--


Parte 15

by (Acceso umnovofinal)
Forum Owner

 
As palavras de Armando espantaram o sono de Betty, sapateando em sua mente, mantendo-a alerta. Ela passara tanto tempo preocupando-se com a própria dor e só agora entendia que Armando também sofrera e que ele tinha um sentimento de culpa que o martirizava. Isso lhe pesava na garganta, um peso seco que queria secar-lhe inteira por dentro. Com muita dificuldade acalmou as palavras de Armando e dormiu, todavia, foi um sono perturbado de situações cruas e cruéis.

Acorda de repente num sobressalto, recusando os ruídos espectrais que a envolviam no seu inconsciente. Pisca rapidamente várias vezes, certificando-se de que estava na realidade palpável, contudo, ainda permanecia aquela vibração estranha do timbre de voz que a chamara. E continua chamando. Mas não seu nome em tom claro, ela sussurra cores e temperaturas diretamente em sua cabeça. Vai do frio ao quente, com cores frias e quentes em raios de segundos. E é estranho porque não é de todo ruim, ainda que não pareça de todo bom.

Levanta, vai até a cozinha, pega um copo de água e começa a subir as escadas em direção a seu quarto. Mas a sensação estranha ainda a acompanha. Ela pára nos primeiros degraus da escada e uma brisa fria da madrugada entra pela janela, a pega pela mão e a guia em sentido contrário. Ela volta a descer as escadas e, sem saber o que está procurando, só se deixando guiar, afasta as cortinas e olha pela janela. Então ela vê um carro parado em frente de sua casa e não pode acreditar em seus olhos quando reconhecem o carro de Armando. Nesse momento as vozes e as cores e as temperaturas a abandonam, como se fossem animais a avistar o dono. Ela leva a mão à boca, pela surpresa.

B – Não pode ser! O que ele está fazendo aqui?

Ela sobe correndo, porém silenciosamente, veste um roupão e desce outra vez. Seu coração é uma corredeira de sensações que vão desde ao estarrecimento à sobreposição de alucinações doces em vê-lo ali, no mesmo mundo que ela, ao alcance de seus dedos. Saindo de casa ela vai até o carro e vê que Armando está lá dentro e parece estar dormindo. Bate na janela e ele acorda assustado, demorando uns segundos para construir o mundo em volta de si. Quando desperta totalmente, vê Betty e desce do carro num reflexo primitivo, preocupado por ela estar na rua àquela hora.

B – Armando, o que você está fazendo aqui?

Armando segura-a pelos braços. Os olhos estão muito abertos, mas o cenário à sua frente ainda é embaçado pelo sono, ainda que Betty esteja sempre bem contornada, não importa o quanto as sombras sibilem.

Ele se vê diante dela nu de sentimentos e pretextos. Sente um frio incômodo que arranha a pele por dentro.

A – Betty, me desculpe! Eu só queria me sentir próximo de você – e sorri meio sem graça – Não pretendia dormir, só queria ficar aqui um pouquinho, minha mente estava com você...

Betty não pôde deixar de sorrir se jogando num abismo de flores. Mas se recompôs imediatamente, voltando a ficar séria.

B – Você não sabe que é perigoso ficar aqui sozinho há essa hora e ainda dormindo? – ela o repreende.

Armando olha para os próprios pés, menino pego em flagrante que foi.

A – Sim, Eu sei. – ele sorri pelo tom bravo que ela usa com ele.

Nesse mesmo instante, cai uma figura imaginária no escuro de sua mente e ele a olha com olhar curioso, perscrutando-a de cima abaixo. Ela veste um roupão branco sobre um pijama desbotado e largo e pantufas.

A – Então esse é o seu “pijama super-sexy”? – pergunta divertido.

B – É... – ela ri olhando para si mesma envergonhada.

A – Eu fiquei tentando desenhar interiormente você de pijama e seu quarto. Você nunca me contou nada sobre ele...

Armando continua segurando Betty pelos braços e percebe que ela está tremendo.

A – Está com frio, mi amor? – ele a abraça saboreando seus contornos de realidade com um prazer de sonho.

B – Sim. Um pouquinho – ela responde com a cabeça nos ombros dele amparando a alma.

A – Então é melhor você entrar. Não quero que pegue um resfriado – Armando não sabe quem dentro dele teve peito para dizer isso.

Ele lhe dá um beijo terno nos lábios e se escuta:

A – Vá, Betty – e a solta, empurrando-a levemente em direção a casa – Boa noite, mi vida!

B – Boa Noite! – ela responde baixinho com medo daquela liberdade que ele lhe dera, como se lhe apresentasse um caminho escuro demais e frio demais até um lugar longe demais para se ir só.

Começa a andar devagar, medrosamente, voltando para casa, virando-se várias vezes para olhá-lo enquanto ele permanecia em pé fora do carro. O chão foge de seus pés e a casa desliza para longe a cada passo que ela dá. O cenário começa a cair em floco negros de uma neve opaca e ela tem medo, muito medo de não conseguir chegar onde deveria ser sua casa. Perdera o rumo do caminho. Ela pára, volta correndo, quase com os olhos fechados, e se atira nos braços de Armando. Eles se fundem em um beijo apaixonado.

Desta vez é Armando quem interrompe o beijo.

A – Betty, seu pai pode nos ver – ele diz ainda abraçado a ela.

Depois de um momento de silêncio ele a ouve dizer, tímida, quase num sussurro:

B – Você quer mesmo conhecer meu quarto?

Essa frase de uma musicalidade sobrenatural chega aos ouvidos de Armando derramando-se em seu corpo uma calidez doce, concentrando-se no seu sexo. Se sente anestesiado e não sabe o que responder.

Betty se solta do abraço e estende-lhe a mão oferecendo-lhe o sol no meio da noite fria.

Armando está estático, ainda sem saber como reagir com medo de que aquela sensação o abandone tão logo ele se mexa.

A – É muito arriscado, Betty! – ele diz olhando, sem ver por causa da luminosidade, para a mão que ela mantém estendida.

B – Precisaremos ser cuidadosos e não fazer barulho... – seu sorriso é um diamante cuidadosamente lapidado.

Dividido entre a vontade de acompanhá-la e o temor de que Seu Hermes descubra os dois, ele fica indeciso. Mas o desejo vence a razão. Ele segura a mão que Betty lhe oferece e se deixa levar por ela para o interior da casa.

Eles entram e Betty vai guiando-o no escuro pela casa. Armando muito tenso, com todos os pêlos eriçados, a segue através da sala, pela escada, fazendo um caminho psicodélico de manchas dançantes em vários tons de negro, até chegarem ao quarto dela. Quando eles entram, Betty fecha a porta e tranca-a com chave. Armando respira, aliviado, cuspindo todos os borrões escuros. Ela acende a luz. Ele pisca algumas vezes até poder ver claramente o quarto de Betty. Seus olhos percorrem o aposento todo, curiosos. Era um quarto de menina, com bichinhos de pelúcia por todos os lados. O quarto de uma menina sonhadora e romântica Ele sorri. Não esperava nada diferente... Olha para a cama e pensa em quantas vezes o holograma de idéias dele esteve ali... Quantas vezes desfigurou-o em palavras em seu diário. Quantas vezes chorou por seu plano estúpido, por causa da maldita carta de Calderon... Nisso, a culpa, vestida de um cinza cintilante, como um fantasma vivo, amordaçou-o e ligou uma luz forte na sua cara.

Betty, atenta a todas as mudanças de expressão no rosto dele, percebe o olhar triste e tenta afastar os pensamentos ruins de sua mente.

B – E então, doutor? – ela quase sussurra – era o que você esperava?

A – Sim e não...

B – Como assim?

A – Eu esperava algo assim, com esse tipo de decoração, mas não tinha uma idéia clara de como seria...

B – Não combina com uma executiva, presidente de uma empresa, não é?

A – Não... Mas combina com minha Betty! – ele diz passando a mão em seu rosto suavemente.

Betty fecha os olhos. Quase tem que tocá-lo para certificar de sua presença ali, em seu quarto, em pessoa...

Armando se aproxima e começa a beijá-la, levemente, como se tivesse medo de afugentar aquela miragem perfeita. O beijo começa terno, suave e vai se aprofundando à medida que o desejo vai tomando conta de seus corpos. Agora o mundo se resume a eles dois. O risco, os pais de Betty, nada disso importa. Somente a urgência daquele desejo.

Armando interrompe o beijo para retirar os seus óculos e os dela e volta a beijá-la em seguida. Eles começam então a tirar suas roupas que vão caindo no chão do quarto, junto com as armas e as máscaras e as tristezas e incongruências, enquanto eles vão se aproximando da cama. Deitam já completamente nus. Armando se detém acariciando todo o corpo de Betty, com calma, saboreando as reações dela a cada carícia que ele lhe faz. Betty também o acaricia, querendo proporcionar-lhe tanto prazer quanto ele lhe dá.

Subitamente Armando para as carícias e olha para ela com uma cara torturada:

B – O que foi, Armando? – assustada.

A – Eu me esqueci, mi amor. Não tenho nenhum preservativo aqui comigo... – ele diz desesperado.

Betty fica muito desapontada. Não acredita que aquele momento perfeito vá terminar desse jeito... Então ela se lembra das contas que fizera de manhã e diz, com um sorriso de alegria:

B – Eu não estou no meu período fértil, Armando, lembra?

A – Você tem certeza, mi vida? – já mais animado.

B – Sim. Acho que hoje ainda estaremos seguros.

Armando sorri e lhe diz, com um olhar malicioso:

A – Onde estávamos mesmo?

B – Aqui...

E o beija, recomeçando as carícias.

Armando adora vê-la assim, sem reservas. Isso o excita ainda mais. Eles então se amam intensamente e entre gemidos contidos e palavras de amor, chegam ao clímax.

Ficam abraçados, esperando que seus corpos se acalmem e suas almas voltem ao tamanho normal e se acomodem neles.

Depois de algum tempo Betty pensa que ele está dormindo.

B – Armando, mi amor! – ela o chama suavemente, acariciando seu rosto.

A – Sim! – ele responde imediatamente – estou aqui, mi vida!

B – Não podemos dormir.

A – Eu sei, mi amor! – ele então começa a dar beijos em seu rosto e em seu pescoço – Nem eu quero dormir estando assim com você...

Ele recomeça as carícias pelo corpo dela acendendo o desejo entre os dois novamente. Eles voltam a se amar, saboreando novas carícias e novas posições. Para Betty tudo era novidade e Armando sentia como se estivesse fazendo tudo pela primeira vez também, porque na realidade era mesmo a primeira vez que ele se sentia assim, como se além de seu corpo, sua alma também estivesse ligada a ela.

Com seus corpos satisfeitos eles deitam lado a lado, olhando-se nos olhos, acariciando-se no rosto, entrelaçando suas mãos. O universo os amarra um ao outro, e enquanto sentem a expansão dele cada um em seu peito, permanecem em silêncio. As palavras são expressões parcas e tortas e desnecessárias nesse momento..

Ficam assim por algum tempo mais, até que Armando diz:

A – Betty, preciso ir embora antes de amanhecer.

B – Eu sei. Não queria que essa noite terminasse... – ela diz entristecida.

A – Nem eu, mi amor – e a beija na testa – mas haverá outras noites, muitas... – e não é possível imaginar que não haja, mesmo depois da morte de ambos e do mundo palpável.

Eles se beijam e sentem que o desejo volta a queimar em seus corpos.

Armando, então, reunindo o que resta de seu autocontrole, se levanta e começa a se vestir. Sabe que não pode ficar mais, que já estão correndo um risco muito grande.

Betty também se levanta e se veste para acompanhá-lo até a saída.

A – Seu pijama é realmente muito sexy, Betty! – ele brinca.

B – Você está brincando! Esse pijama é mais seguro do que um cinto de castidade...

A – Não para mim. Porque eu sei o que há debaixo dele... – com olhar malicioso.

Ela ri, o beija e diz:

B – Vamos, doutor. Tenho que tirá-lo daqui em segurança.

A – Será que seu pai não vai estar aí quando abrirmos a porta?

B – Vamos ver...

E abre a porta lentamente.

Para alívio dos dois não há ninguém.

Eles saem do quarto com cuidado e da mesma maneira que entraram, Betty vai conduzindo Armando no escuro.

Chegam à porta, Betty sai com ele. Do lado de fora ele respira aliviado.

A – Nem acredito que fizemos isso, Betty!

B – Nem eu! Mas é melhor você ir logo, antes que nossa sorte mude.

Eles se beijam uma última vez.

A – Te amo, mi Betty! Te amo tanto! – ele lhe diz segurando seu rosto entre as mãos com as emoções debatendo febrilmente nas paredes fracas do seu coração.

B – Eu também te amo!

Finalmente se separam. Betty acena e volta rapidamente para o interior da casa, enquanto Armando vai embora com um sorriso nos lábios, o céu diurno estampado na alma, sentindo-se como um adolescente depois de uma aventura proibida.



Escrito desde Apr 7, 2008, 7:46 PM
de la direcci�n IP 189.15.181.122


Respond to this message

Return to Index

Find more forums on Soap OperasCreate your own forum at Network54
 Copyright © 1999-2008 Network54. All rights reserved.   Terms of Use   Privacy Statement