--


Parte 26

by (Acceso umnovofinal)
Forum Owner

 
3 semanas depois...



Chegou finalmente o dia do lançamento da edição comemorativa da revista “Mulheres”, que traria Betty na capa. Todos na empresa estavam muito excitados porque haviam sido convidados para o coquetel naquela noite. As meninas do quartel não falavam em outra coisa. Até Nicolas estava animado e havia comprado roupa nova para ir. O único que não demonstrava muito entusiasmo com o assunto era Armando... Betty seria o centro de todas as atenções e ele sentia ciúme de todos os possíveis olhares deitados sobre ela. Sentia-se mortificado pelo fato de que não poderia estar ao seu lado como seu “namorado”. Seria apenas um convidado mais. Ele e Betty haviam chegado à conclusão de que era melhor esperarem o lançamento da revista para conversarem com Seu Hermes sobre o relacionamento dos dois. Betty se sentiria mal que todos pensassem que ela ocupou o posto em que estava justamente por ser a namorada de um dos donos da empresa. Armando, mesmo não dando importância para o que os outros pensariam, respeitava a sua posição, e assim eles o fizeram.

Seu Hermes, por sua vez, era um dos mais animados de todos. Estava radiante desde que descobrira que iria chegar com a filha de braços dados na festa e fazer uma grande entrada. Dona Catalina e Betty, com muito custo, conseguiram convencê-lo a “repaginar o visual”, como Dona Catalina dissera. Levaram-no às lojas, compraram-lhe um terno novo e mais moderno, convenceram-no até mesmo a submeter-se aos cuidados de um outro barbeiro, diferente do que ele estava acostumado a ir há anos, em seu bairro. E embora ele tivesse dado um pouco de trabalho de início, acabou gostando do resultado final, ainda que não o admitisse. Mas Betty conhecia sua vaidade e ele não ficava se olhando no espelho a todo momento, com semblante satisfeito, sem razão.

Também Dona Júlia recebeu tratamento especial, e iria passar quase todo aquele dia em um salão de beleza, presente da filha que ainda havia mandado fazer para a mãe um vestido especial para a ocasião, com a mesma estilista que fizera o vestido que ela própria iria usar no evento.

Desde cedo Betty percebera Armando um tanto calado e sério. Resolveu ir conversar com ele. Saindo silenciosamente de sua sala, porque seu pai ainda se encontrava trabalhando na sua antiga salinha, bateu levemente na porta do escritório de Armando e entrou, fechando a porta com chave atrás de si.

Armando levantou os olhos dos papéis que estava lendo ao vê-la entrar e lhe sorriu. Seus olhos traziam o sol lá de fora para dentro do escritório.

A – Oi, mi amor! – ergue as sobrancelhas ao vê-la trancando a porta – Por que está trancando a porta?

B – Por que meu pai está aí, e eu quero conversar com você um minutinho...

Ela vai em direção a ele, pára ao seu lado e lhe estende a mão.

Armando sorri, levanta-se aceitando a mão que ela lhe oferece.

A – Então você quer conversar comigo? – com cara maliciosa – só conversar mesmo?

Betty responde enlaçando seu pescoço e beijando-o nos lábios avidamente, surpreendendo-o.

A – Estou adorando esta conversa, Beatriz... – com os lábios ainda colados aos dela.

Ela ri e volta a beijá-lo. Mas interrompe o beijo quando Armando começa a deslizar as mãos por seu corpo...

B – Eu vim perguntar o que você tem hoje. Por que está tão calado, tão tristinho?

Eles ainda estão abraçados. Ela acaricia sua nuca com uma das mãos e passa a outra mão em seu rosto.

A – Nada, mi amor... Estou bem – ele desvia os olhos do rosto dela.

Sua voz soa longe, quase um sussurro.

B – Nada, não! – ela balança a cabeça – Diga-me, o que o perturba, mi amor?

Ele se solta dela e dá alguns passos ficando de costas, tirando os óculos.

A – Ah! Betty! São minhas neuroses de sempre, você já sabe...

Ela vai até ele, lhe acaricia os ombros por trás e depois o abraça pela cintura. Ele mantém a cabeça baixa.

B – É o coquetel desta noite que o está perturbando, não é? – encostando o rosto em suas costas.

A – Sim... – ele responde em voz quase inaudível – mas eu não quero que você pense... Que pense que eu...

As palavras brincam de esconde-esconde com ele, deixando-o mais nervoso. Ele vira-se de frente para ela, segura seu rosto entre as mãos e lhe diz:

A – Beatriz, você merece tudo isso! Merece mais do que ninguém. E eu tenho muito orgulho de você! Muito mesmo! Mas me incomoda saber que hoje eu serei apenas um convidado a mais na festa, me entende?

Ela abaixa a cabeça.

B – Entendo, Armando. Eu entendo sim. Muito mais do que você imagina.

Ela se lembra muito bem de todas as vezes em que se sentiu apenas uma convidada a mais, ou, pior, uma intrusa em todos os coquetéis e eventos em que acompanhou Armando enquanto era sua assistente. Mas não diz nada. Seria uma competição absurda.

B – Você pode até ser apenas mais um convidado para as outras pessoas nesta festa. Mas será a pessoa mais importante para mim.

Armando sorri. Sente o sol na sala novamente. Ela sempre sabe a coisa certa a dizer.

B – Mas eu também vim aqui para lhe dizer outra coisa... – sorri com ar travesso.

Armando prende a respiração, sabe que quando ela faz aquela expressão é porque teve alguma “idéia brilhante” para enrolar Seu Hermes e conseguir algum tempo para os dois...

A – O que foi, Betty?

B – Bem... Esta tarde eu vou sair mais cedo e vou diretamente para a casa de Dona Catalina, onde estarão as pessoas que vão me arrumar...

A – Sim, eu já sei disso, Betty... – impaciente.

B – E como estes coquetéis costumam durar quase a noite toda e meus pais não estão acostumados a ficar acordados até tão tarde e muito menos em festas...

A – Betty, deixe de rodeios, sim!

B – (rindo) Meu pai concordou que eu passasse a noite na casa de Dona Catalina.

Armando franze as sobrancelhas, tentando estabelecer sentido no que ela disse. Não entende por que Betty está lhe dizendo aquilo, até que uma idéia começa a se formar em sua mente... Estaria ela sugerindo que... Não. Sorri. Não podia ser! Ele a olha de lado com um olhar de interrogação e ela sorri. Armando não acredita.

A – Betty, você está me dizendo que vai passar a noite comigo?

B – Pelo menos o que sobrar dela depois do coquetel... – ela encolhe os ombros, um pouco tímida.

A – Vai amanhecer ao meu lado?

B – Hum, hum – ela assente enrubescendo ligeiramente.

O sol que Betty trouxera explode nas vistas de Armando, incendiando-o. Ele quase não cabe dentro de si, tem ganas de gritar e soltar-se dele mesmo. Abraça Betty levantando-a e rodopiando com ela pelo escritório.

Coloca-a no chão.

A – Mi amor! Mi amor! Essa é a melhor notícia que você poderia ter-me dado!

E a abraça outra vez, apertando-a forte, numa tentativa de passar para ela toda a felicidade que sentia, de modo que pudesse caber em si novamente.

Betty adorava vê-lo assim, animado, mais ainda por saber que ele estava chateado com o coquetel.

De repente ele a segura pelos ombros e a olha sério.

A – E Catalina? Ela sabe disso? Você conversou com ela? Está disposta a nos ajudar?

B – Sim, Armando, eu conversei com Catalina. Está tudo certo. Você apenas tem que se lembrar de levar minhas coisas para seu apartamento esta tarde, para que eu possa me trocar amanhã cedo.

A – Ah! Betty! Betty! – abraçando-a e falando por cima de sua cabeça – e eu que pensei que esta seria uma noite de penitência para mim...

E a beija docemente.

A – Eu já disse que te amo?

B – Hum... – fazendo cara de quem está tentando se lembrar – hoje não, doutor.

A – Não!? Mas que falha imperdoável! Eu te amo, Beatriz! Te amo! Te amo! Te amo!





O Coquetel





Armando chega ao clube e se surpreende ao perceber que está ansioso. Ansioso para vê-la, sobretudo ansioso para que o coquetel termine logo e ele possa levá-la para casa. Imaginara isso tantas vezes enquanto estava só no seu apartamento, todavia, ainda não podia crer que, de fato, aconteceria.

Caprichara no visual lembrando-se de que ela lhe dissera que ele seria a pessoa mais importante para ela naquela festa.

Dá uma olhada em volta. Já estivera lá algumas vezes. Era um ambiente bastante requintado e naquela noite estava muito bem decorado, o jardim todo iluminado e todos os convidados muito bem vestidos.

Apresentou seu convite e entrou. Foi surpreendido logo na entrada com um enorme cartaz reproduzindo a capa da revista com a foto de Betty e a seguinte Manchete: “Beatriz Pinzon Solano: A revolução do cotidiano. A executiva que inovou o mundo da moda ao trazer para a passarela a beleza da mulher comum.” Ele já conhecia a foto, pois Manuela havia enviado todas para Betty escolher quais ela gostaria que fossem publicadas, mas ele não tinha visto ainda a capa da revista porque esta só estaria à venda no dia seguinte, uma vez que as editoras não quiseram que o coquetel se convertesse numa noite de autógrafos. Diante daquela visão, seu tubo digestivo queima em ansiedade. Suas sensações se misturam na garganta e ele se sente aturdido. É um misto de ciúme e deslumbramento, tão intrinsecamente entrelaçados que é impossível distinguir o fim de um e o início de outro. E dói. Dói ao ponto de ele desejar que ela não tivesse se convertido na mulher maravilhosa em que se convertera, que continuasse feia, simplesmente para que fosse o único a tê-la, bem escondida da vista de todos. Todavia, quando escutou dois camaradas do seu lado comentarem sobre a beleza dela, no meio do ciúme que sentiu, brotou uma flor tímida de orgulho, porque aquela moça espetacular do cartaz, sem deixar nada a desejar a nenhuma modelo, era sua. Ele sabia que ela o amava e, por não merecê-la, se sentia duplamente privilegiado. Sacudiu a cabeça e decidiu buscar uma bebida para ver se acalmava essa ansiedade, todavia, mal deu três passos, sentiu alguém beijando-lhe a bochecha. Virou-se, assustado, e uma mulher morena de cabelos curtos e olhos verdes o olhava sorrindo. Ele simplesmente não fazia idéia de quem era.

? – Oi, Armando! Como está, lindo?

Armando moveu os olhos para os dois lados.

A – Muito bem, e com muita pressa, com licença – disse sorrindo nervosamente e saiu sem olhar para trás.

Parou em um canto mais escondido, perto da entrada e respirou aliviado pensando que Betty não estava ali para ver aquela cena. Uma mulher beijando-o do nada não era uma cena muito agradável de ser presenciada.

Um garçom passou por ali e ele pegou um uísque. Quando virou-se novamente, estava cercado por Silvia Marinelli, Valentina Rondon e Claudia Bosh. Quase cuspiu o gole de uísque que tomara.

SM – Olá, Armando, há quanto tempo...

Estavam todas com um copo de alguma coisa na mão.

A – Olá, meninas – disse, levantando seu copo, profundamente constrangido.

CB – Finalmente voltamos a ver você nos eventos.

VR – Estava sumidinho, mi vida...

Ele olhou para o uísque e desistiu de beber, a sala já rodava demasiadamente.

VR – Mas, agora não, né, meninas, ele está solteirinho de novo!

SM – Livre para passar um tempo conosco, não? Se divertir de verdade, voltar aos velhos tempos...

Armando via tudo embaralhado. Olhava as três e parecia que as suas vistas triplicaram a mesma pessoa.

A – Desculpem, meninas, mas nada de diversão hoje, estou aqui a trabalho, a presidente da Ecomoda vai ser homenageada, e estou aqui junto com ela para representar a empresa.

CB – Ah, Armando! Essa não convenceu a gente! Ela que vai ser homenageada, não você, então enquanto ela representa a empresa, você pode muito bem representar outra coisa.

Elas se aproximaram mais dele.

SM – Representar, quem sabe, aquele Armando antigo que conseguia escapar em todos os coquetéis para uma diversão mais... Íntima – disse tocando seu ombro.

Ele sentiu sua ansiedade sufocando-o e olhou em volta, o espírito gritando para sair dali antes que Betty chegasse. No entanto, materializando todos seus pesadelos, seus olhos se encontram justamente com os de Betty que acabara de entrar. A visão que ele tem dela paralisa todos os seus músculos e ele a olha, de onde está, de cima a baixo, perplexo, admirado. Sua mente era abstração pura ao tentar buscar um adjetivo que lhe vestisse tão bem quanto aquele vestido tomara que caia num tom de verde clarinho que se ajustava ao seu corpo até a altura dos quadris e depois caia esvoaçante até seus pés calçados numa delicada sandália prateada. A cor do vestido e seus cabelos negros parcialmente presos para trás, em cascatas de cachos, ressaltavam a pele perfeita de seu colo, e ela trazia uma diáfana echarpe da mesma cor do vestido jogada sobre os braços, seus olhos lindos e seus lábios bem feitos, perfeitamente maquiados. Era, sem sombra de dúvidas, a mulher mais linda da festa, e era dele... E ele queria gritar isso para todo mundo ouvir...

SM – Então essa é a presidente?

CB –Não entendi...Me disseram que a presidente era sua ex-assistente. Eu pensei que fosse aquela feia, mas não é ela não né, Armando? Armando?

Ele nem sequer a ouvia, fascinado diante da visão de sua Betty, sem conseguir desviar os olhos dela.

Claudia estalou os dedos frente aos olhos dele, mas não foi capaz de tirá-lo do transe.



Betty chegou de braços dados com Seu Hermes que crescera uns vinte centímetros, tamanho o orgulho que tinha dela. A filha parecia um anjo do céu com aquele vestido longo verde claro e ainda seria a estrela daquela noite.

Betty, porém, estava ansiosa, muito mais por pensar o que Armando acharia do modo como estava vestida do que pelo efeito que causaria nas pessoas.

Ao entrarem, todos viraram os rostos em sua direção e a imprensa correu para a entrada para bater as fotos, o que fez seu coração disparar e suas mãos gelarem de uma vez. Todavia isso não a impediu de buscar Armando com os olhos por todo o lugar. E quando o viu, alguma coisa quebrou dentro de si, ele simplesmente estava rodeado por três mulheres deslumbrantes, dentre elas Claudia Bosh... Ela percebeu que ele olhava-a, mas não se movia e isso a chateava mais... Tentou desviar seus olhos de Armando e sorrir para as câmeras, contudo sempre voltava a vê-lo, e ele permanecia no mesmo lugar.



Quando as câmeras deixaram Betty em paz e o fluxo de seu sangue voltou às rotas certas, Armando simplesmente foi em direção a ela para cumprimentá-la, aproveitando que Seu Hermes conversava animadamente com uma repórter. Queria abraçá-la, beijá-la, dizer que ela estava... Estava... Como uma princesa de contos de fadas, e nada passava por sua cabeça além disso. Entretanto ele foi barrado por um homem louro de cabelos compridos amarrados que entrou na sua frente oferecendo uma rosa a Betty. Ele escutou parte da conversa dele, e não era mais que uma seqüência de cantadas baratas que fez seu sangue ir todo para a cabeça manchando sua vista de um vermelho vivo ácido.

Ele entrou no meio dos dois.

A – Com licença, mas preciso conversar urgentemente com ela.

? – Mas não sou eu quem decide isso, senhor, é a senhorita.

Armando olhou-o fulminando com o olhar. Fechou o punho... Na sua mente, já o via afundando o nariz dele na cara.

Betty percebeu que Armando estava para golpeá-lo, e se colocou no meio dos dois.

B – É urgente – Betty se desculpou com o homem e saiu com Armando.

A – O que foi aquilo, Betty? Por que você aceitou a rosa daquele homem?! Por que escutou aquelas cantadas estúpidas, por que sorriu pra ele???

B – Armando, eu fui gentil, o que você queria que eu fizesse?

A – Que o mandasse embora! Que o ignorasse! Que gritasse a ele que seu... – parou no meio da frase, ela não podia dizer o que ele queria.

Seu Hermes colocou a cara no meio dos dois.

SH – Posso saber o que se passa?

Armando deu um passo para trás de susto.

A – Estava cumprimentando Betty, Seu Hermes.

Seu Hermes sorriu orgulhoso.

SH – Está bonita minha filha, não está, Dr Mendoza?

Armando olhou-a por inteiro mais uma vez.

A – Não tenho nem palavras para descrever beleza dela hoje, Seu Hermes.

Seu Hermes riu, bateu a mão no ombro de Armando.

SH – Sim. Mas não olha demais, não, que ela é uma moça de respeito. Vamos, minha filha, há muita gente para cumprimentar.

E saiu arrastando Betty, deixando Armando com a cabeça a latejar de raiva pensando em quantos homens a acariciariam com palavras doces naquela noite.



Armando deixa seu copo de uísque numa bandeja pegando outro logo em seguida tomando todo seu conteúdo de uma só vez. A partir disso segue Betty para todos os cantos em que ela vai com Seu Hermes, assistindo, sem poder interferir, uma legião de pessoas, principalmente homens, aproximando-se dela para cumprimentá-la, e a admiração nos olhos de todos eles, enquanto ela lhes sorria. No caminho, um número incontável de mulheres o pára para cumprimentá-lo e ele não lembra de quase nenhuma. Aquela situação o irrita demasiadamente, e quando sente uma mão tocar seu ombro, se vira com os olhos esbugalhados, pronto para enxotar a pessoa de perto dele, mas respira fundo engolindo a raiva quando percebe que é Catalina.

A – Oi, Cata! – Abraça-a porque não sabe o que fazer.

C – Armando, você está bem? Aconteceu algo? Me parece muito nervoso...

Armando gesticula debilmente tentando organizar as idéias.

A – Você viu a Betty?

C – Cheguei agora, não a vi aqui, mas eu a arrumei. Ou melhor, supervisionei a arrumação.

A – Cata, por que você a vestiu tão maravilhosamente, porque deixou que a maquiassem tão perfeitamente? VOCE QUER ME MATAR?!

Catalina riu.

C – Ah, então é isso. Fico feliz de que tenha gostado da produção dela porque ela falou em você o tempo todo.

A – É, mas, além de mim, TODOS os homens também gostaram da produção dela! Isso não é bom, Cata, não é bom...

Armando olhou em volta e se deu conta de que perdeu Betty de vista, bufou de raiva. Ela devia estar lá fora.

A – Agora, com licença, Cata, que eu vou...

C – ‘ Procurar a Betty?’- completou para ele - Não, Armando, pode ficar tranqüilo, já vamos chamá-la e falar sobre a reportagem. Depois disso a encaminharei até a mesa que reservamos para a Ecomoda e você vai poder ficar sossegado.

A – Me promete, Cata? Jura?!

Catalina gargalhava a essa altura.

C – Meu Deus, Armando, pra quem reclamava tanto de ser vítima de crises de ciúmes, você está me saindo melhor que a encomenda.

A – Cata, não muda de assunto!

De repente ele a vê, rodeada de executivos, voltando para o salão. Faz menção de ir lá, mas Cata o barra com um gesto e, rindo, se dirige à Betty, tirando-a da roda e encaminhando-a ao palco.

Só então Armando senta-se à mesa que Cata mencionara, bem próxima ao palco. Cruza os braços e permanece de semblante fechado.

As luzes se voltam para o palco e Manuela sobe, começando um discurso sobre a história da revista e sobre o que representa esse sucesso. As pessoas vão se sentando em seus lugares e só então Armando vê as meninas do quartel, Nicolas, e Dona Julia que se senta do seu lado. Seu Hermes senta do lado de Dona Julia, empolgadíssimo com o por vir.

Armando cumprimenta as meninas do quartel e cumprimenta D. Júlia com um beijo no rosto.

DJ – Oi, Dr. Mendoza, como está?

A – Bem, na medida do possível...A senhora chegou há muito tempo?

DJ – Sim, tem um tempinho. Estava com Hermes... Viu como nossa Betty ficou linda com aquele vestido?

A – Pois é, quem mandou a senhora ter uma filha tão linda... – disse quase ao ouvido dela.

Dona Júlia sorriu, entendeu o porquê de estar “bem na medida do possível” e o porquê da cara fechada.

DJ – Fica tranqüilo, Dr, ela só tem olhos para o senhor.

Armando sorriu, era reconfortante escutar aquilo dela.

Seu Hermes curvou-se para frente para olhar os dois.

SH – Que sussurros são esses da parte de vocês dois?

DJ – Ai, Hermes, só estou cumprimentando o Dr Mendoza, não seja paranóico.

Seu Hermes balançou a cabeça com o cenho franzido.

SH – O diabo é porco, Julia, o diabo é porco...

Manuela terminou de falar e anunciou Betty para fazer um pequeno discurso. Ela apareceu entre aplausos animados, agradecendo o fato de ter sido escolhida para essa edição e parabenizando a iniciativa da revista em mostrar a competência das mulheres em suas profissões, contribuindo para uma visão diferente das mulheres na atualidade. Mais uma vez aplaudida, ela retirou-se, encontrando com Catalina no pé da escada que a encaminhou até à mesa da Ecomoda.



Enquanto Betty falava no palco, o garçom foi à mesa várias vezes entregar a Armando bilhetinhos de Claudia, Valentina e Silvia. Em um determinado momento ele perdeu a paciência e mandou o garçom entregar aqueles bilhetes ao diabo. Queria escutar Betty, admirá-la, e já estava quase se dirigindo às meninas para expulsá-las do evento. O quartel olhava atentamente e comentava entre si com sinais e olhares tão comuns a elas. Relatariam a Betty com todos os detalhes quando tivessem oportunidades, e Armando sabia disso, e se irritava ainda mais.



Quando Betty chegou à mesa, as meninas do quartel manifestaram seu orgulho ruidosamente, levantando-se, abraçando-a, quase pulando de alegria pela amiga. Betty somente sorria, e todos aqueles gestos efusivos das amigas ajudavam a dissipar a ansiedade. Em seguida Nicolas e os pais a cumprimentaram. Armando foi o último a fazê-lo, foi curto e seco. Betty esfarelou-se em si já que fizera tudo pra ele, para que ele sentisse orgulho dela.

Ela sentou-se de frente pra Armando, no meio das meninas do quartel.

B – Nossa, me disseram que hoje é a minha festa, mas pra falar a verdade não aproveitei nada. Estou morta de fome.

AM – Ah, Betty, então vamos providenciar alguma coisa pra você comer, tem uma mesa de frios perfeita ali! Vamos, eu vou com você.

As duas pediram licença e saíram. Armando revirou os olhos em tom de súplica. Betty, sozinha, com Aura Maria, naquele mar de executivos... E onde estava aquele idiota do Freddy? Lembrou-se então que ele ficara em casa cuidando do filho de Aura Maria, para que ele pudesse ir ao coquetel. Levantou-se com uma desculpa qualquer e foi atrás delas.

E ainda bem que foi. Enquanto Betty se servia, Aura Maria conversava numa roda de homens, muito a vontade.

Armando ficou meio escondido observando, cenho fechado, esperando o momento em que Betty ia acabar de se servir para se juntar aos amiguinhos de Aura Maria, até que alguém tapou seus olhos. Ele tirou as mãos da pessoa e revirou os olhos quando viu quem era. Que cruz, meu Deus, que cruz!

A – Claudia, Valentina e Silvia – disse irritado.

VR – Ah, mi vida, que foi que você está tão frio hoje?

CB – É tudo falta da sua assistente?

Armando olha-a assustado.

VR – Que assistente?

CB – Uma horrível que parecia a sombra dele.

Armando a fuzila com o olhar.

A – VOCE NÃO TEM O DIREITO DE FALAR ASSIM DELA!.

CB – Ah, desculpa, é melhor deixar isso pra você e o Mário, né? Ai, me matava de rir todos aqueles apelidos... Vampira, morcego... Achei que ela estaria aqui.

Betty, que escutara o que foi dito, interrompe a conversa, com os olhos marejados de lágrimas.

B – Desculpa, não pude deixar de escutar vocês mencionarem a assistente. Pois ela morreu há um tempo – olhou diretamente para Armando – vocês não deviam matá-la outra vez com esses comentários – e saiu rapidamente.

Armando sai atrás dela deixando as meninas sem entenderem. Se sente um lixo, um inseto. Claudia tinha razão, falara tão maldosamente dela no passado! Deus, que ódio tinha de si mesmo! Como um ser humano como ele ainda podia ter nascido, estar vivo!? Como ele ainda tinha a pretensão de achar que merecia a Betty?!!

Ela pára em um canto discreto, do lado de fora do salão, nos fundos. Armando vai para abraçá-la, mas ela foge.

A – Betty...

B – O que está havendo com você hoje, Armando??? – Uma lágrima cai de seus olhos borrando a maquiagem – Queria que tudo fosse perfeito, mas você só andou com essas três modelos pra cima e pra baixo! Primeiro quase bate em um homem que eu nunca vi, depois me trata friamente o evento todo! E, pra acabar com tudo, ainda teve... Teve aquilo...

Armando se sente pequeno dentro de si, desconfortável, pregado. As palavras caem de sua mente em queda livre, aos montes. Que diabo!!! Justo quando ele precisava saber exatamente o que dizer!

A – Me perdoa por aquela situação, Betty, eu...

B – Eu soube o que você achava de mim, Armando, quando eu era feia, soube dos apelidos que você colocou em mim. Depois soube que você compartilhou isso tudo com aquele estúpido do Calderón... Mas eu não sabia que você perdia seu precioso tempo com essas modelos falando de mim! Que ódio, Armando!

As lágrimas caíam uma atrás da outra manchando todo o rosto.

A – Beatriz, eu jamais falei de você daquela maneira, Mario que extrapolava nos comentários... E eu jamais pus apelidos em você, isso era coisa do Mário...

B – Dá na mesma, Armando...

Armando puxou-a para si, para tentar acalmá-la. Betty relutou no começo, mas deixou-se levar, sem forças, estava confusa, não sabia mais o que a chateava, não sabia mais porque brigava com Armando, ele se portara como um estúpido a noite toda, mas ela sabia desses acessos de ciúme dele. O que lhe doeu foi vê-lo o tempo todos com aquelas mulheres, todas do seu passado, como se este fosse um buraco negro a insistir em puxar Armando de volta. E saber do que soube foi um golpe muito duro pra ela.



Armando se xingava com todos os palavrões que conhecia em pensamento. Fora a pior das pessoas numa noite tão importante para ela, não soube fazer nada direito, tudo por culpa desse sentimento idiota. Se sentia tão mal que começou a dizer palavras desconexas para extravasar tudo o que sentia, antes que morresse envenenado.

A – Betty, mi amor, me perdoa, me perdoa... Aquele Armando que disse aquelas coisas já padeceu e morreu... Eu sei que não merecia nem ter nascido tamanho o sofrimento que te causei, mas eu te amo tanto, e evitei essas três loucas hoje tanto quanto eu pude... Te amo, mi vida, mais que tudo no mundo, me perdoa...Eu sei que nada me faria pagar por todos os meus erros, mas não tem tortura maior que te ver como estou vendo agora, por favor me perdoa... – as lágrimas desciam pelo rosto dele também – quando eu vi todos esses homens atrás de você hoje, enlouqueci, alucinei. Eu sei que você merece todas as atenções do mundo, todos os elogios do mundo, mas eu tive um raciocínio estúpido de que sozinho podia dar isso a você por todas essas pessoas, pensei que meus elogios e minha atenção lhe bastariam, que você não precisaria ouvir mais nada de ninguém.

B – Ah, Armando, mas você é a pessoa mais importante para mim, a única de quem eu queria escutar esses elogios, e...

A – E eu não fui capaz disso, eu sei, mas enlouqueci... Não quero mais fazer você passar por isso – disse enxugando as lagrimas dela.

B – Vou te perdoar dessa vez, Armando, mas não faça isso de novo...

Armando beijou-a de leve com medo de alguém aparecer.

A – Nunca mais, mi vida...

Catalina apareceu ofegante.

C – Betty, Armando, como vocês... Ah, meu Deus, Betty, você estava chorando! Borrou toda a maquiagem. Vamos ao banheiro de serviço aqui pra eu te retocar! Seus pais estão te procurando, querem se despedir antes de ir.

A – Podem ir, eu encontro vocês do lado de dentro.

C – Você também!... Ai, meu Deus, mudem essas expressões, hoje é para ser uma noite feliz para os dois!

E sai puxando Betty e deixando Armando se recompor.



Catalina retoca Betty e ela se dirige ao salão. Está impecável, nem parece que houve nada. Ela se despede da família juntamente com Catalina. Seu Hermes faz inúmeras recomendações antes de ir, e repete seu famoso ditado na mesma proporção. Cata sorri, diz que todos podem ficar tranqüilos que ela estará em boas mãos. Dito isso eles saem.

Assim que eles saem Armando chega. Fica atrás de Betty e coloca as mãos em seus ombros, beijando-lhe a bocheha. Betty sorri, envolvida pela presença dele, agora tão perto de si e segura uma de suas mãos como se fosse a passagem para seu mundo ideal, todavia seu estômago grita a chamando de volta para a realidade e ela se lembra de que não comeu nada desde que chegou. Catalina se oferece para ir até à mesa com ela, e Armando, para provar seu desprendimento, diz que vai esperar as duas na mesa da Ecomoda.

Mal ele senta, as três modelos se sentam rodeando-o. Ele não as espera dizer nada, e diz, entre os dentes, vermelho de raiva.

A – Se vocês três não sumirem das minhas vistas agora, eu mesmo as colocarei para fora a pontapés!

As meninas olham-no assustadas. Ele continua.

A – FORA DAQUI!!! FORA!!! VOCÊS ACABARAM COM A MINHA NOITE!!!

Elas se levantam resmungando e, como ele ordenara, somem.

Poucos minutos depois Betty volta só, diz que Catalina encontrou um casal de amigos. Senta-se do lado dele e Armando tem que fazer um esforço sobre-humano, brincando com sua mente, distraindo-a insistentemente, para não beijar seus ombros nus, não puxá-la para si e envolvê-la nos seus braços, mimá-la, niná-la...

Ela come pouco, se satisfaz e Armando se levanta estendendo-lhe a mão, propondo que fugissem um pouquinho e aproveitassem a festa como um casal de namorados, ainda que clandestinos. Betty sorri e segura sua mãos, e eles saem. Assim que transpõe a porta principal, um homem moreno, de cabelos curtos penteados para trás e olhos azuis se coloca em frente a Betty, barrando seu caminho, ignorando completamente Armando.

Ele toma a mão de Betty e a beija.

? – Olá, Beatriz, Artur Alvarez à sua disposição.

Betty sorri assustada e olha para Armando, que se distanciara um pouco, com semblante de chumbo e mão para trás.

AA – Olha, seu discurso foi maravilhoso, tanto quanto sua figura...

Betty percebeu que ele estava ligeiramente alcoolizado.

AA – E enquanto você falava, eu não conseguia desviar os olhos de você.

Armando respirava pesadamente um ar composto de agulhas finas. Sua mente via os contornos fortes de seus punhos num movimento frenético desfigurando o rosto daquele camarada, e isso era a única coisa que o consolava, até que o viu tirar o celular do bolso e anotar o que Betty falava, aí o cenário em volta dele derreteu... Cenário de plástico no fogo que pingava na sua pele o fazia gritar de dor.

Quando Betty foi para o seu lado, ele coçou a cabeça e se ouviu dizendo.

A – Aquilo foi um teste, Beatriz, você queria ver até onde eu agüentava ou queria me matar de vez???

Betty riu.

B – Eu estava sendo gentil, mi amor.

A – E desde quando faz parte da gentileza você dar o número do seu telefone?!

Betty continuou rindo.

B – Desculpa, Armando... Mas acho que quem vai flertar com ele por esses dias vai ser você...

A – O quê???

B – Dei seu telefone pra ele!

E despencou-se numa gargalhada. A cor voltou ao rosto de Armando e ele sorriu.

A – Você fez isso mesmo?

Betty assentiu com um movimento de cabeça.

Armando massageou as têmporas com uma mão.

A – O que eu faço com você, mi amor...

B – Tenho um monte de ótimas sugestões, se quiser saber... – diz tímida e encanta ainda mais Armando.

Eles param em um lugar discreto e ele enlaça sua cintura, colando-a em si.

A – Eu vou querer saber dessas sugestões, mas não agora porque senão não serei responsável pelos meus atos.

Se beijaram longamente.

A – Te disse que está maravilhosa hoje? Você sempre está maravilhosa, mas hoje você parece um anjo caído do céu, uma fada, uma princesa dessas que a gente acha que só existem em nossas fantasias... Mas o mais incrível é essa capacidade que você tem de superar-se.

Betty sorri, seu coração dobra de tamanho. Eram as palavras pelas quais ela esperou todo o evento.

B – Gostou mesmo, mi amor?

A – Se eu gostei? Mi vida, se aquele homem não tivesse passado na minha frente eu teria te abraçado e beijado, na frente de todo mundo quando você chegou!

B – Quando cheguei você estava tão à vontade com aquelas três modelos que pensei que nem tinha me notado.

Armando afundou a cabeça nos cachos de Betty.

A – Não quero falar delas mais, mi vida, aquelas loucas me perseguiram, acabaram com a minha noite. Tinha horas que eu achava que elas eram só uma e que eu via três por culpa da bebida. Três manchas. Só via você nitidamente, ainda que você parecesse um sonho. Está perfeita, mi amor. Perfeita demais para alguém como eu.

B – Não fala isso, Armando. Você é perfeito para mim e é tudo o que importa. Não quero falar nada triste, ainda mais porque hoje é uma noite especial, e está só começando.

Beijam-se novamente, sugando um a alma do outro.

A – Vamos, então, mi amor. Não vejo a hora de ficar a sós com você.

Ela assente abraçada a ele. Se beijam mais uma vez e voltam para o salão para se despedirem de Catalina




Escrito desde May 8, 2008, 7:18 PM
de la direcci�n IP 189.15.196.47


Respond to this message

Return to Index

Find more forums on Soap OperasCreate your own forum at Network54
 Copyright © 1999-2008 Network54. All rights reserved.   Terms of Use   Privacy Statement