmente os olhos de Drue se abriram, piscando. Quando ela se deu conta do que acontecera, empurrou rudemente o irlandês e tentou se erguer.
— Graças a Deus! — murmurou Garith. Depois, virando-se para o novo amigo, exclamou:
— Você salvou a vida de meu irmão! Como conseguiu?
— Oh, é um tratamento muito antigo que os sarracenos costumam dar aos soldados que desmaiam. Os irlandeses aprenderam com eles quando estiveram na última Cruzada. Basta respirar com força para dentro da boca do outro. Não é nada de mais.
O rapaz voltou sua atenção para Drue.
— Como é, está bem?
— É, parece que sim, obrigado — respondeu ela, sentando-se na areia e limpando as mangas. — Engraçado, você acaba de salvar minha vida e eu nem sei seu nome. Costumamos chamá-lo de irlandesinho.
Ele soltou uma risada alegre, estendendo-lhe a mão.
— Sou um irlandês, sim senhor, e com muito orgulho. Sou o primeiro herdeiro de meu pai, e meu nome é ...
Mas Drue, que se firmara na mão estendida para ficar de pé, dobrara o corpo ao meio com um gemido.
Não fora Garith acorrer para ampará-la do outro lado, ela teria desabado novamente.
— Carreguem-me no escudo — brincou ela, numa tentativa de disfarçar a dor. — Sempre achei essa frase bonita. Turlock costuma dizer isso quando volta vitorioso de uma batalha.
— Seu escudo é pequeno demais — tornou Garith, que não estava com vontade de brincar — , a menos que você fique dobrado do jeito que está. Não estou gostando nada disso, Drue. Sou o mais velho, e na ausência de papai e de Turlock tudo o que acontecer a você será de minha responsabilidade.
— Nem que eu quisesse conseguiria me endireitar. Isto dói como o diabo!
— Vamos arrastar nosso amigo pelo ombro — propôs o irlandês. — Você pega pelo lado de lá.
Pouco depois Drue era colocada sobre a cama da tenda que ela dividia com Turlock. O irlandês ajeitou o travesseiro e depois falou com naturalidade:
— Se concordar comigo, proponho que seja empate. E, se Não ficar ofendido, ofereço-lhe um conselho de graça: jamais monte um cavalo estranho numa situação como essa. Você tinha de controlar o animal só com o joelho e o pé; e esse tipo de controle só os cavalos muito acostumados a você aceitam.
Menino, se meu chuço não estivesse cego, você não existiria mais!
— Amém — respondeu Drue. — Não me ofendi com seu conselho; ao contrário, vou segui-lo fielmente. Espero nunca ter de me bater com você de verdade.
— Digo o mesmo, meu caro. Você é um verdadeiro cospe-fogo! Agora, trate de descansar. Espero que Não tenha quebrado nada.
— Não, sou mais firme que a rocha de Gibraltar — retrucou Drue, confiante. — Antes do fim de semana pretendo enfrentá-lo de novo noutra justa.
Porém os vaticínios de Drue não se confirmaram, pois ela levou dias a fio para conseguir montar outra vez. Quando a terrível dor que sentira no ventre passou de vez, ela retomou seus deveres rotineiros com entusiasmo redobrado, nunca se importou com o fato de que os fluxos mensais haviam cessado repentinamente; na verdade, até se alegrou por se ver livre daquele incomodo sinal de feminilidade.
Assim se passara, havia anos, a história efêmera das menstruações de Drue.
Quando Turlock entrou mancando, Drue se lembrou pela milésima vez do ágil homenzarrão que ele fora, antes de receber a estocada de Connaught nas virilhas. Irritada, soltou uma exclamação abafada.
— Êpa, êpa! Que é que você tem, meu rapaz?
— Nada, estava pensando com meus botões. Esse Connaught, será que ele está bancando o idiota lá em Bannockburn, esperando ordens de ataque, como nós aqui? Ah, se estiver... É bom que se previna. Porque eu tenho toda a intenção de me bater com ele e matá-lo.
E virando um punho erguido na direção de Bannockburn:
— Cuide-se, Connaught! Aqui vou eu, Drue Duxton!
— Ei, espere aí, espere aí, meu galinho! Sua missão é ficar ao lado do rei e carregar sua bandeira bem alto! Se está com idéias de deixar o posto, nem que seja por alguns instantes, pode botar suas ricas barbinhas de molho. Isso seria considerado alta traição.
— É, tem razão — anuiu ela, baixando a cabeça. — Vou ser obrigado a ficar ao lado do rei. .Enquanto isso, Connaught continua sobrevivendo. Um dia aqui, mais um dia ali... Ah, ele não perde por esperar.
— Connaught é um irlandês forte e astuto, Drue. Para que tanta pressa? Seu dia chegará, sossegue. A menos que eu o encontre primeiro.
— Pois é precisamente isso que eu não quero que aconteça! É esse medo que me atormenta a vida, Turlock. Que você o pegue antes de mim!
Mensagem enviada Jul 24, 2008, 11:29 AM do endereço IP 201.51.79.143
ola eu adoro está novela maravilhosa e adoraria que ela fosse repisada no brasil a edith gonzales esteve maravilhosa e o saudoso eduardo palomo esteve otimo como o lindo joão do diabo
Mensagem enviada Dec 19, 2007, 3:40 PM do endereço IP 201.6.234.20
Para mim não houve até hoje melhor novela do que "Coração Selvagem" cheia de amor, intrigas, ação e um enrredo impecável, fico triste pois gostaria muito que ela fosse reprisada pois muitas pessoas matariam as saudades e outras conheceriam o encanto desta maravilhosa novela!!!!!!!!!!!!
Mensagem enviada Mar 30, 2007, 12:44 AM do endereço IP 201.8.5.119
Estou apaixonada e sentida por saber da morte de eduardo,apesar de tanto tempo,gostaria que reprisassem a novela, assisti ela na CNT e a achei maravilhosa e ate o momento ainda não vi um ator com tal forte sensualidade em um personagem.
Mensagem enviada Sep 30, 2007, 12:47 PM do endereço IP 200.164.49.148
fiquei super feliz ao encontrar o forum Coração selvagem. Sou fã da novela, assisti 2 vezes e fiquei desolada quando soube da morte de Eduardo Palomo do coração.
Mensagem enviada Dec 9, 2006, 9:15 PM do endereço IP 200.223.215.174
De repente a vida é tomada por uma verdadeira tempestade. Tudo que estava bem começa a desmoronar, tudo que parecia dar certo torna-se arruinado, todos os planos dão errado, os sonhos tornam-se distantes e parecem se apagar, chega-se ao ponto de se perguntar "porque tudo isso esta acontecendo comigo?"
Um homem e uma mulher chegaram até esse extremo e ja não sabiam o que fazer. Tudo parecia nebuloso, suas vidas tinham se transformado em constante desprazer. Ela, uma menina pobre, sozinha e perseguida pela sombra de um assassino. Ele um jovem rico, traído, atormentado pelo desamor da mãe e a culpa pela morte de seu melhor amigo. Mas numa noite quando se perguntaram pela última vez "porque tudo isso esta acontecento comigo?", acontece o grande encontro. Abençoado encontro! Ela encontrou seu protetor, ele sua proteção. Juntos eles venceriam tudo. Finalmente a paz, a felicidade, juntos brindaram o amor! Nada os abalaria enquanto tivessem um ao outro, talvez por isso despertaram o ciúme e a inveja daqueles que os perseguiam. Era preciso separa-los. Será que eles consiguirão resistir a essas maldades?
Suas vidas haviam tomado rumos tortuosos antes de se encontrarem, mas o destino os colocou frente a frente e agora eram um do outro. A vida voltou a sorrir. A força desse encontro era a força do amor!
Mensagem enviada Jul 19, 2006, 3:24 PM do endereço IP 200.175.4.126
Ágata arruma as malas e sente-se aliviada por ir embora, pois sente que o perigo ronda seu irmão e consequentemente ela também. Fechou o zíper da mala, respirou aliviada sentindo que as coisas finalmente poderiam caminhar para ela e para Bernardo, ele poderia conseguir um emprego fixo e honesto e ela poderia até voltar a estudar, enfim teriam uma vida normal, um sorriso desenhou-se em seu rosto e seus olhos adquiriram um brilho a muito tempo esquecido. Porém seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho dos passos apressados de Bernardo que invadiu o quarto.
- O que foi Bernardo? Que pressa é essa?
- Eu tenho que sair Ágata, mas eu volto, e quando voltar quero que você esteja pronta.
- Como assim? O que ta acontecendo? Eu já estou pronta, se quiser partimos agora. Você já ligou para Isabel não é mesmo? Ela já esta nos esperando, vamos então.
- Agora não! Eu já disse que tenho que sair.
- Eu vou junto com você.
- Não! Eu vou sozinho, e você vai ficar aqui e não vai abrir a porta pra ninguém, entendeu? – Um flechada de remorso atingiu o coração de Bernardo ao ver os olhos marejados de Ágata, percebeu que magoou a irmã, baixou o tom de voz, suavizou a expressão ao aproximar-se dela e abraça-la com ternura.
- Não quero te magoar, não é você, nada tem a ver com você, alias, tudo que eu quero é não te envolver. Você é uma flor no meio de um lamaçal, e eu não quero que você se suje, entendeu?
- Eu queria tanto que tudo isso acabasse.
- Vai acabar! Falta pouco agora, eu só tenho que fazer mais uma coisa.
- Que coisa? Bernardo eu tenho medo.
- Não precisa ter, já ta quase no fim, e tudo vai acabar bem, amanhã nós vamos estar longe, felizes na nossa vida nova, você confia em mim?
- Eu...confio. Mas eu só quero que tome cuidado.
- Eu vou tomar. Fique pronta, assim que voltar nós partiremos, antes do anoitecer. – Ágata consetiu com a cabeça, mas sua expressão ainda era de preocupação, percebendo isso, Bernardo abraçou forte a irmã e a beijou carinhosamente na testa.
- Por favor, não saia de casa enquanto eu não voltar e não abra a porta pra ninguém, você me promete.
- Eu prometo. – Bernardo caminhou a passos largos até a porta mas foi detido pelo som da voz de Ágata.
- Que Deus te acompanhe irmão!
- Fique com ele!
Ágata não conseguia deixar de se preocupar com Bernardo, ficou apreensiva apesar do irmão dizer que tudo ficaria bem, ela sentiu que algo estava errado, Bernardo iria fazer alguma coisa, ele saiu com o tal CD em que havia gravado o esquema de crimes de Raul, ela pode ver claramente que ele pegou a velha boneca de pano que era dela, era lá que ele havia escondido o CD, isso significava que alguma coisa saiu errado, Bernardo disse que só usaria o CD caso Raul descobrisse que iriam embora e tentasse impedir. Por mais que Bernardo tivesse dito que tudo acabaria bem, o coração de Ágata dizia o contrário, e isso a torturava, onde ele estaria? O que estaria acontecendo? Porque ela se sentia assim tão inquieta? Os dedos trêmulos tocaram a imagem de Santa Clara, no folheto que ela guarda o meio da bíblia e os lábios aflitos murmuraram: “Minha Santa Clara roga por meu irmão”.
***
Bernardo apertou a velha boneca de pano contra o peito e apressou o passo ele precisava chegar rápido até a delegacia, entregaria o CD, Raul seria preso e ele e Ágata poderiam respirar aliviados, ele não queria que as coisas tivessem chegado a esse ponto, pois sabia isso o incriminaria também, ele certamente seria preso e Ágata ficaria sozinha, mas era sua única alternativa, preferiria Ter de ficar longe dela em uma cela de prisão do que imaginar que os homens de Raul pudessem fazer alguma coisa contra ela, isso ele não permitiria, estava disposto a entregar sua liberdade em troca da segurança da irmã. Raul havia descoberto sobre o CD e Bernardo temia que ele fizesse algo contra Ágata, apesar de nunca Ter mencionado que tinha uma irmã, ele temia por ela, nas raras vezes em que foi visto com Ágata inventou que ela era filha do dono do quarto que ele alugava, mas mesmo assim ele temia que Raul ou alguém desconfiasse de algo. A cada passo que dava mais convencido ficava de que estava fazendo o certo.
“Ágata é mais importante que tudo”
Olhou para a velha boneca, ele havia dado a Ágata quando ela completou 8 anos, lembrava-se até da expressão de felicidade o rosto dela e do beijo estalado que ela deu nele agradecendo.
“Você é meu irmão preferido!”
“Bobinha eu sou seu único irmão!”
“Mas se eu tivesse mais cem irmãos você ainda seria o preferido”.
“Gostou mesmo?”
“Adorei, vou dormir abraçada a ela toda noite”.
- E prometo que compro outra pra você Ágata.”– Murmurou Bernardo ao chegar em frente à delegacia, era só entrar, agora não podia, não queria mais voltar atrás.
- É isso que eu tenho que fazer. – Olhou mais uma vez para a velha boneca. – É isso que eu vou fazer! – Fez menção de entrar mas uma mão forte o segurou pelo braço, virou-se surpreso e...
- Raul!
- Que você acha que vai fazer?
Não respondeu a pergunta e num incontrolável extinto de sobrevivência desvencilhou-se de Raul e desandou a correr, foi na direção do circo que estava acampado na cidade, lá teria muitas pessoas seria mais difícil Raul encontrá-lo era o que ele pensava mas Raul não se deu por vencido e foi atras a princípio a passos largos e apressados para não chamar atenção das pessoas mas procurando não o perder de vista, porém Bernardo tomava distancia e Raul começou a correr também desviando das pessoas que chegavam para o espetáculo do circo. Ao perceber que Raul o perseguia Bernardo pensa em esconder a boneca, mas onde? Foi em direção ao estacionamento passou pelos carros na esperança de encontrar algum destrancado, mas nada, não encontrava, podia sentir que Raul estava cada vez mais próximo quando de repente, um carro com o vidro aberto, era a chance dele, correu até o carro, forçou a porta, mas estava trancada, forçou o vidro tentando baixa-lo um pouco mais, estava desesperado, viu quando uma mulher se aproximava, vinha em direção ao carro, ela estava falando no celular e não havia se dado conta da presença dele ainda. Bernardo forçou mais e o vidro desceu dando-lhe espaço para que pudesse enfiar o braço todo, quando Bernardo tentou destravar a porta avistou Raul vindo em sua direção, podia ver o ódio em seu olhos, ele não teria tempo de fazer uma ligação direta na fiação do carro antes de ser pego pela mulher, a provável dona do carro, ou até mesmo por Raul, sem saída ele pegou a boneca tirou o CD e o jogou dentro do carro e novamente disparou a correr em direção as barraquinhas do circo. Olhou para trás e viu que Raul passou pelo carro após esbarrar na mulher e continuou a persegui-lo. Bernardo andava apressado infiltrando-se entre as barraquinhas tentando despistar Raul, por um momento achou que havia conseguido, pois não o viu mais, parou por um momento apoiando-se numa barraquinha vazia, estava exausto, não tanto por correr, mais pela aflição que o consumia. Respirou fundo tinha que ir embora, iria buscar Ágata e os dois teriam pouco tempo para fugir, mas quando se virou teve novamente a visão da morte:
- Raul...
- O que achou que estava fazendo Macau? Você sabe muito bem o fim daqueles que brincam comigo, não sabe? Mas é muito burro pra entender isso, caso contrário, jamais faria a bobagem que fez.
- Eu não tenho CD nenhum, já falei, pode me revistar, eu não sei do que você ta falando, é sério, eu não sei de nada, eu não fiz nada!
- Vou te dar menos de um minuto pra me falar, poupo sua porcaria de vida.
- Eu já disse que não sei do que você ta falando, eu não tenho CD nenhum.
- Seu tempo ta acabando e a minha paciência também
- Raul, por favor, eu to dizendo, eu não fiz nada, acredita em mim.
- Ultima chance. – falou e se aproximou com os olhos fixo nos de Macau percebendo o medo e desespero.
- Não sei, não fui eu, não fui eu... – sentiu algo atravessar-lhe o peito e lhe roubar todo o ar tamanha foi a dor, seus olhos escureceram-se com a última imagem que neles ficaram, Raul com um sorriso satânico empunhando uma pequena pistola, provavelmente equipada com silenciador, pois não ouviu o disparo, apenas sentiu o estrago que fez em seu peito, olhou para sua camisa e uma mancha de sangue se fazendo e tornando-se cada vez maior. Um suspiro doloroso saiu de seus lábios e suas pernas vacilam, ele segura-se na barraca de circo mas suas forças o traem, fazendo com que ele vá de encontro ao chão levando junto a lona da barraca cobrindo parcialmente o corpo já sem vida.
***
Bruno espera ansioso em frente à faculdade a saída de sua namorada Julia. Já olhou no relógio umas vinte vezes, está ansioso por vê-la.
- Julia...Julia.
Ficou lembrando do domingo à noite, quanto combinaram de jantar fora, mas caiu um temporal, resolveram ficar em casa, comeram no quarto enquanto assistiam a um filme de suspense, ela estava visivelmente com medo e ele divertia-se tentando assusta-la, no final acabaram na cama. Ao lembrar de tudo isso, esboçou um sorriso, estava louco de saudade, queria vê-la, abraça-la, beija-la. Seus olhos se encheram de luz quando avistaram o objeto de seu desejo vindo em sua direção. Como estava linda, a mulher mais linda que ele já viu, o coração dele disparou, como se quisesse sair do peito e ir ao encontro da diva em sua frente. Como se adivinhasse o pensamento dele, ela o brindou com um de seus sorrisos. Linda! Lindo sorriso! Sem mais poder se conter ele a abraçou e a rodopiou no ar. O que antes era um sorriso transformou-se numa gargalhada e ele pode ouvir a música do riso dela. Como amava aquela mulher!
- Se você demorasse mais cinco minutos, eu juro que iria invadir essa faculdade e iria arranca-la de lá.
- Se eu soubesse que faria isso, juro que teria ficado, de propósito, só para ver você chegar e me arrebatar em seus braços. – Ele não respondeu nada, cobriu os lábios dela com um beijo cheio de desejo.
- Vamos almoçar juntos?
- Pucha amor não vai dar, eu marquei com a minha mãe no salão, eu não queria ir mas ela insiste na minha opinião sobre o novo corte de cabelo, como se fizesse alguma diferença eu dizer que alguma coisa, ela sempre faz do jeito dela.
- Que pena!
- Pena mesmo, um almoço com você seria bem mais interessante, mas minha mãe faz questão...
- Tudo bem amor! A gente se vê a noite então.
- A noite? Que pena Bruno...acho que não vai dar também! Eu combinei com a Lenita e a Débora. A gente vai terminar um trabalho e estudar um pouco. Mas se você quiser eu desmarco e a gente sai.
- Não... não precisa desmarcar, vai estudar com suas amigas. Eu sei que a faculdade é importante pra você e que você é uma aluna aplicada, eu entendo.
- Você é maravilhoso sabia. – Beijou-o levemente nos lábios.
- Elas vão vir na sua casa e você vai na casa delas.
- O que? Quem?
- Suas amigas. Se você quiser eu posso te levar a casa de alguma delas.
- Não!..É...não precisa, meu pai vai me levar.
- Então não vamos nos ver hoje, será que eu agüento?
- Não vamos estar fisicamente separados, mas meu coração, meu pensamento vai estar com você, você sabe.
- E você sabe que eu não vivo sem você minha linda. – Como um toque final para sua declaração ele a beija apaixonadamente.
***
Ágata sente sufocada em casa na espera de Bernardo, ele saiu a tarde dizendo que já voltaria e já era noite e nenhuma noticia, ela não podia ficar mais naquela agonia, resolveu sair, queria respirar.
Caminhou pela cidade na esperança de encontra-lo, mas a cada passo que dava mais era tomada por um pensamento funesto.
“Aconteceu alguma coisa”.
Sentia em seu coração que algo estava errado, no dia anterior ela e o irmão estavam fazendo planos, iriam embora daquela cidade e teriam uma vida diferente e agora tudo era incerto. Desde que chegaram em Primavera Ágata temia pelo destino do irmão, ela sabia que ele tinha se envolvido com gente de má índule e pior, que andava se comportando como esses delinqüentes, ele já não se importava em conseguir um emprego, dizia que nada iria faltar a ela e que eles teriam uma vida cômoda, queria que ela voltasse a estudar, mas ela se recusou.
“Não quero construir minha formação com esse dinheiro sujo”
Nada de vida fácil. Bernardo vivia atormentado, sempre nas sombras, se escondendo de todos, a vida que ele imaginou ser tranqüila transformou-se na sua incessante agonia. Ágata suplicou para irem embora daquele lugar, mas ele sempre dizia que agora era tarde demais, que ele já estava envolvido e não tinha mais volta. Até o dia em que ele apareceu em casa com um CD, dizendo que essa seria a salvação deles, ali estava gravado todo o esquema de venda de droga para os EUA, esquema que era armado por Raul, o pior pesadelo de Bernardo, mas agora o pesadelo iria chegar ao fim, ele seria livre. Ágata também seria livre, enfim viver uma vida normal, agir como se não estivesse fugindo do mundo, iriam embora e encontrariam a paz. Mas não, nada disso aconteceu, agora ela esta ali, sozinha perambulando pela rua, com uma dúvida terrível em seu coração.
“Será que o Raul descobriu o que Bernardo fez?”
Se isso acontecesse seria o fim de tudo. Sonhos, planos. Ela já nem desejava ir embora, queria apenas que Bernardo aparecesse e acabasse com a aflição que a consumia.
“Bernardo, Bernardo, onde você está meu irmão?”
Avistou de longe uma movimentação estranha no circo, uma aglomeração de gente, carros da polícia. Inevitavelmente pensou que Bernardo poderia estar envolvido, correu até la, a polícia havia cercado uma pequena área e as pessoas não poderiam se aproximar.
- Sabe o que aconteceu? – Perguntou a uma mulher ao lado.
- Parece que a polícia encontrou um homem morto, mas já foi levado daqui.
- Quem era? – Perguntou sentindo seu coração apertar.
- Não sabem, ele estava sem documentos, mas parece que é um homem jovem.
A angustia de Ágata agora parecia retalhar seu coração. Sentiu de súbito uma vontade de chorar, mas conteve-se.
“Bernardo está bem... Bernardo está bem”.
Repetia inúmeras vezes isso, talvez na esperança dela mesma acreditar. Olhou ao redor e avistou um policial segurando um envelope plástico e dentro do envelope uma boneca.
“Não pode ser... é a minha boneca”.
Sentiu sua visão escurecer e o ar lhe faltar, era sua velha boneca de pano, a mesma onde Bernardo havia escondido o CD, deveria estar com ele, mas não, estava ali, nas mãos de um policial, isso significava que seu pior pesadelo aconteceu, Raul descobriu tudo, e se ele descobriu, Bernardo já não estava mais vivo. Ágata sentiu uma dor terrível no peito, uma vontade de gritar e colocar para fora o desespero que a possuía. Agarrou-se em suas ultimas forças e caminhou trocando as pernas, já não disfarçava sua tristeza e seu choro era alto e doído, tentou correr, mas suas pernas não obedeciam, era como se estivesse em transe, vivendo um pesadelo.
“Não pode ser, Bernardo meu irmão...não pode ser...”
Os sons altos da freada de pneus e da buzina de um carro a fizeram despertar. Olhou para o carro e quando percebeu que o motorista iria descer, seu impulso foi correr, precisava ficar só, não queria que ninguém visse sua agonia.
Bruno saiu do carro mas não teve tempo nem se quer de ver direito a menina que quase atropelou.
- Espere! Você está bem. – Ela não ouviu o chamado de Bruno e ele a perdeu de vista.
- Espero que eu não tenha a machucado! Ela parecia tão desesperada.
***
Julia retocou o batom no espelho retrovisor do carro de Lenita enquanto esta prendia o cinto de segurança. Débora era a única das três que parecia reprovar a idéia de passar uma noite rodando as baladas da capital.
- Julia você tem certeza que quer fazer isso?
- Claro que eu tenho, não fui eu quem teve a idéia?
- É que eu tenho medo...
- Medo de que Débora? Que bobagem, a gente só vai se divertir.
- Mas já vai ser uma viagem chegar até a capital e nós ainda vamos ficar perambulando por aquelas ruas perigosas, lá é cidade grande não é Primavera não viu Julia!
- Ahrrr!!!! Claro né! É por isso que a gente ta indo pra lá!
- E se alguém descobrir?
- Ninguém vai descobrir, para todos os efeitos, nós três fomos estudar na casa de uma amiga, se por acaso procurarem pela gente, não vão nem por onde começar. Deixa de ser boba e aproveita! Lenita diz pra essa medrosa que vai ser uma noite inesquecível!
- Relaxa Débora, vai dar tudo certo, ninguém vai descobrir nada! E se descobrirem não tem importância, nós não vamos fazer nada de mais.
- O problema não é esse Lenita. Nós mentimos para todos e isso que eles vão nos cobrar se descobrirem.
- Mas isso a gente contorna! Nós temos é que nos divertir, somos maiores de idade, livres e desimpedidas!
- Nem todas...
- Como assim?
- Nem todas são livres e desimpedidas Lenita...
- Você ta falando da Julia. – Lenita e Débora olham para Julia que parece indiferente ao que elas insinuam. – É um risco que ela ta correndo...
- Você disse muito Lenita. – Replicou Julia calmamente. – Um risco que “eu” estou correndo e da minha vida cuido eu, vocês não precisam se preocupar.
- Tudo bem Julia, o namorado é seu e você deve saber o que faz, mas eu acho loucura, arriscar um namoro com Bruno Camargo!
- Eu também acho! Se eu fosse você não deixaria aquele homem lindo sozinho uma noite sequer!
- Se você fosse eu Bruno não estaria com você. Ele gosta de mulheres quentes envolventes, que façam o sangue dele correr mais rápido nas veias e não me leve a mal, mas esse não é bem o teu estereotipo Débora!
- Não precisa falar assim! Faça o que quiser.
- Faço mesmo! Bruno esta nas minhas mãos. – Faz um gesto apontando para a palma da mão. – Eu sei muito bem como controla-lo, e vamos parar com isso, o tempo urge, vamos logo!
Lenita e Débora ficam espantadas com a frieza de Julia. As três garotas seguiram para capital atrás dos agitos das baladas.
***
“O que eu faço sem você Bernardo?” – Soluçou Ágata enquanto deixava uma flor no túmulo de Bernardo.
Os dias que se passaram desde a morte de Bernardo foram terríveis, após um tempo sozinha Ágata foi fazer o reconhecimento de corpo, ligou para Isabel e pediu para ajuda-la com as providencias para o funeral.
Isabel cursou a faculdade de informática com Bernardo e os dois até tiveram um rápido romance, depois tornaram-se apenas amigos e ela se aproximou de Ágata também.
Já estava tudo combinado com Isabel, Ágata e Bernardo voltariam para Capital e morariam temporariamente com Isabel até se estruturarem melhor, quem sabe Bernardo e Isabel voltassem a namorar, os dois andavam conversando bastante, Ágata percebia que Bernardo ficava horas ao telefone com Isabel e foi para ela que ele ligou no dia de sua morte, avisando que a noite os dois já poderiam se ver finalmente.
Depois da morte de Bernardo, Isabel insistiu para que Agata a acompanhasse até a capital, mas ela recusou, seu irmão estava enterrado naquela cidade e era ali que ela ficaria, pelo menos nos próximos meses, depois ela decidiria o que fazer, tinha esperança que o tempo fosse um balsámo para sua dor, estava enganada. O tempo passou, mas sua dor não.
***
Aquele era um dia movimentado no consultório do respeitado Dr. Raul Sampaio, em sua sala ele acabara de dispensar uma paciente receitando apenas alguns remédios e acalmando-a dizendo que seu caso não é nada sério. Fechou a porta e atendeu o celular que tocava.
- Alo...
- ...
- Pode falar, eu estou sozinho.
- ...
- Eu já não dei as ordens?! – Raul já começou ficar impaciente. – Eu quero que mande alguns homens arrancar alguma coisa daquela garota na capital, foi ela a última pessoa com quem Macau falou. Tenho certeza que era pra lá que iria se eu não o tivesse pego. Essa garota deve saber alguma coisa!
- ...
- Não importa! Apenas dêem um susto.
- ...
- Eu sei que ela não esta com o CD. Macau estava com o CD antes de morrer, deve ter escondido em algum lugar... mas ela deve saber de alguma coisa.
- ...
- Não discuta minhas ordens! Mande alguém até lá e faça o que tem de ser feito.
Raul desligou o telefone muito nervoso, não atenderia ninguém mais naquele dia, seu maior problema era encontrar o CD, onde poderia estar? E com quem? Raul descobriria, disso ele não tinha dúvida.
***
Já haviam se passado três semanas desde a morte de Bernardo e Ágata tinha que reestruturar sua vida, ela sabia que isso seria difícil, apesar de perder os pais quando ainda era criança ela sempre teve o irmão ao seu lado, e agora estava sozinha, ela estava ciente que as dificuldades seriam grandes mas teria que continuar caminhando e o primeiro passo seria encontrar emprego. Senta-se diante da pilha de jornais a sua frente e começa sua busca, circula algumas ofertas que considera interessantes, mas é difícil se concentrar, sente um vazio, uma sensação de abandono, uma vontade de chorar, mas ela havia se decidido não chorar mais, teria que seguir em frente. Não adiantou sufocou um soluço, mas logo percebeu que uma lágrima marcou o jornal em suas mãos, o que faria, estava sozinha, frágil e desamparada. Controla seu choro ao ouvir o barulho da campainha do telefone.
- Alo...
- Ágata é Isabel.
- Oi Isabel.
- Você está bem?
- Dentro do possível.
- Eu não vou poderei te visitar esse final de semana, vou ver meus pais. Meu pai ligou avisando que minha mãe não passou muito bem e eu vou ver como ela está.
- Vai sim Isabel. Vai cuidar de sua mãe eu vou ficar bem.
- Tem certeza? Se você quiser pode vir comigo.
- Não! Não precisa, vai com Deus, eu estou bem. Preciso colocar as coisas em ordem. Vai e não se preocupe.
- Tudo bem. Mas se precisar de alguma coisa já sabe.
- Sei sim. Pode deixar.
- Cuide-se!
- Você também!
***
Isabel fechou a porta malas do carro e caminhou até a porta do carro.
- Droga! Esqueci a o presente da mamãe em cima da cama.
Caminhou para casa novamente, entrou deixou a porta aberta, ela seria rápida, iria apenas pegar o embrulho, ao voltar notou a porta fechada.
- Na certa foi o vento.
Ao força-la para abrir percebeu que ela estava trancada a chave.
- Estranho...Não o vento não tranca a porta com a chave!
- Não mesmo!
Isabel virou-se e deu de cara com um homem estranho parado no meio de sua sala, controlou seu espanto e tentou manter a calma.
- Quem é você? O que faz aqui? Vou chamar a polícia.
- Digamos que você tem coisas a nos dizer.
- Que coisas? Eu não te conheço. - Foi em direção ao telefone mas foi detida pela voz ameaçadora daquele estranho.
- Pois eu acho melhor você ficar onde esta e calar a boca, só abrir quando for responder as perguntinhas que nós vamos fazer!
- Se não sair agora mesmo, eu vou gritar!
Ao dizer isso, Isabel percebeu que os punhos do homem fecharam-se e a expressão dele se encheu de raiva, Isabel fez menção de correr e se trancar no quarto mas o homem barrou sua passagem e levantou uma das mãos, ao fazer isso, mais dois homens apareceram vindos da cozinha.
- Agora você vai falar tudo que o chefe quer saber!
***
Ágata já estava saindo com alguns jornais debaixo do braço, mas foi detida pela campainha do telefone.
- Alo.
- Ágata...
- Eu mesma!
- Ágata...Você...
- Isabel?... – a voz parecia ser de Isabel, mas estava fraca demais, ela tinha dificuldades em distingui-la.
- Cuidado... – A respiração de Isabel estava lenta e ofegante.
- Isabel é você? A voz está diferente, esta acontecendo alguma coisa?
- Ágata...Vieram atrás de mim... foi orrivel...
- O que? O que fizeram com você?! Quem? Quem foi atrás de você?
- Eu não sei...Eles queriam saber de um CD...Falaram do Bernardo...
- O CD... – Ágata agora já fazia idéia quem eram as pessoas que procuraram Isabel.
- Isabel você esta bem? O que eles fizeram com você? Por favor diga alguma coisa!
- Eu vou ficar bem...Eles só ficaram me ameaçando, perguntando coisas que eu não sabia... me apontaram uma arma. – Isabel tentou se controlar mas os soluços revelaram que ela estava aos prantos. – Eu achei que iria morrer.
- Isabel... Mas o que mais eles fizeram? Você chamou a polícia? Esta mesmo tudo bem com você?
- Eu estou bem agora. Eles só queriam me ameaçar... me assustar... não sei...Falaram de Bernardo... eu não sei o que esta acontecendo Ágata...Mas tome cuidado...Eu não mencionei teu nome mas eles podem te procurar...Saia daí...Vá embora!
- Eles não vão me procurar Isabel! – Ágata sabia que Bernardo havia escondido que tinha uma irmã, mas não entendia como eles chegaram até Isabel. – Isabel você procurou a polícia?
- Acabei de ligar, eles já devem estar chegando, mas os bandidos já forma embora.
- Eles disseram mais alguma coisa?
- Perguntaram de um CD e perguntaram se eu conhecia o Bernardo, ficaram me ameaçando, cuide-se Ágata, eles podem te procurar.
- Esta bem Isabel eu vou me cuidar, fique tranqüila.
- Eu vou para casa dos meus pais, acho que a temporada por lá vai ser mais longa do que eu esperava.
- Eu sinto muito Isabel...
- Não precisa Ágata. Olha eu não sei o que Bernardo andava fazendo por aí, mas não quero que me conte, quero continuar com a imagem boa que tenho dele.
- Não importa o que eu disser Isabel você vai ter sempre uma imagem boa dele, porque ele era bom!
- Eu tenho que desligar, a policia esta chegando, talvez a gente não se fale por um bom tempo...Você tem certeza que não quer vi comigo?
- Absoluta! Acredite Isabel eu to muito triste com o que aconteceu com você...
- Não fique, eu estou bem agora... e espero que você também fique bem, eu não sei quem é essa gente, mas eles são capazes de tudo, agradeço a Deus por estar viva e peço a ele por você.
- Isso já é mais que suficiente Isabel. Deus e Santa Clara cuidarão de mim e de você.
Mensagem enviada Jul 19, 2006, 3:27 PM do endereço IP 200.175.4.126
Ágata sentia-se muito sozinha desde a morte de Bernardo, porém encontrou em Juca, amigo de Bernardo um ombro amigo e um apoio para os momentos difíceis que estava passando. Ela lembra-se do dia em que conheceu Juca, ela e o irmão estavam saindo do circo dois dias antes da morte de Bernardo quando Juca aproximou-se e os cumprimentou, Bernardo a principio desconversou e insistiu para irem embora, mas Ágata ficou constrangida com a maneira com que Bernardo tratou Juca e o censurou, Juca foi extremamente simpático com ela e até lhe deu um ursinho que havia ganhado no tiro ao alvo, ela ficou encantada, mas Bernardo novamente interviu e praticamente a arrastou para casa, ela jamais viu o Bernardo daquele jeito, porém depois de conversarem ela pode entender o comportamento do irmão, Juca na verdade também trabalhava para Raul e apesar gostar muito de Juca, Bernardo jamais permitiria nenhuma proximidade dele com a irmã.
“Ele não é uma pessoa má, assim como eu, ele só teve o azar de se envolver com as pessoas erradas... mas, por favor entenda, o mundo em que ele vive é o mundo do qual eu quero te manter afastada.”
Ágata entendeu sim o que Bernardo quis lhe dizer, ele gostava de Juca, tanto que foi o único para quem revelou que tinha uma irmã, mas para mante-la longe de Raul era necessário afasta-la também dos homens de Raul e Juca era um deles. Mas depois que Bernardo morreu Ágata sentia-se tão fragilizada que não teve como recusar a amizade de Juca.
- Você não está sozinha, eu vou te dar todo o apoio que precisar!
- Você não entende Juca. Bernardo era minha única família, ele andava agindo errado, fazendo coisas que, eu sei, não condiziam com a índule dele, mas ele estava decidido a mudar, conversamos bastante, e ele iria mudar, teríamos uma vida diferente...só que...ele não teve tempo para isso.
- Eu sei disso, também conhecia Macau...
- Bernardo, o nome dele é Bernardo, não sei porque vocês o chamavam assim e nem quero saber, mas o nome dele é Bernardo.
- Ta certo. O Bernardo era uma boa pessoa eu convivia com ele.
- E você também é Juca...eu sinto que você também é uma boa pessoa, meu irmão me disse isso e eu confirmo a cada vez que nos encontramos.
- Eu entendo porque Mac...Bernardo queria tanto te afastar dessa sujeirada toda. – Aproximou-se dela e com a ponta dos dedos tocou levemente a pele morna do rosto de Ágata – Você é tão pura...delicada...é o oposto disso tudo. – Ágata levou a mão sobre a de Juca que estava em seu rosto e sorriu.
- Obrigada por ficar do meu lado, se eu estou conseguindo seguir adiante é graças a seu apoio. – Tomou a mão de Juca e a beijou. – Mas você sabe o fim daqueles que se envolvem com Raul.
- Ágata eu peço que não se envolva nisso, você não tem idéia de como é este mundo, é melhor ficar longe de tudo isso. Bernardo se foi mas eu vou continuar fazendo o que ele tanto se empenhou, te manter afastada dessa lama. E não se preocupe, eu sei o que estou fazendo.
- Eu não vou interferir em nada Juca. Também não vou falar mais nada. Estou cansada disso tudo e como você mesmo diz, “sabe o que esta fazendo”. Temo por você, mas de minha boca não sairá uma cobrança, mas eu sei que chegará um momento em que esse caminho que escolheu o levará para longe de mim e eu sentirei muito...Já contava que sua amizade seria uma constante na minha vida.
- E será eu não vou te deixar sozinha Ágata, você ainda vai ser muito feliz, eu te prometo!
Ter Ágata por perto deu um novo sentido a vida de Juca. Ela era um sopro de ar fresco na asfixiante e turbulenta vida dele, e presença dela já trazia mudanças no comportamento de Juca, tanto que aqueles que conviviam com ele já notavam que ele estava diferente, isso despertou a curiosidade de Jurandir seu desafeto. Juca e Jurandir tiveram um desentendimento quando Raul deixou a cargo de Juca a tomada de decisões sobre o comando das Exportações de remédios, na verdade apenas uma empresa de fachada, um meio utilizado por Raul para despachar a droga para fora. Jurandir almejava a tempos esse cargo e sentiu-se “injustiçado”, desde então tem feito de tudo para prejudicar Juca. E o fato de vê-lo sempre feliz, bem-humorado deixou Jurandir intrigado alguma coisa havia acontecido na vida de Juca, e ele descobriria o que era!
***
Os dias estavam passando e Ágata não havia conseguido emprego, isso a preocupava, as economias que Bernardo deixou, supriram cinco meses de aluguel adiantado, despesa com mercado e ela já quase não tinha dinheiro.
Ágata chega em casa de noite, havia procurado por emprego o dia todo, estava exausta...Meche no interruptor, mas a luz não acende, ela suspira pesarosa, na certa sua luz foi cortada, ela também já estava sem telefone a uma semana. Ágata tinha boas noções de informática, apesar de não ter concluído sua faculdade, o que aprendeu lá e o que Bernardo lhe ensinou davam a ela uma boa carga de conhecimento e ela poderia perfeitamente trabalhar nessa área, mas do jeito que as coisas estavam caminhando, ela ficaria aliviada em conseguir qualquer emprego. Caminhou em meio a escuridão até o quarto sombrio, jamais imaginou que um dia sua vida seria desse jeito, abriu a janela do quarto e deixou que a luz da lua iluminasse um pouco o ambiente, encostou-se na janela e ficou repassando os últimos acontecimentos de sua vida.
“O que vai acontecer comigo...”
Ela havia tentado falar com Isabel dias atrás, mas ela ainda não havia voltado de viagem, talvez não voltasse, ela pensava, o ataque dos homens de Raul a deixaram com receio e na certa quando ela contou para família o que havia acontecido, não permitiram que ela voltasse.
“Foi muito bom ser sua amiga Isabel... Mas eu acho que agora cada uma seguira seu rumo, você já encontrou o seu e eu procuro o meu...”
Ela não tinha muitas lembranças de seus pais, era muito pequena quando eles morreram, mas Bernardo havia cumprido bem o papel de “pai e mãe” dela, isso explica a veneração dela por ele e imensa falta que sentia. Juca tornou-se importante para ela, ele amenizava a tristeza dos dias vazios que se seguiram depois da morte de Bernardo, mas o coração de Ágata ainda busca uma razão, um caminho, um motivo que o faça acelerar, mas de felicidade... Fatalmente uma lágrima fria molha o rosto branco de Ágata enquanto o brilho de prata da lua iluminava seus olhos tristes.
***
- É um presente esplêndido senhor. – Comentou empolgado o joalheiro.
- É sim... Espero que ela goste... – Murmurou Bruno para sim mesmo. Ele desejava sinceramente agradar sua mãe, isso normalmente não seria uma tarefa difícil para um filho, mas com ele era diferente, sempre foi.
- É claro que sua mãe vai gostar, que mãe não gostaria de ganhar um presente de um filho, ainda mais um colar como este, é uma peça magnífica!
- Vou levar!
- Excelente escolha!
O aniversário de Renata estava chegando e Bruno queria impressiona-la, ele sabia o quanto sua mãe gostava de jóias, e o colar que escolhera para dar a ela era realmente exuberante, seria impossível ela não gostar, Bruno conhecia bem o gosto refinado de sua mãe e cada vez mais se convencia que ela ficaria feliz com o presente e quem sabe ficasse feliz pelo gesto dele. Desde a adolescência ele percebia a distinção no tratamento que Renata dava a seus filhos, João, o mais velho era claramente o preferido dos filhos, sensato, equilibrado, tinha porte de lorde, uma cabeleira negra espessa e intensos olhos azuis, como os de Renata, seguiu a profissão que ela tanto desejou, era médico, morou na França nos últimos quatro anos e foi lá que fez sua especialização, voltou a poucos dias e desde então Renata não faz outra coisa a não ser rodeá-lo de cuidados, ela tinha indisfarçável orgulho desse filho. Elisa era a mais nova, tinha apenas 17 anos, era doce, tímida, cabelos louros levemente ondulados, fisicamente igual a Renata a não ser por seus olhos que eram escuros como os de seu pai Franco, nos últimos dois anos foi para França estudar onde ficou com o irmão, João. Às vezes Bruno percebia que Renata também parecia indiferente a Elisa, apenas indiferente, porque com ele, ela fazia questão de entrar em atrito. Bruno, o filho do meio, fisicamente parecido com o irmão, o mesmo azul intenso nos olhos mas tinha os cabelos um pouco mais compridos, característica talvez de sua rebeldia, Bruno era indomável, seguia seus impulsos, porém tinha a alegria e a descontração como marcas de sua personalidade, falava o que pensava e ria quando queria, era seguidor de seus desejos, e alguns deles incomodavam sua mãe, talvez por isso os dois tivessem tantos atritos, para Renata, Bruno era apenas um sonhador, mas para Bruno não havia nada de errado em sonhar e em lutar pelos sonhos, mas no momento ele lutava mesmo era para quebrar o muro que se ergueu entre ele e sua mãe, tudo que queria era se entender com ela, e um presente como o que ele havia comprado seria um bom começo para uma trégua. Chegou em casa empolgado carregando o embrulho nas mãos quando foi surpreendido por Renata impaciente a procura de João.
- João?... Ah! É você... – Suspirou desanimada ao ver que se tratava de Bruno, - Não encontrou seu irmão na cidade?
Bruno tentou colocar o embrulho no bolso do paletó ao ver que não cabia, disfarçou e levou as mãos para traz escondendo o presente, mas Renata não percebeu nada, ou talvez não tenha dado importância.
- Não vi João hoje, mamãe.
- Estranho...Ele disse que iria até o escritório falar com seu pai... Ele não esteve lá?
- Não...Pelo menos durante o tempo que eu estive lá. Eu tive que sair a tarde, talvez ele tenha passado por lá nessa hora. – Bruno percebeu que Renata parecia não estar prestando atenção ao que ele falava. – Eu fui até Rio Azul hoje e...
- Não...João disse que passaria no escritório de manhã e a tarde iria visitar o hospital...
- Já ligou no escritório perguntando?...
- Aonde será que ele foi... O celular não atende...Será que aconteceu alguma coisa...
- Claro que não! Na certa ele deve estar dando uma volta por aí, ficou tanto tempo fora... não entendo porque se preocupa tanto! O trata como se fosse uma criança!
Bruno conteve-se ao ver que Renata o lançou um olhar de desaprovação.
- Se por acaso João aparecer diga estou no meu quarto e que quero falar com ele.
Bruno tentou mas não conseguiu abafar seu desapontamento pelo indisfarçável favoritismo de seu irmão no coração de sua mãe.
“João... é sempre João!”
Renata não fazia a menor questão de disfarçar que João era o predileto dentre os filhos, Bruno e Elisa sempre ficaram em segundo plano, Bruno ainda mais que Elisa, talvez pelo fato dele não aceitar e questionar tal comportamento de Renata. Melancólico Bruno lembra-se da primeira vez que enfrentou Renata tentando entender porque ela era tão indiferente a ele e Elisa.
“Quando era criança tinha impressão que João era seu filho predileto, ignorei por achar que era ciúmes bobo de irmão, que era apenas coisa de criança, mas agora depois de adulto eu vejo que a senhora realmente se importa mais com ele, não é mais impressão é a realidade..”
“Não seja tolo, você esta sendo infantil!”
“Estou apenas dizendo aquilo que todos percebem... só não entendo porque... porque tem tanta dedicação com João, até Elisa você acaba deixando de lado às vezes, ela é só uma menina.”
“Se você fosse maduro como seu irmão não ficaria se fazendo essas perguntas. Trato cada um como merece! João sempre foi responsável, dedicado nos estudos, formou-se com honras, nunca me deu desgosto algum é natural que o trate com zelo. Elisa como você mesmo disse é só uma menina, ainda tem muito que aprender e não é passando a mão na cabeça dela que eu vou prepara-la para a vida, e...”
“E quanto a mim? O que a senhora diz de mim?”
“Você ... uma incógnita para mim...”
“Não entendo...”
“Parece que sente prazer em me contrariar.”
“Como?”
“Desde criança, você nunca me obedeceu, sempre fez pirraça, sempre foi problemático, sempre fez o oposto daquilo que eu queria.”
“E acha que fazia isso para te contrariar?! Nunca pensou que talvez eu fizesse tudo porque era aquilo que eu queria fazer. Nossos gostos são diferentes Dona Renata, bem diferentes e se eu me comporto de uma maneira diferente daquela que a Senhora quer não é para irrita-la, estava apenas seguindo minhas vontades, meus desejos, meus sonhos...”
“Sonhos! E alguém vive de sonhos?! Você fala dessa sua banda de rock não é?”
“Sim! É o que eu gosto de fazer! Mas nem por isso deixei de estudar, me formei em Direito e tenho o meu trabalho, mas nunca, e que isso fique bem claro, nunca vou abandonar minha banda!”
“E você ainda questionada a maneira como eu te trato. Quando você deixar de lado todas essas bobagens de adolescente e começar a se comportar como um adulto de verdade, talvez eu pense em trata-lo como tal.”
E desde que Bruno começou a rebater a indiferença de Renata os dois vivem em constante atrito, e depois da chegada de João, a distancia entre eles aumentou. Ao menos tinha o apoio de Franco seu pai, dos irmãos, a preferência de Renata por João não afetou o relacionamento dos dois irmãos, tinha o carinho de Vilma, seus companheiros da banda, e sua amada. Julia!
***
- Tinha que ser tão cedo Bruno? – Reclamou Julia virando-se para olhar a paisagem por onde passavam, enquanto Bruno dirigia animado.
- São dez da manhã Julia! – Pegou a mão dela e levou até a boca para um suave beijo. – E você não vai se arrepender, vai ser um dia maravilhoso.
Ela olhou para ele e forçou um sorriso.
- Anime-se! Eu prometo que vou fazer desse dia um dos mais felizes da sua vida!
- Vai ser um dia muito bom sim. Você vai estar comigo...
- Nós chegamos no hotel, tomamos café, vamos conhecer a cidade, visitar os pontos turísticos e a noite eu te levo para jantar num restaurante fantástico.
E foi o que ele fez, a rodeou de cuidados, a tratou como uma rainha, porém não pode deixar de notar que ela parecia apática a tudo isso, em alguns momentos a achou até entediada, isso o frustrou um pouco, mas ela percebeu isso e a noite tratou de persuadi-lo e anima-lo com carinhos, beijos, usou todo seu poder de sedução e novamente ele se deixou levar pelos encantos da astuta garota.
***
Ágata aguardava apreensiva a volta da supervisora de produção da empresa aonde foi fazer uma entrevista. Ela era uma senhora alta, um pouco acima do peso com olhos grandes e cabelos tingidos. Ágata não estava muito esperançosa, pois achou que não agradou na entrevista, em nenhum momento recebeu um sorriso ou um olhar mais ameno por parte da senhora que lhe entrevistara, pelo contrário, parece que a mulher a já havia a reprovado com olhar, as atitudes dela eram frias e distantes. Após a entrevista ela saiu dizendo que iria fazer um telefonema e voltaria com a resposta, Ágata já temia uma resposta negativa, e caso isso se confirmasse, ela teria que ir embora de Primavera, tentar alguma coisa na cidade grande, seria triste ir embora e deixar Bernardo para trás, não teria uma lápide onde chorar e isso era o que mais concreto ela tinha dele, por mais que tivesse vivenciado os momentos mais difíceis de sua vida em Primavera, ela se sentia como se deixasse um pedaço dela ali, caso fosse embora. Ágata estranhou os próprios sentimentos, era assustador pensar que estivesse presa àquela cidade pela lembrança da morte de seu irmão, era isso realmente que a prendia? O mais sensato seria ir embora desse lugar infeliz e deixar com ele todas as recordações amargas que a atormentavam, mas algo a prendia ali... Seria as memórias de Bernardo? Mas afinal, as lembranças mais belas dele estavam enraizadas no coração de Ágata e ela as levaria para onde fosse. Então o que era?
Os pensamentos dela foram interrompidos pela chegada da mulher com quem fez a entrevista, que se sentou a sua frente com a expressão um pouco mais branda, mas mesmo assim fria.
- O emprego é seu.
Ágata mal pode conter o alívio que sentiu, finalmente um emprego, não era o que Ágata sonhou, não era o que Bernardo sonhou para ela, mas era um emprego, teria seu dinheiro dignamente, ela nunca trabalhou sequer imaginou-se trabalhando no colheita de maçãs, não tem noção alguma disso, mas tinha muita vontade de trabalhar e isso no momento era o suficiente, ao menos a empresa em que trabalharia, era grande, de prestígio e renome, “Agrícola Fonteli”, Ágata não se importaria em trabalhar no campo, sua força de vontade e necessidade de ter um trabalho a impulsionariam, e a própria Supervisora do setor de produção afirmou que caso ela se saísse bem, poderia com o tempo subir de posição e atuar internamente na empresa. Ágata enfim conseguiria trilhar um caminho, agora poderia organizar sua vida.
- Muito obrigada mesmo Dona Abigail, eu prometo que não vou decepciona-la!
- Espero... – Os olhos da mulher se estreitaram desafiadores. – Espero...
***
Juca esperava Ágata do lado de fora da sede da empresa, estava preocupado, ele sabia o quanto era importante para ela conseguir esse emprego. Não se conteve e foi ao encontro dela quando a avistou saindo.
- E então?!
- Consegui Juca! O emprego é meu!
Ele a abraçou e a girou no ar. – Eu sabia!
Os dois comemoravam extasiados e em meio a tanta alegria um beijo...
Na boca...
- Desculpa....desculpa Ágata...eu me deixei levar...não queria me aproveitar de nada...
- Tudo bem... – Ela sorriu sem graça e o tocou no rosto. – Você tem sido fundamental pra mim Juca e eu já te conheço o suficiente para saber da sinceridade dos seus sentimentos...
- Por você Ágata...meus sentimentos por você!
Ela olhou para ele sensibilizada e confusa, sabia que ele a estimava muito, mas a expressão do rosto de Juca estava diferente, ela sentiu que ele revelaria algo, mas era isso que ela temia, não saberia como agir. Guiada pelo receio que a tomou Ágata se afastou, mas mesmo assim o fitou compreensiva.
- E você não faz idéia da dimensão desses sentimentos Ágata! Você é o que de mais bonito existe na minha vida! Eu sinto que eu sou uma pessoa melhor quanto estou perto de você. – Ele virou-se ficando de costas para ela, como se sentisse imensamente envergonhado pelo que iria dizer. – Eu tenho muitos defeitos... você sabe que a minha vida tomou um rumo do qual eu me envergonho e...
- Todos nós temos defeitos! E o Juca que eu conheço é melhor que muita gente que se acha perfeita!
- É tão bom ouvir isso...Faz eu me sentir menos pior!
Ela se aproximou novamente ao sentir a tristeza nas palavras dele, o tocou no ombro, ele fechou os olhos sentindo o calor do toque dela e instintivamente levou sua mão sobre a dela.
- Eu faço muita coisa errada Ágata... Trabalho para um homem abominável! Sou um dos encarregados da administração de uma empresa de fachada. – Ela apertou a mão junto ao ombro dele e ele desvenciliou-se se afastando dela. – Não pense que eu faço isso porque quero! Mas infelizmente a vida não é fácil com a gente.
- Eu não penso nada Juca. – Disse Ágata enquanto se afastava. – Eu não quero pensar nada, isso tudo meche em uma ferida ainda não cicatrizada no meu coração, eu lembro que foi por tudo isso que perdi meu irmão, tudo que eu quero é esquecer que existe esse lado obscuro. E também sei que a vida não é fácil! Nem para você, nem para mim e acredite para a maior parte das pessoas – Se aproximou novamente. – Mas me entristece muito saber que você faz parte disso tudo, meu irmão fazia e você sabe como tudo acabou...
- Comigo vai ser diferente. Raul confia em mim e isso já é uma garantia!
- Garantia de que? Ah Juca...Eu temo por você...Rezo todos os dias para que possa ver seu rosto mais uma vez!
Juca virou para encara-la. Um suave sorriso deliniou-se em seus lábios.
- Você é admirável Ágata! É tão bom estar com você. A única pessoa que conheço e que não fica me recriminando.
- Mas isso não quer dizer que concorde com sua vida ou ache certo o que esta fazendo, muito pelo contrário.
- Eu sei disso. E Bernardo tinha razão quando dizia que você era especial... A melhor coisa que aconteceu na minha vida foi ter te conhecido Ágata!
- Você é importante para mim também Juca, se não fosse sua amizade eu não teria superado a morte de Bernardo.
- Só por isso? – Aproximou-se mais dela olhando fixo em seus olhos. – Eu queria mais... porque para mim esse sentimento é mais que amizade... – Tocou o queixo dela e aproximou o rosto para um beijo, mas ela suavemente virou o rosto. – Ágata você é tão especial para mim... mas eu sei que você merece coisa melhor... – Disse isso e se afastou dela ficando de costas novamente.
- Não é assim...não por isso. Eu já não te disse que você é melhor que muita gente que conheço? Eu estou sendo sincera! Você é uma pessoa maravilhosa e me ajudou e esta me ajudando muito, você é muito importante na minha vida Juca!
- E você é tudo na minha vida! – Virou e ficou de frente para ela olhando-a nos olhos. - Ágata eu te amo!... Amo como jamais imaginei amar alguém!... Mas eu sou tão pouco para você... – Abaixou a cabeça tentando esconder a tristeza em seus olhos.
Uma ponta de remorso invadiu o coração de Ágata, tudo que ela não queria era fazer Juca sofrer. Afinal, ele esteve ao lado dela depois da morte de Bernardo, a apoiou no momento mais difícil de sua vida. Ela não poderia decepciona-lo, jamais o magoaria!
- Eu...eu nem sei o que dizer Juca... – aproximou-se mais dele e o tocou no rosto fazendo-o a encarar.
- Não precisa dizer nada, só me de a alegria de vê-la, de ouvir sua voz e saber que você nutre algum sentimento por mim, mesmo que seja só amizade...
- Acho que posso te dar mais...
Ela o encarou com olhos piedosos e o beijou suavemente.
Mensagem enviada Jul 19, 2006, 3:29 PM do endereço IP 200.175.4.126
Julia adentra a ampla sala da luxuosa residência dos Camargo recebida por Vilma, governanta da casa.
Aproximava-se do meio dia e ela sabia que Bruno não viria almoçar em casa naquele dia, mas isso não seria problema, não era exatamente para ver Bruno que ela veio até aquela casa.
- Gostaria de beber alguma coisa enquanto espera. – Perguntou polidamente Vilma.
- Água apenas.
Vilma fez um gesto condescendente e se retirou da presença de Julia como se fizesse um favor a si mesma. Tentava disfarçar ao máximo sua antipatia por ela. Não havia motivo concreto mas sua intuição dizia que Julia não era a mulher certa para seu menino. "Seu menino"... era assim que Vilma via Bruno, tinha por ele um carinho, um cuidado que se tem a um filho, era notável a preferência dela por ele dentre os filhos de Renata, era como se ela quisesse preencher todo o vazio do desinteresse da mãe. A recompensa por tão belo gesto? O amor filial de Bruno.
- Vilma!
A voz de Julia ecoou e deteve Vilma prestes a sair da sala.
- Sim...
- Bem gelada... Quero minha água bem gelada. Esta muito quente hoje.
- Pois não.
Julia caminhava pela elegante sala, distraindo-se com a decoração alinhada quando seus olhos avistaram um objeto que concentrou sua atenção...Um porta retrato. Suspirou e o apanhou. Seus dedos tatearam o rosto daquela moldura enquanto seus lábios sorriam de satisfação. Rapidamente abriu o porta retrato e retirou a foto de Franco Camargo, pai de Bruno, olhou para os lados e guardou a foto na bolsa.
Vilma entrou na sala trazendo o copo com água para Julia, mas a garota disse que havia perdido a sede e iria esperar por Bruno no quarto dele, não deu tempo para que Vilma argumentasse nada e já foi subindo as escadas em direção ao andar dos aposentos.
No corredor Julia deparava-se com várias portas, mas ela sabia muito bem em qual quarto iria entrar e não era no de Bruno. Parou em frente ao quarto mais amplo da casa, cuidadosamente abriu a porta e entrou, era muito mais do que ela imaginava, ela tinha que admitir, Renata tinha mesmo muito bom gosto para decorações e para homens. Caminhou pelo quarto reparando nos mínimos detalhes, olhou outro porta retrato dessa vez com a foto de Franco e Renata juntos, pegou decididamente o objeto e virou com a imagem para baixo, continuou a olhar o quarto e parou diante da cama, tudo que ela ultimamente andava fantasiando agora parecia mais forte do que nunca, tomando conta de seu corpo.
- Então é aqui... – Murmurou enquanto calmamente sentava-se na cama. – é aqui que os dois fazem amor. – Suas mãos começaram a alisar a colcha macia. – Renata é uma mulher de muita sorte. – Vagarosamente deitou-se na cama. – Será que ela sabe a sorte que tem?... – Ainda alisando a colcha, ela fecha os olhos e sua mente busca a imagem do dono daquela cama e de seus desejos mais picantes, ela o imagina ali deitado ao seu lado. – Como seria ter um homem como Franco Camargo?...
O devaneio de Julia foi interrompido pelo som da porta se abrindo.
Franco ficou surpreso e desconcertado com a cena que viu ao entrar em seu quarto.
- Julia?! O que faz aqui? – Perguntou ele ainda tentando entender o que a namorada de seu filho fazia deitada na sua cama.
- Dr. Franco! – Sentou-se rapidamente na cama. - Desculpa...me desculpa. Eu não me senti muito bem, estava indo até o quarto de Bruno e senti uma tontura muito forte, achei que iria cair no corredor mesmo, precisava me deitar e a porta de seu quarto estava aberta eu agi sem pensar, apenas entrei e me deitei.
Franco aproximou-se dela com um ar de preocupação.
- O que esta sentindo? Quer que chame um médico?
- Não... Não é necessário. – Fez menção de levantar-se, mas simulou outra tontura, Franco foi em seu auxílio e ela aproveitou a oportunidade para senti-lo junto de si. – Acho que é fome.
- Fome?...
- É... Eu não almocei, aliás, ainda não comi nada hoje.
- Vou pedir para Vilma trazer alguma coisa para você comer, continue deitada.
- Não... Eu já estou me sentindo melhor. Acho que sua presença aliviou o mal estar...
- Por favor, fique deitada, eu peço para trazer alguma coisa e você come aqui em cima mesmo.
- Não Dr. Franco, eu já estou melhor.
Franco consentiu com a cabeça.
- Veio almoçar em casa então? – Perguntou ela tentando ser o mais doce possível, Bruno havia comentado com ela que ele não viria almoçar em casa, mas seu pai sim.
- É. Está tudo tranqüilo no escritório que até sobrou um tempinho para vir em casa... Mas acho que você perdeu seu tempo vindo até aqui, Bruno não vem almoçar em casa hoje.
- É mesmo! Que pena Dr. Franco. – Lamentou dissimuladamente. – Eu achei que o veria aqui.
- Ele iria almoçar com alguns amigos.
- Então se é assim eu posso lhe fazer companhia?... Acho que não vou agüentar esperar até chegar em casa para almoçar, minhas pernas estão bambas...
- Claro que pode! Eu é que não a deixaria sair depois de vê-la passando mal por ainda estar sem comer. Almoçaremos juntos então! Renata disse que iria almoçar com João e Elisa então seremos só nós dois, não tem problema não é?
- Problema algum... – Comentou sorridente enquanto saiam do quarto. – Será um prazer.
Sentado à mesa, Franco falava descontraidamente o quanto Bruno era fundamental para ele no trabalho, Julia o observava encantada, ele parecia nem notar o fascínio que exercia sobre a garota.
“Quem homem maravilhoso! Não entendo como Renata pode ser tão fria e mal humorada dormindo e acordando todos os dias ao lado de Franco Camargo!”.
- Ah me perdoe...Estou entediando você Julia...
- Não! É claro que não!
- Você me parece tão distante...
- Estava só admirando...
- Admirando?
- Sim! Admirando o Sr. Tão responsável, tão dedicado... D. Renata é uma mulher de muita sorte!
- Obrigado. – Agradeceu cordialmente. – Mas você também é uma menina de muita sorte viu?... Não é por ser meu filho, mas tenho que dizer que Bruno é um garoto de ouro!
- Ele tem a quem puchar! São os bons genes que recebeu do Senhor.
- Vou te pedir uma coisa.
- O que quiser. – disse ela mascarando o ar sedutor com a expressão mais doce possível.
- Não me chame mais de senhor e nem de doutor, ao menos não aqui. Não sou assim tão velho. – Brincou piscando apenas um olho. – E doutor eu sou somente quando estou no trabalho. Agora aqui em casa, ou com minha família e você já é praticamente da família, nada de senhor ou de doutor, sou apenas Franco.
- Certo... Franco.
“Meu Franco, meu adorável Franco!” – completou ela em pensamento.
***
Ágata alisou mais uma vez o uniforme e se dirigiu ao escritório de D. Abigail.
- Com licença. – Disse ela já entrando.
- Bem... Acho que você já entendeu quais são suas funções aqui não é?
- Sim eu já entendi. Vou para a colheita junto com o grupo ao qual fui designada e lá vou encontrar o líder que me ensinara às noções básicas para a colheita.
- Isso... Não deve se dispersar do seu grupo! Cada grupo cobrira uma área correspondente, também não deve se afastar de sua área de trabalho, caso tenha que fazer isso, deve comunicar o Fábio. Por questões de disciplina as conversas entre os trabalhadores do grupo devem ser breves e estritamente necessárias e conversas entre os grupos não serão permitidas, certo?
- Certo D. Abigail.
- Ótimo! Então pode sair e procurar pelo Fábio, ele vai instruí-la.
- Agora mesmo, com licença.
- Ágata!
- Pois não...
- Eu preservo a ordem no meu setor de trabalho. Gosto de ver bons resultados, produtividade e a satisfação dos diretores. Sabe porque? – Ágata apenas a olhou, mas não manifestou resposta alguma. – Porque a satisfação dos diretores, é satisfação para mim também, e com o tempo você vai ver que tudo que os empregados querem é me ver satisfeita, isso traz menos problemas para eles. E pra isso acontecer tudo tem de estar em ordem... Em ordem! Como você bem sabe, essa é uma empresa de renome e tradição na cidade e ela não alcançou esse título facilmente. A ordem foi fundamental na conquista desse posto de respeito, e manter a ordem aqui, não é tarefa apenas da gerência, ou dos lideres, começa já com vocês... – Abigail mediu Ágata da cabeça aos pés e concluiu. -... O proletariado. – Ágata arregalou os olhos, mas conteve a indignação. – Então também é sua tarefa manter a ordem! Você me entendeu?...
- Eu entendi D. Abigail e... Não se preocupe que a ordem será mantida!
- Não estou preocupada. Quem tem que se preocupar é você!
Ágata retirou-se do escritório sentindo que mais difícil que manter a ordem no trabalho, seria a convivência com Abigail, mas ela já havia passado por coisas muito piores, driblar o autoritarismo de Abigail não poderia ser tão difícil assim, pensava ela.
- Seja bem vinda! – Disse Fábio enquanto se aproximava com um sorriso gentil. – Dona “Sargentona” é durona, mas os recrutas são bem amistosos.
- Obrigada
- Eu sou o Fábio!
- Prazer Fábio eu sou Ágata, a nova “recruta”.
- Não liga para D. Abigail não, viu Ágata. Ela tem esse jeito severo sempre e é com todos nós.
- Animador ouvir isso...
- Desculpa... – Ele riu do próprio vacilo. – Eu só quero dizer que não é que ela não gostou de você, ela é fria mesmo. Nós achamos que ela faz de propósito, como se estivesse sempre nos testando, vendo até onde vai nosso autocontrole.
- Se depender da minha situação financeira, meu ato-controle não terá limites.
- Eu particularmente acho que ela é severa assim por ser mulher.
- Não compreendo...
- Ela é chefe do setor de produção e esse era um cargo antes só ocupado por homens, então eu acho que ela tenta impor respeito, mostrar pulso firme sendo cada vez mais enérgica com os funcionários.
- Acho que ela não precisaria ser tão fria assim para impor respeito.
- É... Acho que ela impõe é medo!
- Em mim não! Aquele jeito dela não me assusta.
- Sabia que ela entrou aqui trabalhando no pomar de maçãs, era colhedora.
- É mesmo?... Jamais imaginaria.
- Até que caiu nas graças da D. Silvia, a dona da Agrícola e foi promovida, alguns anos depois. Isso surpreendeu algumas pessoas, ninguém imaginaria que um funcionário do campo chegasse a chefe de produção, ainda mais sendo mulher. Ainda bem que as coisas estão mudando com a escolha da nova diretoria.
- Tudo que quero é me adaptar e conseguir levar meu emprego adiante.
- Fique tranqüila eu vou te ajudar. Vou te ensinar como é o trabalho na colheita, não é tão pesado quanto parece, viu?
- Mesmo se fosse pesado, não teria problemas, eu não tenho medo de trabalho, Fábio!
- Ótimo. Esta para ser eleita uma nova diretoria na empresa, ta um clima de competição entre os diretores, um querendo apresentar melhores propostas que o outro e isso é bom para nós empregados.
- Como assim?
- Estão implantando uma nova política de aproveitamento de mão de obra. Se você se sair bem, trabalhar direitinho, tem grandes chances de subir de posição na empresa.
- Que bom! Empenho da minha parte não vai faltar.
- Se você tiver qualquer dúvida ou precisar de alguma coisa pode contar comigo. E me veja como um amigo e não apenas um colega de trabalho.
- Obrigada Fábio...Meu amigo Fábio!
Ágata se afeiçoou a Fábio logo de início, ele tinha cara e jeito de menino, era simpático, brincalhão e ela sentia que podia contar com ele. Sua intuição dizia que ele seria sim seu amigo. Fábio o menino de bom coração!
***
Ágata estava cada vez mais entusiasmada com o trabalho na Agrícola, era um trabalho um pouco cansativo, ela não estava acostumada a esse tipo de serviço, mas pelo menos ganhava seu dinheiro dignamente, tinha com o que ocupar seu tempo, quando chegava em casa estava cansada, tomava um banho e dormia, não tinha tempo para ficar se torturando ainda mais com suas lembranças tristes, estava conseguindo sobreviver depois da catástrofe que se abateu sobre ela com a morte de seu irmão. Estava até gostando do trabalho, tirando o mal-humor de Abigail, era bom trabalhar lá, conheceu muita gente, ouviu muitas histórias, mas jamais contou a sua, ninguém poderia saber sobre Bernardo, ela sabia que o que o irmão fazia estava à mercê da lei, ninguém poderia saber também sobre Juca, ele levava a mesma vida que levou Bernardo.
Fábio era o maior incentivador de Ágata no trabalho, ela já havia evoluído muito e graças à dedicação do amigo. Os dois se tornaram muito próximos, e foi ele, a primeira pessoa para quem Ágata contou que seu irmão foi assassinado, logicamente omitiu os motivos, contou também que estava namorando Juca, ela sentia que Fábio era realmente seu amigo e por isso se sentia à vontade com ele, talvez com o tempo, ela se abrisse de vez com ele. Por várias vezes Fábio a acompanhava até em casa e no caminho eles conversavam muito, essa proximidade até deixou Juca enciumado algumas vezes, mas ele percebeu que o que unia Ágata a Fabio era apenas uma sincera amizade e foi justamente a essa bonita amizade que fez com que Fábio se abrisse com Ágata e revelasse a paixão secreta e avassaladora que nutria por uma jovem, irmã de um dos diretores da Agrícola.
- Eu sei que é loucura tudo isso que eu sinto, mas... Não dá, eu não consigo deixar de ama-la, já tentei, juro que já tentei, mas aquela menina me enfeitiçou.
- Mas Fábio, porque você quer deixar de ama-la? Que mal tem nisso?
- Ágata você não entende? Ela é irmã do Dr. Adriano, um dos diretores e eu... Eu sou apenas um trabalhador braçal dos pomares de maçã.
- E o que é que tem isso?
- Você ainda pergunta? Eu não teria nenhuma chance...
- Porque não? Você tem um trabalho digno é honesto, integro...
- Mas sou um pobretão não tenho nada a oferecer a ela!
- Tem o seu amor!
- Infelizmente isso não é o suficiente... Ela é tão linda... – Enquanto Fabio falava seus olhos brilhavam como nunca Ágata tinha visto. - Tão graciosa... – De repente como se lembrasse de algo, o semblante de Fábio se escureceu. – Mas nunca se quer olhou para mim. Claro! Como uma garota como ela poderia olhar para alguém como eu.
- Talvez você nunca se deixou ser visto por ela...
- Já passei por ela várias vezes, me desmanchei em sorrisos e a cumprimentei e ela parece que nem me enxergou.
- Vou ser sincera com você Fábio... Se essa menina nunca te olhou só pelo fato de você ser um colhedor da Agrícola, ela não te merece!
Fabio olhou afetuoso para a amiga com um sorriso de agradecimento.
- Só você mesmo Ágata...
- Essa garota não sabe a sortuda que é, viu?
- Você ainda vai conhece-la. Ela vem sempre na Agrícola. Ela é incrível sabia?
- Nossa quanta empolgação! Como é mesmo o nome dessa beldade? – Brincou Ágata.
- Julia!... – Disse Fábio solenemente. – O nome da minha amada é Julia! Linda! E pra complicar mais ainda, ela é comprometida com o filho de outro diretor da Agrícola.
- Comprometida...Com filho de diretor. É Fábio você gosta de desafios. – Brincou Ágata novamente. – Aposto que esse tal filho do diretor é um “mauricinho” que acha que pode tudo só porque tem um cartão de crédito.
- Não Ágata... Justamente o contrário, mas você também vai conhece-lo, ele trabalha aqui na Agrícola, junto com o pai.
- É mesmo... Como ele se chama?
- Bruno. Dr. Bruno Camargo.
- Bruno... – Murmurou Ágata sentindo sua pele arrepiar como se fosse um presságio. Seria um presságio bom ou ruim? Pensou ela.
Mensagem enviada Jul 21, 2006, 6:13 PM do endereço IP 200.139.121.13
A simpática Liliane sorriu ao ver o amigo Bruno descendo as escadas de sua bela casa, o rapaz retribuiu o sorriso da amiga. Ele vestia uma calça sarja peletizada Caqui e uma camisa crepe italiano azul claro, estava perturbadoramente mais bonito assim, casual, tranqüilo, fora daquele ambiente formal do trabalho. Seus cabelos estavam molhados, e Liliane percebeu que ele tinha acabado de sair do banho ao sentir o cheiro suave do xampu quando o beijou carinhosamente no rosto.
- Que bom te ver aqui Lili! – Cumprimentou sorridente o rapaz.
- Tinha que te ver, já fazia muito tempo que eu e meu melhor amigo não conversávamos.
- É... Eu sei e a culpa é minha. Eu estou sempre atolado no trabalho e quando sobra um tempinho eu me encontro com a banda. Meu dia teria que ter umas 36 horas para que eu pudesse faze fazer tudo que tenho vontade. Até a Júlia já reclamou que eu não tenho tempo nem pra ela.
O sorriso no rosto de Liliane desmanchou-se instantaneamente ao ouvir o nome de Julia, mas imediatamente ela disfarçou seu descontentamento e Bruno nem percebeu.
- Mas hoje você irá de me conceder alguns dos seus preciosos e raros minutos de folga, não é Bruno?
Bruno ergueu as duas mãos como se estivesse se rendendo.
- Hoje eu estou por sua conta, Lili.
Liliane sorriu e abraçou o amigo os dois seguiram para a cozinha. Bruno conversava descontraidamente e Liliane o olhava encantada.
- Eu mesmo vou preparar alguma coisa pra gente comer, o que acha?!
- Acho uma ótima idéia! Eu já conheço seus dotes culinários e já estou com água na boca.
- Bem... Você gosta de queijo não é? Então vou fazer um sanduíche de camembert.! E um suco de abacaxi com hortelã!
Para Liliane, Bruno era um homem sensacional, ele reunia as melhores qualidades de todos os ex-namorados que ela teve. Ela tinha uma devotada amizade com ele e se o rapaz não estivesse tão envolvido com o trabalho, a banda e principalmente com Julia, talvez pudesse ver que os olhos de Liliane diziam muito mais do que suas palavras e que o sentimento dela por ele era muito mais sublime que a amizade.
Ágata estava se preparando para ir com seu grupo para o pomar quando Fábio a interceptou apressado.
- Ágata querida, preciso muito de um favor seu.
- O que é?
- D. Abigail tem uma reunião importantíssima com os diretores da Agrícola e precisa dos relatórios com os parâmetros da colheita... Dois lideres de grupos de colheita tiveram que faltar, eu preciso encaminhar os colhedores para o pomar... Por favor, entregue essa pasta para D. Abigail. – Enquanto falava, Fábio passou a pasta com os documento para as mãos de Ágata. – Ela esta na sede administrativa, vá até lá e pergunte por ela... Está tudo aí, sem esses documentos ela não poderá participar da reunião, entregue tudo nas mãos dela.
- Mas Fábio... D. Abigail não permite que os colhedores sequer se aproximem da sede administrativa da Agrícola, o mais perto que cheguei de lá foi quando entrei pelo portão errado e tive que passar na frente dos escritórios.
- Eu sei disso Ágata, mas é uma situação especial, eu já falei com ela, disse que não poderia ir e que enviaria alguém para levar os documentos... E eu confio em você para isso. Fique tranqüila D. Abigail já esta sabendo, não haverá problema algum.
- Se é assim...Mas eu já estou com o uniforme para colheita...Como vou aparecer no escritório com essa roupa.
- Não tem problema. Eu já avisei na portaria que esta indo uma funcionária da colheita levar uma pasta. Pode ir sem medo.
- Tudo bem Fábio...
- Ao menos assim você já fica conhecendo as dependências administrativas. Muito luxo Ágata...Muito luxo!
Ágata seguiu até a bela estrutura dos pavimentos que abrigavam os escritórios da Agrícola, informou-se na portaria e seguiu rumo ao Departamento Jurídico.
- Bom Dia! – Disse cumprimentando a secretária. – Gostaria de falar com D. Abigail, por gentileza.
- D. Abigail não se encontra. – Respondeu gentilmente a secretária.
- Mas... Informaram-me que eu a encontraria aqui no Departamento Jurídico.
- Sim! Ela estava aqui, mas teve que sair com Dr. Bruno.
- Eu precisava muito entregar essa documentação para ela.
- Quer que eu entregue a ela?
Ágata hesitou e pensou por alguns segundos, Fábio tinha dito que eram documentos importantes, que confiava nela e que era para entregar a pasta nas mãos de D. Abigail, mas a gentil secretária poderia fazer isso para ela... Não! E se por acaso a secretária se envolvesse em outros afazeres e demorasse a entregar a pasta para D. Abigail, Fábio havia dito que sem aqueles documentos D. Abigail não poderia participar da reunião. Estava decidido, Ágata mesmo entregaria a pasta de documentos.
- Obrigada, mas não é necessário, eu espero D. Abigail aparecer e entrego a ela.
- Se você faz questão, pode aguardar aqui então. – Disse já apontando o sofá para Ágata esperar. – D. Abigail e Dr. Bruno já devem estar retornando.
- Obrigada.
Enquanto aguardava Ágata observava o requinte da sala, sentiu-se constrangida por estar de uniforme. Alguns funcionários passavam tratando de suas funções administrativas. Aquele lugar, aquele ambiente, aquelas pessoas, tudo estava deixando Ágata pouco à vontade e a secretária parece ter percebido isso.
- Esta tudo bem com você?
- Sim... Esta tudo bem sim... Obrigada...
- Quer beber alguma coisa?... Um copo de água?...
- Não... Não precisa se incomodar eu estou bem.
A secretária consentiu com um sorriso, mas ainda percebia a inquietação de Ágata.
Um jovem diretor adentrou a sala e se dirigiu a secretária.
- Bom dia Isaura!
- Bom dia Dr. Adriano!
- Onde você estava agora a pouco?
- Desculpa Dr. Adriano... Eu não entendi...
- Liguei e ninguém atendeu.
- Estranho... Eu estava aqui como em todos os outros dias... Ah! Acabei de me lembrar que fui com Dr. Bruno e D. Abigail ao Departamento Comercial buscar algumas planilhas, mas logo retornei.
- Então foi isso. Bruno esta na sala dele?
- Não, ele e D. Abigail ficaram no Departamento Comercial.
- Franco deixou alguns documentos para mim?
- Deixou sim Dr. Adriano, estão aqui.
Isaura entregou alguns papéis a Adriano e enquanto este os guardava em sua pasta, notou a presença de Ágata, a olhou com indisfarçável desdém, Ágata sentiu-se ainda mais acanhada baixou os olhos e apertou as mãos entre os joelhos, depois voltou a encara-lo e viu nos olhos dele frieza e apatia.
- O que esta acontecendo aqui Isaura?
Adriano perguntou a secretária e dirigiu mais uma vez o olhar para Ágata.
- Essa moça veio trazer alguns documentos para D. Abigail. – Explicou a secretária.
- Ela é uma colhedora dos pomares?...
- Sim...
Adriano falava como se Ágata não estivesse presente na sala.
- Abigail pediu para uma colhedora trazer documentos administrativos?!
- D. Abigail disse que precisaria desses documentos para a reunião de logo mais. – Justificou a secretária.
Ágata sentia vontade de sumir diante dos comentários de Adriano.
- E não tinha mais ninguém que pudesse traze-los para cá? Tinha que tirar alguém da colheita?
- Não sei Dr. Adriano...
O constrangimento que Ágata sentia foi dando lugar a uma controlada fúria.
- Entregar documentos que dizem respeito à gerência nas mãos de uma colhedora foi muito imprudente.
Ágata estava a ponto de explodir de indignação quando Isaura desviou a atenção de Adriano dizendo que Franco pediu ele avaliasse a documentação e desse a resposta no mesmo dia.
- Hoje à tarde falarei com ele, pode avisa-lo Isaura.
- Eu avisarei Dr, Adriano.
- Julia não esteve por aqui?
- D. Julia? Não, ela não apareceu aqui.
- Engraçado... Ela saiu de casa antes de mim dizendo que viria para cá.
- Aqui ela não apareceu, ao menos não ainda.
- Esta certo então, vou para minha sala. Obrigado Isaura.
- De nada Dr. Adriano.
Antes de sair da sala, Adriano olhou mais uma vez para Ágata e a menina sentiu mais uma vez a indiferença nos olhos dele. Ágata pode ler o que ele sentiu ao passar por ela, viu a expressão de desprezo, mas ao contrário de antes, agora ela o encarou com dignidade e sustentou o olhar.
Ao sair da sala Adriano murmurava seu descontentamento por uma colhedora estar ali nos escritórios da Agrícola e de posse de documentos da gerência Ágata pode ouvir o comentário dele.
“Uma colhedora... Uma colhedora aqui no escritório! Abigail perdeu a noção de responsabilidade mesmo”.
Ágata sentiu-se a última das criaturas, odiou aquele homem que a tratou com tanto desprezo, mas se deixou abater pelo destrato dele, sentiu-se ainda mais perdida naquele ambiente e Isaura viu claramente isso nela.
- Escuta... Eu não sei exatamente quanto tempo D. Abigail vai demorar então... O que você acha de aguardar na sala de espera do Dr. Bruno.
- Sala de espera...
- É! A ante-sala do gabinete do Dr. Bruno, lá é mais reservado, tranqüilo, você poderá ficar mais a vontade, não tem entra e sai de pessoas. Pode aguardar lá, quando D. Abigail chegar eu aviso que você esta esperando por ela.
- Se eu puder ficar lá agradeceria muito.
- Mas é claro que pode! Venha.
Ágata acompanhou a secretária até a ante-sala do gabinete de Bruno e ficou no aguardo. Realmente lá era mais tranqüilo, Ágata poderia esperar longe dos olhares presunçosos e arrogantes como os de Adriano.
“Talvez tivesse sido melhor deixar a pasta com a secretária... mas agora já estou aqui mesmo...” Lamentou-se em pensamento. O desprezo de Adriano ainda a afligia.
“Espero que D. Abigail não demore muito...” pensou a menina.
Enquanto aguardava, Ágata ouviu um ruído vindo da sala principal de Dr. Bruno, a principio achou que estava enganada, mas voltou a ouvi-lo novamente.
“Tem alguém na sala do Dr. Bruno?...”.
Ágata ficou confusa por alguns instantes... A secretária havia dito que Bruno não estava, mas Ágata ouviu claramente alguns ruídos na sala dele. Havia alguém lá dentro.
“Quem sabe a secretária se enganou... Talvez Dr. Bruno já estivesse voltado e ela não notara?’”.
Aproximou-se da porta de entrada da sala e notou que ela estava apenas encostada, exitou alguns instante, mas por fim, empurrou cuidadosamente para não fazer ruído, não chegou a entrar, mas pode ver claramente que havia sim alguém na sala de Bruno. Era uma mulher, uma jovem mulher.
“Quem é ela?” Pensou Ágata. A mulher estava de costas para a porta, separando alguns papeis quando de repente seu celular toca. Tanto a mulher quanto Ágata se assustaram.
- Alo... Você está louco?... – A mulher falava baixo, mas não o suficiente para que Ágata não pudesse ouvir a conversa.
- Eu estou na sala do Bruno... Não posso falar... – Ágata tentava entender o que estava acontecendo.
- Eu sei disso... E já peguei todos os documentos... Não se preocupe, hoje à noite entrego tudo a você conforme combinamos.
Afinal quem era aquela mulher e o que ela estava fazendo ali? Pensava Ágata.
- Eu não posso falar mais ou alguém pode ouvir... Se me pegam aqui estou morta! Vou desligar...
Naquele momento Ágata teve certeza que aquela mulher era uma espécie de espiã. Mas atrás do que ela estaria? E porque?
A mulher arrumava alguns papéis numa pasta quando um deles escapou de suas mãos e voou para junto de uma escultura próxima a porta de entrada. Ágata afastou-se um pouco temendo ser vista, a mulher levantou para apanhar o papel, Ágata novamente olhou e pode apenas ler o título inicial do documento.
“CONTRATO DE PARCERIA AGRÍCOLA”
A mulher apanhou do documento e o guardou na pasta. Ágata tentou afastar a idéia de que aquela mulher estivesse espionando alguma coisa, mas tudo fazia sentido.
- O que esta fazendo aí?
A voz estridente de D. Abigail interrompeu os pensamentos de Ágata e fez seu coração disparar tamanho foi o susto. D. Abigail estava parada em pé na porta de entrada da ante-sala. Ágata afastou-se de onde estava e respondeu um pouco nervosa.
- Eu... Estava esperando pela senhora... Trouxe os documentos... – Entregou a pasta para D. Abigail. – A secretária disse que eu poderia aguardar pela senhora aqui nessa sala.
- Sim... Aguardar aqui! Mas me pareceu que você estava entrando na sala do Dr. Bruno?...
- Não! Eu ouvi alguns ruídos e achei que ele estava na sala.
- Ele foi comigo até o Departamento Comercial e ficou lá, não tem ninguém ali.
- Mas eu tive a nítida impressão que tinha alguém ali na sala.
Ágata tinha a esperança que D. Abigail entrasse na sala de Bruno para constatar se realmente não tinha ninguém e encontrasse a tal mulher lá dentro. Mas D. Abigail não deu ouvidos, pegou os papéis e a dispensou para colheita.
Ágata não conseguia tirar do pensamento a cena que viu, ela tinha certeza que aquela mulher era uma espiã, já estava decidida a falar com Fabio e contar o que viu e ouviu.
No intervalo para o almoço, Ágata foi prontamente procurar o amigo.
- Oi Fabio! Preciso te contar uma coisa.
- Antes venha comigo, quero que conheça uma pessoa. – Disse isso e já puxou a amiga pelo braço levando-a para perto do estacionamento.
- Mas Fábio... Eu acho que descobri uma coisa importante...
- Veja Ágata! – Apontou para alguém no estacionamento. – Esta vendo? É ela!
Ágata estreitou os olhos e identificou a pessoa para quem Fabio apontava. Teve uma surpresa.
- Fabio...
- É ela Ágata! É a Julia! Minha Julia!
No mesmo instante Ágata a reconheceu. Era a mulher que pela manha estivera no escritório de Bruno... A espiã!
- Então essa é a Julia?...
- É ela sim... Ela é linda não é? Muito mais do que eu possa descrever...
Fábio estava totalmente encantado só em ver Julia e Ágata percebeu o quanto seu amigo estava apaixonado.
- Pena que ela nem sabe que eu existo... – Lamentou-se Fabio.
Ágata pensou, tentou colocar em ordem suas idéias. Se aquela mulher era Julia, de certo modo estava explicado porque ela tinha liberdade para entrar na sala de Bruno, afinal os dois eram namorados. Porém, o que não estava claro era porque ela estava se escondendo? Porque temia ser descoberta? E que papeis eram aqueles que ela estava levando? Não! Os fatos não estavam se encaixando, pensava Ágata, Julia estava espionando alguma coisa sim! Ágata teve certeza disso, confiou em sua intuição.
- Você não vai dizer nada Ágata?! – Fabio estava empolgado queria saber o que a amiga achou de sua amada.
- É... Bonita Fabio.
- Só isso?!
- Não posso dizer mais nada, eu só a vi, não a conheço.
- Quem sabe um dia eu não vou ter a oportunidade de me aproximar, de estar com ela, de mostrar o quanto ela significa para mim... – Fabio falava sonhadoramente e Ágata o observava com um sorriso compreensiva, solidária com o amigo... – Então eu a apresentaria você.
- Eu sei disso...
- Mas o que você queria me dizer mesmo?...
Ágata olhou para Fábio e achou que não deveria dizer a ele o que sabia. Fabio estava tão encantado com Julia que Ágata se sentia sem coragem de talvez ofuscar a imagem que ele tinha dela.
- Não era nada importante... Tanto que já até esqueci...
Fabio riu e ela passou o braço pelos ombros dele. Os dois saíram abraçados. Ágata desejava muito a felicidade daquele amigo tão querido.
- Você tem certeza disso?! – Perguntou Julia já eufórica.
- Absoluta! Minha mãe diz que não se fala em outra coisa no clube. Aliás, em todo lugar! Franco e Renata brigaram feio e ele saiu de casa.
- Eu não estou acreditando.. .– Os olhos de Julia brilhavam.
Quando Lenita a chamou em sua casa ela jamais imaginaria que era para dar uma notícia como essa.
- Eu não entendo como você ainda não sabia Julia! Você namora o filho deles!
- Bruno esta viajando esqueceu?
- Verdade! Pena... Ele vai ficar chocado quando voltar. Você precisa ficar do lado dele e apóia-lo!
- Claro! Eu vou dar todo o meu apoio...
Julia ignorava os motivos da separação de Franco e Renata, até porque isso não interessava a ela, o importante era que Franco estava livre e agora ela iria tentar uma real aproximação com ele. Estacionou o carro em frente à casa de campo dos Camargo, era para lá que Franco tinha ido após a separação. Bateu na porta decidida a usar todo seu poder de sedução. Franco nem disfarçou a surpresa por vê-la ali.
- Julia... Não esperava vê-la... Aconteceu alguma coisa?
- Franco... – Sorriu sedutoramente. - Aconteceu sim... Mas não se preocupe... É uma coisa boa. Posso entrar?...
Ele pensou alguns segundos, a visita dela realmente o pegou de surpresa, mas por fim afastou-se cedendo espaço para ela passar. Percorreram um pequeno corredor até chegar a sala de estar.
- Desculpe Franco, mas vou direto ao assunto... Soube da sua separação e vim prestar minha solidariedade. – Disse olhando intensamente nos olhos dele. – É em momentos difíceis como este que devemos prestar apoio àqueles que realmente interessam para nós, aqueles com quem nos importamos, e eu me importo com você... Me importo muito entende?...
- Agradeço sua solidariedade, mas esta tudo bem. Eu e Renata tivemos um desentendimento e eu preferi me afastar por alguns dias, mas acredito que estamos muito longe de uma separação definitiva.
- É claro que estão...Tenho certeza disso. A maioria dos casados tem crises no casamento, é preciso muito diálogo, sinceridade, companheirismo, amor, paixão!... E isso existe entre vocês não é?
Franco engoliu em seco aquelas palavras, Renata não era nem um modelo de boa esposa e os diálogos entre eles eram cada vez mais raros, ela apenas o queria por perto, o queria junto dela, ao alcance dos desejos dela. Franco conhecia bem o gênio dominador de Renata e os dois sempre tiveram problemas por isso, mas sempre superavam, ele sabia que Renata o amava e esse era o jeito “torto” dela demonstrar os sentimentos, porém, nos últimos dias ela estava exagerando, depois que João voltou da França Renata tornou-se ainda mais autoritária. Franco e João tentavam relevar, mas Franco chegou ao seu limite. Julia sabia que essa era a chance para ela e faria de tudo para aproveita-la.
- É claro que em alguns casos as crises acabam se agravando... – Continuou ela vendo que Franco não tinha resposta. - E criando situações insuportáveis a ponto de não se ter outra saída a não ser a separação... E diante disso a separação é melhor coisa a se fazer.
- Apesar de jovem, você parece ser muito madura.
- Eu sou muitas coisas que você ainda não sabe Franco... – Ele lançou um olhar enigmático e ela sorriu maliciosamente. – Mas eu vou te mostrar tudo com o tempo e você vai entender...
- Entender?...
Julia sorriu e aproximou mais.
- Esta tudo bem mesmo?... – Disse ela o olhando dos pés a cabeça. – Você me parece meio cansado...- Levou a mão com a intenção de tocar o cabelo dele, porém ele segurou a mão dela e a deteve.
- O que esta havendo Julia?... Não estou entendendo...
- Eu também não... Eu não estou entendendo tudo que esta acontecendo comigo quando estou perto de você. Eu não entendo, apenas sinto! E sinto tão forte que quase não consigo me controlar.
Subitamente Julia o abraçou forte, colando todo o seu corpo ao dele. Apertando-o enquanto deslizava as mãos pelas costas e sussurrava sensualmente frases entrecortadas no ouvido dele.
O jardim da casa de campo dos Camargo era esplêndido! Liliane já esteve naquela casa muitas vezes com Bruno e outros amigos, principalmente na época em que ele ainda não trabalhava na Agrícola e também não namorava Julia. E sempre ficava horas contemplando a beleza daquele lugar. O tempo passou e as exuberâncias de lá pareciam cada vez mais vibrantes. Liliane sentiu como se retrocedesse no tempo vindo àquela casa de novo, maravilhoso seria se Bruno também estivesse ali. Mas não, as circunstâncias que a trouxeram ali foram outras, precisava dizer a Franco que o pai dela assumiria a administração da nova filial que a Agrícola Fonteli adquiriu em São Paulo. Foi esse o motivo da briga de Franco e Renata. Franco teria que se ausentar por um longo tempo e tomar a frente desta nova filial, Renata dominadora como era, não concordou com isso, o queria perto, sempre ao seu alcance, achava que era um sacrifício desnecessário, que outro poderia ir no lugar dele. E para evitar maiores problemas, Silvia Fonteli, grande amiga de Renata, determinou que Miguel Souza, pai de Liliane, fosse no lugar de Franco.
Uma grande bobagem! Pensava Liliane. Era ridículo às vezes, o modo como Renata impunha suas vontades, não se importava em agir irrisoriamente quanto queria manter os dois homens de sua vida por perto, João e Franco.
Estacionou o carro ao lado do carro de Julia, achou tudo muito estranho. Será que Julia estava ali? O que estaria fazendo? Liliane ficou desanimada ao pensar em encontrar com Julia ali. Achou aquilo uma perseguição, aquela garota sempre estava cruzando seu caminho! Quando pensou em bater notou a porta destrancada e um pouco hesitante adentrou.
A cena que se projetou na frente dela, a deixou chocada. Julia agarrada ao pescoço de Franco. Abraçados como dois namorados. Com um misto de surpresa e reprovação, Liliane abriu a boca, fechou e tornou a abrir.
- Sonhei tanto em um dia estar assim com você... – Julia falava próximo ao pescoço de Franco, num impulso levou a boca a orelha dele e começou a mordiscar.
Ele a segurou pelos ombros e a afastou, totalmente perturbado por aquele gesto tão inesperado e explosivo.
- O que esta fazendo menina? – Disse ele irritado. – Esta louca! O que quer afinal?
- Não consegue ver nos meus olhos o que quero? – Perguntou já aproximando seu rosto do dele para um beijo.
Ele deu um passo para trás e levantou a mão num gesto ordenando que ela ficasse onde estava.
- Você só pode estar louca! Ou não tem nenhuma noção de respeito...
- Eu respeito meus sentimentos! Respeito tudo aquilo que sinto! Eu não reprimo nenhuma das minhas emoções... Não reprima as suas também...
- A única coisa que estou reprimindo é o desprezo por esse seu gesto absurdo, por essas suas palavras idiotas. Você namora meu filho! Como pode ser tão baixa!
Liliane ficou atônita diante de tudo que via e ouvia, a única coisa que conseguia pensar era em sair o mais rápido possível dali antes que notassem sua presença. Deu alguns passos para traz até alcançar a porta de saída.
Sentiu uma sensação de alívio e pesar enquanto dirigia afastando-se cada vez mais da casa. Seus pensamentos eram desconexos e inquietos. Seus lábios apertaram-se tanto quanto seu coração ao pensar na figura central daquele indecoroso enredo.
- Bruno...
Mensagem enviada Oct 20, 2006, 6:02 PM do endereço IP 200.138.104.175
- Liliane...?
Sentada em frente à penteadeira, Liliane parecia absorta de tudo. Olhava fixamente para sua imagem refletida no espelho, mas parecia não estar vendo nada, nem a imagem de Suzana refletida ao lado da sua e que inutilmente tentava chamar sua atenção.
- Liliane...?
Absorvida nas próprias incertezas Liliane reflete os últimos fatos. Será que ela realmente presenciou aquela cena entre Franco e Julia? Ou foi somente uma grotesca alucinação? Ela sempre acreditou que Julia não era a mulher certa para Bruno e tinha a sincera esperança que ele um dia descobrisse isso. Porém agora, não sabia ao certo se isso seria bom para ele. Ela sabia que Julia era uma ordinária, mas não esperava que fosse se envolver justo com Franco! Ao menos ele pareceu não estar correspondendo. Mas e se Julia insistisse, ele seria capaz de resistir ou iria trair o próprio filho, que sempre enxergou nele um ídolo, um exemplo a ser seguido.
Não! Era repugnante demais.
- Liliane não esta me ouvindo?!
- Suzana...
- Estou aqui te chamando faz um tempo e você nem piscou! Não estava me ouvindo?
- Não... Sim... O que foi?
- Onde será que estavam seus pensamentos?... Seu Miguel e Dona Amália não vão jantar em casa e Lenita saiu com as amigas... Só ficou você em casa. Queria saber o que vai querer comer. Posso preparar uma salada e...
- Eu não quero jantar. Estou sem fome.
- Esta tudo bem com você?
- Esta sim Suzana... Eu só não quero comer nada...
- Esta me parecendo tão abatida... Deveria comer alguma coisa!
- Eu só estou cansada. Vou tomar um banho e me deitar.
- Esta sentindo alguma coisa?
- Sono... Acho que vou dormir cedo hoje.
- Tudo bem então... Se precisar é só chamar.
- Obrigada Suzana.
Liliane ouviu a porta se fechar e caiu novamente no emaranhado de dúvidas de seus pensamentos. Seu coração se agitava e seu sentimento por Bruno não lhe permitiria que ficasse inerte a tudo isso, ela sentia que deveria fazer alguma coisa e por isso consome-se na terrível dúvida se conta a Bruno tudo que viu e ouviu. Sua razão diz que ela deve cuidar de sua vida e deixar ele viver a dele, ela sabe do encanto que Julia provoca em Bruno o e sabe também que por mais que ela e Bruno sejam amigos o que vai pesar mais quando ele souber de tudo será o que sente por Julia e Liliane poderá até mesmo perder a amizade dele, que era o único sentimento que ele lhe dedicava. Porém seu coração dizia que ela devia procura-lo e contar a verdade a qualquer custo, Bruno merecia saber disso, não podia continuar sendo enganado. Mas como contar tudo sem abalar a relação dele com o pai?
Abaixou a cabeça apoiando as têmporas entre as mãos, suspirou dolorosamente, tornou a erguer a cabeça fitando os próprios olhos no espelho, já não tão cheios de dúvidas. Ela já havia tomado uma decisão.
- Eu não jogo pra perder!
Julia afirmou enquanto trancava a porta da casa de campo dos Camargo por dentro. Ela ainda tinha a chave desde o último final de semana que ela e Bruno passaram lá. Deixou o carro estacionado na alameda que contornava a casa pela esquerda de modo que quando Franco chegasse não o veria. Estava furiosamente excitada. Franco a dispensará sem titubear, praticamente a expulsou da casa. Pela primeira vez ela o viu perder a elegância a ponto de insulta-la de uma maneira que ela jamais imaginou que ele fosse capaz. Porém ela tinha certeza que ele iria ceder se ela insistisse. A prova disso foi que não comentou nada com ninguém. Bruno voltou de viagem, os dois conversaram, mas ele não contou nada sobre o que aconteceu.
Escolheu aquela noite para enlouquecer Franco. Ele e Renata já estavam separados a duas semanas e Julia imaginou que ele deveria estar sentindo falta do calor do corpo de uma mulher. E naquela noite o corpo dela daria todo o calor que ele precisasse. Ele chegaria do trabalho e ela estaria esperando por ele. Não daria espaço e nem tempo para que ele argumentasse nada, o envolveria e o levaria para cama. Foi até o quarto, examinou a cama aconchegante, ainda desarrumada, sorriu imaginando que ela ficaria ainda mais desarrumada quando Franco chegasse. Parou em frente a um grande espelho que permitia que pudesse se olhar de corpo inteiro e lentamente foi desabotoando os botões da blusa que usava.
- Desculpe te deixar esperando... Imprevistos de trabalho...
- Tudo bem. Quase não demorou. – Respondeu Liliane aceitando o beijo amigo que Bruno lhe depositou na face.
- Lembra-se que sempre vínhamos aqui na época da faculdade?... – Ele Comentou enquanto olhava em volta examinando o ambiente descontraído do restaurante que Liliane escolheu.
- Lembro sim... – Liliane respondeu sem muito ânimo.
- E depois nunca mais viemos... Ainda bem que você esta sempre resgatando as coisas boas do passado Lili. Alias você sempre traz coisas boas... bons fluidos!
Infelizmente ele iria mudar de idéia ao ouvir o que ela tinha para dizer, pensou pesadoramente.
- O que vai comer? – Perguntou ele, enquanto olhava o menu oferecido pelo garçom.
Liliane ficou calada, sentia seu estomago revirar, não podia se quer pensar em comer alguma coisa. Ela tinha um propósito sério quando marcou um encontro com Bruno.
- Bruno... – Disse deixando transparecer na voz sua aflição.
Ele ergueu os olhos azuis na direção dela e pela mudança na fisionomia do rosto bem talhado, Liliane percebeu que ele havia capitado que alguma coisa estava errada. Sem deixar de fita-la, ele soltou calmamente o cardápio em cima da mesa e ficou analisando-a por alguns segundos.
- Faremos nosso pedido mais tarde. – Ele falou cordialmente ao garçom.
Liliane baixou os olhos e começou a tatear o cardápio como se subitamente estivesse interessada na couraça da capa.
- Então... Aconteceu alguma coisa Lili?
- Acha que aconteceu? – Respondeu tolamente, erguendo os olhos para fitar o azul dos dele novamente.
- Você é quem tem que me responder... Disse que tinha algo importante a dizer. Pode falar, estou ouvindo.
Por uma fração de segundos, Liliane arrependeu-se de estar ali, ela poderia evitar essa constrangedora situação se ficasse calada, mas como iria encarar Bruno sabendo que ele estava sendo enganado e que ela sabia disso e não fazia nada para ajudar.
- Liliane o que é que esta acontecendo? Pode falar. Não confia em mim?
- Confio! Claro, confio muito!
- Então... É algo que esta te incomodando?
- É sim...
- Quer desabafar?
Liliane sentiu seu estomago apertar e baixou os olhos, incapaz de encara-lo. Compadecido ele segurou a mão dela e manteve presa à dele.
- Sempre fomos amigos... Sabe que pode se abrir comigo. Diga-me o que é que esta te incomodando?...
- Eu... Eu não sei se deveria...
- Seja o que for Liliane eu estou do seu lado.
Bruno percebeu que a mão de Liliane estava suando e que o que ela tinha a dizer realmente a incomodava, viu a dificuldade dela em encontrar as palavras certas, resolveu ajudar.
- É algo relacionado à família?
- Não.
- Algum problema no trabalho?
- Também não.
- Então é algum problema amoroso?...
Liliane o encarou, mas rapidamente desviou os olhos e sutilmente retirou sua mão do calor acalentador da mão dele.
- Não é isso também... – Não exatamente... Pensou Liliane.
- Bem... Então vou ter que pensar em outras possibilidades...
- O problema não é comigo... Quer dizer... Não diretamente comigo...
- E com quem é então?
- Com você. – Disse encarando-o.
- Comigo?! – Disse ele surpreso e com uma expressão divertida nos olhos.
- Sim.
- Não entendo...
- O problema é com você Bruno...
- De onde tirou essa idéia?... Eu estou muito bem Liliane, te garanto que não há problema algum.
- Há sim. Mas... Você ainda não sabe.
- Do que é que esta falando?
Liliane baixou os olhos novamente.
- Olhe para mim Liliane. Quero que me diga do que esta falando? Por que acha que eu tenho algum problema?
- Porque... Eu...
- Diz Liliane. O que é que esta havendo?
- Você esta sendo enganado... – Disse isso e procurou no rosto dele alguma indicação de como ele reagiria, mas o semblante dele pareceu inalterado.
- Como enganado? Por quem?
- Julia... – Disse um pouco hesitante.
- O que?!
- Você esta sendo enganado pela Julia.
- Como enganado pela Julia? Do que esta falando Liliane. Onde quer chegar?
- Bruno não faz idéia de como esta sendo difícil dizer tudo isso...
- Até agora você não me disse nada que faça sentido. – Afastou-se do encosto da cadeira e inclinou-se sobre a mesa para encara-la de perto. – Quero que diga o que te faz achar que estou sendo enganado pela Julia.
- Eu sei que esta... – Liliane apoiou os cotovelos na mesa e levou as mãos nos olhos como se eles estivessem ardendo, respirou fundo tentando encontrar coragem para revelar tudo o que tinha a dizer. Finalmente olhou para ele resignada, agora não podia mais voltar atrás, Bruno até poderia repudia-la, mas ela diria toda a verdade a qualquer custo. – Julia esta te traindo Bruno... Traindo com outro homem.
- Como é?! – Falou atônito.
- É isso mesmo. Julia tem procurado outro homem e...
- Você tem noção do que esta dizendo?
Liliane olhou para Bruno e viu que a expressão do rosto dele havia mudado, agora refletia uma fúria, uma revolta que ela jamais tinha visto nele.
- Infelizmente tenho...
- Como pode dizer uma coisa dessas? Como pode acusar alguém dessa maneira?
- Eu... Eu a vi tentando seduzir um homem...
- Quem?
Liliane novamente baixou os olhos e sentiu seu rosto queimar feito brasa, nunca em sua vida viveu uma situação tão incomoda como aquela.
- Quem Liliane?! – Perguntou Bruno já não conseguindo manter a calma.
- Seu... Seu pai... – Disse Liliane num fio de voz.
- Você esta totalmente fora de seu juízo. Eu juro não espera ouvir uma coisa dessas de você. Tem idéia da besteira que esta dizendo? Não! É claro que não! Só pode ter ficado louca. – Esbravejou sarcasticamente.
Liliane teria ficado muito magoada com a ironia amarga das palavras dele se já não previsse que ele poderia reagir assim.
- Eu a vi tentando seduzir seu pai...
- E ainda envolver o meu pai nessa história... Você perdeu totalmente o juízo...
- Bruno eu vi! Ninguém me contou! Eu vi! Fui procurar Dr. Franco na casa de campo de vocês logo depois que ele se separou da D. Renata e... Quando cheguei lá vi o carro da Julia estacionado, entrei e vi... Não queria...Jamais imaginei que ela fosse chegar a esse ponto...
- Afinal aonde quer chegar com essa historinha? Viu o que? – Bruno tentava conter sua fúria.
- Vi Julia tentando seduzir seu pai... Ela estava se insinuando, tentava envolve-lo com palavras... Estava abraçada a ele...
- Que palavras?
- Coisas... Palavras...
- Que palavras Liliane?
- Que não iria mais conter os sentimentos... Coisa assim... Bruno por favor...
- Eu espero que você tenha plena consciência da gravidade de tudo que esta me dizendo Liliane e do quanto isso afeta pessoas muito ligadas a mim.
- Eu sei... E lamento muito... Mas pelo que percebi seu pai não correspondeu as investidas de Julia. Ela se insinuava e ele a repelia.
Bruno voltou a se encostar no apoio da cadeira e baixou os olhos para o pequeno arranjo floral no centro da mesa com a expressão distante, pensativa. Liliane entendeu que ele estava tentando assimilar tudo que ouviu e suspirou imaginando que a pior parte da conversa já havia passado.
- Por que?...
Liliane levantou os olhos ao ouvir a pergunta e encontrou os dele indignados, decepcionados, não entendeu nem a pergunta e nem a expressão indecifrável dos olhos celestes.
- Como?...
- Por que Liliane?...
- O que?
- Por que descer a esse nível?
- Não entendo...
- Não entende?! – Falou com tom de voz mais alterado e com uma ponta de sarcasmo. - Acha que não sei por que esta fazendo isso?
- Isso o que?
- Eu sei do seu interesse por mim! Sei que esse interesse é muito mais que amizade! A própria Julia havia me dito que você estava apaixonada por mim. É isso não é?
- Apaixonada? Mas...
- É ou não é?
- O que isso importa nesse momento?
- É apaixonada por mim não é Liliane?
- Gosto muito de você Bruno e...
- E por isso criou essa história fantástica!
- Mas eu não criei história nenhuma! Bruno acha que eu seria capaz inventar uma coisa dessas?
- Sinceramente eu acreditava que não até ouvir todos os absurdos que me falou. Você pensou que eu acreditaria que a minha namorada esta me traindo com o meu pai?
- Eu sei que é horrível, mas por que eu iria inventar isso? Eu não mentiria para você Bruno! Sabe o quanto gosto de você e de seu pai, jamais colocaria em risco a relação de vocês dois.
- Exatamente! Você gosta muito de mim não é Liliane?... E me ver separado da Julia seria bem interessante para você não é?
Liliane sentiu seu coração apertar e o gosto das lágrimas na boca. As palavras de Bruno a atingiram de maneira cruel magoando-a e a deixando com uma ponta de ressentimento dele.
- Como pode dizer uma coisa dessas! Gosto muito de você sim. Mas do que devia... Mas do que você merece... Mas nunca, escute bem... – Enfatizou a tom de voz. - Nunca inventaria uma história sórdida dessa para separa-lo dela. Queria que você enxergasse a verdade, mas você parece cego... – Liliane fitou o semblante alterado de Bruno e completou melancolicamente. - Então vejo que perdi meu tempo me torturando tentando encontrar uma maneira mais amena de dizer a verdade... Perdi meu tempo rezando para que você me entendesse... Perdi meu tempo vindo até aqui passar por essa situação e ainda ouvi-lo dizer que inventei tudo isso apenas para separa-lo de sua “querida” Julia. É lamentável Bruno... mas vejo que perdi meu tempo e meu amigo também.
Liliane respirou fundo tentando conter as lágrimas que transbordavam seus olhos, mas foi inútil, elas tombavam fartas como se fossem córregos marcando seu rosto desfigurado pela mágoa.
Vendo que estava preste a ter uma crise de choro ali na frente de Bruno, Liliane apressou em pegar sua bolsa e levantar-se.
- Não pode ir embora assim como se tudo que me disse fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Há muita coisa para se esclarecida.
- Eu vou embora sim Bruno. É inútil continuar com essa conversa... Eu não deveria ter me envolvido nessa história. Eu só espero que um dia você abra os olhos...
Bruno observou Liliane deixar o restaurante totalmente desorientada e mesmo repudiando tudo o que ela disse não conseguiu deixar de se sentir culpado pelo estado dela. Ele sempre teve um carinho especial pela amiga de infância e desde que Julia havia comentado que Liliane era apaixonada por ele, Bruno começou a perceber que o interesse e a dedicação dela por ele denotavam muito mais que simples amizade. Mas tudo que ela havia dito sobre Julia e seu pai era esdrúxulo demais, por mais que se esforçasse não podia entender por que Liliane se prestou a esse papel, inventar uma história suja como aquela somente para separa-lo de Julia, era grotesco demais e não condizia com a personalidade afável de Liliane.
Bruno perguntava-se como ela pode chegar a esse ponto, nem parecia a mesma Liliane que ele conheceu a vida toda e que sempre admirou por ser tão sensata e equilibrada. Não a Liliane que ele conhecia jamais faria isso! Porém mesmo pensando dessa maneira, Bruno também não poderia aceitar tudo que Liliane lhe disse. Como iria conceber que sua namorada estava se envolvendo com seu pai! Simplesmente não poderia acreditar. Contudo, seu pensamento inquietava-se com a lembrança da maneira como Franco se portou nos últimos dias... Arredio, calado, diferente da postura firme, porém comunicativa que sempre adotava, Bruno estranhou essa mudança, mas atribuiu isso à separação que Franco estava enfrentando. Lembrou-se também do questionamento que ele lhe fez a respeito de Julia, perguntando quais eram seus verdadeiros sentimentos por ela e se ele tinha a certeza de que era plenamente correspondido. Bruno estranhou o interesse do pai, que nunca o havia questionado a respeito disso, mas estranhou principalmente o teor das perguntas que ele fez. Bruno não tinha dúvidas a respeito dos seus sentimentos e nem dos sentimentos de Julia... Até aquele momento...
Levantou-se de repente como se finalmente tivesse se dado conta que esteve até então mergulhado nas dúvidas semeadas por Liliane. Apanhou as chaves do carro de cima da mesa e saiu apressadamente. Precisava falar com Franco, uma longa e atenta conversa entre pai e filho, nada além disso, não colocaria em cheque sua relação com o pai. Precisavam apenas conversar, olhando um no olho do outro e ele então teria certeza que tudo estava bem e que infelizmente havia perdido sua amiga de tantos anos.
Franco chegou em casa com uma leve tontura. Talvez tenha exagerado um pouco no uísque, pensou ele. Havia feito uma parada num bar, depois que saiu do escritório, queria refletir os últimos acontecimentos. Renata o tinha procurado e os dois conversaram bastante, ela pediu uma segunda chance, ele sabia que se voltasse não seria uma segunda chance, várias vezes isso aconteceu e ele já havia perdido as contas de quantas novas chances deu a ela, a única certeza que tinha era que se caso voltasse, esta seria a última chance para o casamento dos dois. Refletiu também sobre a atitude de Julia e estava decidido a tomar medidas drásticas caso ela tentasse uma nova aproximação, aquilo tudo já estava indo longe demais.
Encontrou dificuldades em acertar a chave na fechadura da porta de casa, avaliou que quatro doses de uísque foram suficientes para deixa-lo atordoado, ou foram cinco? Não importava... Agora já estava em casa e uma boa noite de sono ajudaria a por em ordem seus pensamentos e seu raciocínio que ele concluiu estarem um pouco lentos, devido à bebida. Tentou acertar novamente a chave na fechadura a fim de trancar a porta, mas aquela pareceu ser uma tarefa um tanto fastidiosa que por fim desistiu imaginando que não haveria nenhum perigo se sua casa passasse uma noite apenas sem a proteção de tranca, afinal ela era um pouco afastada da cidade, quem imaginaria que justo naquela noite estaria destrancada. Largou no sofá o paletó e a pasta que carregava, afrouxava a gravata enquanto caminhava para o quarto, afastou a porta e não se incomodou em acender a luz, o brilho da lua deixava uma penumbra aconchegante. Livrou-se dos sapatos, meias, da camisa e desabou na cama, estava cansado demais, não tanto fisicamente, sua mente estava cansada, fadigada pelos últimos acontecimentos, fechou os olhos e desejou só abri-los no dia seguinte, quanto supostamente estaria melhor, apoiou a cabeça em um dos braços e permaneceu assim por um momento quando ouviu ou sentiu, não soube definir direito, alguém se mover no quarto. Abriu os olhos preguiçosamente e decididamente concluiu que havia exagerado na bebida, pois parecia estar vendo uma mulher nua em sua frente. A penumbra do quarto impedia que ele identificasse o rosto que completava o belo corpo a sua frente... Sorriu maliciosamente imaginando que seus instintos influenciados pela bebida resolveram lhe pregar uma peça projetando uma mulher nua e sensual em sua frente, fora de casa a algumas semanas era natural que seus impulsos masculinos aflorassem provocando devaneios eróticos... A imagem que ele julgava ser um delírio deu um passo a frente e a luz da lua iluminou o rosto gracioso e provocante que sorria despudoradamente para ele. Julia... Ela tinha o rosto de Julia. O sorriso desapareceu instantaneamente do rosto dele. Não eram seus instintos masculinos que estavam provocando aquele tipo de visão, eram as preocupações que o atormentavam nos últimos dias, pensou Franco. Ele jamais imaginaria Julia nua em seu quarto! Mas para sua surpresa a imagem dela subiu na cama engatinhando na direção dele como uma gatinha manhosa.
- Não diga nada meu amor... Apenas deixe acontecer... – Ela murmurou com voz suave.
Bruno desceu do carro divido entre a necessidade que tinha de conversar prudentemente com Franco sobre o que Liliane havia lhe dito e o desprezo que sentia por si mesmo por considerar as revelações dela.
Olhou para a casa de campo de sua família e notou todas as luzes apagadas, Franco já deveria estar dormindo, talvez fosse melhor adiar aquela conversa. Mas Bruno não conseguiria seguir mais um minuto em sua vida enquanto não esclarecesse as dúvidas que infligiam-no. Parou diante da porta e bateu, depois de alguns instantes bateu novamente e esperou para ser atendido como o silêncio permaneceu, ele instintivamente mexeu no trinco e a porta facilmente cedeu abrindo imediatamente. Bruno estranhou o fato da porta estar destrancada e subitamente foi invadido por uma sensação estranha, que ele não soube definir o que era, mas que de alguma maneira o incomodava. Chamou pelo pai, uma ou duas vezes e não obteve resposta, estava começando a ficar preocupado quando ouviu vozes vindo da suíte, sem pensar em mais nada ele se dirigiu até lá e abriu a porta num repente para ver o mundo desabar diante de seus olhos...
Mensagem enviada Dec 6, 2006, 4:38 PM do endereço IP 200.138.102.196
Meninas, eu gostei tanto da estória que resolvi por conta própria continuar a escreve-la. Sei que não sou boa quanto a Cris, mas mesmo assim fui teimosa em tentar... Espero contar com a ajuda e colaboração de todas vcs.
Logo abaixo vai o final do último capítulo que a Cris escreveu, para que vcs possam relembrar...
Beijão da nova companheira de vcs...
Jú
Depois das compras foi a vez de dedicarem-se a entreter as crianças. Apesar de detestar freqüentar fast-foods Alana concordou em acompanha-los até o Mac Donald’s. Mais entrosados do que nunca, os três pareciam formar um trio, cuja especialidade era provoca-la.
Gustavo demonstrou a Alana uma faceta que ela desconhecia. Com as crianças ele era extremamente gentil, carinhoso e engraçado, até mais do que o era com ela própria. Fazia palhaçadas e elas se divertiam. Daria um ótimo pai, concluiu ela em meio a devaneios.
No dia seguinte logo após o almoço a helicóptero pousou em Huí, Alana admirou com orgulho a casa que ela mesma projetara. Esperava ter uma agradável surpresa, mas ao abrir a porta e entrar pelo hall, quase teve um ataque do coração...
- Que diabos aconteceu aqui???
Alana olhava ao seu redor, havia muitas coisas espalhadas, papeis e gavetas derrubadas e simplesmente escandalizada e sem poder acreditar no que via, perguntou ao policial:
A – O senhor poderia me explicar o que está, ou melhor, o que aconteceu aqui?
Gustavo, percebendo a crescente irritação e indignação dela, tratou logo de acalma-la e tomar a frente da situação. Então Gustavo repetiu a pergunta de Alana:
G - Senhor.... – parou Gustavo para ler o nome que estava na placa de identificação pregada junto à sua farda – Senhor Kolins, (James Kolins) o que foi que aconteceu aqui?
P – Bem Senhor, hoje de manhã recebemos um chamado, uma denúncia anônima de que a casa da Srta Prescott tinha sido arrombada, viemos logo para cá, para certificarmos se era ou não verdade. Ao chegarmos aqui, vimos que uma das portas que dá acesso ao jardim onde fica a piscina estava arrombada. Nós ainda não conseguimos entender porque eles não levaram nada.
Alana fizera questão de decorar tudo, seguindo o estilo de seu apartamento em Champs Elysées. Em cada canto imaginável, havia vasos de porcelana, tapetes persas e muito mais.
Enquanto Gustavo conversava com o policial, Alana que havia se esquecido de Andrew e Alyssa, que estavam acompanhando-os, foi ao encontro delas, pegou as crianças, e imediatamente ligou para Felipe e lhe colocou a par de tudo que estava acontecendo. Minutos depois Felipe e kate já estavam lá.
Ambos se cumprimentaram...
F – Alana, como foi que isso aconteceu?
A – Ainda não sei, Gustavo está conversando com o Sr. Konlins, o policial.
Felipe imediatamente foi ao encontro de Gustavo. Alana e kate ficaram com as crianças conversando...
F – Olá Gustavo, como vai? Há algo que eu possa fazer por vocês?
G – Oi, tudo bem, eu acho. Nós chegamos aqui e encontramos essas pessoas aqui, o policial me disse que ainda não sabem realmente o que aconteceu, só o que sabemos é que entraram aqui, mas não levaram nada. Creio que seja alguém, que na realidade, não queria roubar, queria obter informações, talvez de Alana, talvez da empresa, dos negócios. Eu já falei com ela que ela precisa de uns seguranças, precisa reforçar a segurança da casa, pode ser muito perigoso. Mas enfim, não vou alarma-la. Já mandei chamar alguém para concertar a porta e amanhã mesmo pretendo contratar algumas pessoas para fazerem a segurança da casa. Vou ligar agora mesmo para o porto e pedir que não permitam que ninguém aporte aqui antes de nos telefonar e nos informar quem é.
F – Bom, creio que não é aconselhável vocês ficarem aqui essa noite, acho melhor vocês irem para minha casa, assim vocês ficam mais tranqüilos,e enquanto os policiais tratam de fazer o trabalho deles, que é investigar isso tudo.
G – Tudo bem, obrigado pelo convite, vou conversar com Alana e saber o que ela pensa a respeito.
Gustavo e Felipe foram ao encontro delas. Na praia estava Alana, Kate, Alyssa e Andrew. Enquanto Alyssa se distraia com o irmãozinho, Kate conversava com Alana
K – Então Alana, me conte, me fale mais do seu namorado. Como está indo seu relacionamento com Gustavo? Te vejo com outra expressão, com um brilho diferente no olhar.
Alana que até então estava perdida em seus pensamentos, tentando imaginar o que pudera ter acontecido e não via a hora de Gustavo aparecer para lhe contar... deu um sorriso, lembrando dos momentos maravilhosos que estava tendo com Gustavo, redescobrindo o amor, a felicidade.
A – Ai Kate, eu estou muito feliz, ah, ele é meu noivo. Eu quero mesmo conversar com você, quero pedir alguns conselhos. Preciso tomar decisões importantes e quero sua ajuda.
Ao responder a Kate, ambas viram Gustavo e Felipe se aproximarem e juntas perguntaram:
A e K – Então, o que houve exatamente?
Gustavo contou tudo o que sabia. Felipe e Kate foram pegar as bagagens de Alyssa e Andrew no helicóptero enquanto Alana conversava com Gustavo.
G – Amor, Felipe nos convidou para irmos passar a noite na casa dele. Já está um pouco tarde, e não sei se conseguirão consertar tudo o que foi danificado até o anoitecer. Então, queria saber o que você acha.
A – Por mim tudo bem, é só o tempo de pegar nossas coisas. Acha que podemos ir na lancha com Felipe? Ou prefere ir na minha?
G – Acho melhor irmos na sua, assim, amanhã, na hora que quisermos, podermos voltar pra cá. Eu vou falar com Felipe, e você avisa aos empregados.
A – Ok, te encontro na lancha.
Minutos depois, na lancha, Gustavo dava instruções ao arrais.
Em Pihinui – casa de Felipe.
F - Entrem, fiquem à vontade.
Alyssa estava eufórica, adorava receber vistas. Tratou logo de convidar Gustavo para conhecer o seu quarto, e gracejou ela: depois você assistirá o filme da pequena sereia comigo. Kate e Felipe olharam entre si e riram, ela realmente adorava a pequena sereia, e Gustavo agora seria a próxima vítima.
Todos se sentaram á mesa para fazerem um lanche e Alana contou tudo sobre o fim de semana com as crianças. Alana simplesmente adorara estar com elas, e mais ainda, ficava fascinada com o carinho de Gustavo para com elas. E teve a certeza – ele daria um ótimo pai. Mas e ela? Será que ela seria uma boa mãe? Uma boa esposa? Ao se perguntar isso, Alana lembrou da proposta que Gustavo lhe fizera – de se casar com ele, ou pelo menos morarem juntos – e franziu a testa revelando uma intensa preocupação.
Kate subiu para colocar Andrew e Alyssa para dormir e Alana a acompanhou, e na sala, Gustavo conversava com Felipe:
F – Bom, não sei muito de você, apesar que já me basta saber que você está fazendo Alana feliz. Mas enfim, qual é o seu ramo de trabalho?
Gustavo sorriu contente com o que Felipe dissera, era bom demais saber que ele estava fazendo feliz a mulher que amava.
G – Cassinos. Trabalho com Cassinos. Alana me falou muito de você enquanto viajávamos para cá, ela comentou algo sobre você estar ajudando-a a negociar com os Emirados árabes.
F – Ela é uma ótima executiva, mas às vezes precisa dos conselhos de alguém mais experiente, e que já está no ramo há algum tempo. Apesar de não admitir.
No momento em que Felipe falava, Alana descia a escada e ouviu parte do que Felipe disse e exclamou:
A – Hummm, vejo que o assunto predileto de vocês sou eu!
F – Que nada, estamos apenas nos conhecendo um pouco mais, já que dá última vez que nos vimos, você não quis dar muitas informações sobre seu namorado.
G – Noivo, agora somos noivos.
F – Está vendo Alana? Nem sabia que estava noiva.
Alana enrubeceu e disse.
A – Pois é, as coisas mudam, pra você ver, há alguns meses atrás eu não pensava em namorar, me casar, ter filhos, mas Gustavo mudou isso e eu só posso dizer que não sou a mesma Alana de antes.
Ao ouvir isso, Gustavo foi invadido por um sentimento de ternura tão grande que não conseguiu se conter, a abraçou e olhando em direção a Felipe disse:
G – Alana é a mulher que eu sempre sonhei pra mim, ela me é muito especial.
Felipe sorriu e disse: você é um homem de sorte. Essa menina vale ouro. Gustavo em contrapartida disse: essa menina, não tem preço.
Gustavo, Alana e Felipe estavam sentados na sala, quando kate desceu com uma aparência cansada.
K – Nossa, achei que Alyssa não ia dormir hj, quis me contar tudo que fizeram, os lugares que foram, enfim, tudo.
F – Mas afinal meu amor, eles dormiram ou não?
K – Alyssa dormiu, mas somente depois que eu coloquei a música do filme da pequena sereia e lhe contei toda estória...
Todos riram ao mesmo tempo. Ela realmente adorava a pequena sereia.
Felipe virou para Gustavo e rindo falou: amanhã será a sua vez de assistir ao filme da pequena sereia. Dessa você não escapa. Gustavo olhando para Alana respondeu: vou assistir com prazer, assim aprendo logo a estória e quando eu e Alana tivermos uma filhinha tão linda e meiga quanto Alyssa, eu vou saber contar a estória com riqueza de detalhes. Alana o olhou mais apaixonada do que nunca. Kate percebendo o clima entre eles tratou de mostrar-lhes a suíte em que se hospedariam.
A suíte foi decorada de maneira simples e extremamente delicada, mas com um infinito bom gosto.
NO quarto...
Ao se despedir e fechar a porta do quarto, Alana apresentava uma ruguinha de preocupação. Gustavo já a conhecia perfeitamente e sabia exatamente o que estava se passando naquela cabecinha. Abraçando-a por traz ele disse: amor, não precisa se preocupar, tudo vai se resolver, e desde já vou advertindo que amanhã mesmo vou contratar seguranças tanto pra você quanto para ilha. Sei que você não gosta, mas eu me sentirei mais tranqüilo, sabendo que você está protegida.
A – Tudo bem, nem vou protestar, se você se sente mais tranqüilo assim, eu concordo em ter um segurança particular.
G – Aliás, eu ficaria mais tranqüilo se você viesse morar comigo, assim, eu mesmo faria a sua proteção. Não ia desgrudar de você um só minuto.
Falando isso, Gustavo a beijou docemente.
A – Meu amor, não me peça para tomar uma decisão tão importante assim de uma hora pra outra.
G – Mas do que tem medo? Você tem dúvida do que sente por mim? Ou pior ainda, você tem dúvida do que eu sinto por você?
A – Não meu amor, de maneira alguma, eu tenho absoluta certeza tanto do que eu sinto por você quanto o que você sente por mim. Mas moramos em lugares diferente, temos trabalhos diferentes, eu estou sempre viajando e você também, e além de tudo, não sei se eu conseguirei ser a mulher que você quer, a esposa que você deseja que eu seja.
G – Alana, eu te amo, e eu quero você, do jeito que você é. Não quero que mude por minha causa, e que muito menos abandone o seu trabalho. Tenho certeza que conseguiremos conciliar nos horários. Por favor, pense com carinho, eu quero e preciso muito de você. Quero dormir e acordar com você todos os dias, se possível.
A – Tudo bem, eu vou pensar. Mas por favor, me dá um tempo ta? É uma decisão muito importante para ser tomada. Mas eu prometo que em breve eu te darei uma resposta. Ok?
Falando isso, Alana o beijou e disse que ia tomar uma banho.
A- Quer ir comigo?
G – Isso é um convite?
A – é claro!!!!
Tomaram banho juntos e depois resolveram descansar.
Já eram 3 horas da manhã, quando Alana se mexeu na cama, e ao passar o braço no suposto lugar onde Gustavo estaria, percebeu que ele não estava. Levantou-se imediatamente e foi ver onde ele estava.
Gustavo estava sentado na sacada que dava vista para o mar. Alana chegou e lhe deu u beijo no pescoço.
G – humm, que gostoso.
A – O que está fazendo aqui?
G – Perdi o sono e resolvi vir pra cá e apreciar esta vista maravilhosa.
A – Querido, por que não me chamou, eu poderia te fazer companhia?
G – Vontade não me faltou, mas a vi dormindo tão linda e delicada que fiquei culpado em te acordar. Confesso que passei minutos apreciando a sua beleza, vendo o jeito como se mexia, enfim, não me cansava de olhar pra você. Mas já que você acordou, o que você acha de aproveitarmos o resto da noite?
A- Acho uma ótima idéia
Gustavo a carregou para cama. Com um imenso carinho, ele lhe falava ao ouvido o quanto a amava e o quanto a desejava. Alana correspondia a todas as suas carícias. Gustavo a despiu lentamente, aproveitando e se deliciando com cada parte do seu corpo, que ele já conhecia muito bem, foi quando Alana lhe disse; eu te quero muito, faça amor comigo. Gustavo fez do desejo dela uma ordem, e a possuiu gentilmente. Após alcançarem o prazer juntos, Gustavo a abraçou, como que quisesse protegê-la de tudo que pudesse vir lhe acontecer e aninhando-a como um bebê disse: com você é sempre como se fosse a primeira vez – inesquecível.
Ao ouvir isso, Alana adormeceu em seus braços...
Por favor, se alguém puder me ajudar, serei eternamente grata...
Qualquer crítica ou sujestão, escreva-me um e-mail, ou deixe-me uma mensagem aqui no fórum
e-mail: jubvargas@bol.com.br
Meu icq é: 220035833
Me dê a opinião de vcs... Conto com o apoio de vcs heim?
Beijão da Júlia
Mensagem enviada Mar 5, 2003, 11:15 PM do endereço IP 200.149.126.29
Adorei essa história...uma pena não ter continuação.
Se alguém continuou poderiam me informar como ler até o final?
beijos a todas!
Todos os textos são ótimos!
Vanessa
Mensagem enviada Jul 11, 2006, 12:49 AM do endereço IP 201.2.237.204
Acabo de criar o fórum da novela Alma Gêmea...
O objetivo é o mesmo de todos os outros fóruns: falarmos sobre os personagens, histórias, as tendências da época, trocarmos idéias...e blábláblá...
Se estiverem interessados passem por lá e deixem um recadinho...
Como ainda não tem ninguém cadastrado...vcs só vão encontrar, por enquanto, a minha mensagens comentando o episódio de ontem...
Bem segue o endereço: http://www.network54.com/Forum/435381
Um super bju,
Márcia.
Mensagem enviada Aug 28, 2005, 2:38 PM do endereço IP 201.5.115.28
... pois foram escritas anteriormente à criação deste fórum. Deixe uma mensagem no fórum Coração Selvagem para que a Kmi, a autora, possa lhe responder.
Teca
Mensagem enviada Jan 21, 2003, 9:08 PM do endereço IP 200.184.12.26
interesse em ler as duas histórias que falou: entre o amor e o ódio e Noites no Oriente, me manda um email que eu te explico onde elas estão!!!
Meu email é: kmi@netpar.com.br
kmi
Mensagem enviada Mar 27, 2003, 3:41 PM do endereço IP 200.160.21.14
Na verdade, há um bom tempo que frequento este fórum, e andei lendo os textos que vcs escrevem... e pra ser-lhes sincera, o que mais gostei foi "Um Mau Começo"... que texto bem escrito!!! Que riqueza de detalhes... aliás, todos são... Todas vs escritoras, escrevem muito bem...
Gostaria de saber, se alguém poderia se habilitar a continuar a escrevê-lo, é uma estória muito legal... eu adoraria saber o final...
Se alguém puder atender ao meu pedido, serei eternamente grata....
Desde já agradeço...
Júlia
Mensagem enviada Sep 14, 2002, 3:26 PM do endereço IP 200.149.117.248
Infelizmente a nossa amiga Cris parou de frequentar os fóruns há muito tempo e não tivemos mais notícias dela. É uma pena, não é? Suas historias são realmente boas.
Teca
Mensagem enviada Jan 21, 2003, 9:15 PM do endereço IP 200.184.12.26
Quando o avião de Gustavo pousou no aeroporto internacional de Sidney, já passavam das dez horas da manhã. Da sala de desembarque, Alana entrou em contato com o escritório da Prescott e em poucos minutos uma limusine Rolls Royce chegou para apanha-los.
- Bom dia Srta. Prescott – disse o motorista ao abrir a porta do automóvel, para que eles entrassem. - Seu pai ainda está em Paramatta, mas deve chegar no sábado. Prefere que eu os leve para a empresa ou para a villa Prescott?
- Vamos para casa. Tom, este é Gustavo Von Berg, meu noivo.
Ao ouvir aquilo o coração de Gustavo quase parou de bater, Alana jamais assumira o relacionamento deles como sendo uma coisa mais séria na frente dos conhecidos e muito menos dos estranhos. Apesar da intimidade com que se tratavam, sempre se apresentavam como sendo apenas namorados. E agora, quando ele menos esperava, ela lhe fazia esta surpresa maravilhosa, renovando suas esperanças de que num futuro próximo viessem a ter um compromisso formal.
Depois de acomodados no veículo. Gustavo puxou-a para si beijando-a apaixonadamente. Assim que ele pressionou o botão que levantava o vidro fume que os separava do motorista, Alana percebeu o que iria acontecer, fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás enquanto os beijos dele a excitavam cada vez mais.
Ela gemeu, e seu coração batia acelerado, enquanto imagens eróticas lampejavam em sua mente.
- Oh, Gustavo...
- Relaxe querida... – murmurou ele enquanto sua mão insinuava-se por debaixo da blusa de seda que ela vestia, acariciando-lhe os seios. – Isso lhe agrada?
- Mas é claro que sim... Estou em chamas...
- Eu também... Quero fazer amor com você aqui...
- Não podemos fazer amor aqui...Faremos assim que chegarmos em casa prometo.
- Quero fazer amor agora...
- Eu também quero, mas não podemos.
- Podemos sim.
Quando ele começou a beija-la novamente, Alana sentiu-se perdida, nunca mais conseguiria lhe negar nada. Deixou que Gustavo a despisse e foi fazendo o mesmo com ele. Amaram-se ali mesmo, alheios ao resto do mundo. Depois do arrebatamento final, ele a fitou nos olhos.
- Eu te adoro, da próxima vez poderemos tentar no meu carro... – gracejou com um sorriso charmoso.
- Você é mesmo incorrigível, Gustavo – falou Alana prendendo as abotoaduras nos punhos da camisa dele.
- Só com você meu amor. Tudo é diferente quando estou ao seu lado. Mas queria ter sido mais paciente e esperado chegarmos a sua casa... Contudo ardente como eu estava foi quase impossível não devora-la como um animal faminto.
- É verdade, você me devorou... Pelo menos algumas partes minhas.
- Você gostou?
- Você sabe que sim... Para mim é sempre maravilhoso estar ao seu lado.
O carro seguiu até Narrabeen, uma praia na região mais nobre, ao norte de Sidney Harbor, pararam em frente à mansão, desceram e seguindo por uma alameda cercada por pilares greco-romanos esculpidos em mármore di carrara. Gustavo se surpreendeu, porque ao contrario do apartamento em Champs – Elysées, a decoração da residência seguia o estilo clássico, abusando dos mármores e das cores neutras.
De mãos dadas transpuseram os degraus e passaram pelo conjunto de portas duplas de carvalho, onde se via entalhada a figura do Parthenon. No living, a governanta bem como os criados esperavam para saúda-los, estavam em fila e usando uniformes de cor perola, impecavelmente limpos.
- Boa tarde Srta. não a esperávamos.
- Eu imaginei, do contrario os empregados estariam em uniformes de gala... – disse ela sarcástica - Podem voltar aos seus serviços... Você não muda Mandy.
- São ordens de sua mãe menina, os patrões sempre serão patrões...
- Sabe muito bem que Susan não é minha mãe... Deixe-me apresenta-los este é o Sr. Gustavo Von Berg.
Gustavo estendeu a mão e eles se cumprimentaram formalmente.
- Sua suíte, já foi aprontada como você gosta menina...Para qual dos quartos de hospedes quer que eu mande levar as bagagens do Sr. Von Berg?
- Mande levar para a suíte adjacente a minha...
- Quer dizer aquela que tem ligação com seu quarto? – perguntou a mulher chocada e incrédula.
- Conhece outro quarto conjugado nesta casa Mandy? Por favor, faça como eu disse.
- Mas, menina poderíamos acomoda-lo numa das suítes da casa de hospedes.
- Peço gentilmente que não conteste minhas ordens. – disse ela começando a dar mostrar de profunda irritação.
- Como quiser...Lalinha, Gloria... Vocês ouviram as instruções da Srta. Prescott.
Alana segurou a mão de Gustavo e foi andando com o intuito de lhe mostrar o restante dos aposentos. Durante o trajeto ela comentou que não se sentia muito à vontade na casa do pai e por isso mantinha um apartamento modesto em Melbourne, e passava longas temporadas lá. Vindo periodicamente visitar Sidney.
- Acho o estilo de vida da minha família um pouco pomposo demais. Esta casa foi decorada por minha mãe, e mesmo depois da morte dela, ambas as minhas madrastas resolveram manter tudo como estava, pois achavam tudo de muito bom gosto. Por não concordar com isso, antes de me mudar para Europa eu passava grande parte do tempo num apartamento mais modesto em Top Hill. Sinto-me bem melhor lá, mais do que aqui na mansão em que cresci.
Gustavo conteve um sorriso. Pelo que conhecia de Melbourne, Top Hill era o bairro mais elegante e exclusivo da cidade. Apenas milionários moravam lá. E, com certeza, conhecendo Alana, o que ela chamava de “um apartamento mais modesto” era com certeza uma cobertura duplex decorada a seu modo.
Pouco depois Alana chamou a governanta e deu ordens para que todos os empregados fossem dispensados naquela noite. Alegou que estavam cansados e preferiam ficar a sós. Mas uma vez a velha senhora se mostrou contrariada, e insistiu em preparar-lhes o jantar, isso sem motivo aparente foi irritando Gustavo cada vez mais.
- Não preciso de uma babá Sra. Harrison, se precisarmos de algo, nós mesmos providenciaremos. - ela argumentou diante da insistência da mulher e percebendo a crescente irritação dele.
- Pode até ser, mas de qualquer modo, por uma questão de respeito...
- Respeito? O que quer dizer com isso? – perguntou Gustavo, embora tivesse certeza de onde Mandy queria chegar.
- Com os todos os empregados dispensados, vocês ficariam sozinhos. – ela salientou – Não é aconselhável.
- Não corro perigo algum, ma chère. Pode ir sem medo...- respondeu Alana.
- Vocês serão um prato cheio para os fofoqueiros. – arrematou Mandy, numa ultima tentativa.
- Que os fofoqueiros vão para o diabo. – respondeu Gustavo, exasperado. Guiando Alana para a andar de cima.
Ao chegarem, na suíte, Gustavo sentou-se no divã que ficava aos pés da cama e tirou o paletó, dando mostras da severa tensão que sentia. Sempre fazia aquilo depois de um dia difícil de trabalho, ou de uma situação estressante, o próximo passo seria tirar a gravata.
Alana o fitou.
- Quer uma massagem?
- Quero.
Ao ouvir a curta resposta, ela fez uma careta achando que os olhos dele estivessem fechados.
- Eu vi isso... – ele murmurou.
- Você é terrível quando esta mal humorado!
- Mas, isso não lhe dá o direito de fazer caretas!
- Oh dá sim. – disse ela acomodando-se em seu colo para melhor massagear os ombros largos.
- Que gostoso...
- Dói?
- Não, pelo contrario. É uma delicia... Não pare.
- Por que não me dá um sorriso? Parece tão aborrecido.
- Por que não deveria estar aborrecido? Sabe que odeio empregados bisbilhoteiros... Agora entendo porque detesta ficar nesta casa... Com uma bruxa de plantão até eu...
- Ela não é má, meu bem, mas um pouquinho burra. Não fique zangado, dentro de poucos dias iremos para a Huí e lá poderemos ficar sozinhos o quanto você quiser.
- Não estou zangado, não com você... – disse ele por fim beijando-a com sofreguidão.
Passaram a tarde descansando, e quando passava um pouco das dezoito horas Alana se levantou para tomar uma ducha.
Gustavo rolou na cama e afundou o rosto no travesseiro dela sentindo o perfume feminino. Pouco mais de uma hora antes tinham feito amor com paixão. A iniciativa partira de Alana, mas ele não relutara em aceitar a provocação. Completavam cinco meses de namoro naquele dia. Cinco meses de absoluto encanto.
Quando estava quase pegando no sono, ouviu e viu Alana saindo aos berros do banheiro, prontamente pulou da cama e caminhou apressado em sua direção.
- O que foi, coração? Esta pálida.
- Tem uma aranha no banheiro. – ela explicou pondo os braços na cintura.
- Uma aranha? – ele repetiu em tom zombeteiro.
- É enorme! – ela salientou sentindo que corava. – Não entro mais lá de jeito nenhum!
- Com licença. – pediu ele entrando no banheiro.
Parada na porta Alana o viu caminhar em direção ao bicho que se aninhara próximo ao Box. Com a maior calma, ele abaixou-se e pegou-o, fechando as mãos em concha, uma em cima da outra.
Voltou para junto de Alana que recuou apavorada.
- Peguei o “monstro”, meu amor. – anunciou - O que faço com ele? Você decide.
- Jogue-o pela janela! – disse ela arrepiada.
Gustavo obedeceu. Depois de fechar a porta da sacada e puxar os cortinados, virou-se para Lana que se aproximou, assustada e toda encolhida.
- Pronto, o “perigo” já passou, minha linda. – disse ele abraçando-a – Por que esta tremendo? Do que esta com medo agora? Tem medo de que a aranha vá buscar reforços e invada a casa para vingar-se? – indagou ele zombeteiro.
- Ela não morreu caindo dessa altura?
- Aposto que não, as aranhas têm seus truques. Amor, como é que não tem medo de descer os Alpes apenas com uma prancha de snowboarding – disse ele lembrando-se do terror que sentia ao ver Alana deslizando praticamente em queda livre nas mais rampas mais íngremes das estações de esqui que freqüentavam na Suíça - E se apavora por causa de uma pequena aranha, das inofensivas?
- Não sei... Aquelas pernas peludas... – ela fez uma careta estremecendo.
Gustavo deu uma risadinha e beijou com doçura, tomaram banho juntos e logo depois saíram para jantar.
Passaram alguns dias em Sidney e antes de partir para Huí, Alana sugeriu que o namorado comprasse algumas roupas novas, pois as que trouxera de Mônaco, apesar de serem elegantes e de corte perfeito, combinavam muito mais com o clima fresco da Europa do que com o calor intenso da Austrália.
Na quarta - feira à tarde, Felipe ligou para Alana ao saber que ela tinha chego à Austrália. De tanto insistir, ela conseguiu que ele permitisse que Alyssa e Andrew viessem passar o fim de semana na companhia dela e de Gustavo. No sábado pela manhã saíram os quatro para um dia de compras e diversão.
Enquanto carregava os pacotes pela rua, Gustavo não tinha noção de quantos quilômetros tinham andado ou em quantas lojas tinham entrado. Finalmente chegaram na Ronnie’s, que era uma loja especializada em artigos masculinos.
Brincalhão e de ótimo humor Gustavo murmurou no ouvido de Alana:
- Finalmente chegou a minha vez, já estava pensando que iria a falência antes de comprar uma camisa para mim...
Alana corou e em resposta deu-lhe um beijo no rosto caminhando em direção a uma atendente.
A moça observou o jovem casal, vestindo roupas de grifes italianas, como qualquer vendedora, percebeu neles clientes em potencial. De forma solicita indagou:
- Que tal a nova coleção Jean Paul Gautier de verão?
Alana observou a moça da cabeça aos pés e sorriu dizendo:
- Estamos interessados em algo mais descontraído. Que tal a coleção Armani, meu amor? Vi umas peças muito bonitas no mostruário. – completou ela virando-se para Gustavo, que estava distraído provocando Alyssa. Ao ser indagado, ele respondeu prontamente.
- O que você quiser, coração. – e continuou distraído com a nova “sobrinha”
- A Sra. gostou da coleção Giorgio Armani? Ah, então temos algumas peças bem especiais.
Pouco depois, sentada num confortável divã da loja, com Andrew no colo, e Alyssa ao lado, Alana observava os modelos trazidos pela vendedora.
- Meu amor, sinto-me um tanto confuso... Já faz um tempo que quem compra minhas roupas é você. – confessou ele no momento em que a vendedora se afastou para buscar uma leva de camisas Versace que, segundo ela, eram maravilhosas. – Não sei o que escolher, e a vendedora esta sendo tão prestativa...
- Se deixar se levar pela moça, vai acabar levando a loja toda, meu amor. É claro que ela esta sendo prestativa, é a função dela... Quer mesmo que eu escolha? Nada de “isso não faz o meu gênero” como da outra vez? – lembrou-lhe ela se referindo a um terno Hugo Boss que ela comprara e ele simplesmente detestara.
Ele assentiu, então ela se levantou deixando Andrew sentado ao lado da irmã. Alana examinou algumas peças e separou outras.
Pouco depois a vendedora retornou trazendo, varias camisas de cores e modelos diferentes. Alana escolheu meia dúzia e entregou a Gustavo.
- Querido, creio que estas lhe cairão bem.
Ele agradeceu-lhe com um beijo doce no rosto. Já ia se dirigindo ao provador, quando Andrew gritou:
- Gugu!
- Calma querido – disse a vendedora num tom carinhoso –seu papai não vai embora. Ele quer apenas experimentar algumas roupas.
Alana enrubesceu violentamente.
- Na verdade, sou “tio” dele – Gustavo esclareceu, afastando-se.
Durante quase uma hora, Alana foi submetida a doce tortura de ver Gustavo usando os mais elegantes modelos esportivos, passando bem a sua frente, com o sorriso malicioso que ela conhecia muito bem.
Algumas camisas deixavam-lhe à mostra uma parte do tórax musculoso, onde se podia ver uma penugem negra e macia.
Certas calças, mais justas, delineavam-lhe os músculos das coxas e dos quadris.
Alana constatou, não eram as roupas que lhe prendiam a atenção, afinal, gostava dele vestido ou despido... Gustavo possuía uma elegância natural, capaz de mexer com a mais insensível das mulheres.
Depois das compras foi a vez de dedicarem-se a entreter as crianças. Apesar de detestar freqüentar fast-foods Alana concordou em acompanha-los até o Mac Donald’s. Mais entrosados do que nunca, os três pareciam formar um trio, cuja especialidade era provoca-la.
Gustavo demonstrou a Alana uma faceta que ela desconhecia. Com as crianças ele era extremamente gentil, carinhoso e engraçado, até mais do que o era com ela própria. Fazia palhaçadas e elas se divertiam. Daria um ótimo pai, concluiu ela em meio a devaneios.
No dia seguinte logo após o almoço a helicóptero pousou em Huí, Alana admirou com orgulho a casa que ela mesma projetara. Esperava ter uma agradável surpresa, mas ao abrir a porta e entrar pelo hall, quase teve um ataque do coração...
- Que diabos aconteceu aqui???
Mensagem enviada Feb 15, 2002, 9:22 PM do endereço IP 200.204.31.224
Desafortunadamente, nuestra amiga Cris que es la autora de estes textos, ya no viene a los foros hace muchísimo tiempo (desde que se cambió a una nueva dirección) y no sabemos más de ella. Sí, sus historias son muy buenas.
Teca
Mensagem enviada Jan 21, 2003, 9:12 PM do endereço IP 200.184.12.26
Neste fórum estão estórias que não têm ligação direta com a trama de Coração Selvagem. Nos Textos de Coração Selvagem estão somente as estórias diretamente relacionadas com CS, ou seja, versões diferentes de CS, cenas acrescentadas, reinterpretação de passagens específicas de CS, etc.
Teca
Mensagem enviada Jan 21, 2003, 9:05 PM do endereço IP 200.184.12.26
Alexandra atravessou o cais, respondendo aos cumprimentos de vários vendedores que por ali comerciavam, desde pescados a alimentos. O sotaque suave de New Orleans chegava como música a seus ouvidos.
New Orleans se transformara no lar que os acolhera com carinho, desde que ali chegaram há quase nove anos, ainda sem um rumo traçado... inseguros. Mas juntos...
Sorriu ante esse pensamento.
Juntos.
_Papai!!!! – Andrews, o filho de três anos disse, batendo palminhas e depois apontando na direção do homem parado na ponta do cais.
_Sim, Drew.. papai!
Observou-o, à medida que se aproximava... Era estranho como David estava aparentemente tão diferente de quando o conhecera... e ao mesmo tempo, tão parecido. Não importava que tipo de roupas usasse... não importava onde estivesse... ele sempre teria o porte e a dignidade de um cavalheiro.
Isso nunca mudaria...
Como também não mudaria seu amor por ele. Um amor que havia percorrido um longo e tortuoso caminho...
_Papai!! – Drew gritou assim que se aproximaram, e David voltou-se.
A expressão dele mudou sensivelmente. O brilho nos olhos e o sorriso mais radiante do mundo surgiu naqueles lábios. Isso sempre a comovia... pois o seu David era um homem de emoções e reações controladas. Sério, contrito...
Mas no que dizia respeito aos filhos... tudo mudava!
_Venha aqui, garotão!
Alex colocou o menino no chão, que foi sem hesitar, correndo para os braços do pai. Ele o ergueu bem alto, e o menino riu com satisfação. Depois o trouxe para perto, abraçando- o .
David nesse momento, olhou para Alex... e não havia a menor dúvida sobre o amor que aqueles olhos lhe revelavam.
_William chegou! – ele estendeu um braço e Alex aninhou-se ali, passando o seu pela cintura dele. Beijaram-se, para deleite e inveja das mulheres que por ali estavam, algumas aguardando para embarcar, outras trabalhando nas bancas tão características.
Em toda a cidade, não havia ninguém que duvidasse que os Carrington eram uma família feliz. Apesar das constantes discussões em que se envolviam... isso era inevitável, em se tratando de duas pessoas com personalidades tão fortes. Mas se as brigas eram comuns, as reconciliações imediatas.
Ah, e eles eram bastante conhecidos, principalmente depois que montaram uma companhia de transporte marítimos. E causavam admiração e surpresa, pois o casal administrava conjuntamente a firma. Eram sempre vistos juntos...nas docas, no cais... em todos os lugares.
_Isso explica a ausência súbita de Annie! Imagino que nossa garotinha fujona veio correndo para cá!
_Sem dúvida.... veja! - voltaram-se para a baía, onde um navio aproximava-se lentamente para atracar.
_Vai ser muito bom rever Billy Jay! Ele demorou bastante dessa vez! – Alex comentou, saudosa de seu pequeno companheiro. Billy Jay tornara-se um belo rapaz, na verdade, um homem feito! E felizmente, estavam juntos novamente.
Dali avistaram a garota de nove anos, vestida em trajes de menino, os cabelos negros presos por uma fita, de pé na murada do navio. Ela segurava numa das amarras do mastro e o outro braço apoiado no ombro de um homem. Ambos acenaram.
_Veja, Billy Jay! Mamãe chegou! – a menina gritou ao avistá-los.
_Estou vendo, princesinha! – ele sorriu largamente.
_Não acredito que ela levou um bote ao navio! Essa garota não tem limites! – Alex exclamou, mas não havia recriminação em sua voz.
David riu.
_Humm... me lembra alguém.
_Claro que lembra! É igualzinha a você! – Alex não se fez de rogada.
Ambos riram.
_Orgulhosa...
_Arrogante!
David a fitou, segurando o garoto no braço esquerdo. O semblante dele tornou-se sério...como sempre acontecia quando a fitava daquela forma.
_O melhor de nós dois.. – ele murmurou, os lábios próximos aos dela.
Alex os tocou de leve, com a ponta dos dedos.
_Com certeza, milorde...
_Eu te amo.... já lhe disse isso hoje?
_Já...mas não me canso de ouvir.
Beijaram-se, e Andrews bateu palmas!
Os Carrington, desde o primeiro instante que pisaram em New Orleans foram e eram até hoje a sensação das comadres e fofoqueiras de plantão. O beijo em público era tão freqüente a eles quanto as discussões.
Mas a despeito do comportamento fora dos padrões, eles conseguiram suscitar dois tipos claros de sentimentos... ou eram odiados, ou eram amados!
_Você demorou muito, Billy Jay! Estávamos todos sentindo muito sua falta. – Annie disse, passando o braço pelo pescoço dele.
Billy segurou a mãozinha dela.
_Eu também, princesinha. Senti muito a sua falta...
_Mamãe vai lhe dar um puxão de orelha por ter ficado tanto tempo longe de casa! – ela falou seriamente e ele riu.
_É bem capaz, Annie! - olhou-a de soslaio.- Mas não vai ser só a mim... se bem te conheço... você não pediu permissão para vir aqui, não é? E garanto que pegou aquele bote sem autorização também.
_Foi por uma boa causa! – respondeu, segura de si.
_E seu vestido?
_Mamãe nunca me disse que eu não podia usar essas roupas... – ela olhou para a calça e a camisa.-... e depois... já imaginou como ia ser difícil subir a escada de corda usando um vestido?
_Você se parece demais com sua mãe, princesinha... – Billy observou o casal que os aguardava no cais. Fazia cinco meses desde que partira, levando uma carga para Boston, e conseguira outras mais, ficando indo e vindo pela costa.
Comandava os navios da companhia dos Carrington há seis anos, desde que viera para a América, atrás de “seu capitão”. Chegando até os O’Neill ficara sabendo de tudo que houve em Charleston.
Não havia nenhuma pista sobre o paradeiro dos dois. Nada. Haviam sumido do mapa. Chegaram até a pensar no pior, mas Billy nunca perdeu as esperanças. Alexandra não seria facilmente derrotada.
Sendo assim, ficara em Charleston, trabalhando na Companhia de Navegação do sr. O’Neill, onde aprendera muito. Dez meses depois, o capitão Reese recebeu uma carta de Alexandra, informando que estavam vivos e bem, e que tinham ido para New Orleans, pois lhe parecera o lugar mais neutro para se estabelecerem.
Billy não perdeu tempo e foi para lá. Tinha que estar ao lado dela... para o que desse e viesse. E foi assim que, após navegar por tantos anos ao lado dela, acabara se tornando um dos capitães da companhia.
Não cruzavam o oceano, mas navegavam por toda a costa, indo até mesmo ao Caribe, realizando o transporte das mercadorias produzidas no sul e trazendo produtos do Norte.
_Billy Jay... – Annie começou, se lembrando de algo.-... por quê você sempre chama a minha mãe de capitão?
Ela viu o sorriso se formando nos lábios dele.
_Sua mãe nunca lhe contou não é?
_Contou o que?
Ele riu. Alexandra ia lhe cortar o pescoço quando soubesse.
_Eu lhe conto, princesinha...mas esse vai ser um segredo entre eu e você, certo?
_Certo! – ela preparou-se para ouvir, atentamente.
_Sua mãe... foi a melhor comandante de navio que o Império Britânico já teve... e eu, servia no navio dela.
Ela arregalou os olhos. Olhos verdes, incrivelmente claros.
_Minha mãe!
_Sim, sua mãe. Seu pai e sua mãe eram comandantes de navio, muito antes de você nascer.
_Mesmo????!
_Sim... e ela me salvou, quando eu era um pouco mais velho que você, e me aceitou entre a sua tripulação. Desde esse dia... até hoje, sua mãe tornou-se a pessoa mais importante na minha vida... – ele riu.-... até surgir você... aí, você se juntou a ela.
_Minha mamãe salvou sua vida!
_Várias vezes!
_E como era isso? Que navio ela comandava? Me conte, Billy! – pediu, animada.
Billy olhou para o cais. Demoraria ainda pelo menos uma boa meia hora até conseguirem atracar. A menina sentou-se na murada, com as pernas balançando para fora do navio. Billy a abraçou pela cintura, mantendo-a segura.
Manteve o olhar na mulher que estava no cais, sentindo mais do que nunca, o quanto ela foi e é importante na sua vida! Daria sua vida por ela.... e agora, pelos filhos dela também. Era o mínimo que ele podia fazer... depois de tudo que ela fez por ele.
A única família que conhecera. A única pessoa que o acolhera!
_Sua mãe adorava o mar, princesinha. E ela tinha um tio...capitão de um navio...seu nome era Persepholles... era um excelente navio! Ele agüentou muitas tempestades e muitas batalhas em alto-mar...
_Batalhas? – Annie olhava para seus pais, no cais.- Minha mãe esteve em batalhas?
_Sim, esteve... ela era ...era, não.. ainda é...uma excelente capitã!
_E como ela se tornou capitã?
_Tinha dezessete anos quando entrou como clandestina no navio do tio...
_E eles não a descobriram?
_Descobriram...mas já estavam em alto-mar, e não podiam voltar... mas ela amava tanto o mar, que o tio dela acabou aceitando-a na tripulação...e lhe ensinou tudo que sabia! A partir desse dia... ela nunca mais deixou de navegar....
Annie sorria amplamente. Saber aquelas coisas de sua mãe, era maravilhoso!
_E como ela se tornou capitã?
_Quando o tio dela ficou doente...passou o comando para ela... Ela se tornou a capitã do Persepholles...
_Foi quando ela te salvou?
_Não... isso foi muito depois... eu era um garoto.
_E a família dela não achou ruim?
_Se achou, não havia nada a fazer... quando Alexandra Hampton se propunha a algo... não tinha ninguém que a detivesse, princesinha... e lembre-se que seu tio Reese também era capitão de navio! Amar o mar parece ser um mal de família!
Annie riu com gosto.
Estava deslumbrada com o que ouvia. Sua mãe adorava o mar tanto com ela... em sua cabecinha, já começava a tecer mil planos do que faria... Queria ser capitã como sua mãe... comandar seu próprio navio!
_E as batalhas, Billy?
_Isso foi durante a guerra... – aqui, ele procurou escolher bem as palavras. Era um assunto muito delicado.
_A guerra contra meu país?
Ele riu.
_Menina... não se esqueça de que eu, sua mãe e seu pai, somos ingleses!
_Mas vivem aqui!
_Agora sim...na época não...
_Então, atacavam navios americanos?
Billy hesitou.
_Não tinham escolha... era uma guerra, Annie. Mas acredite... nem sua mãe, nem seu tio gostavam de fazer aquilo.
_Foi durante a guerra que tio Reese conheceu a tia Samara, não foi?
_Foi sim...
_E papai e mamãe também.
“De certa forma”, pensou.
_Isso é tão maravilhoso, Billy! Eu quero ser como a mamãe!
“Oh-ou... terreno perigoso”, pensou. Ele até podia ouvir os planos que aquela cabecinha estava tramando. Resolveu puxar um pouco o freio ali.
_Mas sua mãe estudou muito, até se tornar capitã...
_Estudou, como?
_Ora, Annie... para ser capitão de navio.... você precisa entender de navegação, conhecer os instrumentos, cartografia, conhecer como funciona seu navio...conhecer bem os ventos, as rotas... tudo!
_E como ela aprendeu isso? Não foi com o tio dela?
“Realmente, foi...mas eu não vou lhe dar idéias, princesinha. Sua mãe me mataria.”
_Aprendeu muito com ele.....mas antes de se aventurar no mar, ela estudou... procurou aprender tudo que podia... para se preparar!
Annie viu o cais, já bem próximo. Estava pensativa.
_Billy...?
_O que foi?
_Você acha que a mamãe me ensinaria tudo o que ela sabe?
Ele sorriu.
_Tenho certeza, princesinha! Se ela tiver certeza que você ama o mar, tanto quanto ela... tenho certeza!
_E quando eu crescer... vou ser igual a ela, Billy.
_Tenho certeza, Annie!
_Então... por que a mamãe não me deixa ir visitar tio Reese? São só eles que vem aqui... e o papai também não me deixa vir ao cais sozinha...
_Olhe para mim, Annie....- ele fez a menina se voltar para ele.-... o que eu vou lhe dizer... seus pais provavelmente não lhe dirão... mas eu acho que você vai entender muito bem isso...
_Eu já sou grande!
_Sim, você é...
_E esperta!
Ele riu.
_Ouça.... quando estavam na guerra... seus pais tiveram que se envolver com muitas pessoas que... não gostavam deles... eram gente muito ruim e que tentaram fazer muito mal a eles. E quase conseguiram.... muitos deles ainda vivem em Charleston... – a menina arregalou os olhos.-... e seus pais não querem colocar você e seu irmão em perigo...
_Mas a guerra acabou há muito tempo... – retrucou, com lógica.
_Acabou... mas o rancor dessas pessoas, talvez não! E tudo o que eles querem, é proteger você e seu irmão. E ainda é muito arriscado irem a Charleston... e por isso também, não podem mais voltar à Inglaterra, ver seu tio Avery.
_Mamãe disse uma vez que sentia muita saudade de lá...
_Sim, ela deve sentir...mas não pode mais voltar.
_Nunca mais...?
_Talvez não... e é por isso que ficam preocupados se você sai sem avisar... ou vem sozinha ao cais!
_Essas pessoas eram muito ruins?
_Muito.
_Machucaram o papai e a mamãe?
_Tentaram... mas eles foram mais espertos! E escaparam.
_Por isso vieram para cá?
_Sim, foi por isso. Porque aqui... ninguém sabia quem eles eram... e aqui eles puderam criar um lar para vocês. Você me entendeu?
Ela ficou em silêncio por alguns momentos.
_Entendi, Billy.
Tocou de leve o rosto dela.
_Você é tão linda e especial quanto sua mãe, Annie! E quando crescer... vai se tornar uma mulher tão maravilhosa quanto ela!
_E vou me casar com você! – ela falou, muito séria.
Billy sorriu.
_Vamos pensar nisso quando você crescer, princesinha! – beijou-a na testa. – Agora... acene para seus pais, que vamos descer daqui a pouco.
_Meu Deus.... ela é linda, Alexandra! – David exclamou, observando a filha. – Tanto quanto você!
Alex sorriu.
_Ela se parece muito com você... talvez tenha os meus olhos...
_...e a sua temeridade... – David completou, vendo a filha caminhar pela mureta do navio em movimento, sentindo o coração quase parar de bater.
_... e agilidade! – Alex riu, vendo-a se movimentar com segurança entre as amarras.- Meu Deus, essa menina ama o mar tanto quanto eu!
_Outra capitã! Estamos criando uma verdadeira dinastia de comandantes!
Alex riu com gosto.
_Ela não perde a menor oportunidade para vir ao cais com você ou comigo...
_O que aconteceria se lhe contássemos como a mãe dela se iniciou em sua vida no mar?
_Deus me livre! Com a teimosia e imaginação que ela tem... estaria de clandestina no primeiro navio que fosse partir! Não, David!
Ele riu.
_Vai tolher os sonhos que você mesma teve?
_Não... não é isso... mas eu tinha uns dez anos mais que ela, então... vamos esperar está bem?
_Está com medo do que Reese lhe disse? Que você ia provar do sufoco e preocupação que os fez passar com suas aventuras? – a provocou.
_Se conheço nossa menina... e esse rapazinho aqui... – afastou os cabelos negros que caíam na testa de Andrews. - ... isso será inevitável, David! – ele colocou Andrews no chão, que ficou pulando e acenando para a irmã. David a abraçou.
_Só desejo que ela seja tão feliz quanto nós somos....
_E que não tenha que sofrer tanto quanto nós para conseguir isso...
_Tudo culpa do seu orgulho desmedido...
_Só do meu? – ela o fitou, cerrando os olhos.- E o seu ciúme absurdo?
Ele a fitou sério.
_Absurdo? Senhora Carrington, saiba que eu não tenho nenhuma simpatia por nenhum homem que se aproxime de você!
_Não existe nenhum homem para mim...além de você!
Ele tocou em sua face, traçando o contorno do rosto amado.
_Ninguém além de você, Alexandra...
_Para sempre... – sorriu de leve.-...se lembra?
Fitaram-se intensamente.
_Sempre com você, meu amor!
Fim
Mensagem enviada Jul 22, 2002, 10:59 PM do endereço IP 200.151.72.145
Assim que clareou, eles recomeçaram a caminhar. Em estóico silêncio. Não sabiam exatamente para onde estavam indo, mas onde quer que fosse...ainda não tinham encontrado uma só alma viva!
Paravam apenas tempo suficiente para descansarem. Os poucos alimentos que trouxeram do Phoenix já havia acabado.
_Estou morrendo de sede... – Alex disse a certa altura.
_Não vejo sinal de nenhum riacho ou algo assim... E não faço idéia de onde estamos...
_Nem eu...
_Está cansada? – ele voltou-se.
_Muito... nunca tive que caminhar tanto em minha vida....- gracejou.-... mas não podemos parar...
Alex o viu estender-lhe a mão.
_Trégua, Alexandra... uma trégua.
Sem dizer nada, ela colocou a sua sobre a dele, segurando-a com firmeza. Fitaram-se por um instante, e então recomeçaram a caminhar.
A um certo momento, finalmente encontraram uma estrada, e julgando já estarem longe do perigo, seguiram por ela.
_Veja, David.... uma vila...... – ela disse, ao avistar fumaça e o primeiro sinal de casas.
Ele parou.
_O que foi? – olhou com estranheza para ele.
_Acho melhor você ficar aqui e me esperar. Vou ver se consigo algum lugar para descansarmos e...
_Eu vou com você.
_Assim? Não acha que vai chamar nenhuma atenção?
_Assim como?
_Olhe para você, Alexandra...
Ela o fez.
_O que tem de mais? Estou vestida!
_Vestida com roupas de homem!
_Me vesti assim metade de minha vida! Como acha que navegava? De saia e chapéu? – ironizou.
_Não estamos nos seus navios, Alexandra... e suas roupas não deixam nada a dever à imaginação.
Ela ia retrucar...mas David não deixava de fitá-la.
_Pare com isso!
_Com o quê?
_Não me olhe assim!
Ele sorriu.
_Assim como? – ele a provocou. Os olhos dela pareciam lançar faíscas.
Alex estreitou o olhar.
_Você sabe...
_Não, eu não sei... – aproximou-se.- Por quê você não me diz?
_David!
_Vamos, Alexandra...me diga... como estou olhando para você?
“Ele está me provocando...”, Alex pensou, não conseguindo fugir do olhar dele. O ar lhe faltou de repente.
_Você não vai até a vila? – tentou desviar o assunto. Ele continuou sorrindo...aquele sorriso contido... que a estava tirando do sério.
_Sim, eu vou...me espere aqui...mas não fique à vista. – ele deixou o assunto morrer por enquanto.
Alex ficou observando-o até sumir de vista na curva da estrada.
“O que você vai fazer agora, Alexandra? O que?”, indagou-se, indo se sentar à sombra de uma árvore. Dobrou as pernas e cruzou os braços, apoiando-os sobre os joelhos. “Por que não consigo pensar com clareza quando ele está por perto? Ah, que confusão...”, passou as mãos sobre o rosto, inclinando a cabeça para trás, recostando contra o tronco. Uma verdadeira roleta russa... foi no que se transformara a sua vida nos últimos anos... Quando tudo parecia caminhar para um desfecho... acontecia uma reviravolta... tudo perdia o rumo... tudo saía dos eixos...
Como agora... a reação que David tivera... ele a expulsara de sua vida... como se não tivesse tido nenhum significado os momentos que viveram...
Sim, ela reconhecia que tinha tido atitudes muito dúbias... inseguras... mas lhe dera sua palavra... fizera um juramento...
Por que David reagira de forma tão....
Apaixonada?
Seu olhar recaiu sobre sua mão. A aliança... tocou de leve com os dedos... ele a guardara consigo...
Raiva... ciúme... David tinha ciúme de Brendan! E se tinha... era porque a amava...ou pelo menos.... sentia algo por ela.
Seria possível? Poderia acreditar realmente que ele a amava?
Quando David finalmente retornou, trazia algo consigo.
_Alexandra?
Ela surgiu de dentro da mata, pouco depois.
_Tome... vista isso.... foi o melhor que consegui.
_O que é?
_Um vestido.
_Não trouxe nada para comermos? – ela reclamou, pegando a trouxa que David lhe estendia, abrindo-a.
_A vila não é tão pequena assim... consegui um quarto numa pousada. Tem um belo jantar, uma banheira com água quente e uma cama macia te esperando.
_Ah, uma bênção... – ela murmurou, indo para dentro da mata, se trocar.
_Precisa de ajuda? – David a provocou.
Ela nem se dignou a responder. Poucos minutos depois, voltava já no vestido.
_Escolha sua? – ela fez um gesto com as mãos, indicando a roupa.
_Não havia muita escolha...vamos.
Ela riu, acompanhando- o .
O vestido era bem simples e obviamente, a dona devia ter o dobro do tamanho de Alex.
A presença dos dois chamou pouca atenção, principalmente porque a pousada ficava bem na entrada da vila. David já havia alugado o quarto, com banho e uma refeição bastante reforçada, para ambos.
Enquanto Alex aproveitava o banho, ele saiu para conseguir alguma condução até a cidade mais próxima.
Alex afundou na tina que haviam colocado no quarto, suspirando de puro alívio, em meio ao vapor que subia. Jogou um pouco de água no rosto, aproveitando para relaxar bem o corpo. Flexionou as mãos, olhando para a aliança.
Tocou-a com cuidado, girando-a no dedo.
Uma sensação inquietante não a deixava em paz, desde que havia reencontrado David no cais.
Estava cansada de tantos encontros e desencontros. Estava quase convencida de que a relação entre os dois, não estava destinada a dar certo.
Ouviu batidas leves na porta, e com a respiração em suspenso, aguardou.
_Alexandra...
Soltou o ar com calma.
_Um momento....
Saiu da banheira, enrolando-se na toalha, o corpo e o cabelo encharcados. Foi abrir a porta. Retirou a aldrava e a abriu.
David ficou um momento parado, observando-a. Gotas escorriam dos cabelos, pelo rosto, pescoço, enquanto ela mantinha a toalha presa ao corpo, segurando-a contra o peito.
_Não vai entrar? – ela o tirou daquele torpor. Virou-se e entrou, indo se trocar atrás da cortina improvisada por um lençol, no canto do quarto.
David entrou, trancando a porta.
_Eu trouxe algumas roupas para você...
_Obrigada... coloque sobre a cadeira.
_Já trouxeram a refeição... – ele observou a travessa coberta sobre a rústica cômoda.
_Assim que você saiu... – Alex respondia enquanto se trocava com a única roupa disponível no momento. Uma camisa que ele havia arranjado antes. Retirou o excesso de água dos cabelos e estendeu a toalha no ‘varal’ improvisado. Saiu detrás da cortina. – Conseguiu alguma condução?
_Se você não se importar de seguir viagem numa carroça...
_É uma condução, não é? – ela deu de ombros.- Melhor que andar...
Fitaram-se. A tensão entre eles parecia tomar forma e se tornar cada vez mais sufocante. Alexandra foi a primeira a desviar o olhar e se afastar. Deu-lhe as costas e fechou os olhos. Tentou se controlar... aquilo não podia continuar....
David avançou mesmo sem saber o que fazia. Não, não conseguia se controlar mais!
Alex pressentiu sua aproximação e se voltou, mas não teve tempo para mais nada. Ele segurou-lhe os pulsos contra a parede de madeira e encostou-se a ela, imobilizando-a. Alexandra lutou para se libertar mas sabia que fisicamente ele era muito mais forte e ela não tinha como se soltar.
_Por Deus, Alexandra, chega! – disse num tom de voz sedutor, olhando-a de tal forma que ela sentiu o coração bater mais forte, mas não conseguia esquecer a frieza com que a tratara quando se encontraram no convés do Phoenix.
Pela primeira vez admitira que o amava e ele, pura e simplesmente, rejeitara qualquer argumento seu. Ele deveria saber que ela não mentia. Mas fora cruel e inflexível.
E agora.... a queria de volta.
Alex fez outra tentativa para se libertar mas só conseguiu ficar ainda mais presa entre o corpo dele e a parede.
_Vamos parar...- David baixou a voz e o tom era íntimo. Ela ergueu o rosto, fitando- o .
_Largue-me... “milorde”. O senhor disse que me libertava do casamento. Cumpra a sua palavra! Agora é o momento.
_Como posso fazer isso? – ele tinha o olhar fixo nos lábios dela, e Alex estremeceu. - É impossível viver sem você, Alex... Tentei.... mas saber que está tão perto... e não está comigo... está me deixando louco. Você é minha mulher, e sei que me ama...
Por que ela fora idiota ao ponto de dar a ele esse trunfo? Fazê-lo consciente de todo o poder que exercia sobre ela? Como se não bastasse a forma como seu corpo reagia ao dele. Olhou-o, mas novamente não teve tempo para mais nada.
O beijo apanhou-a de surpresa.
Primeiro um leve roçar de lábios que a deixou ofegante e quando tentava se recompor, David beijou-a novamente. Profundamente. Nem lhe passou pela cabeça não corresponder.... não havia como resistir. A saudade e o desejo misturando-se a seu orgulho. Diluindo-o.
_Impossível... viver... sem... você... - Ele repetiu baixinho, contra os lábios dela, palavra por palavra... lentamente.... intensamente, de olhos fechados. O corpo tão junto ao seu que ela quase não conseguia respirar. Ela o fitava, observando a expressão em seu rosto. Os lábios dele...
_Solte-me David... - Alexandra estava tão ofegante quanto ele. Tão ansiosa quanto ele. Mas quando ele abriu os olhos fitando-a, ela o sustentou.
Ele abriu as mãos, libertando seus pulsos, mas não se afastou.
Ficaram então.... presos simplesmente pelo olhar.
_É o que você quer? Partir? Me deixar? – ele indagou, sem alterar o tom de voz.
_Você não vai me seduzir... – ela reagiu. “Que grande mentirosa você é, Alex”, disse a si mesma. Seu coração batia tão forte que ele poderia ouvi-lo.
_Você transtorna meus sentimentos, Alexandra... – ele continuou, não fazendo caso de suas palavras. Ela poderia escapar se quisesse, pois não a segurava, nem lhe barrava o caminho.-... desde a primeira vez que nos vimos, em White Hall...
_Foi você quem me lançou na linha de bloqueio....foi sua decisão que pesou para o Conselho... – ela aproveitou a deixa, querendo desviar o assunto de qualquer jeito
_Sim... foi...
_Por que?
Ele sorriu.
_Quer elogios, minha querida.... – ele ergueu lentamente a mão, tocando-a de leve com a ponta dos dedos, desde as mãos, subindo pelo braço e percebendo a pele se arrepiar, até apoiar a palma da mão contra a parede, bem ao lado do ombro dela....- ... você tinha uma excelente reputação naquela época.... entre os comandantes de navio... sua tripulação era a melhor... e o Reino precisava dos melhores...
_Tenho minhas dúvidas.. – ela procurou se concentrar naquilo...qualquer coisa que a fizesse esquecer e resistir à forma como ele a fitava.-....você já devia saber que eu fazia vista grossa para o capitão Flint... me colocando sob as ordens do Comando de Guerra, poderia me vigiar e exercer maior influência sobre meus atos...
Ele sorriu de novo.
“Pare com isso...”, Alex pressionou ainda mais as costas contra a parede tosca, de tal forma que poderia até ultrapassá-la. Se ele continuasse sorrindo daquele jeito... olhando-a daquele jeito...
_Está vendo? Você sempre foi muito inteligente... e isso me atraiu para você... Claro, que precisava tê-la sob meu controle... mas naquele baile...mesmo sem que eu percebesse... algo mudou, Alexandra... Ouvi-la falando daquela forma sobre o mar... você falou muito sobre si, talvez sem perceber...
_Estava me sentindo acuada... pressionada...eu.... – “Não lembre, não lembre”, ordenava a si mesma, desesperada.
_E na sacada... você estava tão linda... – ele ergueu a mão, afastando os fios dourados do rosto dela.-... tão linda quanto agora...
_Com essas roupas? – ela gracejou, tentando se livrar do fascínio dele. Abaixou a cabeça e com as mãos, fez um gesto para si mesma. Foi um erro. Vestia apenas a camisa... que lhe cobria até metade das coxas apenas...e ainda estava semi-aberta.
_Mais linda agora... do que jamais me pareceu...
Ela manteve a cabeça abaixada, mas isso só servia para ter maior consciência dele. Da presença dele.
_Pare, David...
Ele inspirou profundamente, sentindo seu perfume.
_Não posso... – a voz rouca lhe provocando arrepios por todo o corpo.
Ele segurou sua mão esquerda e com gestos lentos, acariciou seus dedos, concentrando-se sobre a aliança.
_Afaste-se agora, então... – ele a desafiou, erguendo o olhar lentamente... fixando nos olhos claros.- ... se você se afastar de mim agora... juro... eu a deixarei em paz....
_Não acredito nisso...- ela murmurou.
O canto esquerdo dos lábios dele se arqueou, num meio sorriso.
_Nem eu acredito, Alex.... nem eu....
Apesar de sua arrogância em obrigá-la a vir com ele. Em obrigá-la a recolocar a aliança de casamento que ela própria jogara no chão, aos pés dele. Apesar de tudo... Alex fechou os olhos por um instante, sentindo mais intensamente a carícia em sua mão.
Mas seu orgulho ainda resistia... e fez com que ela tomasse, de qualquer jeito, o controle da situação, embora a certeza de que não conseguiria resistir por muito tempo se tornasse mais forte.
_É isto que você quer? - Deliberadamente levou a mão dele até junto dos botões da sua camisa.
David continuava fitando-a, fazendo frente ao desafio que brilhava nos olhos claros. Deslizou sua mão para cima, até a nuca, acariciando-a, e depois refez o caminho contrário, contornando levemente o decote da camisa, seus dedos entrando ligeiramente por baixo do tecido, roçando sua pele num toque leve, desejoso, ansioso, contido.
Alex soltou o primeiro botão, mantendo o olhar dele cativo ao seu. Tinha-o sob seu poder, e pela primeira vez, estava sendo ela a exercer a sedução.
David inclinou-se e beijou o colo que ficara exposto pela roupa que ela afastava lentamente. Quando terminou as mãos dele trouxeram-na para mais perto e ele beijou-lhe o pescoço.
Alex tirou a camisa dele. Suspirou, maravilhando-se de novo com o corpo forte. Já fazia tanto tempo... Havia uma cicatriz recente, que cruzava o ombro e o início do braço, rasgando a pele. E ela tocou-lhe levemente, seguindo seu traço com os lábios.
David ergueu a cabeça, olhando-a, sério. O verde denso, sombrio, soturno dos olhos dele transmitia uma mensagem. Só uma.
Alex sentiu-se derreter por dentro.
Ele a ergueu nos braços, levando-a até à cama estreita, sem deixar de fitá-la. Deitou-se com ela.
_É isto o que eu quero, Alexandra. – aninhou o rosto querido em sua mão, acariciando-a primeiro com o olhar. - Sem retorno.
A noite tinha caído enchendo de sombras o quarto da rústica pensão.
David, deitado de costas, tinha Alex reclinada sobre seu corpo, a cabeça apoiada em seu peito, o braço direito sobre a cintura masculina, os cabelos dourados cobrindo-o como um manto de ouro. Ele acariciava as costas de Alex, em movimentos leves.
Ergueu o braço esquerdo, cobrindo os olhos. Alex levantou a cabeça atraída por um lampejo. Na penumbra, a aliança de David brilhava com o luar que se infiltrava pelas frestas da janela. Ela piscou, aturdida. Não se lembrava de ter visto o anel no dedo dele antes.
David notou seu movimento e baixou o braço, abrindo os olhos. Sua mão aprisionou o pulso delicado dela, rodeando-o. Depois entrelaçou os seus dedos com os dela, tal como seus corpos se tocavam, entrelaçados também na cama.
Beijou-lhe a mão delicadamente. E Alex sorriu. Apesar do aspecto um tanto desleixado que agora exibia, como o de um pirata, David jamais deixaria de ser um cavalheiro.
Ele olhou-a, um meio sorriso surgindo em suas feições sérias. Os olhos tornaram-se quase negros, mas uma chama mais clara parecia brilhar dentro deles.
Dentro dele.
_Não me deixe, Alexandra. Não conseguiria viver sem você.
Nunca ouvira David falar assim. Atônita ela se apoiou nos cotovelos para fitá-lo. Ele estava na penumbra. A linha determinada do maxilar era visível e de certa forma esse traço tão masculino não combinava com as palavras que havia proferido.
_Tem vivido assim até agora.
_Não. Tenho sobrevivido. Mas tem sido uma existência incompleta, pela metade... Ansiando por você. Pensando se finalmente estarei nos seus sonhos.
_Eu disse uma vez... que não te queria nos meus sonhos. Te queria na minha realidade.
Ele colocou-se de lado. Ficaram frente a frente. Com o outro braço, puxou-a para si.
_A minha realidade é muito diferente agora, Alexandra. - Os olhos verdes a acariciavam. - Não posso te dar a mesma segurança de antes, o mesmo conforto. Posso protegê-la, isso farei sempre, enquanto tiver um sopro de vida... mas...
_A sua noção de conforto e proteção.... eu nunca precisei. Nunca quis. Eu precisava de você! - Ela acariciou o rosto dele, afastando o cabelo que caía na testa.
_Me disse uma vez que Alexandra “Carrintgon” tinha medo...
_A vida que aquela Alexandra Carrington teria que enfrentar, era assustadora para mim. Estava perdida, sem rumo. Mas você mudou isso, David...
Ele segurou os dedos dela, beijando-os um a um.
_Mudei?
A expressão de dúvida revelava um homem que ela só vislumbrara uma vez, quando a sombra de Brendan ainda se erguia entre eles. Um David Carrington inseguro. E essa insegurança, num homem tão determinado como David... eram a sua perdição.
_Nossa vida começará a partir do nada... Seremos apenas o senhor e a senhora Carrington nesse país... nada de títulos ou...
_Nada de milorde, nem milady? – ela gracejou, tocando de leve os lábios dele.
Ele sorriu, mas logo em seguida, tornou-se sério.
_Te quero para mim, Alexandra. Percebe isso?
Apesar do futuro incerto que enfrentavam, ela sorriu:
_Tal como eu, David. Sem meio termo. Sem retorno.
Ele deitou-se sobre ela.
Subitamente.
Poderosamente
E o brilho dos olhos densos era perfeitamente visível na escuridão.
_Sem retorno, Alexandra.
_Para sempre....
_Sempre com você... – ele murmurou, com os lábios colados ao dela.
Mensagem enviada Jul 22, 2002, 10:58 PM do endereço IP 200.151.72.145
_Como você está?
David havia entrado silenciosamente na cabine. Permanecera no convés enquanto o navio ainda permanecia no porto. Agora, na baía, seguiam viagem rumo ao sul, lentamente. Os poucos marujos que estavam no clíper conseguiriam se encarregar da viagem até o próximo porto. Atracariam e então, pensariam numa solução para aquela situação.
_Você precisa tratar esse corte... – ela não respondeu à pergunta dele, um pouco constrangida. – Sente-se, David... vou cuidar disso...
_E o seu ombro?
_Vai ficar dolorido um tempo, mas é só.
Ele sentou na cadeira, observando-a se movimentar pela cabine, separando tudo que iria usar e colocar sobre a mesa. Sem que ela pedisse, tirou a camisa pela cabeça, mas não conseguiu reprimir um gemido de dor quando distendeu os músculos do lado esquerdo.
_Dói muito?! – ela indagou, baixinho.
_Não é nada...
Ela molhou uma toalhinha e começou a limpar o corte.
_O que estava fazendo no cais, David?
_Segui você... – ele respondeu, erguendo o olhar. Alex o observava.
_Estava me vigiando, David?
Ele deu de ombros...
_Coincidência... sorte... destino.... chame do que quiser. O fato é que estava no lugar e na hora certa.
Alex parecia estar considerando o que ele dissera, pois continuou fitando-o por um momento ainda.
_Obrigada.... por tudo...
_Não tem que me agradecer, Alex...
_Pronto...
Ele segurou sua mão, antes que se afastasse.
_Venha aqui, Alexandra...
Alex o fitou, e com um gesto firme, libertou sua mão.
_Acho que já o agradeci por ter me ajudado, Carrington...
_Se refere ao beijo? Aquilo não foi agradecimento , foi...
_Foi um erro. Que não vai se repetir. – ela o fitou, séria.- No que depende de mim!
Deu-lhe as costas e saiu da cabine.
Já era madrugada. Alex dormia na cabine e David estava na ponte de comando. Um estrondo vindo do porão fez o navio corcovear.
Alex acordou assustada e intempestivamente, saiu da cabine, ainda usando as roupas de bordo. Lá fora, ela viu dois marinheiros saírem correndo da escada que levava ao porão. David foi a seu encontro.
_Que houve?
_Uma explosão... imagino que obra de Cumberland....
_Maldito! Tomara que esteja ardendo no fogo do inferno...
_Ele pensou em todas as hipóteses...
_Desgraçado... – atrás deles, os marujos corriam para baixar os escaler e abandonar o navio. – E agora, David?
_Temos que abandonar o navio, antes que ele seja tragado....
O olhar dela foi bastante claro.
_Lamento, Alex... mas não há como salvar o Phoenix...
_Eu sei.... – suspirou.-... talvez seja melhor terminar assim. É uma forma definitiva de encerrar essa parte de minha vida...
_Não diga isso.
O porão do navio enchia-se lentamente, e lentamente o Phoenix afundava.
_Temos pouco tempo... vamos descer o escaler enquanto o navio está estável.
Os dois foram até a onde os botes estavam presos.
_Não vejo os outros....- Alex disse, observando em direção à praia.- ... teremos tempo para nos livrarmos dos comparsas de Cumberland.
_E se tivermos sorte, pensarão que não sobrevivemos....
_Então, teremos que nos afastar dessa área, David..... remar para o mais longe possível..... – falavam enquanto faziam o escaler ir descendo, até bater contra as águas.- Mas, você perdeu muito sangue....
_Não se preocupe comigo, Alex..... temos que escapar! – ele disse, recostando-se um momento na murada, para recobrar as forças. – Na cabine.. tenho algum dinheiro guardado lá... vamos precisar dele.....
Eles retiraram o dinheiro que David mantinha e o necessário para a fuga. Algumas roupas, pao e frutas que haviam na cabine. Desceram para o escaler e rumaram para longe do Phoenix, aproveitando-se da noite sem lua. Ninguém conseguiria vê-los se afastando.
Desembarcaram na praia, bem longe de onde os marinheiros estavam. Deixando o escaler solto, ele logo foi levado pela correnteza. Se embrenhando no bosque, seguiram bem longe das trilhas e caminhos, para não correrem risco de serem vistos por alguém. Não sabiam até que ponto Cumberland mantivera homens sob seu comando.
Somente depois de muito caminhar, pararam para descansar... Era alta madrugada.
Fizeram o percurso em completo silêncio. Na praia, Alex não se voltara em nenhum momento para olhar o Phoenix. Não queria vê-lo afundando... não seria essa a lembrança que guardaria do último laço que a prendia ao passado.
_Ah, e o que vamos fazer agora? – Alex suspirou, algum tempo depois, quando pararam para descansar.- Voltar para a Inglaterra.... está fora de questão.
_É o melhor a ser feito. Primeiro, vou deixar você na casa de seu irmão e...
_Procurar, Reese? – Alex voltou-se para ele, irritada. David colocava mais gravetos na fogueira que tinha acabado de acender. Ele ergueu a cabeça, para fitá-la.
_Claro.
Ela cruzou os braços, os olhos começando a faiscar. David jogou um graveto na fogueira, e as labaredas ergueram-se e brasas estalaram.
_Francamente, Alexandra, onde acha que esse seu maldito orgulho pode levá-la agora?
_Orgulho? Você acha que é orgulho? – soltou os braços e afastou-se um pouco. Depois voltou a fitá-lo. – Reese não está aqui... Brendan me disse que ele partiu para a Inglaterra, tão logo recebeu a carta de Avery.
_Sua cunhada está...- ele não queria ouvir o nome do americano.
_E você acha que vou colocá-la em risco, novamente? Nunca faria isso.... já basta o que provoquei.... Cumberland pode ter cúmplices ainda espalhados por lá, e não quero que minha presença volte a prejudicar Reese aqui!
_Volte para a Inglaterra.
_Eu fugi da Inglaterra, David. Não posso voltar para lá...
_Eu não estarei lá para....
Ela se irritou.
_Você não acreditou em min, não é? Pois ouça: eles prenderam uma mulher .....uma pobre coitada que se parecia comigo..... e a executaram quase que sumariamente..... Pensaram que era eu, está me ouvindo?? Eu não posso mais voltar à Inglaterra!
David ficou de pé.
_Do que está falando? Porque eles fariam isso? Não havia nada contra....
_Enquanto você estava.... vivo... ninguém se atreveu a remexer nessa história. Mas eu lhe disse.... isso, mais cedo ou mais tarde, viria à tona..... porque motivo fosse..... e o motivo, foi a ‘herança e o título’ que você me deixou. – riu, percebendo a ironia da situação. – Você se casou comigo para me dar a proteção de seu nome, caso algo te acontecesse...... No entanto, meu caro, foi justamente isso.... que serviu de arma contra mim.
_Como isso aconteceu? O que fizeram com você? – ouvia, sem poder acreditar.
Alex se abalou um pouco com a preocupação que ele demonstrou inconscientemente. Mas não podia baixar a guarda agora. Ele deixara bem claro a situação.
_Comigo? – ela deu de ombros.- Nada... eu não fiquei esperando que viessem me prender. No início.... talvez eu me rendesse... mas eu não estava disposta a perder meu pescoço, não mais.....
_Quem fez isso, Alexandra? – ele deu um passo em sua direção.
_Quem fez.... não importa. Eles tinham razão, afinal. Por isso não deixei que Avery interferisse. Isso só tornaria a situação mais difícil... e de nada adiantaria.
_Você nunca foi de se render. Mudou tanto assim? Você nunca fugiu de uma batalha.....
_Mas não vou lutar por uma batalha perdida.... David, isso só jogaria lama no nome da minha família.... prejudicaria meus irmãos, meus sobrinhos.... o nome de meus pais.... e o seu. Eu não tinha esse direito. Foi escolha minha! Eu tinha que arcar com as conseqüências dos meus atos. Esqueça esse assunto. Está acabado. Eu não posso voltar à Inglaterra..... mas você pode...
_Como assim? – ela percebeu o deslize, e David também.- Do que você está falando? Alex!
_Ninguém sabe que você..... que você.....
_Menti? – ele foi se aproximando lentamente, com uma expressão insondável. Na mesma medida que ele se aproximava, ela se afastava. – Cometi perjúrio. Como isso pode não ter me afetado?
_Não tem mais importância, David. Todas as nossas dívidas foram saldadas. Você salvou a minha vida... eu limpei o seu nome.
_Limpou... como? – ele observava Alex ir se afastando dele à medida que se aproximava. Ela conseguia ainda mascarar muito bem suas emoções, mas não tanto quanto antes... porque antes ele não a conhecia bem o suficiente para reconhecer os sinais... seu olhar... o modo como reagia quando se sentia insegura.... ameaçada.... Seu coração começou a bater mais forte.... relembrando os perigos que haviam enfrentado recentemente... juntos.
Juntos.
O beijo.... não, ela não o beijaria daquela forma se fosse indiferente a ele.
Ela mal olhara na direção do americano.... E a forma como reagiu no cais... era nele que ela estava concentrada.... era por ele que ela estava preocupada... com medo....
E era por ele que ela estava tremendo sensivelmente agora..... mas não era medo... e nem frio. Um peso foi saindo de seu coração...
“Alexandra Carrington, como eu te amo!!”
_Não foi preciso fazer nada... minha ‘reputação’ era mais do que suficiente! Isso, e o nosso relacionamento... ‘conturbado’... Toda sociedade londrina sabia que nosso casamento não era baseado em sentimentos! Era um acordo político. Uma estratégia de guerra.
_Estratégia de guerra... – ele repetiu, sombrio.
_Sim. Você mesmo me disse isso.... no Phoenix, ou já se esqueceu?
_Não... – ela ficou encurralada entre ele e uma árvore. Sua voz soou num tom contido....-... eu não esqueci, Alexandra... – ele a fitava com tanta intensidade, que poderia estar enxergando até sua alma.
A luminosidade da fogueira, provocava sombras e clarões, conferindo-lhe um ar perigoso.
Alexandra não era tola..... e percebeu claramente a que ele estava se referindo, e isso minava cada vez mais sua resistência... porque agora ela sabia exatamente o que sentia por ele. Mas era tão difícil, tão difícil vencer seu orgulho....
_Pois foi isso. Eu não sabia como ... – ele deu um passo a mais, e estava perto....muito perto. Ela engoliu em seco.-... como resolver a situação.... mas no final, nem precisei.... – sua respiração estava cada vez mais difícil... era difícil pensar com ele tão perto. Olhando-a daquela forma.... - ... o destino se encarregou disso.
_Destino... – fitaram-se. Ele também não estava assim tão controlado e talvez, isso, a certeza de que ele não lhe era imune, tornava tudo mais complicado. -... ele está sempre nos surpreendendo....
_Nem sempre para o bem , não é mesmo, David? – disse com amargura.
_Para o bem ou para o mal... você ainda é minha mulher... – ele disse de repente, tomando a mão esquerda dela, e retirando a aliança que guardara no bolso da calça.
_Eu não vou...
_Ah, você vai sim... – ela tentou puxar a mão, mas ele a manteve firme e recolocou a aliança em seu dedo.
Nenhum dos dois disse nada por alguns momentos, o simples gesto abalando-os mais do que poderiam ter imaginado.
_Minha, Alex... minha....
Ela o fitou. Raiva, mágoa, ansiedade..... confusão. Ah, como estava confusa.
_Eu... pensei que você.... – ele começou a falar.
_Eu não quero saber o que você pensou. Não me interessa. – saiu de perto dele, esquivando-se. – Vamos dormir, porque temos um longo caminho a percorrer amanhã... temos que descobrir onde estamos.
Ele continuou onde estava. Inclinou a cabeça para frente, fechando os olhos e inspirando fundo. Soltou o ar lentamente. Ela estava zangada... um início de sorriso curvou o canto esquerdo dos lábios... mas as sombras do ciúme estavam se dissipando, e ele percebia agora..... o que ele não lhe deixara ver. Os sentimentos dela...
Voltou-se e a viu se ajeitando no chão, próxima à fogueira. Deitando-se de lado, de frente ao fogo. As roupas sujas, os cabelos um pouco desgrenhados, e ela nunca lhe parecera tão linda quanto agora.
Mensagem enviada Jul 14, 2002, 1:49 PM do endereço IP 200.151.59.78
Alex estava certa quanto a seus inimigos. E o cais do porto não era o lugar mais seguro para que pudesse passar desapercebida. A notícia sobre sua morte já havia chegado a alguns ouvidos na América, e com certeza, lamentada por uns, mas festejada por outros.
No entanto, havia uma certa dúvida ainda pairando quanto à veracidade das informações.
Sua fama não dava margem a um final assim... e pelo menos para alguns, só acreditariam mesmo quando a vissem morta.
Mas a mulher que atravessava quase correndo o cais, podia ser qualquer coisa, menos um espírito. E os olhos que a acompanhavam mais lembravam uma ave de rapina apreciando sua presa.
Sorriu, antecipando o gosto doce da vingança.
“Chegou a hora do acerto de contas... e nada poderia ter vindo mais a calhar do que essa volta a Charleston!”
Após o reencontro com David, permanecer na casa de Brendan, tornou-se insustentável. Sem deixar um recado, nem explicações, ela reuniu seus pertences e saiu de lá. Agora, mais do que nunca, ela queria se afastar de tudo e de todos. Enterrar seu passado.
Sentia-se uma completa idiota!
Ela não entendia e nunca entenderia os sentimentos. Nunca fora boa nesses assuntos... a única coisa sobre a qual tinha certeza era sobre navegação... o mar. Ele sim, era-lhe certo.
Mas agora ele já não fazia mais parte de sua vida. Nada mais. Teria que recomeçar... literalmente do nada. Voltar as costas ao passado e a tudo que sabia. Pois de nada lhe adiantariam dali para frente.
Dias depois...
_Sra. Bellamy.... – a senhora dona da pensão na qual se hospedara a chamou, assim que retornou.
A imobilidade deixava-a sufocada e não conseguia permanecer entre aquelas paredes. Velhos hábitos não eram fáceis de esquecer. Então, sempre saía, ficava andando pela cidade... ou simplesmente, no jardim da pensão...
Esquecer não era tarefa fácil... e pensar em seu futuro não lhe trazia nenhuma esperança.
_... deixaram um recado para a senhora.
Ela lhe estendeu um envelope, lacrado.
_Para mim...? – o pegou, observando-o. Uma frase simples. “Sra. Bellamy.”
Aquilo lhe soou como um mal presságio. Como alguém a descobrira ali? Não deixara o endereço a Brendan... ninguém a conhecia... tinha certeza de que não fora seguida.
“David? Seria dele?”
“Não. Impossível.” Fazia uma semana desde que haviam rompido definitivamente. E desde então, não o vira mais.
_Obrigada, sra. Stuart.
_Disponha, sra.
Ela foi para seu quarto, trancando a porta. Quando se voltou para dentro, sentiu novamente aquele pressentimento. A janela estava aberta, e a cortina branca tremulava ao sabor da brisa que soprava.
Olhou ao redor.. ela deixara aquela janela fechada. E a sra. Stuart não entrava no quarto dos seus inquilinos. Observou melhor o cômodo... tudo parecia estar no lugar...
Seu olhar recaiu sobre a cama, atraído por um reflexo. Um anel...
Uma aliança de casamento...
A aliança de Samara.
Sem demora, rasgou o envelope, retirando o papel dobrado.
“Minha cara, sra. Carrington....
A vida realmente dá muitas voltas e nos premia com surpresas inacreditáveis. Não acreditava em fantasmas até revê-la... Quantas vidas mais a “Senhora dos Mares” possui?
Há muitas pendências entre nós, e sugiro que venha saldá-las.
Estarei esperando-a, ansiosamente.
E para que se sinta motivada, saiba que sua cunhada estará aguardando-a também. E não duvide, pois a aliança é apenas um aviso. Para o próprio bem dela... venha e sozinha. O assunto é somente entre a senhora e eu.
Um velho ‘amigo’.”
Havia outro papel, com um mapa desenhado, indicando o local do encontro.
Alex amassou a carta, sem querer. As represálias começaram cedo demais. E o que mais temia tinha acontecido. Sua família voltava a pagar por seus atos. Apertou a aliança em sua mão. Claro que iria direto para uma armadilha, mas não podia evitar isso. Por nada nesse mundo permitiria que algo de mal acontecesse a Samara.
Alex esperou o anoitecer e que todos já tivessem ido dormir, para sair. Uma noite sem lua. Nunca se separara de seus antigos trajes de bordo, e agora começava a acreditar que fosse uma premonição do que viria.
Colocou a pistola no cós da calça, e vestiu o casaco por cima. Amarrou os cabelos na altura do ombro, com uma fita. Agora sim, estava pronta.
Conseguira um cavalo e dera uma gorjeta ao garoto do estábulo para trazer o animal para ela. O menino não acreditara no que ouvia, pois duvidava que uma mulher como aquela pudesse realmente sair cavalgando àquela hora. Mas como o dinheiro havia sido bom, ele cumpriria sua parte.
Mas ficou de queixo caído quando viu um vulto se aproximando e reconheceu a mulher que alugara o animal! Ela colocou mais moedas na mão dele.
_Isso é o que vale esse animal.... se ele não voltar, seu patrão não terá prejuízo. – disse, tomando as rédeas das mãos do garoto e montando.
Ele ficou parado...imóvel... sem acreditar no que tinha acontecido.
As indicações do mapa eram bastante claras, principalmente para alguém acostumado a lidar com mapas. Encontrá-lo foi tarefa fácil, embora nada confortável. Alex odiava montar e aquilo só servia para piorar seu estado de espírito.
Alex fez o cavalo parar, assim que avistou os contornos da construção. Um estábulo abandonado. Desmontou e amarrou as rédeas do cavalo no galho de uma árvore. Dali seguiria a pé. Tomava certas precauções, mas tinha absoluta certeza de que fora seguida desde a cidade.
Aliás, tinha a nítida impressão de estar sendo vigiada. Os cabelos de sua nuca arrepiaram-se e ela olhou ao redor, mas naquela escuridão e num terreno que mal conhecia, não conseguia divisar nada.
Inspirou profundamente.
Sentia-se como um rato indo direto para a ratoeira. Por um momento... engoliu em seco, por um momento pensou em desistir. Dar meia volta e desaparecer daquele lugar. Estava tão cansada desses complôs e armadilhas... mal entendidos e farsas...
Mas logo rechaçou aqueles pensamentos. Aquilo tudo era conseqüência de suas atitudes. E não poderia deixar que outros pagassem por seus erros. Já bastava aquela pobre mulher que acabara morrendo em seu lugar. Talvez tivesse chegado em fim, a hora do acerto final.
A porta estava entreaberta, e empurrou uma das folhas. O rangido anunciou sua presença. Avançou no ambiente escuro. Havia muitas baias vazias, e muita sujeira também. Chegando no centro, onde o espaço aberto.... ela parou.
Não demorou muito para seu inimigo se mostrar.
_Seja bem vinda, minha senhora.
Alex virou-se de repente, ao ouvir a voz zombeteira.
Saindo das sombras, Cumberland avançou a passos lentos, um sorriso de vitória nos lábios. Ele trazia uma pistola, apontada para ela.
_Nenhuma palavra de cortesia? Não está feliz em me ver...milady?!
_Muito... muito feliz. - Alex olhou ao redor, procurando uma saída para aquela situação. Mas estava encurralada. Atrás dela, somente caixas empilhadas e Cumberland estava impedindo o caminho para a porta.
_Onde está minha cunhada, Cumberland?
_Não receie, minha cara.... Ela está bem. E também, eu não lhe farei nenhum mal...
_Até agora, você apenas falou. Quero provas. Onde ela está?
_Svenson? – ele chamou e Alex percebeu um movimento nas sombras, do seu lado direito. Um homem grandalhão se movia e acendeu um lampião. A luz clareou o ambiente, o suficiente para ver Samara, ajoelhada ao lado de um homem, que estava caído no chão.
_Samara?! – deu um passo em sua direção, mas foi detida por Cumberland.
_Fique onde está, sra. Carrington. Não vou me arriscar. Conheço muito bem sua fama. Nada de truques.
_E o que você acha que posso fazer? Está apontando uma arma contra mim.
_Não sei, e nem quero descobrir.
_Alex... você não devia ter vindo... – ela chorava.
_Ah, mas ela não ia querer mais esse peso em sua consciência, não é? – Cumberland escarneceu.
_Você está bem, Samara?
_Sim... – ela olhou para o homem a seu lado.- Brendan é que foi ferido?
_Brendan?! – ela deu um passo, mas se deteve ao ouvir o som da arma sendo engatilhada.
_Parada aí, afinal, não me interessa que se machuque... – sorriu, medindo-a de alto a baixo.- Eu preciso de você...inteira! E quanto ao seu americano.... não se preocupe. Só terá uma terrível dor de cabeça, ao acordar.
_O que significa isso, Cumberland? – ele continuava lhe apontando a arma. – Por que os trouxe aqui?
_Precaução. Afinal.... – riu.-... não acredito que vá de livre e espontânea vontade.... de volta para casa.
_Do que está falando?
_De voltarmos para nossa amada Inglaterra!
_Ficou louco?! Se um de nós pisar em território britânico novamente, iremos os dois direto para a forca.
_Sim... de fato... mas, no seu caso.
_A troco de quê isso?
_Você será minha absolvição.
_Do que está falando? Perdeu o juízo?
_Terei a minha anistia, em troca do seu ...lindo...pescoço, milady! Entregando-a ao governo, recebo o perdão real!
_Perdão para um traidor como você? Duvido muito.. iremos os dois para o cadafalso, idiota! – Alex estava começando a desconfiar que Cumberland perdera realmente o juízo. O Príncipe de Gales concedendo perdão? Só um louco acreditaria nisso.
_É um risco que correrei!
_Só morta vou colocar meus pés num navio! – reagiu.
_Não... você vai e bem viva. Se não quiser que sua família, sofra as conseqüências, milady!
Alex viu um vulto passar rapidamente por trás das vigas de madeira, atrás de Cumberland.. Outro comparsa? Quantos seriam, afinal? Tentava encontrar desesperadamente uma forma de sacar a pistola às suas costas.... mas como fazer isso, sem colocar Samara e Brendan em risco?
_Então, Alexandra, você escolhe.... ou vem por bem... ou vem por mal!
_Que garantias terei que não fará mal a eles?
_Nenhuma. Mas se não vier, eles morrerão... assim como você. Então decida logo... vai querer mais mortes em sua consciência?
Alex olhou para a cunhada... pensando freneticamente, tentando encontrar uma saída... se ela saísse com Cumberland, as chances de escapar só iriam diminuindo. E não confiava nele de forma alguma.
_Está bem, eu vou com você.
_Ah...mas espere, minha querida.. fique onde está... não pense que sou tolo a ponto de confiar em você. Levante as mãos para cima da cabeça... não queremos surpresas aqui...
Ele ia revistá-la... isso não podia acontecer! Precisa de alguma garantia... se não conseguisse escapar, pelo menos poria um fim naquele miserável.
Mas, fez o que ele mandou, observando-o se aproximar. “Calma, Alex, calma... o momento certo... espere o momento certo...”, ordenou a si mesma, tentando manter a frieza. Havia ainda os comparsas dele a considerar, mas se conseguisse deter Cumberland, talvez os outros desistissem deles. Era sua esperança..... rezava para que os outros envolvidos fossem apenas capangas pagos para realizar o serviço, e não mais alguns de seus desafetos. Se não fosse assim.... estaria perdida.
Cumberland parou a cerca de meio metro dela, ainda empunhando a arma. Com a mão esquerda, e mantendo-a sob sua mira, começou a revistá-la, correndo-a por seu corpo, indo além de uma ‘procura’ por armas. Alex trincou os dentes, furiosa. Ele não deixava de fitá-la, com uma expressão lasciva.
_Agora entendo o fascínio que Carrington sentia por você... Que homem não se sentiria enfeitiçado por uma mulher assim..
Ele encontrou a pistola e a retirou, colocando no próprio cós. A fitou.
_Quantas surpresas mais teremos, milady?
Ele desceu a mão pelo quadril dela, e Alex reagiu, antes que descobrisse o punhal preso à bota. Erguendo o joelho direito, tentou atingi-lo. Mas, para azar seu, as aparências também enganavam com relação àquele homem. Num movimento rápido, ele desviou-se do golpe, agarrou seu braço direito, torcendo-o às costas.
Ela cerrou os maxilares. Não iria dar-lhe a satisfação de vê-la rendida.
_Quem subestimou quem, milady? – ele murmurou, a boca bem perto de seu ouvido.
Ela tentou se afastar, mas ele a puxou contra o corpo, segurando-lhe o braço com firmeza às costas, e encostando o cano frio da pistola contra suas costelas.
_Nada disso... seus truques não funcionam comigo, senhora... eu a conheço... muito bem! E até o fim de nossa jornada de volta ao “lar”... – ele riu.-... travaremos um contato muito maior... – ele observou-lhe o perfil. Obviamente devia estar sentindo dor, mas aquela mulher nunca se renderia... Riu consigo mesmo. Seria um prazer dobrar aquele orgulho todo... – Vamos... temos uma longa viagem... O navio nos espera. – ele virou-se para o capanga que tomava conta dos dois irmaos. – Aguarde aqui até que o navio zarpe...
_E o que eu faço com esses dois, chefe?
_Espere Owens até o meio dia... se ele vier, solte-os e depois desapareça.
_E se não vier?
_Se ele não vier... – virou-se para a mulher que mantinha presa. Ela o fitou com olhos dardejantes.-... mas ele virá, não é, milady?
Alex procurou respirar com calma. Deixou de fazer pressão no braço.
_Ele virá...
Cumberland sentiu a rendição dela e sorriu.
_Se ele não vier.... pouco me importa o que aconteça a esses dois.
_Certo, chefe.
Cumberland soltou Alex. Ela gemeu quando trouxe o braço à posição normal. Mal conseguia movê-lo. Ele segurou os mãos dela juntas, e amarrou uma corda em volta dos punhos, com firmeza.
_Lamento isso... mas como disse antes... não correrei riscos com você. – empunhou a pistola novamente e segurou na corda, puxando- a. - Vamos, milady? – disse, com falsa cortesia, saindo com ela.
A única luminosidade naquela noite, vinha do estábulo. Cumberland a cobriu com uma capa, puxando o capuz, e encobrindo os cabelos claros. A colocou sobre o cavalo, montando em seguida, e guiando-o em direção ao porto.
Havia quase nenhuma movimentação no porto àquela hora da madrugada. Cumberland fez o cavalo parar na logo no início e desmontou. Alex bem que pensou em mil e uma maneiras de escapar, mas o que a restringia era a garantia da segurança de Samara e Brendan.
Talvez, se ela escapasse, poderia voltar e tentar libertá-los...mas isso não poria fim naquele inferno. Se Cumberland sobrevivesse, continuaria a atormentá-los. Então, a única saída que via, seria escapar quando o navio zarpasse. Ou seja.... se jogando no mar e nadando de volta.
Era um risco enorme, ela sabia. Com a correnteza e as águas geladas, suas chances eram mínimas. Mas qualquer que fosse o resultado dessa fuga, deixaria de ser uma ameaça à sua família.
Por isso, ela não ofereceu nenhuma resistência a ele.
_Pelo visto, resolveu colaborar. Sensato de sua parte.
_Não tenho escolha.
Ele riu e a conduziu pelo cais. Alguns marinheiros bêbados estavam por ali, e também homens de aparência perigosa. Mas Cumberland parecia estar alheio ao perigo que estavam correndo.
Alex não.
Pressentia que estavam sendo seguidos... de esguelha, observou as sombras dos prédios que ladeavam o cais, a escuridão em alguns pontos, entre as colunas de caixas de mercadoria a embarcar e que ali estavam.
Olhou de novo para Cumberland. Ele parecia não notar nada. Num determinado ponto, eles tinham que contornar uma pilha de caixas que foram deixadas para o embarque em um dos navios ali ancorado. Ouviram um baque e pararam.
_Quem está aí? – Cumberland segurava o braço de Alex com força.
Silêncio.
_Não podemos ficar parados aqui...- ela o alertou, preocupada, afinal, só faltava escapar de uma enrascada para cair em outra.
_Cale a boca! – ele ordenou.- Se isso for um de seus truques, eu...
Alex sentiu o coração disparar ao vislumbrar o homem que os seguia nas sombras. David!
Cumberland percebeu o movimento e se virou. David saltou sobre ele, agarrando-lhe o pulso e fazendo com que erguesse a arma. Ele puxou o gatilho, disparando para o alto, lutando pela posse da arma.
_Não!!!! – Alex gritou quando Cumberland atirou novamente, afastando-se a passos trôpegos, e David caiu.
Antes que Cumberland tivesse chance de recarregar a pistola, David agarrou o punhal que trazia na cintura e que caíra no chão. Mas Cumberland, percebendo sua intenção, se jogou sobre ele, no momento que já se erguia. Os dois rolaram pelo chão, mas devido ao choque a afiada lâmina cravou-se contra o corpo, e o líquido morno jorrou do corte.
Os dois imobilizaram-se.
_David!!!! – Alex gritou ao ver Cumberland levantar-se, segurando o punhal ensangüentado. David continuou no chão, a camisa empapada de sangue. – Não... Não.... – correu para ele, ajoelhando-se a seu lado..- David? – tocou o rosto dele com as duas mãos, ainda amarradas.. – Olhe pra mim.... olhe pra mim.....
Ele obedeceu.
_Não estou ferido... – ele disse, cansado.
_Não? – repetiu, com lágrimas nos olhos. – Tem certeza?
Apesar de exausto por causa da luta e do corte no ombro, ele riu.
_Tenho...
“Cumberland!”
Alex virou-se. Cumberland havia cambaleado até um amontoado de caixas, e nelas se apoiou, mantendo as duas mãos contra o ferimento na altura do estômago, tentando estancar a hemorragia.
_Malditos... malditos os dois.... – murmurou, com ódio. Mas o ferimento era fatal, ele foi escorregando, até desabar no chão... morto.
Alex soltou o ar dos pulmões... e fechou os olhos.
_Alex.... temos que sair daqui... – David alertou.
_Cumberland está morto, David.
_Mas ele não está sozinho.... os comparsas dele devem estar por perto...e temos que sair desse lugar. Não é seguro. Os disparos atrairão as autoridades e isso não nos convém.
_Você consegue se levantar?
_Me ajude...
_Solte essas amarras....
_Aquele infeliz... – David murmurou, furioso, desfazendo o nó da corda. Ela esfregou rapidamente os pulsos, e virou-se para ele.
_Venha....
_Espere... – ele disse assim que ela ajudou a se sentar. David apoiou a mão direita contra a madeira do cais, e ergueu a outra, enlaçando-a pela nuca e puxando-a contra ele.
_David....
_Beije-me.... – pediu, com voz rouca.- Beije-me, Alexandra.
Desnorteada pelo susto e pelo medo de que ele estivesse gravemente ferido, ela obedeceu, esquecida do perigo que ainda corriam.
_Chega..... chega, David.... – ela tentou se afastar...
_Não.... nunca vai ser suficiente....
_Temos que ir.... é perigoso....
_Tem razão... temos que deixar essa cidade o quanto antes..
_Mas.... com Cumberland morto...
_Mas ele não está sozinho... vamos para o Phoenix. Embarcaremos e sairemos daqui...
Ficaram de pé, e ela se lembrou dos cunhados.
_David.... não posso..... Samara e Brendan ainda estão presos e....
_Não se preocupe com eles.
_Mas...
O último nome que ele queria ouvir era o do americano, nesse momento.
_Eu cuidei disso. Estão salvos. – segurou a mão dela sem lhe deixar alternativa, e apressados, rumaram na direção do Phoenix.
Mensagem enviada Jul 14, 2002, 8:43 AM do endereço IP 200.151.8.225
Carmen já havia partido quando um rapazote o chamou:
- Capitão! – o menino lhe estendia um pedaço de papel.
- O que é isso? – perguntou Juan.
- Um telegrama. Veio da Itália.
Juan abriu o papel e pôs-se a ler.
“Amigo Montejano,
Há ingleses em Barcelona. Cuide-se. Querem pegá-lo por causa da seda.
Estou à disposição.
Giuseppe Piazinni ““.
Juan agradeceu e o menino foi embora.
Giuseppe Piazinni era um barão italiano e fora grande amigo de seu pai. Todas as vezes que Juan visitava o sul da Itália, sempre era bem recebido pelo amigo.
“Ingleses em Barcelona? O que estariam fazendo aqui? Que audácia!”. Ele sabia que a Espanha se encontrava numa fase muito complexa. A rainha nem tomava as rédeas e nem deixava que ninguém as tomasse, se bem que, a julgar quem pretendia tomar o trono...Era melhor que continuasse nas mãos da rainha. O país tornara-se um “celeiro aberto”! Todos entravam e saiam quando quisessem, mas daí à entrada de ingleses...Os maiores inimigos da Espanha!
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A noite estava fria, mas a casa de Sabrinne estava bem quente! As meninas estavam assanhadas com a quantidade de estrangeiros italianos e portugueses que vieram conhecer a mais bela e mais animada casa de diversão de Barcelona!
Sabrinne estava no quarto da mãe. Madeleine estava um tanto triste e sua filha a consolava.
- Vamos Sabrinne, desça. Há muitos estrangeiros e sua presença é importante. Precisa manter o controle das coisas.
Sabrinne concordou com a cabeça e desceu.
De fato o ambiente estava abrasador!
Os homens riam muito, bebiam mais ainda e deliciavam-se com a beleza estonteante das raparigas.
Sabrinne esperava seu amigo, mas até agora ele não chegara. Pedia a Deus que Juan não viesse hoje. Não sabe se teria forças para agüentar mais provocações. Mal seus pensamentos se concluíram e um sorriso claro e um belo par de olhos azuis a recepcionaram.
- Boa noite minha rainha!
O desânimo nas feições de Sabrinne era claro.
- Boa noite Carlos. O que faz aqui?
- O que todos fazem...Divertir-me!
- Há outros lugares. Não o quero aqui.
Ele aproximou-se e ofereceu-lhe um gole de seu vinho, o qual ela recusou.
- Não me prive da alegria de vê-la...
Rapidamente Sabrinne empalideceu. Juan acabava de transpassar a porta principal e em poucos segundos, a bela loira sulista estava agarrada ao pescoço dele.
- Ora, ora...Vejam só quem se atreveu: Juan Montejano! – Carlos olhou para Sabrinne, provocando-a – Pensei que havíamos entrado num acordo?
- Não convidei...Nem ele e nem você! – disse encarando-o.- Se não posso colocar-te para fora, também não o colocarei.
Sabrinne afastou-se e foi em direção ao bar. Quase nunca bebia, a não ser pelo fatídico dia em que despediu-se de Juan e bebera tanto que tombara pela sala. Mas hoje ela precisava de algo que a encorajasse, que a impulsionasse até que a noite terminasse.
Não pôde evitar a careta ao ingerir a dose de conhaque. Depositou o copo sobre o balcão e quando virou-se, estava de frente à Juan.
- O que a faz beber dessa forma?
Tentando conter o tremor, ela respondeu:
- O frio. – Sabrinne fugia do olhar penetrante de Juan.- Por que voltou?
- O que acha?
Ela baixou o olhar.
- Não devia. Não vou ceder.
Juan gargalhou.
- Acha que vim por você?
Sabrinne sentiu o chão fugir sob seus pés, o coração quase parar e uma onda de frio correu pela sua espinha. Ela tentou falar algo, mas sua voz não saiu.
Grécia aproximou-se e abraçou Juan por trás.
- Já pediu? – referindo-se à bebida.
Juan olhava diretamente para Sabrinne e num tom seco, disse:
- A senhorita não imagina o perigo de mulher que implantou em sua casa. – ele olhou para Grécia pelo canto do olho e beijou-lhe os lábios.- sorriu sarcasticamente e virou-se, falando com Grécia:
- Perdi a vontade de beber. Hoje estou “faminto”.
Afastaram-se. Sabrinne ficou paralisada de ciúme, raiva, despeito, vergonha...Tudo junto... Um coquetel pernicioso para todos.
Sabrinne uniu-se a seu amigo Normando, e após lhe contar tudo o que havia ocorrido, ouvia conselhos.
- Querida...Já sofreu? Já sentiu ódio? Agora chega! Levante essa cabeça e mostre a mulher maravilhosa e forte que você é! Pare de se martirizar Sabrinne! Se fez o que fez, foi para o bem de Juan, e um dia ele compreenderá isso.
- Ele vai dormir com ela hoje! Eu tenho certeza disso.
Normando calou-se. Não sabia o que responder.
Carlos aproximou-se.
- Você se sacrifica por ele, e olha o que ele te faz. – Carlos mostrava o que Sabrinne lutava para não ver: Juan dançando com Grécia.
Por diversas vezes Sabrinne teve a vontade de dizer a Grécia que não se aproximasse de Juan, mas isso seria ridículo demais e ela não faria esse papel.
Sabrinne lançou um olhar furtivo para o casal e depois se voltou a Carlos.
- Já não me interesso por ele, só não quero fazer-lhe mal. Não tenho porquê.
Carlos sorriu.
- Então aceita dançar comigo?
Sem pestanejar, Sabrinne aceitou.
Juan abraçava Grécia, mas sem grande empenho. Já Carlos, deslizou suas mãos pelas costas de Sabrinne e mergulhou no pescoço tentador. A garota sentia certo asco e já se arrependia de ter aceito a dança. Sua impulsividade era seu grande mal!
Quando Juan os viu, sentiu o sangue ferver! Aos seus olhos enciumados, Sabrinne parecia completamente entregue aos braços de seu rival.
“Como pôde? Não vou permitir isso!”. No instante em que ia deixar a pobre Grécia sozinha no salão e avançar sobre Carlos, ele viu Sabrinne abrir os olhos e olha-lo com frieza e virar-se para o outro lado.
Juan sentiu-se podado.
Sabrinne notava todos os olhares de Juan e se divertia com as reações dele. Enfim sentia-se vingada! O moreno tinha as feições endurecidas e os punhos cerrados. Grécia, que não era tola, notou o ciúme em que seu par se encontrava.
- Algum problema Juan?
Ele acariciou os cabelos loiros.
- Nada minha flor...Nada.
Carlos experimentava tudo o que sempre sonhara!
- Eu te amo Sabrinne! – ela nem mesmo o escutava. – eu a quero...preciso de você.
Sabrinne sentiu o estado de excitação em que o rapaz se encontrava e achou melhor acabar com aquela provocação.
- Carlos, estamos apenas dançando...Não se iluda.
Carlos a olhou com estranheza.
- Como assim? Não...Eu a quero e sei que também me quer!
Grécia achou mais prudente tirar Juan dali.
- O que acha de irmos para o quarto? Farei uma deliciosa massagem e...O que mais quiseres.
Movido pela raiva e pelo ciúme, Juan aceitou.
- Vamos.
Enquanto saía, Juan procurou o olhar de Sabrinne. Se ela não os visse indo para o quarto, de nada valeria. Mas o que viu foi Carlos apertando Sabrinne em seus braços e ela tentando, discretamente, desvencilhar-se.
- Carlos, por favor, só aceitei dançar com você.
Ele a olhava com desejo e súplica.
- Sabrinne...Só uma vez, por favor.
- Não Carlos! Não o desejo.
- Não é necessário. Eu a desejo e posso faze-la sentir-se amada.
- Carlos, se não me soltar vou fazer um escândalo.
- Solte-a.
Juan foi seco e frio. Sua voz foi ouvida apenas por Carlos e Sabrinne, mas a intensidade com que falara, faria tremer o mais valente dos homens.
Carlos o mediu de cima a baixo com desdém.
- Não se meta. Vá cuidar de sua garota.
- Solte-a. Não falarei outra vez.
Sabrinne sentiu medo. Medo do que Carlos poderia fazer contra Juan. Não fisicamente naquele momento, mas depois, aliado a seus amigos ingleses.
Ao invés de larga-la, Carlos enfiou vorazmente a língua entre os lábios de Sabrinne. Juan sentiu o demônio correr por suas veias e o afastou da garota de forma brutal, dando-lhe um golpe certeiro no olho direito. Sabrinne gritou de susto e diversos homens correram para separa-los antes que Juan deformasse o belo rosto do jovem Santiago.
Carlos estava amparado por alguns amigos e outros seguravam Juan, entre eles, Normando.
- Desgraçado! Vais me pagar caro!
- Não temo suas ameaças! Afaste-se de Sabrinne!
Sabrinne não sabia o que falar ou fazer. “Maldita a hora que aceitei dançar!”
Grécia começava a compreender tudo. Madeleine desceu, atraída pelos gritos.
- Eu? Afastar-me de Sabrinne? Pergunte a ela, de quem deseja manter distância!
Ambos olharam para Sabrinne.
- Quero que os dois se retirem. – disse quase sem voz.
- O que disse a ela seu patife! Do que a ameaçou? – Juan tinha o cenho franzido e falava por entre os dentes.
Carlos riu, com a intenção de irritar ainda mais seu rival.
- Eu? Não disse nada. Se ela te despreza, é porque caiu em si e viu que tipo de homem é você!
Juan tentou se soltar e pegar Carlos novamente, mas estava seguro por quatro homens.
Alguns cavalheiros saíram e levaram Carlos consigo. Juan também foi convidado a se retirar.
- Sr. Juan, por favor...Vá embora. – Normando falava pausadamente e com muito respeito.
Juan apertou os olhos e perguntou a Normando:
- Uma vez me disse que ela me amava. Voltaria a afirmar isso?
Normando olhou para Sabrinne, mas essa não escutava o que diziam. Ele voltou a encarar Juan.
- Com maior certeza. Ela o ama mais que antes.
Juan suspirou aliviado, como se sentisse um sopro de vida.
- Agora por favor, vá embora.
Juan virou-se e passou por Sabrinne lentamente e nem mesmo piscava. Parou um instante e a encarou quase penetrando em sua alma.
- Não vai poder fugir de mim eternamente. Estou dentro de você e não poderá arrancar-me de suas entranhas.
Sabrinne fechou os olhos sentindo dor física. Como queria agarra-lo e beija-lo até que desfalecesse de tanto amor!
Juan saiu sem olhar para trás.
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Juan entrou no Huracan carregando três garrafas de rum. Sentou na cabine e começou a beber. Queria dormir ao menos uma noite sem sentir a agonia e o tormento que o consumia desde o dia em que Sabrinne o desprezara. Precisava preencher sua alma e sua mente com rum, para parar de padecer e se martirizar tentando adivinhar o porquê de tanto sofrimento.
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Carlos chegou em casa depois de passar por duas tabernas e se embriagar o suficiente para esquecer o ódio por Juan e o amor por Sabrinne. Foi deixado na porta da mansão e dois criados o ajudaram a entrar. Carmen, vendo o estado do irmão veio socorre-lo.
- O que aconteceu? – ela estava aflita.
- Vou mata-lo! – ele não conseguia ficar de pé e só era compreendido com grande sacrifício. – Ele não entende!
- De quem fala? Do Juan?
- Aquele marginal! Nem sendo desprezado ele desiste!
Os criados o colocaram na cama e Carmen insistia para saber o que houve.
- Diga-me Carlos! O que houve? Vocês brigaram? – concluiu ao ver o olho roxo de seu irmão.
- Ela disse: Vá embora! – sua voz era embolada. – Não te quero! Mas ele é insistente, teimoso!
Carmen sentiu uma grande alegria.
Mais uma vez Sabrinne o desprezara. Alguma hora ele teria que desistir dela.
- Carlos, ele a ofendeu? A destratou?
Carlos já dormia profundamente e Carmen ficou sem resposta. Ela saiu do quarto e por sua mente passavam inúmeras situações que pretendia impingir a Juan. Rapidamente foi a seus aposentos, trocou de roupa e chamou Maria.
- Venha comigo. Aonde vou e há essa hora não poderei ir sozinha.
A fiel criada a seguiu. Entraram no coche de sua propriedade e partiram na direção do cais.
Já passava das onze e as ruas estavam desertas. Tanto Maria quanto Carmen tremiam de medo. As sombras de Barcelona, de seus palacetes góticos e suas ruelas tornavam-se ainda mais sinistras àquela hora.
Apearam em frente ao majestoso Huracan.
- Maria, fique aqui.
- Aqui?! Mas senhorita...- a pobre mulher estava arrepiada de medo.
- Não seja medrosa! Não levarei mais que alguns minutos.
- Senhorita, não me interessa o que fará aí com esse homem, mas eu não vou ficar aqui fora sozinha.
Carmen suspirou cheia de nervoso.
- Está bem! Mas ficará no convés! E bem escondida!
A criada aceitou e Carmen subiu.
A jovem encaminhou-se à entrada da cabine e quando abriu, o cheiro de bebida barata chegou a deixa-la tonta. O local estava escuro e demorou um pouco até que sua vista acostumasse. Ela entrou e fechou a porta atrás de si. Caminhou uns dois passos e uma porta que ficava à sua frente se abriu.
Juan parou com os dois braços apoiados no batente da porta (de forma que ele tomou toda a passagem) e uma garrafa de rum na mão.
- O que faz aqui? – a voz estava arrastada e mesmo parado, ele cambaleava.
- Precisava te ver.
Ele sorriu mostrando os belos e alvos dentes.
- Não é nada decente visitar um homem há essa hora, ainda mais se esse homem está bêbado.- sua voz era quase incompreensível.
Carmen o achava ainda mais bonito assim. Ele estava mais solto, menos formal, e ela procurava avaliar o grau de embriagues em que ele se encontrava.
- Não tenho medo. Não poderá me fazer nada que eu não queira.
Juan estreitou o olhar e sorriu de canto de boca.
- Não diga isso...- ele tentou sair de onde estava, mas a tontura o deteve. – Sou homem, estou sozinho a algum tempo e...
Carmen laçou-se em seus braços e colou seus lábios aos dele. Juan sentiu-se perdido em uma tempestade. Ela cheirava tão bem, sua pele tão macia...
Carmen soltou os longos cabelos e mergulhou sua mão por dentro da camisa de Juan. Ele a segurou pela cintura e tropeçando nas próprias pernas, caiu sobre ela e ela sobre a cama.
A moça retirou a camisa dele e Juan segurou nos dois lados da gola de seu vestido e puxou com força, rasgando-lhe o decote e desnudando os seios firmes. Juan sentia-se excitado e ávido de satisfazer-se. Carmen beijava-lhe todo o pescoço e os lábios. Ele ergueu a saia dela e também rasgou-lhe as roupas íntimas. Depois abriu seu cinto e expôs seu membro rígido e latente. Carmen terminou de elevar sua saia e logo sentiu que seu sexo era invadido por enorme músculo, que de tão teso chegava a machucar-lhe a pele externa da vulva.
Tomada por forte e aguda dor, Carmen gritou. Juan não deu-lhe tempo para se recuperar e iniciou movimentos rápidos e ritmados enquanto beijava e sugava-lhe os seios. Carmen estava fósmea com tudo o que se passava. Estava feliz por finalmente pertencer a Juan, mas o fato dele estar bêbado a colocava num lugar inferior ao de uma prostituta.
Fortes estocadas, a respiração mais ofegante e os tremores do corpo masculino, anunciavam o fim... Juan jorrava por dentro dela. Depois de completamente satisfeito, Juan rolou para o lado e pôs sua mão sobre o seio de Carmen, fazendo-lhe delicada carícia. Uma forma de agradecimento por tê-lo “aliviado a tensão”.
A garota se refez do coito, virou-se para ele, mas o belo homem já dormia. Ela afagou-lhe os cabelos e acarinhou o rosto de traços perfeitamente másculos. Com certo esforço para deter o tremor das pernas, Carmen levantou e após vestir-se o mais decente que pôde, notou que havia sangue sobre o lençol. Puxou o forro sob Juan, embolou nas mãos e saiu.
Quando Maria viu sua senhora sair inteira da cabine, deu-se por feliz.
- Vamos embora senhora, por Deus!
Carmen tinha a expressão de vitória na face.
- Vamos...Vamos Maria.
Mensagem enviada Jul 14, 2002, 1:41 AM do endereço IP 200.165.84.242
Já era noite e Juan estava muito bem vestido, penteado e perfumado quando deixou a casa de Zulmira. A velha senhora sabia exatamente para onde ele ia, por isso não se deu ao trabalho de perguntar e muito menos de tentar impedi-lo. Seria em vão.
Juan chegou à porta da tão conhecida casa e deteve-se por um instante. Sentia um certo receio. Seu sangue fervia quando pensava que poderia encontrar Sabrinne nos braços de outro.
O movimento era grande e de dentro soava uma música alegre e muitos risos.
Juan passou as mãos pelos cabelos negros e sedosos, e tocou a sineta. Um negro abriu a suntuosa porta e permitiu-lhe a entrada.
Juan olhava para todos os lados, não só em busca de Sabrinne, mas também admirado pelo sucesso da casa.
Homens bebendo, rindo, falando alto...Mulheres belíssimas desfilavam em trajes menores e o cheiro de bebida e fumo estavam impregnados por toda a parte.
Quando Juan adentrou ao salão principal, alguns olhares se dirigiram a ele. Os homens o mediam de cima a baixo avaliando a audácia do contrabandista, e as mulheres quase arrancaram suas roupas com seus olhos gulosos e excitados com a figura sedutora e exótica.
Sabrinne estava sentada numa espreguiçadeira de costas para a entrada principal. À sua frente estava Normando e um barão recém chegado de Córdoba.
Normando empalideceu ao ver Juan. Notando o olhar fixo e a expressão de espanto do amigo, Sabrinne virou-se para ver do que se tratava.
Sua respiração faltou e seu coração falhou em duas ou três batidas...Juan estava ali!
Sabrinne não foi vista por ele e virou-se para frente, buscando o apoio do amigo. Normando segurou sua mão, dando-lhe confiança e sussurrou:
- Vá recebe-lo.
Sabrinne não acreditou no que escutou e sussurrou de volta:
- Nem morta! Não conseguiria dar três passos em sua direção. – olhou novamente para Juan e viu que Grécia lhe dispensava atenção e com secura na voz, disse: – Ele já foi recebido.
Juan procurava Sabrinne, mas o ambiente estava turvo e povoado demais. Uma mulher de corpo escultural, cabelos dourados e olhos cor de ébano, aproximou-se.
- Olá! – a voz sensual e seu olhar insinuante não passaram despercebidos ao instinto masculino de Juan. – sou Grécia.
Ela sorriu e ofereceu um cálice de vinho, que Juan aceitou gentilmente.
- Ainda não o tinha visto...Mora em Barcelona?
- Estava viajando. E você? De onde é?
Ele pretendia ganhar a confiança da moça e dela obter informações a respeito de Sabrinne.
- Sou de Málaga. – ela colou seu corpo ao de Juan e sussurrou ao seu ouvido. – Se quiser...Posso mostrar-lhe tudo o que Málaga tem de interessante.
Juan sorriu um pouco enrubescido.
- Estava em Málaga e a conheço como a palma da mão. Mas seria encantador conhecer os seus encantos. – disse com certa malícia.
Grécia sorriu e passou seu braço sobre os ombros fortes. Juan também enlaçou sua cintura e caminharam até uma mesa. Grécia sentou-se no colo de Juan e ele, ainda segurando sua cintura, brincou com uma mexa do seu cabelo e perguntou:
- Diga-me, quem é a proprietária desta casa?
- Chama-se sra. Sabrinne Albaniz. É uma mulher formidável!
Juan baixou o olhar e sorriu de alegria ao escutar o nome tão adorado. É lógico que ele só perguntou isso para puxar o assunto, mas escutar o nome que há dias apenas sentia ecoar em sua mente, dava-lhe um senso de realidade.
- Gostaria de conhecer essa mulher formidável. Onde ela está?
Grécia apontou para Sabrinne, que continuava de costas, mas tremeu quando Normando lhe disse que Grécia apontava para sua direção.
Não demorou muito para Juan e sua acompanhante estarem de frente a Sabrinne.
- Sra., esse cavalheiro deseja conhece-la.
Juan estava hipnotizado. Sabrinne trajava um vestido negro com um generoso decote e seus cabelos estavam soltos e espalhados sobre a almofada da espreguiçadeira.
Sabrinne o olhava seriamente, tentando manter o controle de seus músculos.
Juan inclinou-se e segurou a mão de Sabrinne, que não se mexera nem mesmo um único centímetro. Os olhos eram fixos uns nos outros e o beijo suave e quente que Juan depositou na palma da mão de Sabrinne, proporcionou-lhe um arrepio familiar.
- Não sabe o imenso prazer que tenho em conhece-la. – disse com a voz firme, mas voluptuosa.
Sabrinne puxou a mão e desviou o olhar.
- Digo-lhe o mesmo.
Normando estava pasmo com a química e a energia que envolvia os dois. A paixão e a cumplicidade entre eles chegavam a ser berrante!
Grécia puxou uma cadeira para que Juan sentasse. Ele assentou-se e Grécia apossou-se de seu colo. Sabrinne não conseguia encara-lo e mesmo sabendo que Grécia era inocente, teve vontade de manda-la correr dali.
Juan devorava Sabrinne com o olhar e Normando queria pensar rápido numa forma de aliviar aquela tensão, mas não sabia como.
- Como vai sr. Juan? – Normando falou um pouco sem graça.
Juan apertou sua mão.
- Estou muito bem. – olhou para Sabrinne, mas dirigiu-se à Normando – Ando desprezado, mas estou bem.
Sabrinne estava com o olhar baixo, mas sentia todo o movimento e o sarcasmo de Juan.
- Não acredito! – disse Grécia, enquanto beijava o pescoço do belo homem. – Que tola o desprezaria?
Sabrinne olhou diretamente para Normando e este desviou o olhar. Juan sorriu e também beijou o ombro da moça. Ele queria provocar ciúmes em Sabrinne.
- A sra. já foi desprezada? – Perguntou para Sabrinne. Ele chegava a ser cruel.
Sabrinne umedeceu os lábios tentando acalmar-se e parar de tremer. Olhou diretamente para ele.
- Não. Mas penso que seja tão ruim quanto ser provocada. – ela levantou. – O sr. me dá licença?
Juan sorriu cinicamente.
- Fique á vontade...Está em sua casa.
Normando também pediu licença e seguiu Sabrinne, certamente ela precisaria de sua ajuda.
Grécia ergueu o queixo de Juan e beijou-lhe a boca.
- Não ligue...Ela é uma mulher muito boa, mas parece sofrer muito. Está sempre assim, apática e distante.
Ela deu-lhe mais um beijo, mas esse Juan nem pôde sentir, pois o que a garota acabara de falar, o tocara no fundo. “Ela sofre...seria por mim? E por que me despreza?”
Sabrinne não deu mais nenhuma oportunidade para que Juan se aproximasse, mas ele a seguia com os olhos por todo o salão. Ela também o olhava, mas só quando Normando lhe garantia que Juan não veria, ou pelo menos achava que ele não veria. Por mais incrível que pareça, todas as vezes que ela olhava, estavam se beijando. Numa outra vez, Grécia segurava na mão de Juan e a colocava sobre seu seio, dentro do decote. Percebendo o olhar furioso de Sabrinne, ele beijou o pescoço da loira e depois os lábios, tirando-lhe o fôlego!
Sabrinne se enfurecera de tal forma que, sem nada dizer subiu as escadas a passos largos e de lá não mais desceu.
Juan esperou algum tempo, mas vendo que ela não voltaria, depositou generosa quantia no decote de Grécia.
- Sinto muito minha querida...Amanhã voltarei com mais tempo e te recompensarei por não poder ficar hoje.
Grécia ficou desolada, mas profissional que era...
- Está bem, mas vou espera-lo amanhã. Não vou aceitar que escolhas outra.
Juan sorriu.
- E nem poderia. És a mais bela e encantadora!
Despediu-se com um longo beijo e partiu.
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Em seu quarto, Sabrinne atirava tudo o que encontrava contra a parede. Estava enfurecida!
Normando estava em pé ao lado da cama esperando que a fúria da amiga cessasse.
- Maldito! – o pé direito de seu sapato cortou o ar em direção a parede! Embora não se desse conta, seu rosto estava lavado em lágrimas. – Mil vezes maldito! O que ele veio fazer aqui? – Dessa vez foi o jarro que foi atirado violentamente.
Ela virou para Normando. Suas mãos na cintura e o peito arfando.
- Quem ele pensa que é? O senhor da virtude?! Com que direito vem a minha casa, insinuar que eu o desprezo?
Normando permanecia calado, mas percebia que toda a ira de Sabrinne não era causada só pela presença ou pelas palavras de Juan, e sim por um ciúme voraz.
Ela sentou na cama e depois atirou-se para trás, ficando deitada. O choro e a dor vencendo a raiva.
- Ele sabe que eu o amo! Sabe que não o desprezo porque quero! Por que faz isso comigo? – ela olhou para Normando. – Pelo amor de Deus! Diga alguma coisa!
Normando olhou para a amiga, respirou fundo e com um certo receio, disse:
- Não é fácil para ele, te amar e ter que aceitar a separação sem que lhe dê uma explicação lógica.
Sabrinne virou para o outro lado. No fundo ela sabia que seu amigo estava certo.
- Ele não precisava beija-la. - Sussurrou, quase num gemido, admitindo seu ciúme.
Normando respeitou a dor da amiga e permaneceu calado.
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Juan foi para o Huracan. Já era tarde e não quis incomodar Zulmira. Ao invés de estar feliz por conseguir provoca-la, Juan estava nervoso e inquieto. Pensava na doçura e na suavidade de Sabrinne, que a essa altura deveria estar repousada em seu leito, leito esse que testemunhou todos os gemidos e juras de amor entre eles.
Sentindo dor e angústia em seu coração, acabou por adormecer. Ao menos uma coisa lhe alegrava... Em nenhum momento viu qualquer homem se aproximar dela com luxuria, ou seja, Sabrinne impusera respeito.
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Logo cedo, Normando esperava por sua amiga. Combinaram de dar uma volta pela praia, ela estava precisando respirar um pouco de ar.
Madeleine aproveitou e foi junto, até a praça principal. De lá ela seguiria até o mercado. Grécia e Lucíola a acompanhavam.
As cinco figuras desfilavam pela praça e todos...Todos os olhares eram para elas:
A Velha prostituta que se fizera passar por dama descente, as duas coquetes novatas, o sulista de caráter duvidoso e a mulher audaciosa e inescrupulosa que criara o antro temido por todas as senhoras dignas de Barcelona.
Elas, porém, seguiam com suas cabeças erguidas, e as duas moças do sul não perdiam a oportunidade de sorrir e soltar beijinhos discretos aos mais curiosos.
Madeleine, Grécia e Lucíola ficaram no mercado e Normando foi para a praia com Sabrinne.
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Sentaram-se em um enorme tronco e Sabrinne abriu sua sombrinha.
- Está mais calma?
- Acho que sim. – ela baixou o olhar. – Perdoe o meu comportamento de ontem. Não pude me controlar.
Normando sorriu.
- Diante da exposição do seu sr. Juan, eu estranharia se você se mantivesse calma e dormisse placidamente durante toda à noite!
Sabrinne sorriu.
- Ele me provocou de verdade, não é?- disse com um discreto sorriso nos lábios. Reconhecia que caíra feito “patinho”.
- Ele conseguiu o que queria. Deixou-a azul de ciúmes.
Sabrinne gargalhou.
- Fiz um papel ridículo...Haverá revanche, você vai ver.
- Sabrinne! Vai se comportar feito criança agora?!
Sabrinne não deu muita bola para o comentário e olhou para o mar, tão convidativo.
- Vamos?
- Ao mar?! Você está louca? Não entro por nada...
Sabrinne não deixou que ele terminasse a frase e o arrastou até a água. Nadaram de roupa e tudo.
Quando Sabrinne chegou em casa, Grécia estava sentada na sala e costurava uma roupa.
- Olá Grécia! Como foi o passeio?
- Foi agradável senhora. E o seu passeio?
Sabrinne estava sorridente e sentia o espírito leve.
- Foi muito divertido! Onde está a mamãe?
- No quarto senhora. Ela voltou indisposta.
- Indisposta?! – Sabrinne subiu intrigada com a indisposição repentina de sua mãe.
Madeleine estava agitada e corria de um lado para outro do quarto. Sua respiração estava alterada e por vezes, passava as mãos pelos olhos a fim de enxugar as lágrimas. Sabrinne entrou e assustou-se com o comportamento da mãe.
- Mãe?! O que há com você?
Madeleine parou onde estava e se aproximou. Ela estava visivelmente atemorizada.
Segurou as mãos da filha e disse, pausadamente:
- Sabrinne, preciso partir.
Os olhos de Sabrinne abriram-se em sobressalto.
- Partir? Como assim? Por que?
Madeleine engoliu seco e respirou profundamente.
- Acharam a faca que usei para matar Francisco. Estava em uma pequena moita, às margens do Fuentevejuna. Dizem que ainda continha sangue...Estou apavorada filha!
Madeleine abraçou a filha.
- Calma mãe...Não podem acusa-la!
- E se alguém viu?
- Se alguém tivesse visto, já teria dito!
- Tenho muito medo...Não quero ser presa.
- E não será!
Madeleine sabia que se alguém a acusasse, nada a salvaria da cadeia. Com os Santiago contra elas, sem o apoio de Juan e tendo a reputação que tinham...Não haveria como escapar!
- Sabrinne...Não vou arriscar. Você já é uma mulher, está estabilizada financeiramente e vai poder se cuidar sozinha por um tempo. Vou para Paris e assim que pararem de falar sobre a morte daquele...Homem, eu voltarei.
Sabrinne tinha os olhos cheios d’água. Ela sabia que no fundo, a mãe tinha razão. Se esperasse ser apontada, seria tarde demais.
Sabrinne segurou nas mãos da mãe e tentava conter as lágrimas.
- Onde ficarás?
- Ficarei em um convento. Deixarei o endereço para que possamos nos comunicar.
- Não poderei ir agora... A casa está me dando bom lucro e se partir agora, seremos prejudicadas, mas assim que me senti segura, irei ao seu encontro.
Madeleine sorriu satisfeita. A idéia de sumir de Barcelona e começar vida nova lhe agradava muito.
- Assim será melhor minha querida...Basta manter-se longe de Juan e nada lhe acontecerá. Prometa-me que ficará longe do Juan só assim Carlos a deixará em paz. – apesar de nutrir por Juan uma afeição sincera, Madeleine era mãe de Sabrinne e desde que a presença de Juan poderia ameaçar a vida de sua filha, a mulher preferia vê-la longe do capitão.
- Isso já está decidido mamãe. Não tenho mais nada com Juan. E não é por mim. É por ele. Não quero que nada de ruim lhe aconteça.
Madeleine sorriu e abraçou a filha.
- Que triste sorte a nossa...Transformei-me numa assassina e agora tenho que deixa-la. Você finalmente encontra um homem bom, justo e que te ama...E tem que abandona-lo para salvar-lhe a vida! O que fizemos a Deus minha querida?
Sabrinne estava de cabeça baixa.
- Não lembro de ter-Lhe feito nada, mas se assim é à vontade Dele...Saberei mostrá-Lo que não sou facilmente derrotada. Se não tenho sorte por natureza...A terei a força!
Às vezes a força e a coragem de sua menina a assustava. Pensava Madeleine.
- Preciso arrumar minhas coisas. Quero partir ao amanhecer.
- Sinto muito, mas não posso ajuda-la. Não conseguiria. – os olhos da garota estavam escuros de tristeza.
Sabrinne saiu do quarto às pressas e Madeleine tentou afogar sua tristeza no imenso trabalho que teria para arrumar sua bagagem.
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A tarde estava quente e Barcelona fazia sua cesta. Carmen seguia no coche em direção ao Huracan, majestosamente aportado com suas lindas velas.
Usava um de seus melhores e mais provocante vestido. Apesar de não ser tão bela quanto sua rival, Carmen tinha sua beleza. Uma beleza clássica e serena, com sua pele alva e olhos castanhos e brilhantes. Os cabelos tão negros quanto a graúna e um corpo bem feito, apesar de ter pequenas proporções.
Logo que saltou do veículo, teve uma desagradável surpresa...
Juan estava sentado sobre a cabine e o vento lambia seus belos cabelos, mas ao seu lado estava a velha Zulmira!
“Que diabos esta velha está fazendo aqui?”
- Maria, pegue essas moedas e dê a algum moleque para que ele entretenha a velha.
- O que devo dizer senhora?
- Não sei! Diga-lhe que...Que invente uma dor ou um acidente próximo a ela e peça-lhe socorro. – Carmen estava muito contrariada. – Mexa-se Maria! Vamos!
A criada saiu chispada e Carmen subiu a pequena rampa que a levava ao Huracan.
Fingindo uma timidez que não lhe era natural...
- Boa tarde...
Juan e Zulmira viraram-se.
- Boa tarde. Aproxime-se. – disse Juan. Zulmira limitou-se a cumprimenta-la com um aceno de cabeça.
Juan havia lhe pedido que o acompanhasse a esse encontro. A presença de Zulmira lhe daria um álibi para qualquer artimanha de Carmen. Desde os tempos mais remotos, já se conhecia o dito: “Gato escaldado, tem medo de água fria!”
- Como foi de viagem? Fez bons negócios?
- Sim, foi bastante proveitoso.
“Porque o moleque não aparece logo?” , Carmen pensou.
- Sr. Juan, quero que saibas que eu e meu irmão...
- Eu entendi perfeitamente o que dizia o bilhete senhorita.
Um rapazote subia a rampa do barco, quando de repente arqueou-se e gritou. Imediatamente todos se voltaram e Juan e Zulmira correram ao seu socorro. Carmen sorria discretamente.
- O que houve garoto? – perguntou Zulmira, deveras preocupada.
Juan o olhava apreensivo e o menino continuava a gemer e se contorcer.
- Juan, vou leva-lo para casa e ver o que ele tem. – disse Zulmira.
- Irei com você. – disse Juan.
Carmen apressou-se em demove-lo desse intento.
- Sr.! E eu?!
- Senhorita, sinto muito...
- Mas preciso falar-lhe...é importante...
Juan olhou para Zulmira e esta retribuía o olhar com espanto.
- Vá Zulmira. Vá e cuide desse garoto. Eu sei me cuidar e não tenho porque temer uma mulher tão frágil quanto ela.- sussurrou para a ama.
Zulmira concordou com a cabeça e saiu levando o menino.
Juan aproximou-se de Carmen.
- O que é tão importante? – ele estava estonteante! Mas sua voz era tão fria quanto uma lâmina.
Finalmente Carmen teria uma oportunidade de seduzi-lo, e teria que ser infalível. Se falhasse dessa vez, não haveria outro ensejo.
- Soube que você e Sabrinne desfizeram o compromisso, é verdade?
Juan baixou o olhar e mexeu numa lasca de madeira que desprendia do mastro.
- É. – ergueu o olhar. – Isso lhe interessa? Lhe importa?
Carmen respirou fundo e umedeceu os lábios.
- Mais do que possa imaginar.
Ela aproximou-se lentamente de Juan e ele permaneceu imóvel, mas seu olhar era de desconfiança. Ele avaliava até onde ela iria e qual era a sua intenção.
Carmen tocou a lapela do paletó e deslizou por ali os seus dedos longos.
- É muito difícil para mim...Mas não posso mais viver com isso...- ela o olhou bem dentro dos olhos e sentiu tremores. Não eram como os de Sabrinne, pois o que fazia a bela ruiva tremer, era só dela e de mais ninguém.- Eu te amo Juan...Com toda a minha alma e meu coração!
Carmen colou seu corpo ao dele e agora segurava-o pela lapela com as duas mãos. Juan estava inerte. Em seu rosto nem sequer um único músculo havia se mexido. Ele segurou os dois pulsos da moça e retirou as delicadas mãos de seu paletó, afastando-a de si.
- Fico envaidecido por tais sentimentos, mas não posso aceitar esse amor.
Nos olhos de Carmen dois raios de ódio atravessaram. Ela respirou fundo para que pudesse suportar a recusa.
- Por que não? – sua voz quase não foi ouvida.
- Porque amo outra.
- Sabrinne. – ela virou-se de costas para ele. Precisava esconder seu ódio. – Ela o despreza e você a ama! – ela virou-se de repente. – Não vê que és mais do que ela merece? Ela te escorraça! Despreza! E você ainda a ama? Eu não posso acreditar...
Juan nada respondeu e isso deixou Carmen louca. Ela colocou o rosto entre as mãos e sussurrou:
- Deus! Por que? – ergueu a cabeça. - Ela não o quer!
- Se ela me despreza, devo agradecer isso a você e a seu irmão! – finalmente ele deixava a letargia.- Vocês a afastaram de mim!
- Eu?! O que fiz?
- Achou realmente que colocando seu brinco em meu bolso iria fazê-la me odiar?A senhorita até que tentou, mas seu irmão, ao que parece, teve maior êxito.
Carmen gelou ante a acusação. “Ele descobrira! E por que não deu certo?” Ela achava que não tinham visto, mas...Haviam mesmo era superado a desconfiança. “Maldição!”, ela pensou.
Baixou o olhar e realmente sentiu-se envergonhada.
- Eu sinto muito...Cometi muita loucura em nome desse amor, mas estou arrependida!
Juan sorriu cinicamente. Ela não se importou e prosseguiu.- Me arrependo de ter magoado as pessoas e de ter me comportado mal, mas não estou arrependida de te amar.
Ela voltou a se aproximar e tocou-lhe a mão.
- Juan...Deixe-me tentar fazer-te feliz. Sei que posso! Serei tua e realizarei todos os teus desejos...Em nome de Deus, ou no que quer que você acredite...Aceite o meu amor.
Juan começou a sentir pena daquela moça. Ela estava sendo sincera...Ela realmente o amava e ele não poderia negar que isso o tocava, o emocionava.
- Senhorita...
- Carmen! Me chame apenas de Carmen.
- Carmen, torno a dizer que seu amor muito me envaidece mas, não posso te oferecer o mesmo em troca.
- Não estou te pedindo que me ame. Quero que apenas me deixe te amar.
Juan ficou boquiaberto. Que tipo de amor era esse?
- Não posso. Por favor, procure me esquecer...
- Como? – ela agarrou-se ao braço dele, o impedindo que se afastasse.
- Senhorita, não quero que se humilhe mais...Não sou digno de sua humilhação e nada poderá arrancar Sabrinne de dentro de mim. Por favor, volte para sua casa.
Carmen abaixou o olhar de tanta vergonha que sentia. Abriu seu coração, rastejou, se humilhou e ainda assim ele falava em Sabrinne. “Eu a mataria com minhas próprias mãos!”, pensou, cheia de ódio e fúria.
Lançou um último olhar para Juan e saiu do Huracan sem olhar para trás.
Juan sentiu muita pena, mas nada poderia fazer. Jamais se uniria a uma mulher que não fosse Sabrinne.
COMENTEM, OK?
BJS
Mensagem enviada Jul 13, 2002, 10:55 PM do endereço IP 200.165.85.195
Juan passou os quatro dias seguintes entre Málaga e Sevilla, cuidando de umas mercadorias desviadas, e com isso pôde esfriar um pouco a cabeça. Quem não gostou nada dessa viagem, foi Carmen. Com Juan longe, ela perdia tempo e oportunidades para seduzi-lo.
Carlos fez questão que todos soubessem que Carmen fora a responsável pela soltura do capitão. É claro que isso não encheu Juan de orgulho, mas ele ainda era um cavalheiro e enviou um bilhete e flores em agradecimento. Carmen ficou “nas nuvens” e isso lhe deu segurança.
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Madeleine chegou com as cortesãs e tratou de aloja-las. Sabrinne andava muito ocupada com os preparativos e contava com a ajuda de seu fiel “escudeiro” Normando, mas ele, por diversas vezes, a flagrara chorando ou com o olhar perdido. Apesar da frieza e da postura de mulher de negócios que adotara, para ele, ela não conseguia esconder a aflição e a angústia em que se encontrava.
As mulheres eram belíssimas, mas nem de longe tinham a postura, a delicadeza e o charme de Sabrinne. Estavam sentadas na sala e se levantaram com a chegada da dona do bordel.
- Esta é a senhora Sabrinne. – Ela adotara o tratamento de senhora para garantir o respeito.
Sabrinne sorriu simpaticamente.
- Olá. – as garotas admiraram a pose e a graça de Sabrinne. – Vamos conviver algum tempo e, gostaria de deixar algumas coisas claras. Apesar de’u ser a responsável pela casa, minha mãe ficará com a parte referente a vocês, ou seja, tudo o que precisarem, podem falar com ela, mas isso não quer dizer que não seremos amigas. Estarei à disposição de todas.
Sabrinne amadurecera repentinamente. Porém, essa mulher madura e obstinada, morria nas primeiras horas da madrugada, quando na solidão de seu quarto, quando não tinha problemas para resolver e decisões para tomar... A apaixonada e sonhadora Sabrinne emergia do fundo de sua alma.
As lembranças e a saudade de Juan atormentavam sua mente e seu coração.
Carlos a visitava religiosamente todos os dias, mas ela não o recebia e sempre mandava-lhe recados desaforados.
Zulmira a visitara duas vezes, mas Sabrinne limitava-se a dizer que o amor entre ela e Juan não seria mais possível. Ao ser indagada pelo motivo, ela desconversava e dizia que era pela vida de ambos.
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Na noite da reinauguração, Sabrinne estava belíssima e bastante sociável, mas seus olhos não podiam esconder sua tristeza. O salão, repleto de homens ricos e poderosos, adquirira uma graça adicional: cinco belas mulheres desfilavam com roupas insinuantes e sorrisos maliciosos.
Os virtuosos e ricos senhores, gastavam rios de pesetas tanto no bar, quanto nas cintas-ligas das mulheres. Madeleine estava bastante satisfeita com o movimento, mas Sabrinne em nada reparava.
Um gelo correu-lhe a espinha...Carlos acabava de entrar e a olhava intensamente. Sabrinne desviou o olhar. Não poderia coloca-lo para fora, pois todos os senhores que ali estavam e que recheavam o caixa da casa, eram muito chegados ao jovem Santiago. Expulsa-lo poderia lhe acarretar grande problema.
Sabrinne passou toda à noite fugindo da companhia de Carlos e das requisições dos demais. Porém, a fuga não poderia ser eterna.
- Você está maravilhosa!
Sabrinne arrepiou-se com o sussurro ao pé do ouvido. Carlos a abraçava por trás de tal forma que ela não conseguiria desvencilhar-se sem parecer indelicada ente os olhos dos outros.
- Solte-me! – ela sussurrou cheia de ódio.
- Para quê? Se estarei dentro de ti logo mais.
Sabrinne riu de nervoso e sarcasmo.
- Nem que fosse o último dos homens na terra!
- Até quando pensa que poderá fugir de mim? Sei que é a dona e que nada nem ninguém poderá te obrigar a me servir, mas tenho influências e...
Sem perceber, ele havia diminuído a tensão com que a segurava, e aproveitando a folga, Sabrinne virou-se e tomou certa distância.
- Use-as! Estou farta de suas ameaças! – ela o encarava com firmeza e Carlos procurou a menina tímida e sensível por quem se apaixonara, mas ela não estava ali. Em seu lugar havia uma mulher feita e segura, uma mulher que não só aumentava sua paixão, como lhe despertava desejos incontroláveis e um enorme desespero por não poder possuí-la.
Sabrinne olhou em volta com ar de soberania.
- Olhe! Eles estão satisfeitos e felizes! – ele olhou em volta e todos riam, bebiam e pareciam realmente contentes. – A menos que você esteja pensando em abrir uma casa como a minha, para suprir-lhes o desejo e a alegria...Não volte a me ameaçar!
Ela saiu, deixando Carlos extático e vencido.
Normando a observava e a aguardava ao pé da escada. Deram os braços e subiram.
Dessa mesma forma se passaram as duas noites seguintes.
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Carmen andava nervosa e irritada. Uma semana passara desde a viagem de Juan, e finalmente e ele havia chegado! Ela soube através da criada e ordenou a esta mesma criada que levasse um bilhete ao capitão.
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Juan estava no Huracan e, sentado sobre a cabine, observava os casarões das ruas de cima. Já estava a par dos últimos acontecimentos e apesar de saber que Sabrinne não havia dormido com ninguém, também considerava o fato de que nada a impedia de fazê-lo.
Estava decidido a procura-la. Nunca fora homem de desistir das coisas, não seria seu grande amor sua primeira renúncia.
A mulher tacanha e simples se aproximou.
- Bom dia senhor. – ela nem o olhava.
- Bom dia. – Juan se perguntava o que ela queria. As mulheres do cais costumavam teme-lo e respeita-lo a ponto de só dirigir-lhe a palavra por necessidade.
A mulher estendeu-lhe a mão com um pequeno envelope e Juan riu do fato da mulher não encara-lo.
- De quem é?
Temerosa que ele não lesse ao saber quem era a remetente, a criada improvisou.
- Ta escrito aí senhor. – disse apontando para o envelope.
Juan a olhou desconfiado e abriu o papelote.
“Juan,
Estou muito feliz que tudo tenha corrido bem com sua libertação da cadeia. Não concordo com nada do que meu irmão faz e nutro grande admiração e respeito por você.
Por favor, permita que eu o visite e demonstre o quão distinta sou do meu inconseqüente irmão.
Carmen Santiago.”
Juan suspirou profundamente e olhou para a criada. Ele estava cansado das intromissões da família Santiago.
- Diga-lhe que sou grato por tudo, mas aqui não é lugar para uma senhorita como ela e que...
- Senhor...Ela insiste.
Juan estava cansado e não ia ficar argumentando com a criada.
- Está bem. Mas que venha amanhã à tarde.
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Todos estavam sentados na sala. As cinco garotas, Normando, Madeleine e Sabrinne.
Normando fazia a contabilidade da noite anterior. Os proventos do bar eram bastante gratificantes.
- Os lucros são maiores do que eu esperava! Parabéns a todas vocês.
Sabrinne olhava pela janela e estava alheia tudo. Seus olhos perdidos na imensidão azul do mar de Barcelona, ansiavam por ver balançar a bandeira vermelha e amarela suspensa no mastro do Huracan, mas se ele já estivesse no porto, não daria para ver dali.
- Sabrinne! Sabrinne! – Madeleine chamava.
- A?
- Onde está com a cabeça? – Um segundo depois Madeleine percebia que sua pergunta era ridícula.
- Sabrinne, Grécia e as meninas conseguiram juntar 300pesetas! – disse Normando, tentando entretê-la.
- Como?
- Suas cintas-ligas estavam abarrotadas de dinheiro! – ele ria enquanto contava o feito.
Sabrinne sorriu educadamente.
- Que bom...Esse dinheiro é de vocês.
Madeleine e Normando se entreolharam e as meninas sorriram incrédulas.
- De verdade Sra.?
Embora Sabrinne fosse mais nova que a maioria delas, o respeito às obrigava a tratá-la assim.
- O dinheiro foi dado diretamente a vocês e com certeza fizeram por merecer. Tudo...Dinheiro ou jóias, que for dado a vocês, não serão tomados. – ela tinha a voz calma e suave. Como se não tivesse forças para ser mais enérgica.
As meninas comemoraram e foram dispensadas por Madeleine.
- Sabrinne, não condeno sua atitude. Você foi nobre, mas por que agiu assim?
- Mamãe...Se não lhe desse isso, poderiam começar a esconder e até furtar esse dinheiro. Não quero isso na minha casa!
Madeleine e Normando concordaram.
Mensagem enviada Jul 12, 2002, 1:36 AM do endereço IP 200.165.85.83
Sabrinne e Normando chegaram na casa dos Santiago e logo a criada levou-os ao escritório. Carlos estava sentado atrás da secretária com a postura de um rei. Ele sorria cinicamente.
Quando Sabrinne entrou na companhia de Normando, Carlos olhou para o cavalheiro com cara de poucos amigos, mas voltou seu olhar para a linda moça e sorriu.
- Eu sabia que viria me procurar. Implorar por mim.
Sabrinne sentiu gosto de sangue na boca.
- Por que mandou prende-lo?
- Ah não Sabrinne! Não acredito que veio aqui para falar desse marginal!
- Não já fiz o que queria? – ela estava alterada e cheio de ódio na voz. – Não o desprezei, o repeli? Por que o prendeu?
- Porque ele invadiu minha casa.
- Mentira! – ela vociferou e Normando segurou seu braço com mais força, tentando conte-la.
Carlos levantou da cadeira, contornou a mesa e sentou sobre essa.
- Também está ferido, sabia? E sabe quem foi cuidar dele? – ele estava extremamente cínico e sarcástico. – A Carmen!
- Ferido? – Sabrinne tinha a voz trêmula de temor. – Grave? – ela nem ao menos ligou para o nome Carmen. Apenas se preocupava com o estado de seu capitão.
- Infelizmente não.
- Por deus Carlos...Não me faça ter mais ódio de você...Liberte-o.
Carlos umedeceu os lábios e cruzou os braços à sua frente. E como um perfeito calhorda, propôs:
- Podemos fazer uma troca de favores.
- Peço que o senhor a respeite. Não vou admitir que faça esse tipo de proposta na minha frente. – Normando foi em defesa da amiga, mas seu tom de voz era calmo e educado.
- Não seja por isso...Saia.- Carlos disse cinicamente.
- Carlos, não vim aqui para discutir. Vim exigir eu liberte Juan.- Sabrinne suplicou.
Ele caminhou até ela e Sabrinne tirou seu braço de Normando para poder ter maior liberdade de movimentos, caso precisasse se defender.
Carlos segurou seu queixo e falou baixinho.
- Por que me despreza tanto? Por que não sirvo para você, e aquele delinqüente sim?
- Carlos, pela alma de seu pai...liberte Juan.
Carlos sabia que mais cedo ou mais tarde Carmen lhe exigiria a mesma coisa, pensou que prometendo liberta-lo, poderia tirar a vantagem e melhorar sua imagem perante Sabrinne.
- É o que quer? Vê-lo livre?
Ela fez que sim com a cabeça.
- Quer que eu tenha piedade dele?
Novamente ela assentiu. Carlos aproximou seus lábios do dela e ameaçou beija-la.
- Eu te amo Sabrinne. E por você faço qualquer loucura. Até libertar esse maldito.
Sabrinne sorriu aliviada, mas se afastou dele. Carlos voltou para trás da mesa e Normando estava paralisado com a frieza do Santiago.
- Vai libertá-lo?- ela perguntou.
- Se é o que quer...Vou. Mas lembre-se de nunca mais nem mesmo falar com ele!
Sabrinne engoliu seco, olhou para Normando e saiu, mas Carlos chamou-a:
- Sabrinne! Esqueça esse maldito.
Sabrinne estava de costas e apenas virara a cabeça.
- Você pode me impedir de estar e falar com ele, mas de amá-lo não!
Eles saíram a passos largos e Carlos esmurrou a mesa com raiva.
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Sabrinne e Normando passaram pela cadeia e Sabrinne pediu que Normando fosse averiguar como Juan estava.
Normando entrou e pediu para ter notícias do capitão. Alegou que era um amigo do sul, que estava de passagem por Barcelona e quando soube do acontecido, veio vê-lo.
O chefe da Guarda, notando a estirpe de Normando, não achou nada demais e apenas pediu que esperasse que a senhorita que cuidava do ferimento saísse.
Carmen passou por Normando, mas não lhe deu importância. O guarda encaminhou o rapaz à cela.
Do lado de fora, Sabrinne viu quando Carmen saiu da cadeia. A raiva percorreu seu corpo como rastilho de pólvora.
“Cobra! Ela não perdeu tempo!”
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Normando não conhecia Juan, mas logo o identificou pela sua postura e porte.
Juan viu o rapaz se aproximar e não conseguia entender do que se tratava.
- O sr. é Juan Montejano? – Normando sussurrou.
Juan levantou e se aproximou.
- Sou. Quem é você?
- Me chamo Normando Corrales e vim saber como o senhor está. Seu ferimento é grave?
- No que te interesso? – Juan estava muito desconfiado. – Ou será que veio a mando de alguém?
- Vim porque uma pessoa muito querida está preocupada com o senhor.
- Preocupada? – Juan o olhava de viés. – Sabrinne?
A expressão de Normando dispensou a confirmação verbal. Juan aproximou-se e segurou nas grades.
- Onde ela está? Como ela está? – sua voz estava coberta de desespero.
- Ela está em casa e está bem. Apenas ficou preocupa...- Normando não conseguia mentir. O imenso amor que ele via nos olhos de Juan o emocionara.
- O que foi? – Juan notou a agonia do rapaz.
- Não posso mentir.
Juan segurou na camisa de Normando.
- Não minta! O que há?
- Ela não o despreza por vontade própria! Está sendo coagida e não vê outra saída a não ser despreza-lo, mas ela o ama tanto quanto o senhor a ela!
Juan diminuiu a tensão das mãos e suas feições suavizaram como se recebessem o frescor de um banho, de uma brisa leve. Um sorriso surgiu ao canto dos lábios e os olhos adquiriram um brilho especial.
- Ela me ama?- ele parecia bobo, e sussurrou só para si: - Eu sabia. – Voltou a encarar Normando. – Como Carlos a coagiu? O que disse a ela?
Normando queria muito contar tudo, mas se fizesse isso, colocaria a vida de Juan em risco.
- Eu não sei senhor... Ela não me disse. Mas ela não quer vê-lo! Teme pela sua e pela própria vida.
- Não...Não vou me afastar.
- Sr. Juan...Se quer continuar sendo amado, segue a vontade dela. Não se aproxime.
- Mas então...Porque veio me dizer que ela me ama, se não posso lutar por esse amor?
- Nada é eterno! Um dia essa ameaça cederá e não quero que nenhum dos dois esqueça que se amam.
- O tempo acabou! – gritou o guarda.
- Preciso ir. O senhor está bem, não está?
Juan concordou com a cabeça.
- Adeus.
Normando se afastou e Juan o chamou.
- Amigo! Diga que eu...Eu a amo mais que tudo.- Juan tinha a voz meiga e foi com grande esforço que conseguiu abrir-se com alguém estranho.
Normando sorriu e saiu.
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Normando encontrou Sabrinne do lado de fora e foram embora rapidamente.
Quando chegaram em casa de Sabrinne, Normando lhe relatou tudo o que havia acontecido.
Sabrinne estava emocionada e se segurava no batente da porta para não tombar. Ao mesmo tempo em que chorava, ria.
- Nunca vou poder agradecer-te meu amigo...
- Não precisa me agradecer. – uma sombra encobriu o olhar de Normando. – Fui obrigado a abdicar do meu amor, e se puder evitar que isso também aconteça com você ou com qualquer outra pessoa...Será como reviver a minha paixão.
Sabrinne abraçou o amigo.
- Isso não ficará assim. Vou arrumar uma maneira de te ajudar também.
- Esqueça Sabrinne. Para mim não há solução. Ainda que pudéssemos ficar juntos, um amor entre iguais jamais será aceito.
Sabrinne abaixou o olhar. Não podia acreditar na hipocrisia das pessoas. O que diferencia um amor do outro, é a pureza e a intensidade, não o sexo.
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Carlos enviou um recado ao chefe da guarda, comunicando que estava retirando a queixa e pediu ao encarregado, que deixasse claro que esse feito devia-se a bondade da senhorita Carmen Santiago.
Carmen ficou muito agradecida ao irmão, mas este a fez jurar que assim que conseguisse se unir ao contrabandista, deveria sumir de Barcelona.
Juan foi libertado naquela mesma noite e agora já se encontrava na casa de Zulmira.
- Meu filho! Precisa se cuidar e ser menos impetuoso!
- Não pude me controlar. Precisava saber que infâmia ele tinha inventado dessa vez.
Zulmira estava taciturna.
- Você acha realmente que Sabrinne já não conhece essa família o suficiente para não acreditar mais nas mentiras deles?
Juan a olhou desconfiado.
- O que quer dizer?
- Que talvez haja um segredo ou uma ameaça muito grande por trás disso tudo. Sabrinne já não é a menina inexperiente e inocente de outrem. Do jeito que tem se mostrado feliz e apaixonada, não acredito que ela desistisse de você por qualquer mentira.
- O que acha que há por trás?
- Acho que ela está acuada. Este homem ou sua irmã, devem tê-la amedrontado de tal forma que...
- Não acredito! Ela sabe que eu a defenderia até mesmo do próprio demônio!
Zulmira deu com os ombros. Viu que de nada adiantaria tentar convence-lo de que se tratava de algo mais sério do que se imaginava. Juan não aceitava o fato que talvez, ele não fosse capaz de proteger sua amada de tudo.
Aconselhado por Zulmira, Juan decidiu que daria um tempo para que Sabrinne se acalmasse e pensasse melhor.
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Dois dias se passaram e Sabrinne não procurara Juan. Normando a visitava diariamente e passava quase todo o tempo em sua companhia. Falavam sobre Juan, Felipe (a paixão de Normando) e também sobre a situação na corte.
Embora ela não o procurasse, a criada era mandada todos os dias ao cais para trazer-lhe notícias de seu capitão. Só assim conseguia conciliar o sono.
Juan, por sua vez, também não a procurava e nem mandava espiões...Ele mesmo se esgueirava pelos becos e sombras de Barcelona para observa-la em seus movimentos pelas janelas de sua casa. Todas as duas noites que se passaram, ele notava que a bela moça mantinha a luz do quarto acesa e como costumava vigia-la até o amanhecer, via quando ela, enrolada no lençol, esperava na varanda que a aurora se fizesse completa. Como haviam feito juntos.
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Sabrinne conversava com sua mãe e seu amigo.
- Não sei mais o que fazer...Nosso dinheiro está acabando e ninguém quer alugar ou comprar nosso sítio.
- Sabrinne, não tenho muito, mas tudo o que tenho está a sua disposição. – disse Normando, querendo servir a sua amiga.
Sabrinne sorriu, mas a tristeza já era uma constante em seu olhar.
- Obrigado amigo, mas não posso aceitar nem mesmo uma peseta sua. Sei que apesar de nobre, está vivendo modestamente. Sua amizade já é mais do que mereço.
- Podemos voltar a morar numa casa mais modesta, o aluguel dessa é muito caro para nós.
- Já havia pensado nisso mamãe, mas se formos morar numa casa humilde, o que iremos comer? Se não conseguíamos emprego naquela época em que ainda tínhamos o mínimo de boa reputação, imagina agora.
- Se vivermos aqui, morreremos de fome da mesma forma!
Sabrinne tinha o olhar perdido no horizonte e a voz fria. Ela sabia exatamente o que queria e o que era preciso fazer.
- Reabrirei o bordel! Numa casa humilde será impossível retornar à atividade.
Tanto Normando quanto Madeleine a olharam espantados.
- Como?! – falaram em coro.
- Usarei o resto das minhas economias para abastecer nosso bar e reabrirei o bordel. Mas não como antes...
Os olharem interrogativos foram suficiente para que Sabrinne prosseguisse.
- Não serei leiloada e nem dormirei com o que me oferecer mais dinheiro. – ela olhou para os presentes e eles estavam atônitos, escutando que mais sandices sairiam daquela boquinha.- Só dormirei com quem eu quiser e achar conveniente.- na verdade ela não pretendia dormir com mais ninguém na sua vida. Mas precisava manter a imagem de cortesã.
Madeleine olhou para Normando e este estava espantado com a frieza de sua amiga.
- Querida...Acha realmente que os homens virão até aqui para conversar e admirar sua beleza? – Madeleine usou de ironia.
- Não mamãe, claro que não. Haverá outras moças para distraí-los e eu poderei me dar ao luxo de escolher meus amantes. Se minha posição não os agradar, que procurem os bordéis sujos e mal-cheirosos do cais! – ela olhou com ar de superioridade. – Duvido muito que não aceitem minhas condições. Esta será a mais bela, fina e requintada casa de diversão de Barcelona!
- E onde vai buscar essas moças? Não pensa em busca-las no campo, não é? – perguntou o temeroso Normando.
- Óbvio que não. Jamais faria isso. – Dirigiu-se à mãe. – Mamãe, gostaria que a senhora fosse a casa de Mde.Selena e pedisse que ela lhe indicasse algumas poucas e belas mulheres. Penso que cinco é um bom número.
Madeleine e Normando estavam estupefatos! A simplicidade e a praticidade com que a garota cuidava dos “negócios” era de espantar.
- Quando pensa em...Reabrir?
- Assim que me trouxer as moças. Quero que a senhora mesma as escolha, não há ninguém melhor conceituado para isso.
Normando espalmou sonoramente as mãos sobre os joelhos e disse num tom meio irônico.
- E eu? Que tarefa terei? Espalhar a notícia da reinauguração? Posso sair com um cartaz: “A doce, bela e apaixonada Sabrinne, reabre seu maravilhoso bordel!!!”
Ele, obviamente falou brincando, mas Sabrinne levou a sério.
- Não será necessário carregar cartaz nenhum...- ela parecia não ter notado a ironia do amigo. -... E muito menos com esses dizeres, mas se quiser me ajudar, ficaria muito grata se pudesse espalhar a notícia.
Normando deixou que seu queixo pendesse.
- Quando poderá ir, mamãe?
Madeleine suspirou e procurou um apoio em Normando, mas esse parecia mais perdido que ela.
- Tudo isso por causa do dejeto que o maldito Francisco largou na terra! – disse cheia de ódio e Sabrinne baixou o olhar. Madeleine voltou a suspirar. – Está bem! Posso ir quando quiser...
Mensagem enviada Jul 8, 2002, 2:28 PM do endereço IP 200.177.110.226
Alexandra procurou se afastar do restante dos passageiros, que ainda permaneciam no convés. Imóvel, observava a imensa ilha ir se tornando apenas uma mancha no horizonte.
“Adeus, Inglaterra”, pensou, sentindo as lágrimas caírem pelo canto dos olhos. “Nunca mais vou poder voltar....”, a consciência do fato enfim, se tornando real.
À sua frente, desfilavam todos os momentos vividos lá... sua infância.... seus irmãos....seus pais.... amigos.... sua adolescência.... seu tio Rourke...
David...
Passou os braços ao redor de si, se abraçando com força, tentando de alguma forma, se sentir segura novamente.
“Você salvou a minha vida, David.... me deu seu amor e nunca pediu nada em troca...” – seu olhar permaneceu fixo no mar... - “ E quando você entrou em meu coração? Quando se tornou tão importante para mim?”, fechou os olhos, as lágrimas agora banhando seu rosto. “E como vou viver sem você... agora que descobri o quanto te amo?”
Não procurava mais respostas... agora elas não lhe serviriam de nada.
_David...
_Vejam! Terra finalmente!
A exclamação animada de uma das passageiras, contrastava drasticamente com o estado de espírito de Alex. Desde o amanhecer, ela estava no tombadilho, observando o horizonte, esperando o continente surgir em seu campo de visão.
Respirou fundo para sentir os aromas que antes, faziam parte de si mesma... as lonas úmidas, a resina do pinho sob seus pés e o ar acre das águas. Via-se, ainda um pouco distante, o emaranhado de construções de tijolos vermelhos, torres brancas, telhados escuros e vastos armazéns cinzentos. A neblina se dissipava rapidamente, revelando os mastros dos navios mercantes, como uma floresta estranha e misteriosa.
Vestida de negro, os cabelos presos num coque severo, e ainda parcialmente ocultos pelo chapeuzinho, o véu negro encobria o rosto. Ninguém se ateria a olhar duas vezes para uma mulher de luto, era o que esperava.
Seus olhos marejaram-se quando a terra surgiu nítida. Sinos tocavam e pessoas moviam-se no cais.
Charleston...
O começo e o fim de tudo.
“Chega de lágrimas, Alexandra...... Chega de lágrimas”, ordenou a si mesma, levando sem perceber, a mão até os anéis presos na correntinha ao pescoço. Apertou-os com força na palma da mão enluvada. “Vida nova! De um jeito ou de outro... você vai ter que recomeçar.”
O navio estava atracando e os passageiros preparavam para desembarcar, ansiosos para pisar em terra novamente. Alex observava o vai e vem de marinheiros no cais.
“E você vai recomeçar, Alex... enterrando de vez o passado. Vai exorcizar seus fantasmas.... e vai fazer isso hoje mesmo.”
Como estava usando os documentos de Eloise, sua boa amiga, ela não teve nenhum problema, e apesar dos protestos do capitão do navio, ela desembarcou sozinha. Mais tarde mandaria alguém buscar sua bagagem.
Alex atravessava as ruas do cais, percebendo as diferenças desde a última vez que ali estivera. Acabara-se o clima opressivo, a tensão e o nervosismo. Com o fim da guerra, as pessoas podiam seguir novamente com suas vidas.... em paz.
O homem aproximou-se da mureta da embarcação e olhou na direção do porto, onde o vai e vem de pessoas era constante. Levou um choque ao vislumbrar a figura de uma mulher que atravessava o cais. Ela lhe parecia tão familiar.... quase como se fosse....
Alexandra!
Ali!?
Seu primeiro impulso foi de gritar seu nome, chamar sua atenção, a saudade e o desejo de abraçá-la novamente sobrepondo-se a todo o resto, mas ao mesmo tempo, um pensamento teve o efeito de paralisá-lo. O que Alexandra fazia ali?
Imediatamente o nome Brendan O´Neill lhe veio à mente. Era por causa dele que ela estava ali. Só podia ser por causa dele. Que outro motivo ela teria para vir para a Améica, senão, encontrá-lo?
O ciúme turvou seus pensamentos, e sem se dar conta do que fazia desceu do navio, saltando para o cais e começou a segui-la.
Foi preciso usar toda sua força de vontade para não gritar seu nome.... enquanto todos os seus sentidos clamavam pela necessidade de tê-la em seus braços novamente.
Nem por um momento, conseguira esquecer os momentos que passaram juntos... do amor que tinham feito. De sua impetuosidade dentro e fora do quarto deles. Sentia Alexandra gravada a fogo em seu corpo e em sua mente, correndo em suas veias... e a necessidade de renovar esse sentimento ardia em seu sangue, como ardia a dúvida que o tomara de assalto.
Confundiu-se entre as pessoas do porto. Um homem imponente, vestido com camisa branca, calça preta e botas de cano alto poderia ser apenas mais um comandante de navio... um pirata para as mentes mais fantasiosas... mas havia algo no seu porte aristocrático que demonstrava que ele era algo mais... muito mais que isso.
Mas nada lhe importava enquanto seguia a figura da mulher pelo porto. O coração descompassado, apertado pela saudade, oprimido de ciúme.
Ela nunca lhe confessara amor! Lealdade sim! Paixão talvez....
Parou a uma certa distância ao vê-la entrar num prédio..... mas cerrou os maxilares com força ao ver a placa na fachada .... era ali que ficava o escritório da Companhia dos O’Neill. Ela nunca esquecera o maldito americano! Nem todo o seu amor e dedicação, nem toda sua alma, que lhe dera incondicionalmente, foram capazes de apagar Brendan O’Neill de sua vida.
Colocou-se numa posição segura, de onde não podia ser visto e aguardou.
Alex parou em frente ao prédio. Vacilando momentaneamente. Mas tinha que fazer isso. Numa demonstração de firmeza, abriu a porta. Um pequeno sino tocou sobre a sua cabeça. Mas não havia ninguém ali, aparentemente.
A pequena sala de recepção estava vazia. Olhou para cima e viu uma porta aberta. O escritório de Brendan. Sem hesitar, subiu a escada e afastou a porta. Ninguém ali. Entrou.
As paredes eram forradas de mapas e bandeiras... havia uma boa quantidade de flâmulas e insígnias de navios capturados, o que lhe trouxe uma certa amargura. A guerra estaria sempre presente... mesmo que já estivesse acabada.
Caminhou até a estante, onde haviam vários livros de registro, livros de bordo... ela passou os dedos levemente pelas lombadas. E foi com surpresa, que reconheceu um deles... retirou-o da prateleira..... o livro de bordo do Persepholes! Brendan o mantivera.
Como se tivesse um frágil tesouro nas mãos, ela o folheou... sentindo um nó se formar na garganta. Uma vida inteira.... quase sorriu, ao ver algumas páginas com uma caligrafia quase ilegível! Não era fácil escrever durante uma tempestade! E ela precisava colocar logo no papel o que se passava, caso contrário, se perdia no relato de bordo!
Fechou o livro, levando-o ao peito. Uma vida inteira dedicada ao mar.... desviou o olhar para a vista da janela.... de onde se via grande parte do porto.... dezenas e dezenas de navios atracados...
“Como vou conseguir viver longe do mar.... sem você! Por que o mar me puniu dessa forma? Por que me tiraram você justo agora, David?”
Passos firmes e rápidos vibraram na madeira do assoalho. Alex fechou os olhos, permanecendo onde estava e aguardando, com o coração em suspenso.
Os passos cessaram.
_Em que posso ajudá-la, senhora?
Ela inspirou fundo, ainda segurando o livro. Abriu os olhos e voltou-se lentamente para o homem parado à porta.
_Pode me perdoar, Brendan?
Os olhos dele percorreram-na dos pés à cabeça, numa avaliação minuciosa. Depois examinou-lhe o rosto, como se não fosse capaz de acreditar. Ela estava vestida de negro, os cabelos presos num penteado severo, o chapéuzinho e o véu encobrindo parcialmente o rosto. Mas aquela voz...
Foi se aproximando, lentamente, à medida que ela tirava o chapéu, expondo o rosto que ele jamais conseguira esquecer... os olhos que ficaram gravados em sua alma.
_Annie?
_Lamento ter mentido tanto, Brendan... – ela disse, ignorando seu espanto.
_Annie... você não...morreu...
Ela sorriu, um pouco triste. Mas aquele sorriso...
_Foi um engano... uma inocente pagou pelos meus crimes... – disse com sincero pesar.- Não era eu....
_Seu irmão...
_Ele se enganou também... e tinha essa mesma expressão quando me viu.
_Viva! – o aturdimento foi dando lugar a outra sensação. Euforia! Alívio! Alegria! – Você está viva!
Brendan deu duas passadas largas e a envolveu em seus braços, trazendo-a para bem perto, com medo de que tudo não passasse de um sonho.
Mas era real! A mulher em seus braços era real! A ergueu do chão, rodopiando pela sala e rindo de pura felicidade.
Alex o abraçou, recostando a testa contra o ombro dele.
“Se eu tivesse me agarrado à chance que você me ofereceu antes, Brendan...”, pensou, a certeza de seus sentimentos sendo reforçada ainda mais. “Tudo poderia ter sido diferente....”
Ele a colocou no chão e afastou-se para fitá-la.
E ficaram assim, por um longo momento. E aquela troca de olhar, revelou mais do que as palavras teriam conseguido. Ele ergueu as mãos, tocando em seu rosto.
_Veio para me dizer adeus...
Ela sentiu os olhos marejarem-se.
_Eu te devia isso.... devia isso a mim... – disse, com a voz emocionada.
Brendan ainda tocava em seu rosto e num gesto de carinho, inclinou-se, beijando-a na testa. De olhos fechados, tentando acalmar o coração que ameaçava se partir...
_Eu te amo, Annie...
Ela colocou as mãos sobre as dele.
_Aquela mulher que você conheceu... não era essa que está aqui, Brendan... – fitaram-se. – Aquela mulher... não era a verdadeira Alexandra....
_E onde ela está agora? Foi tudo mentira?
_Não! – apressou-se em negar.- Não, não foi... Ela era alguém que eu desejava ser... e talvez, se não fosse a guerra, aquela Annie tivesse realmente existido...
_Foi a guerra que me trouxe você...
_E foi a guerra que nos afastou. – tirou as mãos dele, dando alguns passos para trás e pegando o livro de bordo sobre a mesa.- Meu diário... por que está aqui com você?
Ele deu de ombros, inspirando com calma, tentando se controlar.
_Você não o entregou ao seu governo...
_Entreguei tudo que eles precisavam saber... os mapas, as rotas.....
_E o diário de bordo do capitão do navio?
_Já não ia servir de muito àquela altura.
Ela inclinou a cabeça, olhando o livro em suas mãos.
_Você o leu?
_Sim...
_Essa..... é a verdadeira Alexandra, Brendan. – o fitou.- Sempre foi.
_Essa Alexandra me amou algum dia?
Ela ficou em silêncio por um instante.
_Não...
A resposta lançou um silêncio incômodo entre eles. Brendan aproximou-se da janela, ficando de costas para Alexandra.
_Você foi a possibilidade de um sonho para uma parte de mim que estava cansada da guerra... das batalhas... Talvez, se eu tivesse ficado com você naquele baile, talvez essa outra mulher... pudesse ter criado raízes... pudesse ter se tornado real, e não apenas um desejo.
_Então, tudo foi uma fantasia...
Ela balançou a cabeça.
_Não sei... não há como saber. Nossas vidas tomaram outros rumos... rumos inesperados que me levaram ....
_A Carrington.
Alex sentiu o coração doer... de dor e saudade.....
_A cometer traição... a cometer insanidades... Mas nunca me arrependi de ter feito...o que fiz..... Só lamentei... as conseqüências do que fiz... porque não atingiu somente a mim... atingiu minha família....meus amigos....
_Seu marido.
_Principalmente.... Mas, por minha causa... direta ou indiretamente... ou talvez não... talvez fosse o destino dele, não sei..... ele está morto. Mas não importa como ou porque... eu só sei que me sinto culpada pelo que houve... por ele e por mim... – inspirou fundo, afastando as lágrimas.- Mas não vim falar sobre ele.... vim...
_Me dizer adeus.
_Sim...
Brendan ficou ainda mais um instante, observando o porto. O olhar fixo nos mastros de um navio que estava sendo restaurado já há algum tempo... Saberia ela sobre esse navio? Não, provavelmente não...
_E quanto a Reese?
Aliviada com a mudança do assunto, ela deu de ombros.
_Não sei..... eu preciso falar com ele.... Não quero que fique pensando que estou morta...
_Reese partiu para a Inglaterra assim que recebeu a carta de Avery.
_Outro desencontro.... – suspirou - Isso parece ser a marca de minha vida.
_Assim que ele conversar com Avery, com certeza voltará correndo. Então, é melhor ficar com Samara até.....
_Não posso.
_E para onde você iria?
_Não posso ir até lá.... estava pensando em mandar alguma mensagem, assim Reese me encontraria em outro lugar...
_Por que isso?
_Brendan... eu deixei aqui...muitos inimigos.
_A guerra acabou. E não há mais...
_Politicamente, talvez. Mas estou falando de desavenças ‘pessoais’. Tenho medo de que minha presença possa prejudicar meu irmão de alguma forma. Não quero que se levante dúvidas sobre a minha ‘morte’. Para todos os efeitos... fui executada. Se boatos sobre mim chegarem em Londres, a perseguição irá recomeçar.... e os principais atingidos serão minha família.
_Nós nunca a abandonaremos.
“Nós”.
Ela desviou o olhar.
_O exílio não seria suficiente para meu país. E tenho medo das represálias. E além disso... haviam espiões aqui na América... que faziam jogo duplo. Vendiam informações aos dois países... Cumberland era um deles. E eu o prejudiquei muito...
_Ele desapareceu. Você acha que ele poderia tentar algo contra você?
_Não sei, mas não vou arriscar. Ele não pode voltar para a Inglaterra... foi desmascarado... há um mandado contra ele... Assim como eu, execução sumária. E se eu conheço tipos como ele... se tiver uma oportunidade, vai querer se vingar. E eu não posso colocá-los em risco agora que tudo está praticamente resolvido.
_Entendo sua posição... Mas onde você vai estar?
_Encontrarei um lugar discreto para me instalar. Vou aguardar a volta de Reese e depois...
_Por que não fica em minha casa?
_Não, Brendan...
_Lá você estará segura.
_Não quero complicar ainda mais nossa situação.
_Somos parentes agora... temos um sobrinho em comum e parentes se ajudam. Sem segundas intenções, Annie... – disse com sinceridade.- Mas, me deixe ajudá-la agora... Dessa vez, eu não vou abandoná-la.
Ela quase sorriu.
_Você nunca me abandonou, Brendan... – negou com um aceno.- Mas, não... é melhor mantermos as coisas como estão... Mas eu entrarei em contato para lhe avisar onde estarei.
Vendo que de nada adiantaria insistir agora, Brendan concordou. Por enquanto.
_Eu a acompanho...
Ela recolocou o chapéu e puxou o véu sobre o rosto.
Alex deixou o escritório de Brendan, sentindo-se estranhamente leve. Falar com ele, colocar finalmente em palavras os sentimentos guardados desde a primeira vez que se viram.... e depois de tudo que houve, parecia ter retirado um peso da consciência.
Inspirou profundamente, sentindo o cheiro pungente do mar, os odores característicos do porto. Ela simplesmente ignorava os olhares surpresos ou curiosos das pessoas que ali transitavam.... marinheiros, trabalhadores e transeuntes.
Sentia como se tivesse, enfim, feito as pazes com seu passado... exorcizado seus fantasmas e estivesse agora com um caminho limpo e livre à sua frente.
Livre... e solitário.
Mas trataria de dar um novo rumo à sua vida. Teria bastante tempo para pensar, enquanto aguardava o retorno de Reese.
Interrompeu seus passos ao avistar um navio que se preparava para zarpar. Observou as âncoras serem erguidas e a embarcação, lentamente, se afastar do porto, suavemente. As velas foram içadas e o vento se encarregou do resto. Ela quase sorriu. Quantas lembranças...
À medida que essa embarcação se afastava, outra se tornava visível... que estivera oculta.
As linhas arrojadas do clíper... os três mastros... as velas arriadas... seu coração começou a bater mais forte. Um frio intenso a percorreu de alto a baixo e a passos lentos, foi na direção de onde estava ancorado.
Havia um vai e vem de marujos no convés... subindo e descendo... o clíper passava por reparos...
“Não...devia estar sonhando..... não podia ser”, seu olhar percorria cada detalhe com avidez... incrédula.
_Phoenix! – exclamou, aturdida.
“Como?”
Olhava, mas sem acreditar.
_Senhorita...? – um marujo se aproximou, quando ela parou em frente à prancha de embarque. – Está perdida?
Ela engoliu em seco.
_Esse clíper... quem é o responsável por ele?
_É britânico... foi rebocado há vários meses, por um dos nossos navios.
_Rebocado? E a tripulação..... – seu coração parecia estar em suspenso.-... o capitão?
_Foram repatriados.... foi logo após o fim da guerra...
_Foram??? – Alex sentia como se o chão desaparecesse sob seus pés.- O capitão... – insistiu.
_Não sei, senhora.... mas parece que não sobreviveu....
_Alexandra?
O coração falhou uma batida, para depois disparar loucamente. Fechou os olhos, tentando controlar a pulsação.
_A senhora está bem? – o marinheiro à sua frente, se assustou ao vê-la empalidecer subitamente.
Alex apenas meneou a cabeça, abriu os olhos e virou-se, devagar.....
_Brendan. – a decepção soou muito clara em seu tom de voz. Soltou a respiração que tinha mantido presa.... Por um momento... por um louco momento, pensara que...
_Alex.. você está bem? – Brendan aproximou-se, preocupado, com a palidez em seu rosto.
_Estou...- disse, sentindo-se uma tola.
Como pudera pensar que fosse David...? os olhos marejaram-se, mesmo contra sua vontade. David estava morto. E nada mudaria isso... nada.
_Por favor, Alex.. você não me parece nada bem.... Venha comigo e fique em minha casa... pelo menos até Reese voltar.
_Não, Brendan... não posso.
_Nossas famílias estão unidas agora, Alex... – as palavras saíram com muito custo, mas ele sabia que não podia exigir nada dela agora.-... somos uma só e... temos um sobrinho em comum, lembre-se...
_Isso não vai mudar o ...
_Sem segundas intenções, Alexandra... Reafirmo o que disse. Me veja apenas como um amigo... é só o que eu lhe peço. – ele segurou suas mãos.- Eu não pude ajudá-la antes... deixe-me fazer isso agora.... – pediu novamente.
Ela ergueu a cabeça e o encarou.
“Podíamos ter sido tão felizes, Brendan... tão felizes...”, pensou, virando-se e olhando mais uma vez para o Phoenix. A bandeira que tremulava no mastro agora.... era americana... e aquilo, lhe rasgou a alma.
Deixou seu olhar acariciar a embarcação... mas em vez de nostalgia... ela sentiu foi amargura...
“Por minha causa, você está morto, David.. por minha causa...”
Ela se deixou levar por Brendan. Nada mais importava.
David observou os dois. Sentiu um estremecimento percorrê-lo por inteiro.
Alex saía acompanhada do americano. De braços dados, e o homem segurava a mão dela e a fitava de uma forma que deixava bastante claros seus sentimentos.... Uma ira incontrolável o tomou de assalto... a forma como ele olhava a SUA mulher, quase o fez irromper pelo cais e esmurrá-lo. Afastá-lo dela...
Mas isso de nada adiantaria, concluiu com desalento, observando-os se distanciarem. Se Alex não conseguira amá-lo até hoje, se não havia esquecido o americano, não havia mais nada que pudesse fazer... senão libertá-la daquele casamento.
Mas antes... uma parte de sua alma se revoltou, antes queria que Alexandra lhe dissesse, olhando em seus olhos, que não o queria mais ou que nunca o quisera de verdade.
Ela voltara ao cais..... ao Phoenix. Por mais que soubesse que deveria cortar aqueles laços de vez.... esquecer e recomeçar... não conseguia.... Sentia uma necessidade incontrolável de voltar..... precisava voltar mais uma vez.... para dizer adeus.
Alex estava no navio, olhando melancolicamente o mar. O seu mar...
Não havia mais consolo nele agora. Durante tanto tempo fora a sua libertação e seu companheiro. Sua vida inteira...Mas agora...
Inspirou profundamente.
Agora, Brendan estava definitivamente no seu passado, e ela não conseguia lamentar isso. Fora um sentimento bonito.... intenso....mas ele não resistiu a outro, mais forte e mais intenso.... um sentimento devastador, que tomou conta de seu coração, seu corpo e sua alma....
Mas que seu orgulho não lhe deixara compreender e aceitar.... a tempo. E agora...
Agora David estava ....
Angustiada rebateu as lágrimas... não havia nada a fazer, e ela estava vazia, desorientada... não via mais sem sentido em nada.
Agarrou a murada do navio não sabendo onde procurar algum alívio, assombrada pelo olhar de David, ansiando o seu toque, o som da sua voz... sua presença... Aquele vazio.. que a consumia por dentro... somente ele poderia preencher. Mas se ele estava morto... parte dela também morrera.
Apertou a madeira com toda a força que foi capaz como se quisesse expurgar parte do desespero que lhe corroía a alma.... a angústia... não aceitava esse desenlace.... como tudo podia acabar assim? Por que? Por que ela não entendera antes? Por que tanta hesitação em aceitar que sim, ela o amava! Sim, ele era muito importante em sua vida...
Ah, e como teve medo.... medo que ele tivesse tanto poder sobre seus sentidos... que a afetasse tão profundamente... tanto! Não estava preparada para um sentimento tão forte e intenso assim...
Mas não havia sido como Brendan.... um sentimento que a tivesse pegado de assalto! Um amor à primeira vista.... não.... e isso a desnorteou...
David fora entrando lentamente em seus pensamentos.... fazendo parte de sua vida... como o nascer do sol a cada dia.. tornando-se presente... necessário... e quando finalmente, se dera conta.... já era tarde demais...
Ele já estava impregnado em sua pele... em sua alma..... e em seu coração....
E o destino.... lhe dera a revanche final. O preço por sua liberdade fora alto demais!
Fitou o mar, cujas águas calmas brilhavam sob a luz do sol, deixando que seus olhos ardessem com o reflexo ofuscante, e assim... pudesse ter uma desculpa para chorar.
Vivera toda sua vida pelo mar.... e no mar....
E fora justamente o mar... a lhe tirar sua alma...
Lutara tanto por liberdade.... e agora que finalmente conseguira... que era livre totalmente.... se sentia mais presa do que nunca.
David viu quando Alex subiu ao Phoenix, e sentimentos contraditórios agitaram-se em seu íntimo. Queria que ela lhe dissesse que no seu coração ainda e sempre reinara o americano, para por logo um final naquela angústia, mas tinha medo de si próprio, de sua reação quando a ouvisse dizer que amava o outro, e mesmo assim fraquejar e não conseguir resistir a ela. De não aceitar que assim era melhor.....
Melhor para quem?
Alex lhe provocava uma insegurança, que o enfraquecia. Houve um momento que chegara a pensar que conseguiria fazê-la amá-lo, e aqueles dias passados na casa deles, quando ela o procurara em seu quarto... ! Aquela primeira noite...
Passara parte da noite, apenas observando-a dormir perto dele, segura e serena em seus braços.... Lembrava-se da incerteza nos olhos claros assim que despertara...
Mas se estes meses passados longe dela tinham aumentado o seu amor, também tinham servido para que percebesse que nada adiantaria forçar um sentimento que existia apenas da parte dele.
Que só teria sentido, só valeria a pena, se fosse correspondido... que fosse sincero e simplesmente por causa dele.
Não por gratidão.
Não por lealdade.
Não em substituição ao homem que ela não tivera!
Esse pensamento foi o bastante para reacender a raiva de que precisava munir-se para falar com ela. A mágoa e o ciúme por ela estar ainda buscando o americano, cresceram e transbordaram na sua voz enquanto se aproximava.
_O círculo se fechou.
Viu a tensão que a tomou, observando a forma como ela endireitou o corpo subitamente. As mãos pequenas seguravam a mureta do navio com tanta força, que era possível perceber as marcas esbranquiçadas nas juntas dos dedos. Parecia estar inspirando profundamente e então, se voltar tão lentamente que pensou que ela fosse desmaiar. A palidez no rosto antes tão bronzeado, quase o fez precipitar-se para ampará-la em seus braços. Mas controlou-se a tempo. Não era por sua causa que ela estava ali.... e qualquer que fosse o sobrenome que usava agora, jamais havia sido sua realmente. E com certeza, não iria querer que ele a tocasse. Pelo menos, não mais...
Alex pensou que estivesse delirando.... que perdera de vez a lucidez, e seu desespero lhe pregava peças.
À sua frente, estava o homem por quem chorava. À sua frente os olhos verdes que tão ansiosamente desejara voltar a ver... escuros, opacos, impenetráveis.
Tremia tanto que não teria conseguido se manter de pé, se não estivesse apoiada à beirada do navio.
_David....???
_ Eu sabia que você voltaria...
Ela estava chocada demais para conseguir falar, e ele... ele tinha uma vontade insana de beijá-la, e era tão poderosa que não sabia como estava se mantendo imóvel e, pelo menos na aparência, indiferente..
A dor... ela lhe travava a garganta.... o queimava por dentro. Uma certeza lúgubre de que depois desta conversa, ele ficaria vazio, desnorteado, sem rumo. A certeza do fim.
De repente, não era mais preciso que ela confirmasse nada. Achou que era demais para as suas forças ouvi-la dizer que queria Brendan. Tinha medo do que poderia fazer. Não podia se humilhar dessa forma perante aquela mulher.. não mais...
_David....??? – sua voz não passava de um murmúrio. Não conseguia falar... como poderia se seu coração batia tão forte, que parecia ecoar em seus ouvidos. O mundo inteiro poderia ouvi-lo. David... vivo! Vivo!
Parecia que estava tomando consciência disso aos poucos... tinha tanto medo de acreditar..... fechou os olhos por um momento. Rezando.... implorando.... que não fosse um sonho.... mais um sonho apenas. Abriu os olhos, erguendo a cabeça. Seus olhos brilhavam mais que os reflexos do sol na água.
_Estou sonhando..... – conseguiu falar num tom um pouco mais firme, mas mesmo assim.. sua voz soou trêmula.
_Eu nunca estive nos seus sonhos, Alexandra.
Ainda atordoada, ela não notou a frieza com que David falava.
_Eu pensei que você....
_Você está livre, Alexandra.... livre de mim....
Ela o fitou agora, com estranheza. Enfim, se dando conta de que havia algo errado. David se mantinha afastado. Um arrepio percorreu sua espinha... ele a fitava de uma forma... como das primeiras vezes que se encontraram.
_O que??? Como...como pode dizer isso?
David riu.... amargo.
_Você está aqui, não está? Eu vi você e aquele americano... por que você estaria na América...se não fosse por ele..... por ele, Alex!
_Não.... – angustiada, tentou se aproximar, mas bastou um olhar dele para que ela se imobilizasse. Ia perdê-lo....., essa certeza infiltrou-se em seus pensamentos, sem perceber. Como.... o que estava acontecendo? Deus do céu.....ia perdê-lo....- David.... você não está entendendo.... Disseram que você estava morto.... encontraram os destroços.... e disseram que era o Phoenix...
_Imagino o quanto você deve ter ficado aliviada... - Continuava com aquele tom frio.
_Aliviada? – suas mãos estavam geladas, mesmo sob o sol daquele começo de verão. – David... quando fiquei sabendo eu....
_Não me deve explicações, Alex.... Não me deve nada, eu sempre lhe disse isso..... e agora que, como você mesma disse, estou oficialmente morto... – disse com ironia, como se não acreditasse nela.- ... você está livre de mim.... Livre para seguir sua vida como sempre quis! Acho que sou eu quem lhe devo isso...
_Não! – ela gritou.- Não..... você é meu marido. Nós somos casados!
_Isso não importa mais....
_Não importa???? – “O que estava acontecendo?”, pensou com desespero crescente. - David.... você não pode fazer isso comigo.... quando me disseram que você estava morto.... eu... eu não podia acreditar.....não podia aceitar......
_O Phoenix era muito importante para você... e eu não consegui devolvê-lo na época.
_Dane-se o Phoenix..... – disse, perdendo a calma.- Eu não podia ter perdido você... está me ouvindo? Você...
_Não quero sua lealdade, Alex... não me basta.... antes eu pensava que sim, mas ao ver você e aquele americano... descobri que não basta... Eu só queria você.
_Dane-se a lealdade.... dane-se a honra... eu te amo! – ele lhe deu as costas e riu.
_Se eu não conhecesse você tão bem, Alexandra, até acreditaria.
_Você podia conhecer aquela outra mulher que guiava sua vida apenas pelo prazer de viver e estar no mar.... num navio.... Antes, somente o mar... estar no mar me importava. Mas eu mudei.... não sei como.... não sei quando.... mas você começou a fazer parte de mim... Pensei que ter perdido Brendan.... fosse o fim de tudo... Tudo começou a dar errado... tudo começou a se voltar contra mim.... perdi o homem que pensei que amava... meus navios... o direito de voltar para meu país... e achei que era o fim...
_Você pode recuperar tudo agora... está livre de tudo.... uma nova vida realmente..
_David, por favor... você tem que me ouvir! – pediu, com angústia.
_Chega, Alex...
_Não.... – sentia seu coração doer como nunca. Aproximou-se, ele continuava de costas para ela.- ... pensei que era o fim... mas, aí você começou a fazer parte de minha vida.... dia a dia... sempre.... Você já não era mais meu inimigo.. não conseguia mais te ver assim.... Não conseguia mais lembrar da raiva que sentia por você..... Não conseguia! – ficou um momento em silêncio, implorando que ele se voltasse..... que acreditasse nela. – Eu sempre me senti sozinha... apesar de minha família.....minha tripulação.... eu nunca senti que precisasse estar realmente perto de alguém... com alguém..... Mas, quando você começou a fazer parte de mim......não precisava estar sempre perto de você.... para sentir que estava comigo, porque no fundo... sem perceber.. eu sabia que você estava comigo, de uma forma tão completa que tudo foi perdendo a importância para mim.... o que eu achava que era tão vital.... imprescindível em minha vida... perdeu o sentido. De repente, senti que podia continuar minha vida sem Brendan... sem meus navios.....sem o mar e me dei conta, de que isso não importava mais.... porque você estava comigo. Era por você.... por sua causa, David....
_Não se iluda...
_Mas... quando percebi que tinha te perdido.... quando me disseram que você estava morto... – não controlou as lágrimas, e a visão ficou turva.-.... que você não ia mais voltar para mim... – se calou por um momento. Fechou os olhos, mas isso não deteve as lágrimas. - ... percebi que eu não podia viver sem você... que não era justo te perder.... no momento em que eu descobria que te amava...
Mas ele não se movia, não reagia.
_Acredite em mim, David.... – jogou seu orgulho por terra. Precisava de David mais do que tudo na vida!
_É difícil, Alex... porque você está aqui. E O’Neill também.
_Eu não podia mais ficar na Inglaterra. – estava começando a perder o controle, com medo.
_Porque não suportava minha ausência? – ele se voltou, e a encarou, friamente.- Por isso veio correndo para os braços do seu americano?
_Não! – gritou.
_Vá embora, Alex! É tudo inútil. Não há nada que nos una agora. Não há mais sentido nesse casamento....
_Não há.... sentido? – ela estava em choque. Como ... como ele podia se manter tão frio... depois de tudo que dissera??? O medo começando a turvar seu raciocínio, confundi-la. – Então.. só havia sentido quando eu representava algum risco para a Inglaterra?? Quando eu era um desafio para você?
_Eram tempos de guerra... – disse, sombrio.
_Foi isso que eu representei para você? Um desafio para o oficial de Sua Majestade? E para o homem por trás do título? - Aproximou-se sem deixar de fita-lo - Valeu a pena, David? Estive à altura de seu desafio? - Sentiu a boca secar - E agora que finalmente você conseguiu os seus propósitos, deixei de ter importância?
Ele a fitou mas ela não conseguiu decifrar nada nos olhos dele. Ele voltara a ser o mesmo Lorde Carrington que ela conhecera e odiara, antes de se transformar no seu David, o homem que a levara para longe dos seus próprios limites. Só que agora ele possuía um poder, que antes não tinha sobre ela. Antes ele não era capaz de magoá-la.... porque ela o odiava. Agora... que o amava.... tanto... ele tinha realmente o poder de destruí-la.
E estava a um passo de conseguir...
O ar reservado e o olhar gelado mantinham-na à distância. E o silêncio reacendeu seu orgulho. Sua única defesa contra a dor.
_Pelo visto, deixei.
Silêncio.
David olhou para longe, não conseguia mais encará-la. Mas não deixava transparecer nada que lhe ia no íntimo.
Alex cerrou os maxilares. A amargura tomando as rédeas... o orgulho voltando a guiá-la.
_Nada costuma ser justo numa guerra.... Lembra-se disso, David? Mas a guerra acabou.. e agora você não tem mais motivos para ficar preso a uma mulher que “sempre foi motivo de escândalo e vergonha”... Claro que não posso me esquecer de que eu não sou uma dama..... sou uma...
_Sua lealdade está acima de tudo. Até mesmo de sua própria vontade...
Alex baixou a cabeça por um momento e lembrou-se da aliança e o anel... retirou a corrente do pescoço, segurando-os na mão... observando-os...
“Que tola você é, Alexandra!”, pensou, com amargura.
_Muito bem, milorde. Compreendi perfeitamente.... - Afastou-se ligeiramente. - Ganhou seu desafio. Essa satisfação posso lhe dar. Espero que esteja “feliz”.
_Vai ser melhor para todos nós. Você poderá voltar para o mar e recomeçar sua vida de onde eu interrompi.
Ela quase riu.
_Sabe, David.... – apertou com força, as jóias em sua mão.-.... você nunca me conheceu de verdade. E mesmo se eu quisesse... – desviou o olhar pelo Phoenix.
_O Phoenix voltará para você, eu lhe asseguro. Lhe devo isso.
Ela riu.
_Você não me deve nada, milorde..... e Alexandra Carrington, não existe mais! – jogou as jóias aos pés dele. – Considere isso como um troféu de guerra..
Mensagem enviada Jul 5, 2002, 10:16 PM do endereço IP 200.151.89.0
Juan banhou-se e foi para a sala.
- Você vai sair?
- Vou. Sabrinne está me esperando.
- Diga-lhe que se ela quiser, minha casa está de portas abertas.
- Ela sabe, mas como te disse que em poucos dias ela iria para nossa casa...Ela achou um transtorno desnecessário.
Zulmira deu de ombros e serviu-lhe de café.
###~~~###
A noite estava agradável e Juan tocou a sineta da porta. Uma criada veio atender.
- Boa noite.
- Boa noite sr. Juan. Entre, por favor.
Juan notou que algo estranho estava acontecendo, pelo semblante sombrio da criada.
Madeleine desceu a escada.
- Boa noite sr. Juan.
- Como vai Sra. Madeleine?
- Bem...A Sabrinne está acamada e...
- Acamada? O que ela tem?
- Teve um mal estar.
- Eu posso vê-la?
- Acho melhor não. Ela está muito abatida e penso que não gostaria de ser vista dessa forma.
- Que bobagem! Praticamente já somos casados e não me importo com a aparência e sim com a saúde.
- É um pedido dela sr.
Juan olhou o alto da escada e como um raio atravessou a sala e subiu de três em três degraus.
Madeleine protestou em vão e subiu logo atrás.
Juan abriu a porta do quarto e Sabrinne estava deitada. Quando Madeleine estava para entrar ele bateu a porta e passou a chave.
A cara de susto que Sabrinne estava, fez com que Juan se acalmasse um pouco.
- O que está acontecendo? O que você tem?
Sabrinne sentou e não teve coragem de encara-lo.
- Estou indisposta e um pouco tonta.
- E que idéia é essa de não querer que eu a veja?
- Não isso Juan...
- E o que é, então? – Ele, apesar de mais calmo, continuava contrariado, com o cenho franzido e as mãos na cintura.
Sabrinne respirou fundo e levantou com certa dificuldade. Precisava pensar em algo que o fizesse não mais procura-la. Mas...O que dizer?
- Estou esperando Sabrinne...Por que não queria me ver?
- Juan...Me perdoe...
Juan sentiu o sangue ferver e seus olhos transformaram-se em brasa.
- O que tenho que perdoar? O que houve agora?
- Não houve nada. Apenas percebi um pouco tarde que...Que não te amo.
Juan sentiu-se atingido por uma bala de canhão e ficou sem fala.
Sabrinne sentia enorme amargura e seu coração dilacerado. Como dizer que não o amava, quando queria atirar-se em seus braços e amá-lo até não tivesse mais forças?
Juan, a passos largos, aproximou-se dela e segurou-a com força pelo braço. Chegando até mesmo a machuca-la.
- Quero a verdade Sabrinne! – ele não gritava, mas sua voz tinha tanta força e intensidade, que Sabrinne pôde senti-la vibrar por todo seu corpo.
- Essa é a verdade. – disse quase chorando.
“Se ele um dia pudesse entender que se ela fazia essa loucura era para salvar-lhe a vida...”
- Não pode ser! Ainda hoje eu a senti tremer de amor em meus braços!
A lembrança de logo cedo fez com ela fraquejasse, mas logo a imagem de Carlos dizendo que ele apareceria morto na primeira esquina devolveu-lhe a coragem.
- Esqueça hoje de manhã Juan! – o rosto já lavado em lágrimas. – Vá embora! Por favor, vá embora e não me procure mais!
Juan apertou os olhos e a olhava bem de perto, como se quisesse ver-lhe a alma. Ele, ainda segurando-a pelo braço, com a outra mão puxou cabeça contra a sua e beijou-lhe os lábios com desejo. Sabrinne derreteu-se e se entregou ao beijo, mas antes que se entregasse por completo, colocou as mãos no peito másculo e o empurrou. A expressão de ódio de Carlos não lhe deixava em paz.
Juan foi afastado pela força do empurrão e agora a olhava com ironia.
- Você ainda me ama...Ainda mais que hoje cedo. Posso sentir seu corpo implorar o meu...Por que me repele?
- Não diga asneiras! – Ela lhe deu as costas. – Vá embora e não me pergunte mais nada!
Ele encostou-se a ela e a virou, segurando-a pelos ombros.
- Olhe nos meus olhos e diga que não me ama mais! Diga que não me quer!
Sabrinne engoliu seco. Os olhos de Juan atravessavam sua alma. Seu olhar era tão forte e intenso que causava-lhe arrepios constantes. Diante daqueles olhos ela jamais poderia mentir.
- Eu não quero tê-lo ao meu lado...- ela respirava com dificuldade. - Não quero ser vista a seu lado...Se você insistir...Nossas vidas se transformaram em desgraças...- bem ou mal, ela não mentia. Não queria tê-lo ao lado, já que isso significava sua morte.
Juan, de olhos apertados e olhar intenso, virou a cabeça um pouco para a direita, como se duvidasse do que ouvia e quisesse examina-la melhor. Aquelas palavras ecoariam eternamente em sua cabeça.
Ele a largou subitamente, virou as costas e saiu batendo a porta. Desceu as escadas e passou como uma flecha por Madeleine e a criada, sem dizer uma palavra. Montou em seu cavalo e disparou pelo meio da rua, quase atropelando as pessoas.
###~~~###
Carlos estava fumando um charuto, exatamente como seu pai fazia. Carmen já havia se recolhido e sua mãe cantava e rodopiava feito louca pela casa.
- Maria! Maria!
A criada chegou esbaforida.
- Pois não senhor!
- Cale-a! Não suporto ouvir sua voz! – ele referia-se a sua mãe.
- Mas senhor...
- Leve-a daqui! Tranque-a no quarto! - A cara horrorizada da criada não o abalou.- Vamos! O que está esperando?
A criada saiu e logo o silêncio chegou. Carlos levantou e servia-se de conhaque. Em sua mente, lembrava-se de Sabrinne...Logo ela seria dele, e só dele!
- Por que não enfrenta alguém do seu tamanho?
O susto que Carlos levou fez com que o cálice de conhaque se espedaçasse no chão de madeira.
Juan estava parado bem na sua frente, dentro de sua casa e ele não teve nem a chance de se proteger.
- O que quer aqui? – a voz de Carlos estava cheia de ódio.
- Quero saber que tipo de sujeira você e sua irmã inventaram agora! – Juan estava estranhamente calmo.
- Do que você está falando? Saia já da minha casa!- Carlos esbravejava.
- Não antes de te escutar!
- Juan?!
Carmen acabara de chegar. Havia acordado com os gritos de seu irmão.
- Volte para seu quarto! – Carlos esbravejou com Carmen.
Juan, esperava impaciente, que os irmãos resolvessem suas quizilas.
Carmen olhou para Juan e esse a olhava friamente, mas não menos sedutor, pois a sedução e Juan eram duas coisas indissolúveis.
Carmen baixou o olhar e saiu. Juan voltou a encarar Carlos.
- O que foi dizer a Sabrinne?
- Por que me acusa?
- Porque só você poderia querer me separar da Sabrinne.
Carlos forçou uma gargalhada.
- Então se separaram?
Juan “voou” sobre Carlos e o segurou pelo colarinho.
- O que inventou?
Carlos tinha os olhos ejetados e as mãos tateavam a superfície da estante em que Juan o pressionava.
- Fala canalha!!! – Juan bradou.
Carlos achou o que procurava. Um estilete usado para abrir cartas.
Carlos segurou a arma com força e golpeou Juan, que num movimento rápido, virou-se e o estilete cortou-lhe o braço. Os dois em posição de confronto e o braço de Juan banhado em sangue.
- Vai me pagar caro pela audácia de invadir minha casa! – Carlos falou com os dentes cerrados e avançou contra Juan.
Juan esquivou-se e Carlos acabou passando por ele sem atingi-lo. Juan virou rapidamente e golpeou-o com um soco na costela. Carlos debateu-se contra as cadeiras. Antes que ele pudesse se levantar, Juan avançou e segurou-o pela camisa.
- Responda! O que disse a ela?
- Largue esse senhor!
Juan virou-se e na porta havia três guardas. Carmen, após ser expulsa do escritório, ordenou que a criada fosse em busca da guarda. Ela temia que Carlos e Juan se matassem.
Juan atirou Carlos ao chão e os guardas o seguraram. Ele olhou para Carlos com todo ódio do mundo.
- Não se alegre muito. Ela me ama e voltaremos a ficar juntos. – os guardas o arrastaram e ele resistiu. – Isso independe de sua vontade.
Os guardas o arrastaram de vez e Carlos gritou.
- Isso é o que veremos!
Quando Juan atravessou a sala, sendo levado pelos guardas, Carmen viu seu braço ensangüentado e correu para perto dele.
- Está sangrando!
A expressão de Juan era séria, mas a preocupação daquela garota o amoleceu. Ela passou a mão pelo seu ferimento e o olhou com aflição.
Os guardas o levaram e Carmen sussurrou para Maria.
- Vá ao porto e avise a seus amigos. Diga-lhes que podem contar comigo para qualquer coisa referente à liberdade de Juan.
A criada saiu rapidamente e Carmen foi ver o irmão.
- O que houve Carlos? O que ele veio fazer aqui?
Carlos ainda ajeitava o cabelo. Apesar de tudo, ele era lindíssimo!
- Veio cobrar-me!
- Cobrar o quê?
- Explicações. Quer saber o que eu disse para que Sabrinne o repudiasse.
- Sabrinne o repudiou? – Os olhos de Carmen brilharam e um sorriso ameaçou aparecer.
- Sim. Graças a mim!
Carmen pulou no pescoço do irmão e o beijou diversas vezes.
- Você é o melhor irmão do mundo!
###~~~###
Maria chegou ao porto e foi em direção à taberna que os marujos costumavam reunir-se. Lá, procurou alguém próximo a Juan e lhes indicaram um homem chamado Bartolomeu.
- O que quer rapariga? – o homem era rude e de aparência asquerosa.
- Vim trazer um recado de minha senhorita.
- E quem é sua senhorita?
- Senhorita Carmen Santiago. Ela manda dizer que o Capitão foi preso, mas que vocês podem contar com ela para liberta-lo.
- Preso?! Por que?
- É só o que estou autorizada a dizer. Se precisarem de qualquer coisa para liberta-lo, podem procurar a senhorita Santiago.
A mulher não esperou resposta...Virou-se e saiu sob olhares gulosos.
###~~~###
O chefe da guarda não permitiu nenhuma visita a Juan naquela noite.
A raiva o consumia e a lembrança de Sabrinne lhe dizendo que não o queria por perto, era bem pior que o ferimento aberto no braço.
Sabrinne passara toda à noite vagando pela casa. A depressão a abatera de vez! Passou toda a noite bebendo e consumiu quase três litros de licor. Agora estava sentada sob a janela, totalmente anestesiada. Se tivesse forças para chegar à cozinha, com certeza faria bom uso de uma faca, mas nem se arrastando, ela conseguiria chegar. Todos já haviam se recolhido e o silêncio era absoluto. Bateu a garrafa de licor diversas vezes no chão, pensando em usar um dos cacos para dar fim à própria vida, mas até nisso não tinha sorte. O imenso e felpudo tapete amortecia as batidas e quando atirou a garrafa contra a parede, os cacos espalharam-se pela sala. Sabrinne se arrastou até o maior deles e tentou vencer a tremedeira, que a embriagues lhe causava, para poder fender os pulsos, mas como não conseguia deter o tremor e tomada de imensa raiva, ela o atirou longe e entregou-se à crise de choro.- “Maldita vida!”, vociferou.
####~~~####
Logo cedo, a criada foi à sala abrir as cortinas e se deparou com Sabrinne estirada no chão.
- Senhorita... Senhorita...
Ela chamava em vão, pois a garota mal respirava. A criada subiu as escadas gritando e Madeleine a deteve.
- O que foi?!
- A senhorita! – dizia com voz desesperada e coberta de choro. – Está morta!
Madeleine desceu as escadas, praticamente pendurada no corrimão, atirou-se ao lado de Sabrinne, a sacudiu e virou-a de barriga para cima. Sabrinne estava inerte! Madeleine encostou seu ouvido ao peito e auscultou ao longe a respiração.
- Graças a Deus! Está viva!
As duas se esforçaram e conseguiram leva-la para cima. Madeleine fez uma garapa bem forte e obrigou-a a beber diversas vezes, aumentando sua taxa de açúcar no sangue, dentro de três horas Sabrinne já estava bem melhor e na parte da tarde ela já estava de pé. Quando sua mãe ameaçou de criticá-la pela bebedeira, ela pediu, por favor, que não dissesse nada.
Tudo o que queria era sumir! Dormir por anos e deixar que o tempo resolvesse seus problemas. O miserável Santiago a obrigara a abandonar seu grande amor, justo agora, que haviam se entendido. Ela amaldiçoava a própria vida.
###~~~###
Os homens de Juan tentaram tira-lo da cadeia, mas de nada adiantou. Como ele foi preso por invasão de propriedade, só quem poderia tira-lo era o próprio acusador, ou mediante um advogado. O pessoal do cais, junto a Zulmira trataram de procurar um bom advogado. Fora permitido apenas que a senhorita Carmen Santiago entrasse na cela para cuidar do ferimento do prisioneiro, mas ela só pôde entrar porque o acusador permitiu. Neste caso, Carlos.
Quando Juan viu Carmen entrar, se surpreendeu.
“O que ela quer aqui?”
A menina entrou timidamente na cela. Juan levantou-se rapidamente. Apesar de tudo, ele ainda era um cavalheiro.
- Como está o braço? – ela perguntou sem coragem de olha-lo nos olhos.
Ele olhou o braço ferido.
- Ainda sangra um pouco, mas já não dói. – Na verdade doía sim, mas ele não admitiria.
Carmen aproximou-se temerosa. Temerosa por pensar que ele poderia virar sua raiva de Carlos para ela e temerosa de fazer algo errado e pôr todo seu plano a perder. Colocou a jarra d’água sobre a mesinha, abriu a bolsa que trazia e de lá tirou panos limpos, tesoura e ungüento.
Juan observava desconfiado, mas percebendo que ela queria cuidar do ferimento, arregaçou a manga. Carmen limpou o corte, que era um pouco fundo, e depois passou ungüento. Enquanto passava o medicamento, ela pôde notar a expressão de dor contida em sua face. Carmen alisava o ungüento e Juan sentiu o carinho que ela tinha com ele, mas também não pôde esquecer que ela havia metido a Malena na casa de Sabrinne e colocado seu brinco no paletó para separa-los.
- Já está bom. Obrigado. – disse secamente.
Carmen rapidamente guardou o material.
- A senhorita pode me fazer um favor?
Ela ergueu a cabeça.
- O que quiser.
- Avise a meus amigos que estou aqui.
Ela sorriu.
- Já o fiz.
Ele sorriu simpaticamente com os lábios e assentiu com a cabeça.
Carmen passou pela grade entreaberta e virou-se.
- Sou irmã de Carlos, mas não concordo nada do que ele faz. E se fiz algumas besteiras na vida...- ela tornou a baixar a cabeça. – Foi por seguir meu coração.
Rapidamente virou-se e saiu.
Juan ficou pensativo. “Talvez ela não seja tão ruim quanto o irmão. Talvez seja apenas impulsiva e infantil.”
###~~###
Sabrinne estava trancada no quarto com as cortinas e janelas fechadas. Madeleine batia a sua porta.
- Sabrinne? Sabrinne?
- O que quer? – sua voz mal saía e ela fazia força para ser ouvida.
- Quero que reajas! Vamos à casa dos Santiago. Falaremos com ele...
- Não vai adiantar...Ele foi bem claro.
- Mas filha...Você precisa comer...
Dessa vez não houve resposta. Dali a mais uma hora, Madeleine retornou.
- Sabrinne, há visita para você.
- Não quero ver ninguém.
- Senhorita...Sou eu, Normando.
Sabrinne tinha vontade de manda-lo embora, mas não teve coragem de ser tão indelicada. Levantou e abriu a porta.
Tanto Madeleine quanto Normando fizeram cara de espanto. Sabrinne estava inchada de tanto chorar, os cabelos desgrenhados e enrolada no lençol.
- Olá Normando. – ela mal abria a boca.
- Podemos conversar?
Ela abriu a porta e deu as costas, voltando para a cama. Normando entrou, mas deixou a porta aberta por respeito.
Ele sentou-se na ponta da cama e ela permaneceu deitada e coberta até o pescoço. Sem encara-lo e com os olhos quase fechados de tanto chorar.
- O que aconteceu amiga? Posso chamá-la de amiga?
Ela fez que sim com a cabeça.
- A Sra. Madeleine me disse que você não estava nada bem e que chorava muito. O que há? Posso ajuda-la?
Ela balançou a cabeça dizendo que não.
- É mal de amor, não é?
Normando era um homem diferente. Ele era sensível e sincero. Sabrinne nunca o viu como homem e sabe que ele também olhava para ela e via apenas uma amiga.
Ela tentou conter o choro que voltava a minar.
Normando segurou sua mão.
- Sabrinne, quero que confie em mim...E para isso, acho que preciso confiar em você também...Vou contar-lhe o porquê da família do meu grande amor não me aceitar. – Ele abaixou a cabeça e criou forças. – Sua família jamais me aceitará...Por que somos do mesmo sexo.
Sabrinne arregalou os olhos. Já ouvira falar nisso, mas jamais tivera contato com um. Como Normando não a olhava nos olhos, não pôde ver a cara de espanto dela e prosseguiu.
- Nos conhecemos há muitos anos e sempre tivemos muito carinho um com o outro. Ainda nem sabíamos o que era amor carnal... Apenas gostávamos de estar juntos. Então nos tocamos pela primeira vez...- Sabrinne o escutava e sentia muita pena. Ele estava sendo sincero e amigo. – A família dele descobriu e fugiu para cá. Vim atrás e descobri que ele está de casamento marcado. Que sorte a minha, não?
Ele levantou o olhar e sentiu o olhar carinhoso de Sabrinne sobre ele.
- Eu sinto muito...
Ele sorriu apenas com os lábios.
- E você amiga? Que mal de amor te consome?
- Acho que o mesmo que o seu. O amar e ser amado e não poder ficar junto.
Em poucas e sofridas palavras, ela contou sua história.
Normando estava emocionado.
- E você não vai fazer nada?
- Fazer o quê? Se conto ao Juan, ele não vai aceitar fugir como um covarde. Se fico com ele, desafiando a fúria de Carlos...Juan certamente será pego pelos Ingleses.
- É amiga...Uma situação difícil...Mas me diga uma coisa...Esse Juan, que comercializa a seda...Como é o sobrenome dele?
- Montejano.
- Montejano?! – os olhos do rapaz arregalaram – O que chamam de capitão?
Sabrinne levantou o tronco um pouco assustada.
- Sim...
- Deus do céu, Sabrinne! Ele está preso!
- Como?!! Preso?! – Sabrinne sentou-se rapidamente.
- Sim! Há rumores por todos os lados, que o capitão Montejano está preso e ferido, parece que invadiu a casa dos Santiago e...
Sabrinne não esperou para escutar o resto. Pulou da cama, agarrou o primeiro vestido que viu e foi para trás do biombo.
- Ei! O que você está fazendo?
- Vou à casa dos Santiago! Não vou permitir que além de tudo o que me fez, ainda mande prender o Juan!
Nem parecia a mesma de minutos antes. Ela estava enérgica e ativa. A raiva servira de estímulo para suas iniciativas.
Num minuto ela estava vestida, penteada e passara um pó de arroz e um batom para não dar o gostinho a Carlos de vê-la abatida.
- Sinto muito Normando, mas não posso esperar. Conversamos outra hora.
- Como assim conversamos outra hora? Eu vou com você!
Sabrinne sorriu notando que agora sim, ela tinha um amigo. Desceram as escadas e quando Madeleine fez menção de chamá-la...Já era tarde.
Mensagem enviada Jul 3, 2002, 1:36 PM do endereço IP 200.177.110.226
_Avery?
Avery levantou-se assustado. Aquela vinha se tornando sua rotina desde que voltara da Cornualha.... onde fora buscar o corpo da irmã. Ia para o escritório logo após o jantar. Nem sequer sentia o tempo passar...
Já era madrugada. Não conseguia se concentrar nos seus afazeres.... não queria ver ninguém... Não conseguia se conformar com a morte de sua irmã.
_Leigh?
Ele ouviu um riso baixo e em seguida, a porta se fechar.
_Já esqueceu até a minha voz, Avery?
_Alexandra?
Alex aproximou-se, saindo da escuridão e ficando ao alcance da luminosidade dos candelabros. O irmão se afastou.
_Que foi? Até parece que está vendo um fantasma, Avery! – gracejou, mas foi ficando séria, ao perceber que seu irmão parecia verdadeiramente chocado.- Avery?
_É você?! – ele passou as mãos pelo rosto, como se ainda não tivesse certeza se estava sonhando ou não. A encarou.... e se aproximou, segurando-a pelos ombros.- Alex!! Você está viva!!! – a puxou para si, abraçando-a com força.
Surpresa com essa reação, ela o abraçou também, sentindo a emoção que tomou conta do irmão.
_Claro que estou, Avery.... – sem entender nada, olhou para ele quando se afastaram. Ele tocou seu rosto com as mãos, e a beijou com ternura, na fronte.
_Graças a Deus! Você está viva! – riu com gosto, a abraçou, erguendo-a do chão e rodopiando pela sala.
_Avery! – ela exclamou, atordoada.- O que está acontecendo?
Ele a colocou no chão.
_Alex... fomos informados pelo governo que você havia sido presa na Cornualha.... e que tinha sido executada, logo em seguida!
_O que? – ela ouviu, chocada.
_Eu fui até lá... e vi o corpo.... parecia você.... – fechou os olhos, e voltou a abraça-la, custando a crer.- Não sabe o desespero que senti.... a dor que venho sentindo desde então.... Mas você está aqui!!! Está aqui!
Atordoados.. foram se sentar no sofá...
Alex não conseguia acreditar no que acabara de ouvir.
_Eu estive na Cornualha... mas logo que saí daqui... Fiquei pouco tempo por lá... – ela passou as mãos pelo rosto, completamente aturdida com o que o irmão lhe contara.
_Confundiram outra mulher com você...
_Uma pobre coitada que teve a infelicidade de se parecer comigo... Pobre infeliz... – ela lamentou.
_Que pesadelo... – Avery suspirou, recostando-se no sofá.
_Posso imaginar o que vocês passaram... eu não sabia de nada disso...
_Onde você estava, afinal?
_Não fiquei num único lugar... mas a maior parte desse tempo, estive em Gales...lá é mais fácil de se passar desapercebido... foi o que descobri... Depois, eu mandei Billy Jay de volta a Londres... para ir procurar o Joshua. Não queria colocá-lo mais em risco. – suspirou, surpresa demais com o rumo que a situação estava tomando. Ou melhor, havia tomado.- Joshua vai cuidar dele, tenho certeza.
Ficaram um momento em silêncio, absorvendo as implicações dos acontecimentos, se recuperando do choque.
_Mas precisamos resolver sua situação agora... Isso não pode ficar assim.
_Resolver? – ela o fitou.- Ela já está resolvida... às custas de uma inocente, infelizmente...mas resolvida.
_Você não pode se passar por morta!
_E o que você quer? Que recomecem as buscas? Acabou, Avery. Com a minha ‘morte’... acabaram-se as perseguições e as represálias contra nossa família. O pesadelo acabou.
_Para nós! E quanto à sua vida? Seus direitos...
Irritada, Alex ficou de pé, afastando-se.
_Que direitos? Avery, eu não acredito que você ainda pensa que tudo o que disseram sobre mim, eram apenas boatos?
_Depois de tudo que Carrington fez para provar sua inocência, é o mínimo que você pode fazer...
Ela o encarou, sentida pelo irmão tocar no nome dele.
_Não posso mudar o passado... acredite-me, hoje... se eu pudesse.... eu mudaria. Mas remexer nele agora.... não vai mudar nada. Pelo contrário... Deixem que pensem que eu enganei David.... para quê reacender essa história... para jogar lama na memória dele? Para que saibam que ele cometeu perjúrio para me poupar? Não.... que fique tudo como está. – ela não ia abrir mão disso.- Eu não vou macular a imagem dele de herói. E nem vou jogar mais lama no nome de minha família.
_Você sabe que ele não admitiria isso..
_Ele morreu por minha culpa! –disse com raiva, sentida. Remorso.... ah, sentimento que estava amargurando cada vez mais. - O preço que eu terei que pagar, não é nada comparado a isso....
_Não foi culpa sua... que idéia é essa?
_Ele teria voltado a navegar... se não fosse por mim?
_Alex... não...
_Isso não importa mais.... – ela deu aquele assunto por encerrado. Não havia nada que a demoveria agora.- Nada mais importa.....
_E a sua vida?
Ela desviou o olhar.
_Não sei... Sinceramente.... não sei, Avery.
_Precisamos pensar, Alex... encontrar uma solução segura para você. A única solução que me parece mais segura... é você ir para a América. Reese poderá ajudá-la a ...
_Não sei se poderei procurá-lo assim....
_Por que não? Ele é o único que....
_Não sei, Avery... deixei muitos inimigos por lá....e talvez, me aproximar de Reese, o coloque em perigo...
_A guerra acabou.
_Os ressentimentos, não.
_Ele vai ficar louco se você não procurá-lo...
Ela suspirou.
_Talvez eu faça isso....mas não diretamente...
_Alex!
_Encontrarei um jeito de me comunicar com ele.... mas não quero colocar em evidência minha presença lá. A guerra acabou, mas muitos dos colaboradores da Inglaterra ainda vivem lá. E se me virem? Se me reconhecerem? Vai começar tudo de novo... deixei muitos inimigos por lá.... mas aqui também. E não sei se eles estarão dispostos a apenas “me exilar”. Foi uma afronta muito grande. E o próprio Príncipe estava querendo minha cabeça no jantar dele.
Avery sabia que ela tinha razão.... até certo ponto.
_Mas, procure por Reese.
_Eu vou fazer isso, não se preocupe....
_Venha.... – pelo menos uma parte do problema estava resolvido. - Vamos dormir... amanhã, pensaremos com calma e encontraremos uma saída.
*********
Dias depois.
_Já está tudo resolvido, Alex... – Avery encontrou a irmã no quarto, sentada numa poltrona perto da janela, oculta no canto. Ela não desviou o olhar para fitá-lo. -.... consegui uma cabine para você num navio francês que está indo para os Estados Unidos... ele vai passar pelo porto de Londres, apenas para carregar... são poucos passageiros...
_O único risco será no embarque... – balançou a cabeça. – Entrar e atravessar o porto sem ser reconhecida.
_Eu a acompanharei.
_Não! Você e eu.... entrando juntos? Facilmente nos reconheceriam.. e mesmo com a minha ‘morte’... isso pode levantar suspeitas. Vou sozinha.... e contar com a sorte.
_A sorte não tem sido muito boa conosco.
_Não? Talvez.... – ela riu, com frieza.- afinal, você está olhando para uma mulher morta, meu caro.
_Não é hora para brincadeiras, Alex.
_Não se preocupe, meu irmão. Não vou desperdiçar essa chance. Vou embarcar... – finalmente, virou-se para ele.- ... e começar uma nova vida na América. No Novo Mundo...- tentou sorrir, mas pensar nisso lhe trazia outras lembranças... um futuro perdido ao lado de David.
Baixou a cabeça, e seu olhar caiu sobre a aliança em seu dedo. Suspirou, retirando-a e o anel.
_Não pense mais nele.
_E como você sugere que eu consiga isso? – retirou o cordão que tinha preso ao pescoço e passou as alianças por ele, voltando a colocá-lo. Segurou a jóia um momento. – Terminou antes de sequer ter começado...
_E o que você sentia por ele.. realmente.?
Ela riu.... um som desprovido de emoção.
_Que diferença faz agora.....para mim...ou para ele...? Acabou... – o olhar perdido num ponto qualquer.... olhando sem realmente ver. Em sua mente, outras imagens. Lembranças.... tudo o que havia restado...lembranças. - Acabou.
********** ********* **********
Mensagem enviada Jun 30, 2002, 5:26 PM do endereço IP 200.151.43.246
Juan estava no Verdeales e revisava alguns papéis quando Zulmira entrou.
- Posso saber por que o senhor não tem mais aparecido em minha casa?
A senhora parecia realmente aborrecida, mas Juan não pôde evitar o riso. Ele puxou uma cadeira e convidou-a a sentar.
Zulmira sentou-se e continuou olhando para Juan de modo sério.
- Então, vai me dizer ou não o que está acontecendo?
- Zulmira, sabe muito bem o quanto gosto de você e te prezo, mas não vais querer concorrer com Sabrinne, vai?
O rosto da velha senhora iluminou-se.
- Tem estado com ela? Por que ela não veio me visitar?
- Ela anda um pouco cansada...- a cara maliciosa de Juan corou a velha senhora.
Ela bateu em Juan com sua bolsa.
- Seu safado! Exijo que me respeite!
Ele riu e Zulmira prosseguiu.
- Estou acompanhando os trabalhos lá na casa da enseada e as coisas estão indo bem. Acho que dentre duas ou três semanas ela esteja pronta.
- Tudo isso?! Combinei com Sabrinne que ela se mudaria em dois dias!
- Juan, você tem ido àquela casa? Há quanto tempo não vai lá?
Ele ficou um pouco sem graça.
- Não sei...Uns doze anos?
Zulmira fez uma cara de repreensão.
- Bem, estou indo. Vê se aparece para saber se estou viva. – disse, fazendo manha.
Juan a abraçou com carinho e acompanhou a antiga ama até o convés.
###~~~###
A tarde estava quente e Sabrinne sentou-se na varanda para ler uma peça de Fausto.
- Que bela imagem!
Sabrinne assustou-se e o livro caiu no chão.
- Perdoe-me bela senhorita...Não quis assusta-la.
O jovem Normando Corrales estava com o rosto por entre as grades e a observava.
Sabrinne sorriu, aliviada do susto.
- Realmente me assustou...O que faz aí?
- Estou revigorando minhas retinas!
Sabrinne se divertia com as lisonjas do nobre artista.
- Por que não entra?
- Por que não me convida?
- Sinta-se convidado.
Ele entrou e foram conversar na sala. Ele lhe contou que é filho de um Barão do sul da Espanha e que veio à Barcelona atrás de um amor, mas esse amor já não o quer. Disse também que a família o sustenta para que se mantenha longe. O consideram uma vergonha por causa da sua veia artística.
Sabrinne o admirava cada vez mais e ele a divertia muito.
- Querida Sabrinne... Posso chamá-la assim?
- Claro. – disse sorrindo.
- Você conhece muitas pessoas, não?
Ela pensou um pouco e respondeu.
- Menos do que imaginas.
- Mas conhece mais que eu.
- Acho que sim.
- O que tem escutado a respeito da rainha?
- Pouca coisa... Sei que a coroa corre perigo, mas também que ela sente-se segura pela cobertura da Itália, e a depender de quem tente tomar o trono, será protegida pela França também.
- Hummm...Está bem mais informada que eu!
Ambos riram.
- Sabrinne...É verdade que você tem um grande amor?
Ela corou levemente.
- Sim...Tenho. Mas, e você? Onde está esse amor?
Sabrinne sempre fora muito reservada e não queria expor sua vida.
- Meu amor está comprometido. Os pais arranjaram-lhe um casamento.
- E por que você não foi o escolhido?
- Porque seus pais não me acham...Adequado.
- Porque é um artista.
Ele pensou um pouco e depois respondeu.
- Não, acho que não. – Sabrinne pôde notar um sorriso disfarçado, como se sentisse vergonha.
Mercedes, a criada, entrou na sala.
- Senhorita, um senhor deseja vê-la e disse que é de muita importância.
- Que senhor?
- O senhor Santiago.
Sabrinne respirou fundo e Normando notou seu semblante cansado.
- Acho que está na hora de’u ir.
Ela sorriu, admirando a sensibilidade do novo amigo.
- Eu te acompanho e vejo o que esse senhor quer.
Saíram e Carlos tremeu ao ver Sabrinne. Ela estava tão linda quando a tarde. Num delicado vestido cor da pele e seus cabelos em um coque frouxo.
Ela despediu-se do amigo e cumprimentou Carlos.
- Boa tarde Carlos.
Normando passou por Carlos e se cumprimentaram cordialmente.
- Como vai Sabrinne?
- Muito bem, e você?
Carlos estava apoiado no portão e fez menção de entrar, mas Sabrinne o deteve apenas com o olhar.
- Eu só quero conversar...
- Não tenho nada contra você Carlos, mas vou me casar com Juan e ele ficará muito aborrecido se...
- Ele não está, está? Que mal há? Só quero me desculpar e conversar com você.
Carlos tinha lindos olhos azuis e um rosto de anjo. Ele jamais fizera nada de ruim com ela ou com Juan, a não ser por tentar corteja-la, mas sempre a respeitou.
- Está certo, mas você será breve, tudo bem?
Ela não tinha muita certeza de que estava fazendo o certo. Se Juan viesse a saber que ela recebera Carlos Santiago...
- Sente-se.- ela lhe ofereceu o sofá.
Carlos sentou-se num sofá e Sabrinne em outro. Ficaram em silêncio, e esse silêncio começava a incomodar Sabrinne.
- Você o ama?- ele perguntou de supetão.
A pergunta assustou um pouco Sabrinne. “Não acredito que ele veio aqui para perguntar isso!!!”, ela pensou. Mas também pensou que seria uma boa oportunidade para esclarecer de uma vez por todas que entre eles jamais haveria algo.
- Se é que quer saber...Amo, amo muito.
Carlos abaixou a cabeça e depois levantou-se e sentou ao lado de Sabrinne. Ela recuou um pouco, mas não pôde fugir.
- Sabrinne, ele não te merece! Olha o tipo de homem que ele é!
- Carlos, por favor...
- Sabrinne, me escute ao menos uma vez! – ele tomou um pouco de ar.- Preciso te dizer tudo o que sinto...
- Carlos, você não precisa passar por isso...
Ele segurou as mãos dela.
- Eu preciso! – ele suspirou profundamente.- Eu nunca me apaixonei por ninguém, nunca me prendi a mulher alguma, mas...Assim que te conheci, naquela maldita confeitaria, minha vida passou a ser um inferno! Eu não durmo direito, não como...- Sabrinne o olhava assustada. Pela primeira vez ela reparava um brilho diferente em seu olhar. Algo muito estranho estava acontecendo com Carlos. – Só penso em você!
Sabrinne sentiu um frio percorrer sua espinha e quando tentou retirar suas mãos das dele, ele a segurou com mais força.
- Sabrinne...O que você quer? Dou-lhe o mundo para que sejas minha!
Sabrinne entendeu que ele não estava nada bem, que ele estava claramente desequilibrado.
- Carlos...Eu não preciso de nada, não quero nada.
- Diga! – ele falou um pouco mais alto, mas logo depois baixou seu tom. – Diga que eu lhe darei...Tudo. Quer uma casa sua? Maior que essa? Eu te dou!
- Carlos...Você não pode comprar o meu amor. – ela falava suavemente, com receio de deixa-lo nervoso.
Ele a olhava sem nem mesmo piscar. Carlos aproximou-se de Sabrinne e ela voltou a recuar.
- Vá embora, por favor.
- Sabrinne... O que ele tem, que eu não tenho?
Ela soltou um risinho nervoso.
- Que bobagem Carlos...Você é um homem encantador! Belo, gentil, educado...Mas, não mandamos no coração. Eu o amo por...
Carlos a calou com um beijo repentino e lançou seu corpo contra o dela, forçando-a a deitar-se. Sabrinne o empurrava e lutava para desvencilhar-se de seus braços, mas ele era forte demais. Finalmente, ela mordeu sua boca e num gesto automático, ele a esbofeteou. Sabrinne gritou e foi parar no chão. Carlos ficou sobre e ela e disse quase num sussurro:
- Te darei uma última chance... Se realmente ama aquele marginal, afaste-se dele. Eu não quero vê-la com ele nunca mais!
A voz do rapaz estava rouca e agressiva. Ele parecia outro. Estava tomado por um ódio assustador, como se houvessem dois Carlos.
- Saia de cima de mim. – ela ordenou por entre os dentes.
Na casa só havia um empregado, que se encontrava capinando o quintal e certamente não ouvira o grito de Sabrinne. Sua mãe e Mercedes haviam saído.
- Já ouviu falar no interesse que os ingleses têm por descobrir quem trafica a seda da Espanha? – os olhos de Sabrinne saltaram. – Tem idéia do quanto eles gostariam de colocar as mãos nesse marginal?
- Você não teria coragem...Juan é muito influente e tem como se sair.
- Se os ingleses estivessem longe, sim. Mas eles estão aqui meu amor...E eu os conheço. Para falar a verdade, eu os trouxe.- agora ele falava com grande sarcasmo.
Sabrinne engoliu seco.
- A coroa não permitiria que os ingleses o levassem.
Carlos gargalhou.
- Ninguém vai querer levar o corpo de um contrabandista! Não precisaremos leva-lo, se é que me entende.
- Carlos, por Deus, deixe o Juan em paz!
Ele segurou no rosto de Sabrinne, obrigando-a a levantar-se e colocando seu rosto bem próximo ao dela.
- Só depende de você. Só precisarei mostrar-lhes quem é Juan e dentro de uma hora ele estará morto!
- Seus ingleses não têm a menor chance! Juan é esperto e saberá se cuidar.
- Você realmente acha que eu darei chance para ele se cuidar?!!! – ele gritou e ela pôde sentir seu hálito contra o rosto.- Ele não poderá fugir. Há navios ingleses no mediterrâneo e bastará uma ordem minha, um tiro de canhão para que afundem um por um os navios dele. E por terra...ele morrerá muito antes de alcançar qualquer estrada. – ele passeou os olhos pelos lábios de Sabrinne e tornou a falar com um misto de ódio e desejo. - Os ingleses estão sedentos pelo nome desse canalha e se não dei até agora, foi por sua causa. Porque a quero.
Sabrinne estava trêmula. Ela sabia que com a confusão que estava na corte, a rainha não daria muita importância para o comércio da seda e que se realmente os ingleses estivessem no mediterrâneo, Juan estaria perdido.
- Se você realmente o ama...Salve-o! Livre-se dele. Não quero vê-lo nunca mais em sua companhia.
- Está bem Carlos...Não o verei mais. – doía-lhe profundamente dizer isso, mas não pensava em cumprir com sua promessa antes de averiguar se tudo o que dizia era verdade.
Ele a olhava desconfiado.
- Não está tentando me enganar, está?
Ela tentava conter a tremedeira.
- Claro que não, Carlos! Acha que brincaria com algo sério assim?
Ele levantou e ajudou-a a levantar-se também.
- Fui bem claro. Afaste-se ou ele aparecerá morto em alguma esquina. Se o ama como diz, saberá o que fazer.
Carlos ajeitou seu terno e foi embora.
Sabrinne estava paralisada no meio da sala. Tremia tanto que não pôde manter-se de pé por muito tempo.
“ Deus! O que farei?”, Sabrinne estava completamente desnorteada.” Me afastar de Juan? Como?”.
Ela correu até o fundo e gritou o criado.
- José! José!
- Pois não senhorinha!
- Corra e siga o rapaz que acabou de sair daqui. Ele é loiro e está usando um terno cinza claro. Rápido! Siga-o e preste atenção a tudo o que vir e ouvir.
O jovem saiu rápido como uma flecha!
Sabrinne voltou a sala e tentou subir a escada, mas estava zonza e perdida. Sentou-se no terceiro degrau e tentou organizar os pensamentos, mas lágrimas inundaram seus olhos. Novamente os Santiago vinham cruzar seu caminho e trazer desgraças!
####~~~###
Madeleine chegou com Mercedes e traziam algumas coisas de sua velha casa, que estavam guardadas na casa de um dos antigos soldados de Manolo. Eram roupas e algumas peças de uso pessoal da senhora. Entraram sorridentes e não notaram Sabrinne na escada. Somente quando ia para seu quarto, Madeleine viu a filha com o olhar perdido.
- Sabrinne? O que houve?
Sabrinne ergueu o olhar e sua expressão era de desolação.
- Os Santiago nos trouxe mais uma desgraça.
Madeleine largou os objetos e sentou-se ao lado da filha.
- Quem esteve aqui? A Carmen?
- Não. O Carlos.
- Ele teve coragem?
- Teve. Certamente mandou que alguém vigiasse Juan antes de vir falar comigo.
- O que ele disse?
Sabrinne ainda estava muito abalada, mas precisava desabafar com alguém.
- Veio me ameaçar.
Sabrinne contou tudo o que havia ocorrido, mas ocultou o tapa que levou. Não queria dar motivo para sua mãe cometer mais um crime.
- Deus do céu! Você não tem saída!
- Não tenho mamãe. Acho que ele planejou tudo para eu ficasse de mãos e pés atados. Se eu contar a Juan, não só tentará fugir, como vai tentar matar o Carlos. Seria como um presente, ver o Carlos morto, mas conseqüentemente, Juan seria preso.
- É verdade...Deus do céu! Você vai terminar tudo com ele novamente! Sabrinne minha filha...Eu não quero nem ver como ele vai reagir!
- Eu não sei como dizer...O que falar...
Madeleine a abraçou e o criado chegou esbaforido.
- Senhorinha! Eu segui o tal senhor.
Sabrinne ergueu a cabeça.
- E então?
- Ele saiu daqui muito desconfiado e foi em direção ao paço, mas duas esquinas antes ele virou e encontrou três homens altos e loiros como ele.
- Você os escutou? Notou algo diferente?
- Eles estavam na entrada de uma taberna e eu passei por eles para entrar na taberna e fiquei atrás da porta para escuta-los.
- E o que diziam? – Sabrinne estava aflita e nervosa.
- Eu não sei não senhora. Eles falavam numa língua estranha, toda embolada.
Sabrinne empalideceu e no mesmo instante desmaiou. Se Madeleine não a segurasse, teria rolado três degraus.
Mensagem enviada Jun 29, 2002, 3:57 PM do endereço IP 200.177.110.226
Este texto tomou forma definitiva depois que li,há muitos anos, mais ou menos.... 1990, um livro chamado Samara, pelo qual me apaixonei. Samara e Reese, eram os personagens principais desse livro... Brendan, era o irmão mais velho dela,que teve um papel primordial no encontro dos dois.
No entanto, ele teve um final tão sem graça, que achei muito injusto.
Tinha um esboço dessa minha heroína, mas não conseguia achar o seu par.... até ler esse livro. Ele tinha um papel secundário no livro, então... eu o promovi a protagonista. E o apresentei à Alexandra Hampton.... a Senhora dos Mares....
Minha paixão por história realmente se mostra aqui... Espero que seja uma boa distração.... para mim é!
E antes de terminar meu discurso.. queria muito agradecer a minha querida amiga Maria.... que foi a grande culpada disso... e também à Val...ânimo como essa garota tem.... só ela mesma....
Obrigada, Val...
Obrigada, Maria....!!!
Qualquer reclamação... por favor, a culpa é delas!
Giu.
Mensagem enviada Jun 10, 2002, 3:08 AM do endereço IP 200.151.58.78
É... a estória tomou outro rumo...não era mesmo o destino do Brendan ter o papel principal!
Tudo foi mudando de rumo e quando ví.... não dava mais para voltar à idéia original!
Agradeço por todas as dicas... idéias... enfim, às colaborações recebidas durante o decorrer da estória!
Beijos....
Giu.
Mensagem enviada Jun 26, 2002, 11:21 PM do endereço IP 200.151.49.150
Brendan não conseguiu ter nenhuma reação ao ver Alex fugindo. Por dezenas de razões.... surpresa por reencontrá-la de forma tão.... abrupta e inesperada..... Mágoa.... por ela tê-lo enganado..... mentido.... Raiva! Decepção...... e desespero, por perceber que apesar de tudo isso.... continuava amando-a tanto quanto antes!
Ela estava bem... fechou os olhos, sentindo o coração doer...e se regozijar ao mesmo tempo. Estava viva.
Alex tinha desaparecido, e Avery bem sabia o motivo. A razão estava parada à sua frente, e era um homem de porte impressionante. O irmão de Samara lhe causou, logo que o viu, uma boa impressão.
Via-se claramente no olhar dele, a mágoa que carregava contra sua irmã, e Avery não podia, de certa forma, lhe tirar a razão.
Quando chegara em casa e vira a jovem grávida parada em sua sala, ao lado dele, ficou surpreso..... mas logo, ele e Leigh, trataram de deixá-los à vontade e cientes de que eram muito bem vindos a Lyndonwood.
Reese e Samara acabaram se desencontrando no mar..... enquanto ele ia para a América, ela vinha para a Inglaterra. Ela queria logo tomar o navio e voltar, mas Avery a desaconselhou. Primeiro, se fizesse isso.. devido ao adiantado da gravidez, acabaria tendo o filho no mar, e segundo, Reese, assim que soubesse que ela tinha vindo, voltaria na mesma hora. Então, era melhor esperá-lo ali mesmo.
Ele ofereceu a mesma hospitalidade a Brendan.... e ficou óbvio o desconforto dele.... por causa de Alex, claro.
Mas, se Avery conhecia bem a irmã, Alex não ia voltar para casa. Tinha que mandar alguns criados irem procurá-la, mas ela se recusaria a voltar, então, o mais provável que faria, era correr para Londres e ir para a casa deles lá. Onde esperaria a volta de Carrington.
Carrington..... outro problema seria a reação dele ao descobrir que a cunhada deles..... era irmã do antigo amor da esposa.
Antigo..... ? Então, por quê ela fugiu?
Ah, o que a vida ainda reservaria para sua voluntariosa e rebelde irmã!?
_E ... quanto a Alex? – Samara indagou, depois do jantar, quando se reuniram para conversar. Olhou de soslaio para o irmão, e percebeu o quanto ele estava tenso.
_Se a conheço bem, não deve se preocupar. Ela estará bem, apesar do estado em que se encontra... – Avery respondeu.
_Estado?
_Alexandra.... não se recuperou totalmente dos ferimentos que sofreu... – percebeu que Brendan tinha a atenção voltada para ele agora.-.... Embora estejam cicatrizados...ficaram seqüelas que só o tempo, poderá curar. – ficou claro que ele não se referia apenas aos ferimentos do corpo.- Por isso estava aqui conosco.... para que não cometesse abusos. Ela não é muito... passiva.
Leigh até sorriu, apesar do clima tenso.
_Isso é verdade. Ela mal consegue ocultar o quanto está ansiosa para partir..... mas, como não vai mais voltar ao mar....
_Não? – Brendan não se conteve.
_Não... – Avery cruzou as pernas, o olhar atento no americano. – A Companhia perdeu todas as embarcações.... só restou a corveta que Reese usou para ir procurá-la, Samara....
_O Persepholes ainda poderá ser recuperado em negociações... – Brendan disse, contrito.
_Depois de tudo o que houve... acho que ela não se sente mais digna de comandar algum navio.
_Por causa das represálias? Sofreu alguma?
_Não, mas apenas porque o marido dela é um homem muito influente. Carrington conseguiu evitar que certos...atos.. de minha irmã, se tornassem de conhecimento público. A salvou das acusações, e por conseqüência, sua tripulação. O que Alex mais prezava!
_Ah, o marido...
_Sim. O marido de Alexandra é um homem muito importante... Ele está comandando o Phoenix... que foi a única fragata que restou.... – Avery fitou Brendan com um olhar grave.- Eles finalmente estão se entendendo... David deu a Alex, algo que nem ela mesma sabia que precisava tanto.... segurança. – Brendan desviou o olhar.- E quando ele voltar... tenho certeza de que poderão ser realmente felizes.
Leigh acompanhou Samara até o quarto e Avery voltou-se para Brendan.
_Acho que nós dois gostaríamos de um conhaque. Concorda, capitão?
Semanas depois, após o nascimento do filho, Reese chegou. Foram momentos muito felizes para os Hampton... as desavenças e mal entendidos entre eles resolvidos. E finalmente, a partida.
Apesar da separação, não foi uma despedida triste. Reese recomeçaria numa nova vida na América, ao lado de Samara e do filho.
_E Alexandra, Avery? – Reese perguntou, quando se despedia do irmão. Leigh, Samara e Brendan estavam no pátio, perto da carruagem.
_Você sabe que ela não virá, Reese.
_Nem mesmo para se despedir?
_Você a conhece...
_Não tão bem quanto pensam... – a voz suave veio do hall... Os dois se voltaram e viram a irmã se aproximando.
_Alex...
_Não sei quanto tempo se passará até nos vermos novamente, irmão.
Se abraçaram, com força.
_E você não tem idéia do quanto é importante para mim você ter vindo, Alex.
_Te desejo toda a sorte e felicidade do mundo, Reese. – ele a beijou com carinho, no rosto.- Te amo muito, muito. – o abraçou com força.
_Eu também te amo, minha irmã! Espero que você também seja muito feliz.
_Seremos, Reese. Não há nada que os Hampton não consigam! – sorriu. E o beijou. – Adeus, Reese.
_Vai se despedir de Samara?
_Não me peça isso...
_Você tem certeza de que é isso mesmo que você quer?
Fitaram-se, de mãos dadas.
_Sei o que eu não quero, Reese... E eu não quero perder o David. Não sei o que sinto por ele, não tem nada a ver com o que eu sentia por Brendan... ou com o que já senti antes... mas sei que quero descobrir! E não quero perdê-lo. Não quero, Reese!
_Que tudo dê certo para vocês, Alexandra! – a abraçou novamente, e beijou-a de leve na testa. - Adeus, Alex.
Ela sorriu.
_Até breve, irmão!
_Eu acompanho você até a carruagem. – Avery disse, saindo com o irmão.
Reese olhou mais uma vez para a irmã e saiu.
Alex inspirou profundamente, encostando-se na parede do hall. Ouviu as despedidas deles.... a voz de Brendan.
_Adeus, Brendan!
Meses depois....
Dois cavaleiros entraram a toda velocidade pela alameda que levava à residência dos Hampton, atraindo a atenção de todos. Desmontaram depressa e foram logo pedindo para falar com lady Carrington.
O mordomo nem precisou chamá-la, pois o movimento no pátio já era suficiente para alertá-los.
_Sra. Carrington.... graças a Deus que está aqui! – Norton exclamou, quase sem fôlego.
_Norton! Billy Jay???? – ela e Avery estavam descendo as escadas e os encontraram no hall.
_O que está havendo aqui?? – Avery quis saber.
_Capitão Reese......??? – Billy indagou.
_É Avery... meu irmão. Mas, o que houve, sr. Norton? Por que esse tumulto?
Norton tirou o chapéu, tentando recuperar o fôlego.
_Senhora.... tem que deixar a Inglaterra com urgência!
_Do que está falando?
_Chegaram notícias... do Phoenix, há uns dois dias....
_Lorde Carrington já chegou??? Por que não....
_Não, senhora. As noticias chegaram através do Plymouth, um navio de carga... encontraram os destroços do Phoenix em alto mar...... – ele falou de uma vez, pois não havia outra forma de dar uma notícia dessas.
_Destroços? – ela repetiu, sem entender.- Como....
_O Phoenix foi atacado?
_Não, milorde.... Segundo o Plymouth, eles foram pegos de surpresa por uma tempestade em alto-mar.... ao que parece, o Phoenix não resistiu.... e...
_E David? – Alex quis saber, sentindo-se estranha. Não.. aquilo não podia ter acontecido. Simplesmente, não podia. Era impossível!
_Sem sobreviventes, senhora. – disse, com pesar.
Alex sentiu como se tivesse perdido todo ar que havia nos pulmões.... inspirou profundamente, mas parecia que não era suficiente. Levou a mão até o corrimão da escada, apoiando-se, ou cairia. Naufrágio? Agora? A guerra tinha acabado.... isso não podia acontecer...
_Como foi isso..... tem certeza, Norton?
_Absoluta, milorde..... infelizmente. Mas não é só isso...
_E o que mais? – olhou para a irmã, que parecia estranhamente calma. Seu rosto não demonstrava nada.. nem choque.. nem dor....nada.
_Foi só a notícia chegar.... e os irmãos de lorde Carrington começaram a ... espalhar boatos...
_Boatos?
_Sobre a sra. Carrington e os eventos ocorridos durante a guerra.....
Ela e Avery trocaram olhares.
_A troco de quê? – ela indagou, apreensiva, suas emoções pareciam anestesiadas. Sentia-se calma... mas, no fundo, ela sabia que era só aparência... a dor estava lá... crescendo, se espalhando...
_Por causa da herança.... milady, eles não vão permitir que a senhora herde o que lhe é de direito.... Vão reacender os boatos.....
_Que não são boatos, sr. Norton. – “Não pense, não pense...”, ordenava a si mesma.
_White Hall já sabe... decretaram hoje, a sua prisão.
_Eles não podem fazer isso! – Avery disse, ultrajado.
Alex riu, procurando forças para manter sua lucidez, seu controle.... ou não resistiria.
_Não? Por que não? É a mais pura verdade....
_Alex?
_E eu não tenho interesse nenhum na herança de David.. podem ficar com cada centavo.
_Mas a senhora continuaria com o título.... e eles não aceitam isso, milady.
_Com mil demônios! Quem eles pensam que são!?
_Não adianta esbravejar, Avery...... eu sabia que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde... e se não aconteceu antes, foi apenas por causa da presença de David....
_Não vou permitir que prendam você. Vou até Londres e exigirei que...
_Não. Você não vai se envolver nisso! – tentava a custo pensar com clareza.
_Você é minha irmã.
_Uma irmã que cometeu traição.
_Alex! – exclamou chocado! – Eu jamais a abandonaria...
_E eu jamais permitiria que você sofresse as conseqüências dos meus atos! – virou-se para Norton.- Sr. Norton, quero que vá para Londres imediatamente, e mantenha meu irmão informado de tudo que estiver acontecendo por lá.
_Mas e a senhora?
_O senhor me prestou um grande favor, sr. Norton. Jamais esquecerei isso!
_Não me deve nada, milady.
_Vá, senhor Norton.
_Sim, milady.
Esperou ele sair e virou-se para Billy Jay.
_Vá até o estábulo... mande selar um cavalo e prepare tudo para uma longa viagem, Billy Jay!
_Dois! Eu vou com a senhora onde a senhora for! - e antes que ela negasse, já foi falando. – Eu vou, capitão. Onde a senhora for.....eu vou.
Ela quase sorriu.
_Dois cavalos, Billy Jay! Rápido.
Enquanto o menino ia correndo providenciar, ela voltou para seu quarto, com Avery atrás.
_O que você pretende? Para onde vai? – ele estava angustiado.
_Avery... quanto menos souber de mim..... mais seguro será para você....
_Eu não vou permitir que você se arrisque dessa forma.....
_E pretende arriscar a segurança de sua família? Pense bem, Avery! – parou no corredor e o encarou.- Traição, Avery. Traição! – repetiu, tentando fazer com que ele percebesse os riscos da situação.- Você tem família... Você é o décimo conde de Lyndonwood.... quer arrastar o nome da família para a lama, comigo? Não. Não vai fazer isso porque eu te proíbo!
_Eu tenho que tentar ajudá-la.....
_Pense, Avery.... o que você poderia fazer a mais do que Carrington fez? – sentiu um frio enregelante tomar conta de seus sentidos.... não podia pensar em David agora... não podia... ou iria fraquejar.....depois....depois haveria tempo... - Agora... não há mais nada a fazer.... eu não tenho razão nenhuma para ficar aqui.... David está morto! Morto.... – os olhos dela brilharam pelas lágrimas.-... e eu não vou arrastar você junto comigo. Não.
_E para onde você vai?
_Não sei..... mas vou ter que sair da Inglaterra.... de alguma forma.....
_Eu posso ajudá-la...
_Com algum dinheiro eu aceitaria..... – tentou sorrir.- Mas não tente fazer nada quanto às acusações, Avery.... se você mover um dedo nessa história.... vai ser envolvido.... e de nada vai adiantar....
_Alex...
Ela suspirou e o abraçou.
_Aconteceu..... só que eu não estou disposta a ir para forca, Avery... – afastou-se um pouco e deram-se as mãos. Avery apertou-as com força.-... e não vou!
_Não a Senhora dos Mares.....
_Não. Nunca...... – abraçaram-se mais uma vez.
_Vou providenciar tudo o que vocês vão precisar para a viagem.
_Obrigada, Avery.
Ele saiu sem olhar para trás. Alex foi correndo para seu quarto, separar algumas roupas para a partida. Abriu o baú onde guardava suas roupas de bordo.... afinal, não foi inútil tê-las mantido. Tirou as pistolas.
Avery chegou trazendo algumas roupas dele próprio.
_É mais seguro dois rapazes viajarem pelas estradas, não acha?
********** ********** **********
Final de 1815
Samara observou o semblante de Reese empalidecer completamente à medida que lia a carta que acabara de chegar do irmão.
_Reese? – ficou alarmada ao vê-lo amassar o papel, enquanto os olhos verdes marejavam-se.
_Alex.... – ele murmurou.
_O que foi?
Ele ficou em silêncio... tentando acalmar as batidas descontroladas do coração.
_Ela... foi presa! – disse, com a voz embargada de emoção.
_Não! – Samara levou as mãos ao rosto, preocupada.
Reese levantou-se abruptamente, jogando a carta amassada no chão. Saiu da sala, sem sequer olhar para trás. Samara jamais o vira nesse estado... estava...desesperado.
Samara pegou o papel e o desamassou.
_Oh, meu Deus...... – murmurou, chocada.
“... ela foi reconhecida por oficiais, na Cornualha... a prisão foi imediata e nem sequer houve julgamento.
A execução ocorreu poucas horas depois.... Alex está morta, Reese....”
********** ********** **********
Samara desceu da carruagem e atravessou depressa o porto, indo para o prédio onde funcionava o escritório da Companhia de Navegação O’Neill.
_Sra. Hampton.... é um prazer revê-la. – um dos funcionários a cumprimentou. Samara retribuiu brevemente.
_Brendan está lá em cima?
_Sim, senhora... vou avisar que...
_Não precisa.... – o dispensou e subiu a escada.
A porta do escritório onde Brendan trabalhava estava entreaberta e ela entrou. Ao ouvir o som da porta se fechando, ele ergueu a cabeça e sorriu ao ver a irmã.
_Samara! Que surpresa! Não sabia que estava em Charleston!
Samara abraçou o irmão.
_Acabei de chegar.... – fechou os olhos por um momento, angustiada com a notícia que teria de dar.
_E por que não me avisou antes? Reese também veio com você?
_Não...
_Não?
_Reese foi para a Inglaterra, há três dias. – disse num tom de voz sentido. – Brendan...
_Samara, se você veio até aqui para me falar de Ann... Alexandra.. – corrigiu-se, colocando-se na defensiva.- Eu já deixei claro que não quero saber. Ela é sua cunhada, mas isso....
_Brendan, me ouça... – ela o interrompeu, falando mais alto, a voz trêmula e os olhos já marejados.
Ele se calou e ficou preocupado ao ver o estado da irmã.
_Alex... – tentou encontrar as palavras, mas não havia outra forma de dizer a ele. - Alex foi presa, Brendan.
Brendan continuou fitando-a, o corpo ficando tenso.
_O quê? Carrington não...
_O marido de Alex morreu há três meses.... num naufrágio....
_Então ela....
_Ela... – Samara já não controlava as lágrimas.- Ela ... foi morta, Brendan. Alex está morta...
Brendan ouviu claramente as palavras... mas o sentido delas... por um instante, não penetrou em sua mente.
Morta!
A palavra finalmente rasgou o torpor em que estava. Desviou o olhar.... virou-se de costas, indo até a janela que dava para o mar.... olhava sem ver...
Morta!
_Não pode ser... – murmurou para si mesmo... o ar lhe faltando, tendo que inspirar com mais força. – Ela não...
_Avery mandou uma carta... ele disse que nem houve tempo para agirem... ela foi...foi executada... – Samara cobriu o rosto com as mãos, desconsolada.-... pouco depois da prisão...
Ele fechou os olhos com força quando visualizou a cena que as palavras invocaram.
“... quando eu morrer.... que seja no mar....”
Levou as mãos à cabeça... foram as palavras dela quando se despediram pela última vez, na cada de seus pais....
Bateu os punhos fechados contra o batente da janela... lágrimas escapando dos olhos cerrados... A última lembrança dela..... quando se encontraram em Lyndonwood... seu olhar.... ela, fugindo....
_Oh, meu Deus, não...
Se ele tivesse ido atrás dela como seu coração ordenava..... se ele tivesse mandado o orgulho para o inferno..... ela estaria viva.... viva e com ele.
Se ele tivesse....
_Brendan...
Samara se aproximou, ao ver o irmão tão quieto...
_Me deixe sozinho, Samara. – disse num tom seco.
_Você não...
_Saia daqui, Samara.
Ele tinha todos os músculos do corpo tensos, controlando a custo a dor que parecia se alastrar por cada parte...
Samara ainda hesitou, mas sabia que nada podia fazer pelo irmão. Nada...
Quando ouviu a porta se fechar novamente, Brendan afastou-se da janela, voltando a se sentar na poltrona que ocupava a pouco. Apoiou as mãos cruzadas sobre a mesa.
“... você chegou tarde demais na minha vida, Brendan....”
_Annie..... Annie.... – não suportando mais, ele cobriu o rosto com as mãos, e deu vazão à dor....
Morta!
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Mensagem enviada Jun 26, 2002, 11:16 PM do endereço IP 200.151.49.150
_Reese voltou há meses para casa e até hoje não apareceu aqui.... – Avery comentou certa manhã, enquanto tomavam o desjejum.
Alex pousou a xícara sobre o pires.
_E a razão sou eu, não é?!
_Não acredito.... Você conseguiu a liberação da tripulação dele, lembre-se.
_Não tem nada a ver uma coisa com a outra.... – ela desistiu de comer.
_Lembre-se do que Samara nos disse na carta. Provavelmente ele está amargurado por causa do que ela fez....está se sentindo traído... ferido.... quando isso passar, eu lhe entregarei a carta.... e talvez aquele orgulhoso haja com bom senso e vá procurá-la. Ele a ama, você sabe.... Sente-se... – fez sinal para ela quando ficou de pé, inquieta - Ele vai acabar entendendo que Samara não podia deixar seu país... sua família.. daquela forma. .- A guerra está acabada. Agora é só uma questão de se cumprir algumas formalidades entre nossos países e ...
_Não agüento mais ficar presa aqui... – Alex disse, de repente. Percebeu o olhar magoado da cunhada.- Desculpe, Leigh.... não é nada com você ou as crianças... mas.....
_Ter se casado com Carrington não vai facilitar sua volta ao mar.
_E quem disse que quero voltar ao mar? Nunca mais vou por os pés num navio.... – embora a voz soasse convincente, o olhar triste desmentia as palavras.
_E vai fugir e se esconder do mundo como se fosse uma menininha covarde?! – os três viraram-se para a entrada da sala de jantar. Reese entrava e olhava .... no mínimo, furioso, para a irmã. – Covardia, Alexandra? Agora?
_Reese? Quando chegou? – Avery indagou.
_Há pouco... Então, Alexandra...... foi nisso que se transformou? Para que tanta luta e sacrifícios?
Ela não respondeu. Cerrou os maxilares, controlando a raiva.
_Pare, Reese. – Avery avisou.
_Parar? Para quê? Ver minha irmã se tornar uma derrotada? Quando foi que isso aconteceu, Alex?
_Quando eu afundei um navio de meu próprio país. – respondeu no mesmo tom, perdendo o controle.- Quando eu entreguei dois de nossos contatos aos americanos... ou talvez, tenha sido quando eu libertei um prisioneiro de guerra! Você pode escolher, Reese..... nenhuma dessas foram faltas leves!
Virou-se para se afastar, mas ele a deteve. Segurou seu pulso esquerdo e ela sentiu a dor partir da cicatriz ainda recente.
_Mas você não traiu a si mesma. – ela não se voltou.- De que adianta lutar por uma causa em que não acredita? Ser leal sem ter fé! Você manteve sua lealdade, sua honra.... em seus princípios. E agora vai jogar tudo por terra.. se deixando derrotar e assumindo um papel que você nem sequer consegue representar direito?
_Há! – ela escarneceu e o fitou. - Que galante, meu irmão! Não precisa me dizer o que eu sempre soube. Eu não sou nem nunca fui uma dama...
_Não é disso que estou falando e você sabe! Estou falando de estar definhando.... de morte em vida........ estou falando de abandonar sua vida para viver uma encenação!
_E eu estou falando de honra! De lealdade e gratidão! Coisas que você conhece muito bem caso contrário não teria permitido que o “Samara” saísse ileso das Bermudas!
_Não é a mesma coisa.
_Não? Por que?
_Porque não sou eu quem está morrendo por ficar longe do mar.
_Tem razão. Você é um exemplo a ser seguido. Que eu saiba...... Samara não está na Inglaterra! O que está fazendo aqui, irmão..... ? Se afundando em jogos e na boemia!? Noitadas que terminam em ressacas fenomenais..... eu estou fugindo da vida? – puxou o braço. - E você? Está correndo para ela? Eu devo muito a Carrington, sim. Mas mais do que gratidão... há outros sentimentos envolvidos....
_Amor?
_Não sei..... – respondeu com franqueza.-.... mas sei que ele é a minha única salvação. Foi graças a ele que me mantive viva..... e sã. Ele fez por mim..... mais do que jamais imaginei que alguém pudesse fazer.... alguém com tantos padrões de honra e patriotismo. Ele me colocou acima da Inglaterra... e eu não posso fazer menos do que ser a mulher que ele deseja.
_Virando as costas para o homem que você ama.
_Amá-lo não foi o suficiente... – as palavras de Reese a atingiam como golpes. Raramente eles discutiam. Mas quando isso acontecia.... eles sabiam muito bem como ferir um ao outro.- David me aceitou.... e não precisou haver perdão... ou explicações entre nós..... E Brendan ....
_Você nem sequer deu uma chance a ele!
_Você deu alguma a Samara? – rebateu de imediato.
_Ela me traiu... me abandonou.
_Mas ela não traiu a si mesma.... – riu, escarnecendo dele.- Não foi exatamente isso que me cobrou agora há pouco? Que eu não devia sentir... culpa ou remorso.... porque eu não traí a mim mesma.... não traí minha consciência...... Ela não fez o mesmo? Dois pesos e duas medidas, Reese? – fitaram-se, feridos.- Como você é hipócrita...... Por que não pode aceitar as ações dela e aceita as minhas? Por que não pode aceitar o senso de lealdade que ela tem..... e pode aceitar a falta do meu......? Porque é o seu maldito orgulho que está ferido, Reese. Porque a pequena americana derrubou o grande capitão Hampton! – disse, com deboche.- Ela o abandonou e isso feriu seu orgulho! – o fitou, magoada.- Não venha me dar lições, Reese...... Não diga o que eu devo fazer da minha vida.... se nem você sabe o que fazer da sua.
Virou-se, saindo depressa da sala e um silêncio pesado caiu sobre eles.
Avery voltou a se sentar e fez um sinal para que Leigh os deixassem a sós.
Reese estava... estático.
_Brigar com Alex nunca foi boa política.... – Avery disse, e Reese puxou uma cadeira.
_E ela vai direto ao ponto... – suspirou.- Foi o que eu fiz? O que ela disse....
_Refere-se ao seu maldito orgulho ferido?! Ou ao fato de compreender Alex, mas não a Samara? Ou talvez, por se achar no direito de intervir na vida dela.... ou....
_Está bem, Avery....- ergueu a mão num gesto de rendição.- Ela estava certa e eu, errado.
_Houve um empate... você também tocou na ferida dela... Em questão de orgulho desmedido.... vocês sempre foram os campeões.... mas no caso de Alex.... não é tão simples...
_Ah, e no meu, sim?
_Sim.... no seu caso, caro irmão... é uma questão de saber ouvir... e acho que chegou o momento de conversarmos.
Avery e Reese tiveram mesmo uma longa conversa. Ele entregou a Reese a carta que Samara lhe enviara, confiando-lhe que Avery saberia o momento certo de entregar a ele. E de fato, apesar da cara de poucos amigos do irmão, entregou-lhe. Reese resistiu, mas pediu para ficar sozinho e leu a carta de Samara.
O orgulho dele era enorme..... mas não maior que o amor que sentia por aquela americana espiritada e rebelde!
Graças aos bons investimentos que Avery fazia com o dinheiro enviado pelos irmãos, nenhum deles ficou na miséria depois da falência da empresa. Com isso, Reese pôde reformar a corveta que havia restado da frota e partiu para a América. Para Samara.
Maio de 1815
_Espero que tudo se acerte para ele... – Alex disse, algumas semanas depois do irmão ter partido.
_Com certeza. Você fez um bom trabalho fazendo-o cair em si.
Alex riu.
_Somos únicos, não?
_Os Incríveis Hampton! – Avery disse com pompa e ambos riram.
Caminhavam lentamente, de braços dados, pelo jardim da propriedade.
_O que ele vai fazer? Agora que a guerra parece ter realmente chegado ao fim...
_Você sabe que ele está casado com Samara.... segundo me disse, pretende comprar terras na Virginia...
_Reese? Um proprietário de terras...? – olhou para Avery.- Isso é possível?
_Por que não? Você sabe que ele sempre gostou muito de cavalos..... acho que pretende iniciar uma criação....
Ela balançou a cabeça, incrédula.
_Não consigo visualizá-lo como um pacato fazendeiro americano!
_E consegue se ver como uma pacata esposa de um lorde?!
Ela suspirou.
_Touché, meu irmão! Você também desfere alguns golpes letais.....
_Não estou criticando sua decisão.... só que.... você não está feliz.....
_Como pode dizer isso?
_Porque sou seu irmão e não adianta usar essa expressão ingênua nesses belos olhos, que eu a conheço muito bem.
_Não era você quem sempre me passava sermões sobre me assentar... Ter uma vida mais tranqüila... segura..... normal....?
_Era.... – suspirou.- Até ver o quanto isso minava sua alegria... você não é mais a mesma.
_E provavelmente, jamais voltarei a ser. Mas posso tentar ser feliz com David... Quantas vezes você não me disse que não devia nunca lamentar o passado? Não estou.... Vou continuar vivendo... de outra forma, mas vivendo. E há algo entre nós.... que eu não sei bem como definir...mas que me faz querer tentar....
_Amor? Você o ama, Alex?
Ela suspirou.
_Não sei... não sei que nome dar ao que sinto por ele.... nem sei se quero dar um nome..... só sei que quero que ele volte.... agora eu preciso dele na minha vida... de uma forma que jamais poderia ter imaginado. – confessou.
O som de uma carruagem atraiu a atenção deles para a alameda.
_Está esperando alguém?
_Não....
_David? – Alex viu os cavalos irem na direção da casa.- já terá voltado? Deve ser ele....
_Ele teria avisado, não?
Alex sorriu.
_Provavelmente quis fazer uma surpresa.... – olhou para o irmão.- Eu fui muito feliz navegando, Avery. Não vou negar também, que sinto falta do mar....do meu navio.. do Perse..... mas também sei, que tudo tem um fim... que talvez, eu e Brendan.... não era para ter sido..... Amá-lo foi a emoção mais forte que eu senti na vida.... tão forte quanto meu amor pelo mar.... Mas não deu certo... por que motivo tenha sido... não deu. Mas não posso parar de viver por isso e nem descartar a possibilidade de ser feliz com David... Posso não amá-lo como amei Brendan.....mas não acho que o amor tenha apenas uma forma.... e uma medida.....
_Então, se está decidida..... – segurou as mãos dela. – Desejo que seja feliz, Alex. E eu estarei sempre a seu lado.
_É o que eu mais desejo.... Eu te amo!
_Eu também, irmãzinha. Eu também.
Ela riu quando ele a ergueu do chão no abraço.
_Agora..... deixe-me ir..... Se é para começar uma nova vida.... que seja com toda a energia que tenho. David terá que se esforçar muito para me acompanhar! – beijou-o na face e saiu correndo.
Avery riu, feliz com isso. Por vê-la reagindo...
Alex correu por entre os canteiros, cortando caminho para chegar antes da carruagem. Leigh teria um ataque se a visse atravessando seus canteiros simetricamente organizados. Riu, sentindo pela primeira vez, a antiga vontade de viver. A energia que sempre a levara a superar todos seus obstáculos. A não desistir.
Nem tudo estava perdido, afinal...
Aquele tempo passado em Lyndonwood tinha restituído suas energias, e quando chegou ao pátio, estava apenas um pouco sem fôlego. Logo estaria totalmente restabelecida. Um dos criados aproximou-se para abrir a porta da carruagem.
Parou e ajeitou um pouco o vestido e passou os dedos pelos cabelos totalmente soltos. Estava corada... tanto por causa da corrida como pela emoção que fazia seu coração se aquecer. Esperança.... era bom tê-la de volta.
Aproximou-se sorrindo e viu o criado estender a mão e ajudar alguém a descer. Isso a fez diminuir os passos. Estava perto da carruagem.
Que estranho.... então, não devia ser David.....
E não era mesmo.....
Estacou ao reconhecer a mulher baixinha e morena que desceu da carruagem. Estava um pouco pálida, com uma expressão até mesmo, assustada e olhava com deslumbramento a residência......
Samara!!!!! Alex a mediu de alto a baixo......Ela...ela estava grávida.....
Confusa, Alex não entendia como ela havia chegado até a Inglaterra sozinha... e naquele estado....
Mas ela não viera sozinha. Um homem desceu em seguida e pediu que o cocheiro esperasse um momento antes de partir. O criado da família, fechou a porta da carruagem.
Alex levou a mão ao peito.... seu coração havia falhado uma batida, para depois disparar feito louco. Até o ar lhe faltou por completo......
“Brendan....”
A visão começou a ficar turva, pelas lágrimas repentinas.
Tinha que se afastar antes que ele a visse, mas não houve tempo.
Brendan não tinha certeza de como seriam recebidos quando chegassem ali, por isso pediu ao cocheiro que os aguardasse um pouco mais. Observou a irmã olhar espantada para a ‘casa’ da família de Reese. Na verdade, mais se assemelhava a um palácio... um lugar magnífico, realmente.
Então, sem mais nem menos, ele olhou a seu lado esquerdo, quase como se algo o impelisse a isso. Virou-se devagar .... e a viu.
Lá estava ela..... linda, radiante com o sol lançando seus raios sobre ela, criando uma aura dourada a seu redor... Ela estava até mais bonita. A última lembrança que tinha dela não fora nada agradável.... inconsciente e se esvaindo em sangue.
_Vamos, Brendan.... – Samara o chamou, mas também se calou ao ver a razão do silêncio do irmão. Avistou Alex.
_Senhora... Carrington! – ele a cumprimentou, com uma voz e um olhar tão frio, que surpreendeu até ele mesmo.
Viu quando ela arfou, como se tivesse levado um golpe físico. Deu um passo atrás... depois outro.... e saiu correndo.
Alex não podia..... não conseguia parar de correr.... Corria como se o mundo estivesse desabando às suas costas.... que era exatamente a sensação que tinha. As lágrimas turvavam sua visão, mas ela não parava... não podia parar... porque se o fizesse..... nunca mais se levantaria...
A forma como Brendan a fitou.... a raiva e a mágoa que ela vislumbrou naquele olhar que sempre lhe transmitira tanto, tanto amor..... O rancor em sua voz..... Nada do que sentira até hoje, tinha lhe doído tanto...
À medida que seu fôlego foi acabando... ela diminuiu a velocidade.... até parar perto do bosque que havia ao redor da propriedade. Recostou-se contra uma árvore.... agarrando-se ao tronco como um náufrago se agarraria a uma tábua de salvação. Fechou os olhos, encostando o rosto contra ela..... sentindo a aspereza do tronco.....
“Por que? Por quê ele estava ali? Por quê a vida o colocava de novo em seu caminho? Justo agora... quando David começava a ocupar seu coração.... sua vida.... quando ela enfim, decidira seguir por um novo caminho.... enterrar o passado....
E a vida vinha lhe mostrar que o passado não estava morto.... mas inacessível....
Por que ser atormentada pelos fantasmas de um passado perdido? Por que lhe mostrar que ainda tinha sentimentos por ele..... se ele estava fora da sua vida? Para fazê-la pagar por seus pecados? Para saldar as dívidas com o destino?
Ah, destino.... quantas vezes não o desafiara... quantas vezes não tinha ido contra ele.... Seria isso agora, sua revanche? A resposta aos desafios? Ele lhe faria pagar tão caro assim?
_Que grande covarde você se tornou, Alexandra... – disse a si mesma, escorregando pela árvore e caindo sentada no chão. Bateu a cabeça contra o tronco da árvore, com raiva.-... fugir correndo.... como se fosse uma idiota... uma fraca..... – abriu os olhos e virou-se na direção da casa.... estava muito longe, e dali nem podia mais avistá-la. -... mas eu não tenho coragem de enfrentá-lo.... explicar a ele.... mas explicar o quê? De que adiantaria? O que isso mudaria? Nada... e não há justificativas para o que fiz.... mentiras e mais mentiras.... se ao menos eu tivesse falado a verdade....no começo.... mas agora? – fechou os olhos por um momento. Limpou as lágrimas com as mãos e inspirou fundo. Olhou de novo na direção de onde viera. Riu de si mesma.- O que você queria, Alexandra? Está esperando que ele apareça correndo.... atrás de você? – riu alto. Um riso com gosto de lágrimas.
Ficou de pé, ainda olhando para lá.
_Chega..... chega...... você não pode mudar o passado.... e não vou fazer isso com David... Eu posso ser muitas coisas..... mas jamais voltarei a trair alguém.... Nem que eu tenha que passar por cima de mim mesma....
Ergueu um pouco as saias e entrou no bosque, na trilha que levava à cabana de caça da família.
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Mensagem enviada Jun 26, 2002, 11:15 PM do endereço IP 200.151.49.150
Os primeiros raios de sol surgiam no horizonte... Tímidos e frios. Sabrinne despertou e sorriu ao constatar que não sonhara. Seu doce e amado Juan estava ali. Ela beijou o peito nu e o pescoço, sentindo o delicioso cheiro de homem, cheiro de desejo que ele exalava. Ele nem se quer mexera. Ela voltou a sorrir, achando graça na entrega total dele. Dormia como uma criança...Tranqüilo e sereno. Ela passeou sua mão pelo braço corpulento e chegou à mão, entrelaçando seus dedos aos dele.
Estava de lado e colada ao corpo dele, que estava voltado para cima. Sua cabeça acobreada estava repousada sobre o peito. De repente sentiu as costas serem acariciadas suavemente e quando ergueu o olhar, deparou-se com o mais lindo verde, um verde vulgarmente imitado pela esmeralda.
- Bom dia meu amor! – ela sussurrou em meio a um sorriso.
Ele também sorriu e beijou-lhe a fronte.
- Bom dia minha vida. Como dormiu?
Ela, ainda sorrindo, respondeu.
- Como acha? Dormi como uma rainha.
- Sente frio?
Ele reparou que ela estava arrepiada.
- Um pouco. A aurora sempre me dá frio. – ela sentou – Vou fechar as portas da varanda. – ela puxou o lençol e se enrolou, mas Juan segurou o lençol e também puxou. Ela voltou-se rindo.
- Para quê vai cobrir-se? És tão linda...
- Porque tenho vergonha. – ela estava maravilhosamente vermelha.
- Vergonha de quê? Tens o corpo mais belo que já vi, e olhe que já vi muitos. – ele riu da própria presunção.
Ela soltou o lençol.
- Olha que convencido que ele é!
Virou-se e foi em direção a varanda. Juan a observava com olhos gulosos e apaixonados. O andar dela era perfeito, seu balanço inebriava! Não resistindo a tentação, ele levantou.
Ela havia fechado a primeira banda da porta de vidro quando sentiu o corpo quente colar-se ao seu. Um arrepiou diferente do primeiro percorreu todo seu corpo e ela pôde sentir claramente a ereção colada à suas nádegas. Ele a envolveu com seus braços e cobriu os seios com suas mãos. Uma brisa fria soprou contra eles.
- Apartir de hoje, eu esquentarei todas as suas auroras. – disse num sussurro ao pé do ouvido dela.
Sabrinne sorriu, deliciando-se com as palavras e a voz rouca e potente.
Juan passou a beija-la no pescoço e ombro, roçando-se nela. Sabrinne virou e entregou-se a um beijo ardente e profundo. O beijo, ao invés de esvair-se aos poucos, se intensificava e aumentava o desejo. Juan encostou Sabrinne no pilar da porta que dava para a varanda, e com a mão direita suspendeu a perna esquerda dela, levando-a a apoiar-se em seu quadril.
A varanda era cercada quase que em sua totalidade, por jasmineiros, roseiras e delicadas violetas. O perfume invadia todo o ambiente e o sol iluminava os corpos nus. Lá de cima podia-se avistar o mar e o Huracan aportado ao longe, ao lado do Verdeales e dos outros navios de Juan. Pouquíssimas pessoas transitavam pelas ruas e por toda parte o canto dos rouxinóis fazia-se presentes.
Juan passou seus braços por baixo das axilas e a segurou pelos ombros. Sabrinne pendeu a cabeça para a direita e ofereceu seu pescoço à boca quente de Juan. Aos poucos ele ia penetrando-a e quando sentiu que estava completamente dentro dela, ele parou por um instante e com a língua dentro do ouvido de Sabrinne, ele sussurrou:
- É tão gostoso estar dentro de você... – sua voz era provocante e lasciva. – ...És tão quente e molhada...- ele podia senti-la estremecer antes suas provocações. - ...Tão minha...- de alguma forma ele mexeu-se dentro dela e ela sentiu ele latejando.
Juan segurou-a firmemente e cravou-se dentro dela. Sabrinne não pôde conter o grito de prazer e dor e segurou em Juan quase arrancando-lhe a pele das costas. Após o primeiro instante de susto e de pequena dor, ela passou a gemer alto, acompanhando as estocadas dadas por Juan. Ele respirava profundamente e todo seu corpo sofria pequenas contorções de prazer. Seus corpos chegavam a balançar e quase desequilibrar mediante as investidas selvagens de Juan. Sabrinne ergueu a cabeça em busca de ar, pois o prazer intenso roubava-lhe as forças e o oxigênio. Seu corpo grudado ao dele, proporcionava peculiar contato entre sua feminilidade e a púbis masculina, provocando imenso deleite. Seu prazer era tão grande e crescente que ela agarrou-se aos negros cabelos e deixou que esse prazer escorresse e o orgasmo invadisse seu corpo. Completamente estafada e trêmula, ela não pôde continuar de pé e Juan a carregou de forma que ela o abraçasse com as pernas e continuou suas investidas. Agora foi a vez dela provoca-lo. Com a voz falha e rouca de tanto gozo, ela sussurrou:
- Vem amor...Me banha com teu prazer...Me possua com toda sua força...- quanto mais ela falava, Juan aumentava a velocidade e a intensidade de suas estocadas. - ...Juan...- ela gemia com a voz provocante de quem já começava a sentir novamente o prazer se aproximar.- ...Juan...Vem...Me preencha com teu amor... Quente e violento...- ela uniu-se a ele num beijo mais que visceral e suas línguas emaranharam-se de tal forma, com tal volúpia que Juan explodiu num êxtase colossal! Para manter-se de pé, foi preciso abrir mais as pernas e apoiar-se com ambas as mãos na porta e no pilar da varanda. Enquanto seu líquido ejetava-se pelas entranhas de Sabrinne, Juan dava leves estremecidas e continuava a golpeá-la, agora com menor espaço entre sua raiz e a entrada de Sabrinne, e em vezes mais espaçadas.
Completamente exaustos e lavados de suor, Sabrinne e Juan sentaram no chão e, ainda agarrados, escutavam suas respirações, esperando que normalizassem. Começaram a rir e esse riso passou a gargalhadas. Juan a olhava com grande admiração.
- Me pergunto se há algo mais bonito que você sorrindo...E eu mesmo me respondo...Não.
O sorriso dela se desfez em meio ao acanhamento e ela abaixou a cabeça. Juan segurou seu queixo e o ergueu.
- Vamos casar o mais rápido possível. Tenho pressa em acordar todos os dias ao seu lado e amá-la a cada aurora, só para te aquecer o sangue e não permitir que sintas frio.
Sabrinne retirou alguns fios que caiam sobre a testa dele e beijou seus olhos docemente.
- Quer casar hoje? – perguntou seriamente.
Ele sorriu. Aquele sorriso infantil e encantador.
- É o que mais quero, mas faço questão de vê-la subir ao altar.
Ela gargalhou.
- Altar? Eu? Juan...Nenhum padre me casará em uma igreja! Querendo ou não, agora eu sou uma cortesã!
Embora ele soubesse que isso era uma grande mentira, teve que admitir que ela tinha razão.
- Isso não é problema. Mando construir uma igreja só para que subas ao altar. – ambos caíram na risada.
- Eu não faço questão de casar Juan...Só quero tê-lo ao meu lado, sempre.
- Eu também, mas quero que minha esposa seja respeitada por todos e infelizmente se não formos casados...
Sabrinne abaixou a cabeça e em sua mente veio a lembrança do pai e de todas as vergonhas que vinha passando. Ergueu os olhos e encontrou um olhar tão terno e carinhoso que logo todas as suas tristezas desapareceram.
“ Como posso pensar em vergonhas, quando tenho o melhor e mais perfeito homem ao meu lado?”, pensou.
O sol já ia alto e Juan tinha que trabalhar. Hernandez estava para viajar com o Fandango e o Perséfone, e Juan precisava dar-lhe as últimas instruções.
- Vou ter que ir...
Sabrinne forçou um sorriso e ele percebeu que a notícia a desagradava.
- Hernandez vai viajar e os negócios precisam andar.
- Juan, você tem escutado alguma coisa a respeito da coroa? Haverá realmente um golpe?
- Não sei minha vida...Ouvi rumores que o ministro anda bastante irritado com as atitudes da rainha e tia, e não é segredo que ele anda procurando uma forma de roubar-lhe o trono, mas a rainha tem seus defensores. Não será tão fácil quanto ele pensa.
- E se por um milagre, isso vier acontecer?
- Não sei...Não conheço esse tal de Fernando Grahan, mas já ouvi falar que não tem caráter. Poderá prejudicar a Espanha de inúmeras formas.
- Ele é poderoso demais, não é?
- Sem dúvida nenhuma. Também soube que tem contatos muito influentes pela Holanda, Portugal e Suíça. Sua perdição é a França e a Itália. Ele já entrou em diversas batalhas contra esses países.
- Tenho uma admiração muito grande pela rainha Maria Cristina. Ela defende com unhas e garras o trono da filha.
- Sim, ela é muito corajosa e também tem a minha admiração, mas ela é um pouco resistente à república e tudo indica que o caminho da Espanha será a república.
- Se a república realmente vier, vai ser muito bom para todos, assim espero, mas não acho que a rainha se oponha à república. Ela quer garantir o lugar da filha e penso que não seja necessária a dissolução da monarquia para que haja a república. Não poderiam dividir o poder?
- Bem, na Inglaterra há essa divisão, mas se a Espanha adota o mesmo tipo de governo que a Inglaterra, poderá passar a idéia de que se aliou a ela e aí entraria em guerra com a Itália e Portugal, sem falar que suas relações com a França ficariam ainda piores.
- Nossa! Estamos em maus lençóis!
Ele riu.
- Que mulher inteligente e interessada em política é a minha! – disse cheio de orgulho.
Ela novamente corou.
- Eu gosto de todos os assuntos. – ela olhou pela janela e o sol já estava a pino. Devem ter ficado ali por aproximadamente duas horas. – Juan! O dia já vai alto!
- Verdade, preciso ir. – ele levantou e vestiu-se. Sabrinne o olhava enquanto vestia seu penhoir.
- Você virá à noite? – sua voz era manhosa.
Enquanto enfiava o cinto no cós da calça, ele a olhou com as sobrancelhas altas, assim como o olhar, avaliando a manha de sua amada.
- Você quer?
Ela sorriu e correu para ele, que a recebeu de braços abertos.
- É tudo o que quero!
Beijaram-se com paixão.
- Como vou sair? Não quero as pessoas me vejam. Não quero que te desrespeitem. Nunca foi cortesã e agora será minha esposa.
- Acha mesmo que me importo com a opinião dos outros? Não se preocupe comigo Juan. Você já é meu marido e eu não devo satisfações a ninguém. Minha mãe sabe muito bem que já somos marido e mulher e ela seria a última pessoa a criticar-me.
Juan concordava com ela, mas ele jamais iria propor sua exposição.
Sabrinne abriu a porta e desceu as escadas segurando-o pelas mãos. Ninguém estava de pé, pelo menos pelo caminho, mas podia-se escutar barulhos na cozinha.
- Quer comer algo? – ela perguntou baixinho.
- Você? – disse já rindo da própria gracinha.
Ela depositou um rápido beijo em seus lábios.
- Seu bobo! – ela abriu a porta e ele deu-lhe outro beijo. Quando ela estava para fechar a porta, ele voltou e deu-lhe mais um beijo. Eles riam sem parar, até que ele finalmente foi embora.
Sabrinne virou-se e encontrou sua mãe no alto da escada. Madeleine tinha luz no olhar.
- Bom dia minha menina! Juan já foi?
Sabrinne gelou.
- Como?
Madeleine riu.
- Acha mesmo que conseguiria esconder-me isso? – puxou a filha e a abraçou. – O que importa é que está feliz minha menina!
Sabrinne sentiu-se muito bem nos braços da mãe e quando se afastaram um pouco, ela viu que no fundo, lá no fundo dos olhos havia um sombra.
- O que há mamãe? A senhora não está bem...
Madeleine respirou fundo e sentou-se no primeiro degrau com sua filha.
- Sabrinne, guardo um segredo que já não suporto carregar sozinha.
Seu tom de voz era grave e inquietou Sabrinne.
- O que houve mamãe? Que segredo é esse?
Madeleine lhe contou tudo o que aconteceu na noite trágica em que matou Francisco Santiago.
Sabrinne estava pálida e sem fala.
- Mamãe... O que faremos?
- Eu não sei Sabrinne...- Madeleine tinha a consciência pesada e já não conseguia dormir. – Sei que de uma hora para outra eles irão descobrir e serei enforcada.
- Não diga isso! Jamais permitirei que seja pega! – Sabrinne não sabia o que fazer ou falar. – Vamos ficar quietas, se algum dia começar a surgir rumores, fugimos.
Madeleine ergueu a cabeça com espanto.
- Fugimos não! Eu fujo! Eu fiz tudo sozinha e pagarei sozinha. Você vai ter um marido maravilhoso e viver muito feliz.
- Mas mãe...
- Está resolvido Sabrinne. Não falaremos mais sobre isso até que seja necessário.
Sabrinne baixou a cabeça. Novamente os problemas voltavam à sua vida.
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