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Parte 20

by (Acceso umnovofinal)
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No final do expediente daquele dia Betty tinha uma porção de coisas atrasadas e urgentes para fazer. A saída com Dona Catalina para retirar o aparelho e depois as inúmeras visitas de Armando à sua sala a haviam atrasado demais, ainda que fossem agradabilíssimas e ela mesma ficasse olhando para a porta esperando que ele entrasse. Entretanto, agora não restava outro remédio a não ser ficar na Ecomoda até terminar pelo menos o mais urgente.



“Fora um dia divertido” pensava Armando enquanto pegava sua maleta para ir embora. Passara na presidência pelo menos umas quinze vezes, simplesmente para sentir o gosto de maçã do beijo de Betty. Mal ele chegava no próprio escritório e sentia como se não a tivesse beijado e aquilo lhe provocava uma inquietude que só passava quando ele voltava lá e a beijava de novo. Foi até o banheiro olhar-se no espelho. Sim, ainda era o mesmo Armando com a mesma idade... Muito mais radiante, mas a mesma idade.



Betty está separando uns papéis quando Armando aparece na porta do escritório com sua maleta na mão e estranha ver que ela não está pronta para ir embora.

A – Você ainda está trabalhando, mi amor? Já é hora de irmos. Não está cansada?

Betty olha pra ele e suspira.

B – Não posso ir agora, Armando. Tenho coisas urgentes para fazer – e logo volta a fixar os olhos nos papéis – Mas você pode ir, mi amor.

Armando contrai o cenho, como se ela tivesse lhe dito algo em uma língua estranha. Entra para a sala.

A – De jeito nenhum!Se você vai ficar eu fico também e vou ajudá-la.

Armando fica feliz com a oportunidade de ficar sozinho com sua Betty. Nos últimos dias estava sendo difícil encontrar uma desculpa para escaparem e namorarem.

Ele deixa a pasta em um canto, junto com a chave do carro, puxa uma cadeira e senta-se ao lado dela perguntando o que podia fazer para ajudá-la. Ela então lhe explica o que está fazendo e no que consistem aqueles documentos todos. Não há necessidade de explicar muito, pois Armando já está familiarizado com tudo, e ele se põe a ajudá-la, lançando-lhe sempre olhares furtivos, encantado com seu novo sorriso de algodão. Fazia um esforço muito grande para concentrar-se nos papéis quando o que ele queria era abraçá-la, beijá-la muito e possuí-la ali mesmo.

O telefone toca tirando-o daquele transe e Betty atende. Era Seu Hermes, preocupado, porque a filha ainda não chegara. Betty então lhe explica o que acontecera e lhe diz que chegará tarde. Depois de alguns protestos e recomendações, Seu Hermes finalmente desliga.

Betty fica olhando para o telefone com um olhar opaco.

B – Meu pai nunca vai entender que não sou mais uma criança... – ela suspira.

Armando se coloca do seu lado, bem próximo, bebendo a grandes goles o seu cheiro.

A – Deve ser difícil para ele ver que a garotinha dele cresceu e está se tornando uma mulher independente. Você precisa compreendê-lo, Betty. – ele acaricia seu rosto e seus cabelos enquanto fala.

B – Sim, eu sei, Armando. E parte da culpa é minha também, que mesmo depois de adulta continuei deixando que ele me tratasse como uma menina... Não sei como ele vai reagir quando souber de nós dois...

Armando assente, de sobrancelhas arqueadas.

A – Vai ser difícil . Mas ele vai ter que entender que estamos apaixonados e que nos amamos muito.

B – Mas ele vai se sentir enganado. Vai se dar conta que nós estivemos escondendo isso dele todo esse tempo...

A – Betty... Não se preocupe tanto, mi amor. Seu pai a ama e, no fim, vai ficar feliz ao vê-la feliz.

A esta altura eles estão muito juntos, trocando carinhos enquanto conversam.

A – Porque você está feliz, não está? – ele arqueia as sobrancelhas.

Betty sorri e assente como quem já teve o vislumbre do jardim do Éden.

Eles não podem mais resistir e se beijam. Estão tensos, com o desejo acumulado. Seus corpos sentem falta um do outro, sentem falta de consumar fisicamente o imenso amor que carregam no peito. Precisam unir seus corpos, assim como suas almas estão unidas. Armando a beija até senti-la perder o fôlego e gemer, dizendo seu nome entre outras palavras desconexas, maravilhado com cada reação do corpo dela enquanto o acaricia com um desejo incontrolável. Ele a sente completamente entregue e, levantando-se, a leva até o sofá. Estão em um caminho sem volta. Livram-se de suas roupas, sem nem perceber como e começam a dança sensual do amor. Nenhum dos dois consegue raciocinar. São somente emoção. As sensações vão crescendo até atingirem um nível insuportável e explodem em um êxtase arrebatador. Seus corpos tremem, transpiram, seus corações galopam. Armando se esforça para olhar para Betty e ver seu semblante transtornado pelo prazer, pois isso o faz sentir-se poderoso. Ela era sua mulher, sua amante, o amor de sua vida, era maravilhosa e era dele, somente dele. Com essa sensação de felicidade ele desaba sobre o corpo de Betty que o abraça, e assim eles permanecem até que possam retornar do mundo mágico onde estavam.



Algum tempo depois, Betty, já totalmente desperta, continua acariciando os cabelos de Armando que descansa a cabeça entre seus seios. Pensa na loucura maravilhosa que acabaram de fazer, em todas as sensações... Memorizara uma por uma, como um filme quadro a quadro... Pensa também na outra vez em que fizeram amor naquela sala, e o quão perfeita foi, versos de poesia pura... Seus pensamentos, entretanto, a levam para uma via escura e íngreme sem que ela se dê conta, e se vê perscrutando espectros de outras mulheres que poderiam também estar ali. Seu esôfago queima, e ela não controla a vontade de perguntar, mesmo sabendo que Armando pode não gostar da pergunta.

B – Armando?

A – Sim, mi amor? – com voz sonolenta.

B – Você já fez isso outras vezes, aqui na Ecomoda, com outras mulheres?

Armando desperta imediatamente depois de toda a água fria que ela lhe jogara na cabeça. Levanta a cabeça e a olha nos olhos, a vê longe demais, e, por um raio de segundo, sente, desesperado, a sua falta.

A – Não, Betty. Nunca – ele afirma peremptoriamente.

B – Não mesmo? – Betty se encolhe em si mesma com medo da resposta, mas não consegue não olhar.

A – Não acredita em mim? – A figura dela praticamente some, e ele tem vontade de gritar.

Betty respira fundo, por que a afirmação dele lhe chega tão baixa aos seus ouvidos, como se tivesse que se esforçar para escutá-lo. Sabia que esse Armando era outro Armando, mas esse Armando poderia não querer falar do outro... Tinha que acreditar no que ele dizia, mas teve medo de que aquele lugar, o lugar de ambos, já estivesse manchado com um passado, como uma folha borrada com uma borracha de má qualidade...

B – Eu acredito... Mas é que você pode estar dizendo isso somente para não me magoar...

A – Não, mi amor. Eu nunca cheguei as “vias de fato”, digamos assim, com ninguém mais aqui na empresa.

B – E por que não? – Ela pergunta já se sentindo a folha branca outra vez...

A – Não sei... – pensativo – Acho que eu tinha maior autocontrole antes. Mas com você eu não tenho... Nenhum... Com você minhas emoções falam mais alto.

Betty sorri diante da revelação e Armando mais uma vez fica encantado com seu sorriso.

A – Eu amo você, Beatriz! Não consigo colocar em palavras o quanto.

B – E eu amo você, Armando! E estou tão feliz que tenho medo...

A – Medo de que, mi vida? – segurando seu rosto

B – Medo de acordar um dia e descobrir que foi tudo um sonho. Medo que aconteça algo que o afaste de mim...

A – Não, mi amor. Não é um sonho. E nada, a não ser a morte, vai me afastar de você...

Ela o olha, espantada, ficando rígida. Por um segundo essa hipótese passa por sua mente como uma lâmina a rasgar-lhe a vida, e ela se assusta imensamente.

B – Não diga isso, Armando! Nem de brincadeira! – quase grita.

A – Desculpe! Me perdoe, mi vida! Não fique assim...

Armando a beija avidamente como se quisesse varrer de sua memória o que dissera.

Sentindo seu corpo amolecer novamente, Betty interrompe o beijo, antes que se deixe levar pelo desejo outra vez.

B – Doutor, ainda temos algumas coisinhas para fazer...

A – Hum, hum... Concordo. Temos muitas coisinhas para fazer... – recomeçando as carícias.

B – Não, Armando! – rindo – Estou falando do trabalho, dos papéis , mi amor...Ainda não terminamos.

A – Depois, Betty... Primeiro temos outros assuntos para resolver muito mais importantes...

Ela desiste de tentar resistir porque sabe que é uma batalha perdida. E eles se amam outra vez. Desta vez lentamente, saboreando cada sensação, cada carícia como num banquete de iguarias.

Após saciarem seus corpos terminam o trabalho mais urgente, deixam a Ecomoda, cansados, porém muito felizes. E repetem o mesmo ritual de quase todos os dias: Armando a segue em seu carro e espera até que ela lhe acene, lhe atire um beijo e entre em casa em segurança, para só então seguir para seu apartamento.





Mais um dia amanhece feliz para Beatriz Pinzon Solano. Ela escolhe com cuidado a roupa que vai usar, faz a maquiagem básica de sempre, capricha nos detalhes, arruma os cabelos, prendendo parte deles, e sorri para o espelho. Quem lhe devolve o mesmo sorriso é uma mulher radiante, e bonita, diferente da com quem estava acostumada a se encontrar nas manhãs cinzentas pelas quais tinha passado... Sorri de novo. Está ansiosa para chegar logo à Ecomoda e descobrir se Armando ainda estava com toda aquela vontade de beijá-la do dia anterior, porque ela, sim, estava com muita vontade de beijá-lo.



Armando sonhara com Betty a noite toda. Cobria aquela boca linda de beijos de sabores diversos e faziam amor descompassadamente na sua cama como se fossem as duas únicas pessoas do mundo. Acordou com dificuldade, se agarrando nos lençóis para não sair de onde estava, mas a sua consciência lhe disse que ele também a veria no mundo real, e então ele abriu os olhos e foi direto para o banho. Queria muito sentir os lábios de Betty novamente. E não via nada na sua frente senão isso.

Foi para a Ecomoda cantarolando e batendo os dedos no volante.



Betty chega à empresa feliz, radiante e louca para encontrar Armando. Por onde passa recebe elogios pelo seu novo sorriso e agradece encabulada. Ainda não se acostumara a ouvir elogios por sua aparência física e ficava sempre muito sem jeito.

Chega a sua sala e encontra uma cesta de flores do campo, suas diversas cores espocando cheiros diferenciados no ar, talvez pelos movimentos de Aura Maria ajeitando-as, doida para saber o que estava escrito no cartão. Betty aproxima-se, sorrindo, lembrando-se do dia em que Armando lhe dera um buquê de rosas vermelhas e prometera que não seria a última vez que ela receberia flores. Ela pega o cartão diante de uma curiosíssima Aura Maria e lê, emocionando-se com as palavras que ela sabia serem sinceras

“Flores de muitas cores para mostrar como passei a enxergar o mundo depois que você entrou em minha vida. Te amo. Do seu, Armando”. Dirige-se à sala de Armando, deixando uma decepcionada Aura Maria para trás porque não lhe contara o teor do cartão. Dá uma leve batida na porta e entra. Assim que a vê, Armando, que estava tentando fazer uma ligação, solta imediatamente o telefone e vai até ela, sorrindo, acolhendo-a num abraço apertado.

A – Bom dia, mi amor! Você está linda esta manhã!Aliás, você está linda todas as manhãs! Você está sempre linda! Você é linda!

B – Bom dia! – responde sorrindo com o rosto apertado contra o ombro dele.

A – Encontrou as flores que eu trouxe para você?

B – Sim. São lindas! Maravilhosas! Obrigada, mi amor! Principalmente pelas palavras que me escreveu.

A – Não escrevo nada diferente do que sinto, Beatriz.

Eles entregam-se a um beijo doce, saboreando um ao outro sem pressa.

Ficariam assim por muito tempo mais se não fossem interrompidos por batidas na porta que os trazem de volta à Terra. Separam-se a contra gosto. Armando contrai a expressão extravasando a dor do tombo levado.

A – Entre.

Era Sandra, avisando que ele tinha uma chamada de um empresário franqueado de Porto Rico. Só então ele se dá conta de que deixara o telefone fora do gancho.

B – Atenda, Armando. Depois conversamos.

Armando não gosta nenhum pouco da interrupção, mas caminha de volta a sua mesa, revirando os olhos, para atender ao telefone, amaldiçoando-o em pensamento.

Betty lhe atira um beijo antes de sair e quando a porta se fecha atrás dela ele sente como se as luzes da sala tivessem se apagado e tudo tivesse envolto em brumas. Atende o telefone desanimado.



Betty retorna a sua sala e olha encantada novamente para as flores, parece uma pintura impressionista, salpicada de cores e tons. Suspira e começa a organizar suas coisas para trabalhar. Alguns minutos depois, Nicolas entra para entregar-lhe uns papéis. Está mais curvado que o natural, e já não tão arrumado como de costume. Betty percebe o semblante triste do amigo e diz:

B – Nicolas, ainda triste por causa da oxigenada?

A – Ah, Betty! Isso nunca vai passar. – fazendo um característico gesto com as mãos.

Uma cortina cinza de um tecido frio desce sobre os olhos de Betty. Estava tão feliz vivendo sua história de amor que não havia dado atenção suficiente a seu melhor amigo quando ele mais necessitava.

B – Nicolas, venha cá. – ela se levanta e caminha em direção ao sofá – Sente-se aqui, vamos conversar.

Ele a obedece, não muito animado com o convite. De tão curvado pelo peso da tristeza, ele parece menor, e o cinza da cortina de Betty fica mais cinza ainda.

B – Nicolas! Reação, homem! Você trabalha numa empresa de modas! Tantas modelos lindas...

N – Ah, Betty, mas a Patty era diferente... Tinha um brilho nos olhos que nunca vi em outra mulher...

B – Brilho de inveja, de ambição – diz sorrindo da sua forma característica.

N – Ah, você diz isso porque não a compreende... Uma mulher deslumbrante, sem estudos e abandonada pelo marido... É difícil a situação dela, Betty, é difícil...

B – Mas ela nunca amou você, Nicolas.

N – Mas é porque não tivemos tempo, Betty, vê bem, tempo... Ultimamente eu estava conquistando ela, bem aos poucos...

B – Muito bem aos poucos, não, é? Tanto que ela se foi...

N – É, se foi, e deixou meu coração pequenininho, pequenininho.

B – Mas você tem que pensar para frente, meu amigo, ela se foi, mas existem muitas outras...

N – Não, pra mim, não. O amor da minha vida se foi, para sempre. Preciso ir, Betty. Obrigado pelas palavras, mas...

E sai da sala.

Os olhos de Nicolas estavam como duas janelas fechadas, e o coração de Betty se sufocava em vê-lo assim. Entretanto, não pensava em mais nada para poder dizer a ele, algo eficaz que o tirasse daquela depressão logo, era terrível vê-lo daquela maneira, ainda mais numa época em que tudo estava dando certo para ela. Queria compartilhar todos esses momentos com ele, mas sua voz se calava quando se deparava com ele naquele estado. Tinha que pensar em alguma coisa...

Nesse momento Armando entra na sala de Betty, rapidamente se sentando ao lado e acordando-a com um beijo. Betty se assusta de leve, mas sorri e lhe corresponde aquele beijo roubado na hora certa, beijo esse que, para Armando era como drogar a sua alma fazendo-o esquecer de quem era e onde estava.

A – Desculpa, mi amor, mas fazia tanto tempo que não sentia seus lábios nos meus... muito tempo nesse mundo, pelo menos, e aquela última vez não contou porque fui bruscamente interrompido.

B – Como assim? – Com um largo sorriso inferindo do que se tratava.

A – Não nesse mundo porque você reinou sobre meus sonhos toda a noite. Você e esses lábios de ambrosia, maravilhosos.

B – Então posso imaginar que passou bem a noite.

A – Ah, sim, e muito bem acompanhado, sem dúvidas.

Betty sorri e abaixa a cabeça. Armando beija-lhe a testa.

A – Mas por que quando cheguei você estava triste?

Betty suspira, como que dividindo o peso com Armando.

B – Estou preocupada com Nicolas, ele está mal pela Patrícia...

A – Ah, mas ele trabalha numa empresa de moda, há tantas modelos!

B – Foi o que eu disse para ele, mas não surtiu efeito... E não tenho idéia do que posso fazer para animá-lo...

Armando assente, ficando calado logo em seguida, e Betty tem uma visão com ele e Nicolas conversando na sala deste. Seria ótimo que Armando conversasse com ele, pois entenderia melhor o que se passa e saberia escolher as palavras certas para dizer. Diante desse raciocínio a visão ganha contornos mais nítidos, e ela diz sem hesitar.

B – E se você conversasse com ele?

Armando olha-a como se não tivesse entendido a frase.

A – Eu?

B – É. Você saberá conduzir essa conversa muito melhor, sabe como ele se sente, mais do que eu saberia... E eu ficaria tão mais tranqüila...

Quando Betty começou a falar, Armando não estava muito animado com a proposta feita, entretanto, aquela última frase foi como um tiro de fuzil direto nos seus pretextos.

Ele se remexeu no sofá.

A – Se for para tirar esse véu escuro dos seus olhos... E se você me prometer muitos beijos se eu for bem sucedido na minha tarefa... Por mim, está bem.

B – E se você não for?

A – Daí quem te dá os beijos sou eu.

Betty riu e Armando sentiu como que presenteado com um tesouro em ver o sol no seu sorriso e sua face calma outra vez.



Escrito desde Apr 7, 2008, 7:50 PM
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