American Pit Bull Terrier : O fim do começo
Chegar a um American Pit Bull Terrier não é uma tarefa fácil. Como se não bastasse todo o preconceito que a raça sofre, quando passamos por ele, nos deparamos com outro sério problema: a falta de informações. Costumamos dizer que a falta de informações leva ao preconceito e o preconceito inibe a disseminação da informação. Caímos então nesse circulo vicioso que atrapalha muito o crescimento da raça. Mas que informações são essas?
Quando o APBT chegou ao Brasil, pouco se sabia sobre sua história e suas características. A princípio, essa falta de informação nos levou a imaginar um cão assassino, como a mídia, também, desinformada, o intitulava. A falta da Internet, que não existia na época, deixou o trabalho cinófilo sobre a raça desamparado, já que poucas literaturas sobre a raça vieram para o Brasil. Iniciou-se então um trabalho às escuras, alguns criadores, mantendo a fama de assassinos, buscavam cães extremamente ferozes, outros, influenciados por exposições de beleza, buscavam um cão grande e gordo, muitas vezes com aspecto de molosso. Havia também o pessoal do esporte, que foi quem melhor aproveitou as boas características da raça, buscando um cão atleta, porém sem muita organização na criação.
Essa fase durou bastante, onde o Brasil quase que ignorou o que acontecia no país de origem e criou diversas linhas de criação, cada uma atendendo o gosto pessoal de cada criador. A Internet chegou, podíamos então ver o que acontecia no país de origem da raça, a qual devemos sempre estar atentos e indiscutivelmente seguir seus passos. Os Estados Unidos da América, berço da raça, onde aconteceram todas suas histórias, onde habitam os maiores conhecedores e formadores de opinião sobre a mesma, em contato direto via Internet, disponibilizando todo o material que os criadores responsáveis e conscientes esperavam a tanto tempo.
Nos deparamos então com uma realidade interessante na qual podemos citar um exemplo. Petey, um personagem do seriado americano Our Gang, um APBT que fazia a alegria das crianças, que era incansável, que enfrentava todos os desafios com seus amiguinhos, que brincava o dia todo e era extremamente carinhoso com os mesmos. Esse fato foi descoberto por muitos, via Internet, apesar de ter ocorrido há décadas atrás nos EUA. Podíamos então ver uma contradição séria nessa história: como um cão assassino foi o herói de um grupo de crianças em rede nacional?
Muitos criadores que adquiriram bons exemplares já desconfiavam desse amor que o APBT tem pelos seres humanos, e as histórias então descobertas, vieram a confirmar as melhores características da raça, aquelas que todos os criadores deveriam se preocupar em buscar: a versatilidade e o amor ao ser humano. Versatilidade se entende pela capacidade de exercer diversas atividades. Por ser um cão atleta e com grande capacidade física e pulmonar, o APBT pode trabalhar ou brincar por horas sem se cansar. Pela sua extrema devoção ao ser humano, pode desenvolver com sucesso trabalhos de adestramento, tanto para o esporte, quanto para trabalhos de utilidade em geral, inclusive guarda defensiva. Tem uma capacidade muscular de quebrar limites, como temos visto nos esportes para a raça. Concluímos então, que o APBT tem qualidades muito maiores do que a tão falada agressividade, que deveria ser apenas com cães, e do porte molossóide que encontramos em muitas criações. O temperamento e a estrutura física não podem impedir ou atrapalhar as características acima citadas, pelo contrário, devemos buscar um temperamento e uma estrutura física que seja de acordo com essa versatilidade do antigo Petey.
Quando vamos mais a fundo na história nos deparamos com muitas histórias de combate entre cães, que é a origem não só do APBT mas também de outras raças. O APBT foi a raça que mais demorou a sair do combate, e sabemos que ilegalmente até hoje ainda existam. Essa busca por um cão cada vez melhor em combate gerou o APBT. Escolher um cão bom para combate exige antes de tudo que o cão seja determinado, fisicamente potente e, principalmente, fiel e submisso ao dono, que muitas vezes conduzia o mesmo durante o combate. O cão deveria no alto de seu nervosismo durante a luta, saber quem era seu dono, para que o mesmo pudesse manuseá-lo sem ser mordido. Ao passo que se desenvolvia as técnicas de combate na raça, se desenvolvia também uma mente inteligente no cão, ao ponto de muitos cães morrerem em combate para atender ao que seus donos pediam. Essa distinção entre quem era o oponente e quem era o dono ou membro da família ficou muito impregnada na personalidade do APBT. Por isso ao passo que ouvimos histórias de combate e sangue, ouvimos também uma história de amor com as crianças da família. O mesmo cão que ia para o combate, voltava pra casa e muitas vezes era cuidado pelas crianças. Portanto, podemos dizer que a raça viveu uma situação única, entre o amor extremo a seus donos e o ódio extremo a seus oponentes. Essa situação levou muitos proprietários e criadores na época, a voltarem suas atenções a esse relacionamento do cão em família, e direcionar seus trabalhos cinófilos a outras atividades. Eles se depararam com um cão extremamente capaz de desenvolver diversas atividades, por qualidades físicas adquiridas no combate aliados a uma determinação sem igual. Foram criadas a provas esportivas, que na América predominavam as provas de tração. A raça entrou para as provas de Agility, para as Academias de Polícia, Corpo de Bombeiros, terapias, etc...Caiu no gosto do Americano.
Após essa descoberta sobre os direcionamentos da raça, acreditávamos que algo mudaria no Brasil. Talvez, acabaria o preconceito, os criadores buscariam novos rumos, amantes da raça iriam divulgar essas informações, ou seja, a raça seria salva pelo aprendizado com a experiência americana. Acreditávamos que poderíamos ver o erro americano e aprender com ele. Mas não. Infelizmente isso acontece numa pequena parcela de criadores. Temos hoje um problema sério, que mesmo estando aí, para todos verem, a informação não rege o espírito da grande maioria dos criadores. Acreditamos até, que a criação cresceu tão desenfreadamente, que as informações não acompanharam essa velocidade. Nos deparamos com exemplares que fogem totalmente do padrão e da história da raça. A raça é tão determinada, que mesmo sem rumo, conseguiu ainda fazer da maioria dos exemplares, ótimos cães. Essa pequena parcela, de cães que atacam pessoas, pode ser fruto de duas origens: cães produzidos por criadores que buscavam cães agressivos com seres humanos, visto que o trabalho de criação é um trabalho de seleção, portanto se selecionarmos sempre cães bravos, mais cães bravos produziremos; e ou, o tratamento que esses cães receberam durante sua vida, com direcionamento para agressividade, treinamentos mal feitos de guarda e ataque. Em ambos os casos, há total desconhecimento da raça, pois o padrão extingue qualquer característica de agressividade ao ser humano e demonstra claramente que o APBT não é a melhor opção para guarda, apesar de se bem treinado, é capaz de fazer. Como se não bastasse, ainda temos que presenciar grupos políticos ou vítimas de cães que não fazem jus a raça, tentarem legislar sobre a assunto sem qualquer conhecimento sobre isso. Não defendemos cães que atacam, porém não os culpamos, pois eles são produtos de trabalhos mal orientados, tanto de criadores como de proprietários, que não tem preparo ou informação para criar um cão desta raça. Culpamos sim criadores irresponsáveis, que mesmo tendo acesso a essas informações ainda continuam produzindo cães fora do padrão, se preocupando com assuntos irrelevantes, como peso dos cães e capacidade para o trabalho de guarda, e ignorando e desrespeitando as histórias e características da raça. Esses são os maiores culpados. Antigamente não culpávamos também aquele que comprava um cão buscando essas características, mas hoje, qualquer um pode ter acesso a informação e pode pesquisar o que buscar e o que esperar de um bom APBT. Falta de sensibilidade, conhecimento, bom senso, respeito e a busca por dinheiro, fazem com que a raça caminhe para seu fim.
O Clube do American Pit Bull Terrier tem como objetivo maior, salvar a raça e seus amantes, pessoas que realmente se importam, que admiram e estudam a respeito, pessoas que tem um amigo na família, que apesar de viver sob preconceito e ignorância, faz seu papel muito bem, amando sua família e fazendo de tudo por ela.
Thiago Del Manto
Clube do American Pit Bull Terrier
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