Betty fica por algum tempo olhando para a porta por onde Armando acabara de sair. Dá um suspiro resignada. Ela teria mesmo que responder o questionário por escrito, pois sabia o quanto Armando poderia ser teimoso se cismava com algo, e ele não iria desistir da idéia. Resolve, então, fazê-lo logo, antes que comece a se envolver com coisas do trabalho. Começa a escrever, parando em alguns momentos para pensar, e, às vezes, sorrindo das próprias respostas, imaginando o que Armando pensaria quando as lesse. Cerca de uma hora mais tarde, depois de haver sido interrompida por dois telefonemas de fornecedores, ela finalmente termina de responder todas as indagações de Armando. Recoloca as folhas no envelope e caminha para o escritório dele. Não quer que ele pense que tratou o questionário como coisa de menor importância.
Armando tentou se concentrar em todo trabalho que tinha, o que não era pouca coisa. Sua mesa se encontrava um mar de papéis sem horizonte, mas pegava um para ler, e, tão logo terminava, era obrigado a recomeçar a leitura porque não se recordava de absolutamente nada que lera. Pensava em Betty lendo o questionário... O que estaria achando das perguntas?... Todas ridículas, no mínimo... Era exatamente assim que se sentia... Maldita idéia... Mas ansiava por ter o questionário em mãos, queria devorá-lo, engoli-lo seco... Queria saber o que Betty pensava dele e de tudo... E queria que ela entregasse o dela logo pra saber quais eram suas dúvidas e suas inseguranças.
Vira-se na cadeira jogando os papéis que estavam na sua mão na mesa. Liga para a cozinha e pede um café preto. Afunda na sua cadeira e volta a pensar em Betty... Que pergunta ela poderia estar respondendo agora?... Se ela tinha alguma fantasia sexual? Apoiou os cotovelos na mesa, sorrindo maliciosamente, imaginando o que poderia ser...
Nesse momento escuta uma leve batida na porta que se abre em seguida. Vê Betty surgir na sua frente, sorri para ela que caminha até ele, também sorridente, com as mãos para trás. Parece-lhe animada... Sabendo que ela pelo menos leu o que escrevera, sentia-se mais tranqüilo em ver que ela não estava zangada...
Quando Betty se aproxima de sua mesa estende o envelope para ele e diz:
B – Aqui está, Armando. Já respondi.
Armando sorri sem graça, mas pega o envelope que ela lhe estende. Fica um pouco surpreso pela rapidez das respostas, o que o leva a pensar se ela respondeu tudo, de fato...
B – Não trouxe antes porque tive que atender telefonemas de dois fornecedores...
A – Tranqüila, Betty – ele tenta parecer despreocupado – Eu não esperava que você respondesse tão rápido... – pensa em voz alta.
B – Mas eu pensei que você quisesse as respostas logo... – Betty se sente mortificada, porque agora ele vai pensar que ela não dedicou tempo suficiente para pensar nas perguntas e respondeu de qualquer jeito.
A – Bem... – ele sorri sem graça, não queria que ela se sentisse pressionada – Eu estava curioso, é verdade. Mas você não precisava ter se preocupado tanto, mi amor, ter passado isso na frente das obrigações para com a empresa que é tão importante para você...
B – Não, mi vida, você em primeiro lugar, sempre.
Armando sorri arrastado, guardando o envelope em uma gaveta.
Betty olha-o com os olhos bem abertos, curiosos.
B – Você não vai ler?
A – Na sua frente? – Se sentiu uma criança confessando uma travessura – Não senhora!
Betty suspira, um tanto desolada. Queria muito que ele lesse e que conversassem conforme ele fosse lendo. Por mais que fosse uma mulher tímida, sentia uma necessidade absurda de falar, de sacudi-lo e dizer para que ele não pensasse tão mal de si mesmo, que jamais se apaixonaria por ele se não conseguisse ver o que via. Não se lembra de dizer a ele o quanto o achava um homem maravilhoso e de um coração enorme. Sempre viu isso nele quando perdia a cabeça para defender a empresa, quando acompanhava os problemas pessoais das meninas do quartel... Queria dizer tudo ali, agora, e sentia o estômago revirando numa ânsia de colocar todas essas palavras para fora.
B – Mas, Armando, eu gostaria de conversar com você...
A – Depois, Betty! Depois! Primeiro eu leio sozinho. Depois conversamos. Certo?
B – Está bem... – diz um pouco desanimada.
Não ficara satisfeita, mas respeitaria sua vontade.
Ela começa a caminhar de volta para seu escritório e ele lhe diz:
A – Doutora, um momentinho!
B – Sim? – ela para e se vira para ele.
A – Não está esquecendo de nada?
Pelo olhar sugestivo de Armando ela logo percebe o que ele quer. Retorna e lhe dá um beijo tipo “selinho”. Armando protesta. Levanta-se e a envolve num abraço de urso e lhe dá um beijo que lhe suga o espírito. Ao final do longo beijo, ele a leva até a porta e lhe diz:
A – Agora, mi amorcito, vai trabalhar em sua salinha, muito comportadinha, enquanto Armandito lê as respostas. Está bem? – e a beija no nariz.
B – E depois conversamos?
A – Sim. E depois conversamos. Prometo!
Sentia-se estranho com relação a isso. Uma parte de si morria de curiosidade em saber o que ela tinha para dizer, a outra parte queria enfiar a cabeça embaixo do cobertor até alguém acender a luz.
Assim que Armando vê Betty entrar no escritório dela, do outro lado da sala de reuniões, volta correndo para dentro do seu próprio escritório, com o coração galopando, ameaçando lhe rasgar o peito, de curiosidade para ler o que ela escrevera.
Ele pega o envelope da gaveta e vai até o sofá. Senta-se e se remexe várias vezes até se sentir confortável, e só aí retira as folhas do envelope. Percebe que suas mãos estão trêmulas e ri de si mesmo, sente-se um menino diante de um presente de natal. É ridículo, ele sabe, mas não consegue evitar. Respira fundo e começa então a ler as respostas de Betty. Quando ele fizera as perguntas imaginara as respostas e se surpreendia agora ao perceber que acertara a maior parte delas, o que significava que ele conhecia bem sua Betty, afinal. Enche-se de ternura ao ler que ela quer ter dois filhos, um casal. Mas logo sente como um soco no estômago ao descobrir que ela gostaria de passar a lua de mel em Cartagena. Não consegue entender e fica lendo a mesma linha repetidamente... Por que Cartagena? Não esperava por essa. Deixando o questionário por uns instantes, levanta-se e vai buscar uma bebida, embora ainda seja cedo. Um pouco decepcionado por essa resposta, volta a ler o restante. Irrita-se ao chegar à pergunta sobre se ela teria uma fantasia sexual e ela responde simplesmente ”sim”. Irrita-se mais ainda quando ela responde que gostara de “todas” as vezes em que fizeram amor, sem destacar nenhuma em especial. Já estava a ponto de levantar dali e ir conversar com Betty e dizer-lhe que ela não havia levado aquilo à sério quando vê que tem uma mensagem no final.
Meu querido Armando,
Para dizer a verdade, respondi esse questionário com o meu coração batendo na garganta. Em muitas vezes quis simplesmente rasgar essas folhas e correr até seu escritório, sentar bem juntinho de você e conversar. Conversar por horas sem interrupções e sem o tic e tac irritante do relógio. Mas penso que você deve achar isso um pouco chato, por isso fez este questionário. Então, aqui estou através dessas linhas. Respondi sendo o mais sincera e objetiva possível. Penso que ficará um pouco chateado em ler minhas respostas a algumas perguntas, mas talvez seja algo para te dizer ao pé do ouvido quando estivermos sós os dois... Para outras perguntas uma resposta satisfatória seria concluída por você mesmo, depois de algo de muita importância e que estamos desfrutando, talvez descontroladamente, ao longo desse tempo, entretanto maravilhosamente: convivência.
Quero muito mesmo falar com você, muita coisa só será dita plenamente acompanhada por um gesto, por um olhar... Mas agora (e a vontade está me doendo nos dedos enquanto escrevo) quero dizer que te amo. Mas leia isso com a intensidade de um meteoro atingindo a Terra, leia isso como uma luz desproporcionalmente grande lhe atingindo as vistas depois de meses na escuridão. Te amo. Te amo absurdamente, descompassadamente. Muito mais do que dizer que “te amo como nunca amei ninguém na vida”, te amo como nunca concebi o significado dessa palavra. O que me lembra um capítulo bíblico, ainda que interpretado de forma um tanto errada, mas “antes conhecia o amor em parte, agora, com você, conheço o todo”, e falo isso com o impacto de algo que marcou a minha vida pra sempre! É assim que são as coisas, te amo e pronto, acima de tudo, acima de todos, portanto, duvide de tudo, minha vida, duvide (como disse Shakespeare) até de “toda a verdade”, mas nunca do meu amor.
Sua Betty
Armando mergulhou naquelas palavras, nadou de ponta a ponta, perdendo a linha de chegada, perdendo o ponto de saída. Seu coração crescera e transbordara-lhe no peito, derramara-lhe nele todo. Ele ficou muito tempo imerso naquelas palavras, lendo e relendo e relendo e relendo. Tinha um desejo realizado e acreditava que não merecia tanto. Eram aquelas palavras mesmo que ele buscava quando propôs esse questionário e não soube se expressar bem...
Como amava Beatriz... Amava-a da mesma forma que ela colocara ali em sua carta, desmedidamente. Mas Betty sabia amar, era comedida nos seus atos, era paciente com ele e aceitava-o, ao passo que ele não. Muito pelo contrário. A adrenalina lhe subia no cérebro por algo insignificante e ele já enfiava os pés pelas mãos, agindo como um louco. E tudo parecia tarde quando parava de enxergar com a pele e lhe voltava luz aos olhos. Tinha que controlar isso, para o bem da Betty e dele também, ainda que pouco importasse consigo... Sorriu para si mesmo, lembrou-se do Armando narcisista que tinha o mundo girando em volta de si, e agora ele pouco se importava com isso...
Subitamente um vazio se fez dentro de si, como se lhe tivessem sufocando seu ser com um travesseiro, e ele buscou em volta o rosto de sua Betty, sem sucesso. Sua respiração começou a falhar, ele se sentiu um pouco tonto e afrouxou a gola da camisa, levantando-se imediatamente e deixando suas pernas lhe levarem. E elas o levaram direto para a sala de Betty. Abriu a porta de uma vez. Aura Maria estava entregando-lhe alguns papéis, mas ela era só um quadro impressionista pregado numa parede pichada. Só o que ele via nitidamente era Beatriz. Andou em sua direção, ela lhe sorriu com as sobrancelhas franzidas, ele curvou-se e, sem dizer uma palavra, beijou-a. E o travesseiro se afastou e o criminoso saiu correndo, pra longe. E ele continuou beijando-a porque esquecera como se parava.
Betty estava em sua sala com Aura Maria revendo os balanços do mês quando a porta se abriu de repente e ela viu Armando com o rosto ligeiramente vermelho, a gravata um pouco puxada e a gola aberta. Achou estranho e ia perguntar-lhe o que ocorrera, entretanto ele silenciou-a com um beijo tão arrebatador que ela praticamente esqueceu quem era. Deixou-se levar porque não tinha escolha. Deixou-se levar porque não queria ter escolha...
Aura Maria julgou ter presenciado uma cena de filme romântico. Sacudiu as mãos enquanto Armando beijava Betty e saiu dali bem devagar para contar a fofoca nova para o resto do quartel.
Betty colocou as mãos no rosto de Armando se separando dele e interrompendo aquele longo beijo.
B – Mi amor, calma... – dizia sorrindo.
Armando respirou fundo erguendo as costas outra vez. Pegou uma cadeira e arrastou-a para bem perto de Betty. Sentou-se e acariciou seu rosto.
A – Morri com tudo o que você me escreveu... – sua voz tinha um tom apaixonado – e depois de ler me pareceu que eu acordava de um sonho, e tive medo de você não existir e...
Beijou-a de novo. Betty novamente colocou as mãos em seu rosto se separando dele.
B – Mas, por mais que você não queira, temos que conversar.
A – Ah, sim, temos mesmo – disse de forma sugestiva –. Você me deve ainda umas respostas e estou louco para você fazer do jeito que escreveu lá...
Betty abaixou a cabeça, tímida. Armando beijou-lhe a testa.
A – E tem que ser agora, neste exato momento. Não vou suportar ficar longe de você depois de tudo o que eu li – sussurrou, manhoso, em seu ouvido
Betty levantou a cabeça. Estava embriagada pela proximidade dele, pelo seu cheiro, pelos seus beijos, tudo junto...
B – Do jeito com que você está me pedindo, eu é que não vou agüentar ficar longe de você.
Armando se levantou e pegou-a pela mão.
A – Então a gente inventa um almoço de negócios que depois vai gerar uma reunião, e voltamos quando acabarmos. Sem relógios hoje. Eu vou jogar o meu fora.
Betty se levantou. Iria para onde ele pedisse no estado em que se encontrava... Simplesmente, perdera o poder sobre o seu corpo.
Os dois saíram de mãos dadas. As meninas do quartel olhavam como se tivessem presenciado o que ocorrera dentro da sala. Betty foi até Aura Maria, disse que tinha um almoço de negócios e que provavelmente voltariam tarde. Que ligasse em seu celular caso a procurassem ou a Armando e somente se fosse muito importante e urgente. Aura Maria acenou positivamente diante de tudo o que ela dissera, com um sorriso de orelha a orelha, e o casal saiu.
Desceram sorrindo, como duas crianças travessas.
B – E para onde vamos? Ou é surpresa?
A – Vamos ver se você adivinha. Vamos para um lugar tranqüilo, espaçoso, onde estaremos rodeados por CDs de jazz e boa comida...
Betty riu dele.
B – Vamos para o seu apartamento... – disse enquanto ele abria a porta do carro para ela.
A – Sim... A não ser que não goste da idéia.
B – Não, muito pelo contrário. Me encanta a idéia.
E encantava mesmo, tanto que já nem se lembrava mais daquela primeira visita fatídica que tivera.
Armando entrou no carro. Pegou a mão dela e beijou-a.
A – Meu apartamento já está perdendo a sua presença e está ficando frio e impessoal de novo.
Betty sorriu sacudindo a cabeça.
B – Já? Mas eu estive lá na noite passada...
Ele ligou o carro e o pôs em movimento.
A – Está se viciando em você, assim como eu.
Betty estava vermelha. Não sabia fazer nada além de sorrir.
Armando dirigia o carro e Betty estava com a cabeça deitada em seu ombro. O carro flutuava na rua e ele flutuava dentro de si, calmo, até que, revendo todas aquelas palavras, a farpa da resposta da lua de mel em Cartagena entrou-lhe na carne, incomodando-o com uma dorzinha irritante, que não era capaz de lhe tirar do estado em que se encontrava, entretanto, que não o permitia a voltar mais à plenitude inicial. Olhou rapidamente para Betty, deitada em seu ombro... Por que diabos Cartagena? Havia San Andréas, Santa Marta, Ilhas Providentia... Fechou a mão e bateu-a de leve no volante. Betty estranhou e levantou a cabeça. Mas eles haviam chegado e Armando parou o carro. Ele sorriu a ela torcendo para que ela não perguntasse nada e abriu a porta do carro saindo rapidamente para abrir a porta para ela. Betty saiu do carro com a ajuda de Armando que a prensou contra o veículo dando-lhe outro beijo, como se quisesse sugar-lhe a resposta. Em vão. Aquilo começou a virar uma bola de neve dentro dele.
Pegou na mão de Betty e subiram.
Enquanto subiam, Betty percebeu que havia alguma coisa estranha com Armando, desde quando ele bateu no volante. Alguma coisa lhe dizia que era algo relacionado com suas respostas naquele questionário. Não perguntou nada, porque sabia que a hora de terem uma conversa estava chegando, o que fazia seu sangue correr mais rapidamente nas veias. Talvez sua pupila estivesse ligeiramente dilatada. Mas o que lhe denunciava mesmo eram as mãos, que começavam a suar.
Largou da mão de Armando e enlaçou sua cintura. Armando encaixou a cabeça dela no seu peito e permaneceram assim, até que a porta do elevador se abriu e eles entraram no apartamento.
Betty se separou dele e Armando jogou as chaves do carro na prateleira mais próxima que encontrou, enquanto ela deixava a bolsa em cima da mesa de centro. Ele foi até ela em seguida, abraçando-a por trás e beijando-lhe o pescoço.
A – Certo, senhorita Pinzón, é hora de termos a nossa conversa.
Betty era só sorrisos.
B – Não acho que esse deveria ser o tom da nossa conversa.
A – Eu, particularmente, não consigo pensar em outro... – disse ainda distribuindo beijos pelo seu ombro, pescoço e orelha.
A – E ainda estou morrendo de curiosidade em saber de uma certa fantasia que uma certa senhorita tem...
Betty virou-se para ele.
B – Certo, mi amor, vou te dizer...
E beijou-lhe o lóbulo enquanto sussurrava a ele.
B – Minha fantasia era que um certo cavaleiro lindo, adorável e charmoso, como um príncipe daqueles filmes de capa e espada, viesse até mim, e me enxergasse mais que qualquer outra pessoa no mundo, e fizesse amor comigo docemente, me respeitando durante cada segundo... Numa cama enorme, como que num palácio...
Cada sussurro, cada beijo, cada movimento de sua língua, excitava mais Armando que, assim que ela acabou de dizer tais palavras, carregou-a em seu colo e levou-a para o quarto.
Amaram-se, sem demora, cada um perscrutando o corpo do outro, docemente, como Betty descrevera em sua fantasia, até que chegaram ao clímax e Armando beijou-a, deitando-se ao seu lado e Betty deitou a cabeça no peito dele.
Ficaram um tempo em silêncio, ela escutando o coração dele voltar ao normal, quando, de repente, ele e ela cavalgavam num cavalo negro, em direção a um palácio vitoriano. Os guardas prestavam reverência a Armando, e eles entravam. Ele descia do cavalo, ajudava-a a descer, e carregava-a no colo através de uma escada comprida que dava para um quarto imenso, onde a luz batia e o deixava multicolorido. Armando beijava-a longamente e ela começou a sentir cócegas no rosto. A imagem começou a se derreter na sua frente e ela abriu os olhos. Seu Armando que lhe beijava a face.
A – Ah, mi amor... Não queria te acordar, mas sua expressão estava tão linda que não resisti.
Betty lhe sorriu e se esticou na cama.
B – Estava sonhando com a minha fantasia.
Armando sorriu.
A – Então eu sou sua fantasia? – Pergunta relembrando o que ela dissera antes.
B – Desde sempre. Antes você não tinha rosto. Mas depois que eu entrei na Ecomoda, tudo ficou nítido pra mim.
Armando beijou-lhe a testa.
A – Te amo tanto que penso que vou explodir em mim...
Beijaram-se. Em seguida Armando deitou a cabeça no travesseiro. As farpas começaram a incomodar novamente. Percebeu que as tentativas de tirá-las da carne tinham sido em vão. Maravilhosas, porém em vão. Passa as mãos pelo rosto, e escuta sua voz pronunciar as palavras.
A – Mas, Beatriz, por que Cartagena?
Betty leva um tempo até se situar, até que toda aquela leveza do seu sonho a deixe e ela comece a sentir o peso de chumbo das palavras de Armando. Então era esse o problema. Não importava o que ela fizesse para mostrar a ele que ele era o único homem na face da Terra para quem ela tinha olhos, ele sempre veria um problema em algum lugar. Acariciou o peito dele.
B – Bom, Armando, Cartagena é uma cidade muito importante para mim.
A – Ah, sei... – diz entediado.
B – É, sim. Primeiro porque foi lá que eu conheci o mar. Não pode imaginar o que foi isso pra mim, mi vida. É umas das coisas mais belas que já vi... E a cidade inteira de Cartagena é linda, tem um clima ótimo, as pessoas são muito amigas...
A – Imagino – Armando se sentiu um idiota porque agora estava enciumado da cidade.
B – Foi lá também que eu notei que as pessoas poderiam me tratar bem independentemente da minha aparência, me tratar diferente de como o faziam no meu próprio bairro e na Ecomoda. Com isso aprendi a confiar mais em mim, no meu interior. E graças a essa confiança eu pude me reconstruir e ousar até mesmo essa mudança por fora.
Para Armando essas palavras foram lâminas a cortar-lhe as vísceras. Sabia que aquele Armando do passado não era ele. Mas tinha as mesmas lembranças que aquele Armando estúpido, e era terrível conviver com elas... Apertou Betty contra seu peito. Ela continuou falando.
B – Tenho só boas recordações dessa cidade, mi amor. E sonho em poder voltar lá com você, e conseguir unir as duas melhores coisas que me aconteceram na vida em uma só lembrança.
Betty começou a beijar de leve o peito de Armando. Ele, que estava sério, voltou a sorrir.
B – O que acha? Nós dois, andando pela praia, de mãos dadas, observando o sol nascer... Nós dois de roupas leves, aproveitando o dia, visitando a parte histórica da cidade...
A – Eu tenho uma idéia melhor. Nós dois, o dia inteiro no hotel, sem roupa nenhuma fazendo amor em todos os cômodos e observando o por do sol pela janela.
Betty riu. Levantou a cabeça olhando pra ele.
B – Teríamos vários dias pra fazer várias coisas, não?
Armando riu.
A – Sim, vários dias...
Betty sentou-se na cama. Já que Armando tinha começado a falar, agora era a sua vez.
Armando acompanhou-a, ainda que não entendesse o porquê do ato.
B – Agora é a minha vez de perguntar. Por que aquelas perguntas, mi vida?
Armando sorriu sem graça.
A – O por quê do questionário, você quer saber?
B – Não, o por quê das perguntas. Era sobre isso que eu queria falar com você o tempo todo. Você me fez perguntas em que se mostrou uma pessoa totalmente insegura. É minha culpa? Eu não sei demonstrar o meu amor por você?
Armando ergueu as sobrancelhas, num aspecto abandonado.
A – Claro que não, mi amor, claro que não. Muito pelo contrário. Eu que não sei demonstrar o meu amor por você, eu que sempre enfio os pés pelas mãos, que sempre ajo feito um louco. Pareço uma criança mimada que necessita de atenção o tempo todo. E te sufoco. E eu sei disso... E é pior ainda eu saber e não conseguir usar a minha racionalidade de ser humano quando ela me é cobrada... Me pergunto todo dia, desde que nos reconciliamos, o que você viu em mim... Sim, talvez eu tenha uma bela aparência, mas é só. Fora isso não tenho nada que me faça especial, digno de uma mulher como você. Não sou comedido, sou louco, não sou educado, quando percebo meu tom está muito mais alto do que deveria. Não sou paciente. Não sei esperar. Sou possessivo...
Betty sorriu e se colocou por cima dele.
B – Armando, mi vida. Olha bem pra mim. Como você se atreve a se perguntar o que eu vi em você? Como você não consegue enxergar a pessoa maravilhosa que é? É um homem que sabe o que quer, é determinado, ousado. É um ser humano lindo que ama a família da qual faz parte, e que ama as pessoas inteiramente.
Armando sorriu.
A – Estou gostando de ouvir isso.
Betty se pôs a dar-lhe selinhos enquanto falava.
B – É inteligente, apreciador de uma boa música... Um ótimo dançarino... Tem um coração de manteiga, sim, tem sim... Sempre disposto a ajudar as pessoas com problemas na Ecomoda... É divertido, uma companhia maravilhosa... E, ainda, de lucro... É lindo... Não é só uma “talvez bela aparência” como você disse... Você é lindo! Tanto que me faz perder o fôlego quando o vejo...
Quando ela se aproximou para dar-lhe mais um selinho, ele segurou seu rosto e se demoraram em um beijo.
B – Ah, e entende de finanças, o que faz com que 70% das minhas conversas não sejam chatas.
Armando riu.
A – Acho sexy quando você fala dos números. Tem uma confiança que a deixa muito sexy.
B – Ah, certo, Armando, vou fingir que acredito... E não desvia da conversa.
Armando se virou jogando-a na cama.
A – Você é que me desvia, eu estou me comportando.
B – Mas, olha, para de pensar isso de si mesmo. Se fosse assim eu é que deveria ficar me perguntando o que você viu em mim esse tempo todo, e isso me remeteria a coisas desagradáveis e...
Armando a interrompeu.
A – Shhh. Não fala mais nada, mi amor, não fala mais. Eu prometo que vou afugentar essas idéias da minha cabeça tão logo elas surjam... E prometo mudar, ser um homem melhor.
B – Mas quem disse que eu quero que você mude? Só quero que confie mais em mim, e confie quando digo que não tenho olhos para mais ninguém além de você.
A – Em você eu confio, sempre. Não confio é nos outros. Eu conheço bem essa raça masculina, mi Betty, e não é fácil, não...
Os dois ficaram se olhando um tempinho, expressões tranqüilas, almas sorridentes.
A – Ainda tem mais alguma coisa para falar?
B – Acho que não.
A – Alguma pergunta?
B – Por agora não.
A – Eu tenho uma: Podemos desistir dessa coisa de questionário?
Betty sorriu.
B – Estava louca para você dizer isso.
A – Então damos por encerrada a conversa.
B – Sim, acho que muitas coisas importantes são percebidas através dos gestos.
Armando sorriu maliciosamente.
A – Ah, é? Então deixa eu te mostrar o quanto te amo, senhorita Pinzón.
Betty riu quando ele começou a fazer cócegas nela, e eles se beijaram e se amaram mais uma vez antes de deixar o apartamento.
Escrito desde Apr 7, 2008, 7:49 PM de la direcci�n IP 189.15.181.122