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Parte 28

by (Acceso umnovofinal)
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O tempo congelou aquela cena, e, o teto, por sobre a cabeça de Seu Hermes, se rompeu, fazendo com que a empresa caísse inteira em cima de si. Em seguida rompeu o chão, e ele se viu caindo indefinidamente com os pedaços de concreto que caíam a sua volta. Surpreendeu-se ao perceber que estes blocos eram os pedaços do seu orgulho que alimentava por Betty. Simplesmente não podia crer na visão que pulara diante de seus olhos ainda que suas suspeitas rodopiassem em sua mente sem parar... Continuava caindo, em câmera lenta, e não havia lugar para segurar. Caía o respeito, a consideração, as histórias, os conselhos, a educação que dera a Betty, os princípios em que acreditava. Por um momento abaixou a cabeça, não havia nada em que quisesse se apoiar, então, que caísse...



Por um momento os espíritos de Betty e Armando abandonaram seus corpos, deixando-os lívidos e com os corpos a esfriar rapidamente. Eles se viram em meio a um vale de nada que se estendia infinitamente por todos os lados. Enfim o pior pesadelo de ambos tornara-se realidade, uma realidade cruel para ser verossímil. Quando a cor voltou à face de ambos, Betty só conseguia se debater dentro de si, enquanto deixava duas lágrimas cair. Armando segurou-a pelos ombros, numa tentativa débil de apoiá-la, porém, ele mesmo se sentia vacilando numa ponte que se estendia por sobre um precipício.



O casal viu Seu Hermes começar a tombar e foram os dois correndo ajudá-lo. Ele fez um gesto rejeitando a ajuda dos dois e sentou-se no sofá com dificuldade.



B – Papai... – as lágrimas molhavam o rosto de Betty sem ela sentir.

Seu Hermes fez o mesmo gesto, rejeitando tudo o que ela tinha para falar. Betty se calou no mesmo minuto, soltando um soluço pelo choro contido.



Seu Hermes respirava pesadamente, seu coração murchara no peito, suas veias se encolheram e secaram sua face. Como diminuíra e envelhecera, como não fazia mais questão de parecer forte, se tudo que ele fazia era pela filha. Mas aquela, desde muito tempo, não era sua filha... E... Aquela, desde muito tempo, estava tendo um caso com aquele, aquele... Maldito?

Ele levantou os olhos em direção aos dois com a mente sacudida pela surpresa e olhos se revirando em asco. Tirou um lenço do paletó e passou pela cabeça. Abriu a gola da camisa. Mais outro golpe e não agüentaria viver. Mas viver para que?

Fez menção de falar, mas nenhuma palavra saiu pela sua boca. Voltou a baixar a cabeça e procurar o som das suas pregas vocais.



Armando só pensava que não podia ter uma atitude passiva diante daquela situação já que ele estava absolutamente envolvido. No fundo não queria dizer nada, mas tinha que fazer algo por Betty. Foi até Seu Hermes. Pigarreou.

A – Seu Hermes...



Escutar a voz de Armando foi como sentir o próprio diabo bafejando na sua nuca com o hálito ácido, envenenando todos os seus poros com uma fúria nunca sentida antes. Em seus olhos explodiu uma cascata de luzes de raiva e ele avançou sobre Armando, segurando-o pelo colarinho, prensando-o contra a parede.



SH – Você é um desgraçado, sem vergonha que aproveitou da fragilidade da minha filha! Há quanto tempo vem manipulando-a com seus joguinhos?! Desde a criação absurda da Terramoda, não é? E Betty saiu daquele jeito pra Cartagena por sua culpa, não foi?!

Armando não tinha forças para fazer nada, tamanha a intensidade com que seu passado rompera a barragem que ele havia se esforçado para colocar. Seu Hermes estava certo, e fazia tanto tempo que ele merecia escutar aquelas palavras! Não moveu um músculo para se desvencilhar dele.

A – Seu H...

SH – Não me dirija a palavra, moleque! Porque é isso que você é, um moleque! Não pense você que eu seja idiota! Quando você nasceu eu já tinha quebrado muito a cara na vida e aprendido a viver! Eu sei que uma pessoa é capaz de engendrar outra por interesse, e foi isso que você fez com a minha filha, há tanto tempo!!! Eu confiava em você, seu estúpido!!! Agora, te digo uma coisa! Você nunca mais vai ouvir falar de mim ou da minha filha, porque vamos sair dessa empresa imunda neste mesmo momento, e ai de você se vier atrás de nós...

Pegou Betty pelo braço.

SH – E a senhorita merecia apanhar de cinto por causa disso! Atitudes infantis levam a castigos infantis! Mas discutiremos sua punição quando chegarmos em casa...

Betty, porém, resiste.

B – Não, pai, não posso, não assim...

SH – O que? – Diz desnorteado.

Betty está cega pelas lágrimas e pela cortina branca de chuva de sensações à sua frente. Vira-se para onde escutara a voz de Seu Hermes.

B – Papai, eu realmente sinto muito pela cena que o senhor presenciou, e me sinto envergonhada por não ter tido coragem de te contar... Mas...

A vergonha de seu passado alojou-se em sua garganta e calou-a. Ela tossiu. Não podia dizer mais a Seu Hermes... Por ele e por si mesma...

SH – Mas...?

Armando se sente no dever de proteger Betty. Coloca sua mente à frente da figura fragilizada dela.

A – Não há nada de manipulação, Seu Hermes, eu realmente amo sua filha, mais que a tudo no mundo.

Seu Hermes desmontou de novo no sofá. As idéias se colidiam cegas na sua cabeça, provocando ruídos ensurdecedores. Era impossível estabelecer conexões.

SH – Se o seu sentimento fosse sincero, não havia porque esconder... Você acha que eu não aprovaria o namoro de vocês?

Os dois olharam Seu Hermes, sobrancelhas franzidas, olhos interrogativos.

B – Aprovaria? – Disse surpresa.

Seu Hermes lançou um olhar mortífero para a filha.

SH – Depois disso, obviamente que não! Vocês me fizeram de idiota! Mas, como eu já disse, antes de vocês dois nascerem eu já fazia essas macacadas todas! Há muito que ando percebendo o jeito de vocês! Mas, por Deus! Queria que estivesse errado!

Armando fez menção de falar algo, mas Betty o conteve, era muito difícil contemplar aquela figura de seu pai. O amava demasiadamente e sentia sua mágoa na mesma proporção desse amor. Por que as coisas tinham que acontecer daquela maneira? Sua alma estava opaca e úmida de tristeza.

B – Armando, eu preciso falar a sós com meu pai...

A – Mi amor, eu não quero te deixar sozinha.

Betty abaixou a cabeça.

B – É necessário, Armando, eu te encontro daqui a pouco.

Armando reuniu as forças que lhe restaram e saiu arrastando uns grilhões irritantes arranhando o chão.

AM – Ocorreu tudo bem na reunião, Seu Armando?

Armando lançou um olhar gelado em direção de Aura Maria que conseguiu escutar todas as coisas que ele queria dizer. No mesmo momento ela percebeu que não havia reunião nenhuma. Sacudiu as mãos, nervosa e se dirigiu às meninas, enquanto ele se dirigia ao banheiro.

AM – Ai, meninas, acho que fiz uma burrada...

As meninas olharam Aura Maria e olharam vagarosamente em direção à porta, enquanto voltavam no tempo e presenciavam o que ocorreu.



Betty andou devagar na direção de seu pai, como se estivesse dentro de uma água turva e lodosa. Ajoelhou-se em frente a ele, as lágrimas estapeando seu rosto sem nenhuma compaixão.



Seu Hermes olhou na direção da filha, completamente desamparado, se arrastando num deserto de sentimentos, à noite, com a aridez e o frio a rasgar-lhe as entranhas.

SH – Desde quando, Betty... Desde quando...

Ela abaixou a cabeça, cedendo ao peso da culpa.

B – Desde muito tempo, papai... Comigo, desde sempre, Armando sempre foi meu príncipe encantado, minha idéia perfeita materializada...

SH – E quando vocês começaram essa... Isso?

B – Se o senhor quer saber se, quando começamos o relacionamento, Armando ainda estava com Dona Marcela, papai, sim, estava.

Seu Hermes fechou os olhos diante do golpe, sentiu o sangue jorrar, cobrindo o espírito de sangue negro e espesso.

B – Ele não era apaixonado por Marcela, era nítido, e, não só eu, mas todos viam... Ele me prometeu que a deixaria...

SH – E você acreditou, Betty?! Você nem parece a minha filha que é tão inteligente!

B – Acreditei, papai... E depois achei que estava sendo enganada e que ele nunca terminaria com ela.

SH – É claro que não, minha filha! Não viu que ele te conquistou pra você montar essa empresa e embargar a Ecomoda? Isso é um procedimento sujo digno de uma pessoa sem caráter!

B – Não adianta, papai. A mesma culpa que ele tem eu tenho... Armando não me obrigou a nada...

SH – Lógico que te enganou, te prometeu o mundo, e não foi capaz de cumprir! E você se sentiu enganada e fugiu para Cartagena...Tudo agora faz sentido!

Betty olhou o pai, enternecida. Que bom que aquela história cheia de lacunas fazia sentido pra ele...

B – Sim, foi isso, eu queria esquecê-lo, mas fugi conhecendo um lado da história e ignorando uma metade de outras coisas... Mas em Cartagena o perdoei, e em Cartagena me transformei em uma outra mulher... Foi muito importante para mim, papai. Voltei querendo construir uma vida nova, mas o próprio destino me trouxe de volta a ele. Passei muito tempo correndo de nossas pendências, mas houve um instante em que descobri que ele também sofreu muito, e, que em algum momento, apaixonou-se por mim. Ele ia embora para deixar-me livre e eu percebi que só estaria livre nele, fora dele estaria perdida numa imensidão de nada. Primeiro tentamos ser amigos, aparar as arestas... Mas nos amamos, papai, não pudemos lutar contra...

SH – Por que me fizeram de idiota? É isso que mais me dói, Betty. Eu sempre quis o melhor pra você...

Betty pensou em todos esses dias doces ao lado de Armando, a noite passada em seu apartamento...No fim, ainda valeu a pena esconder, ela sabia disso.

B – Eu sei, eu sei... Não queria que passássemos por isso... Estávamos planejando contar tudo... Só queríamos tempo para sossegarmos nossas almas inquietas...

Seu Hermes olhou bem fundo nos olhos da filha, procurando pela verdade ou pela mentira. Betty não desviou o olhar, mas lhe custou manter a máscara negra frente aos olhos e bloquear aquele detector de mentiras tão poderoso.

SH – Não sei mais em que acreditar... Mas não posso aceitar isso, e não posso aceitar esse namoro de vocês. Esse moleque não é um bom partido, não é um homem decente como eu pensei que fosse.

Não havia oxigênio no ambiente para Betty. Sua alma começou a arrastar em si em busca de ar. A simples menção da possibilidade de Seu Hermes não aceitar Armando a destroçava por dentro. As suposições vinham como flechas envenenadas, direto no coração.

B – Papai, por favor, não pensa assim... Ele é o homem que eu amo, ele é meu sonho vestido de realidade, o senhor vai querer brigar com isso? Acha justo? Eu sei que ele errou muito, assim como eu. Mas está tentando consertar tudo. Dê uma chance a ele, papai, e verá que Armando é uma boa pessoa.

Seu Hermes coçou o queixo, calado, pensativo. Nada disso parecia certo. Mas, pra quem namorou escondido sabe-se lá quanto tempo, por que não namoraria outra vez? Sabia como era essa mentalidade jovem e sabia que tinham um apreço muito grande pelo proibido visto que o diabo era tão porco. Além do mais, era impossível resistir aos olhos abandonados de Betty... Expirou todas as contradições e inspirou um amor profundo pela filha, amava-a e era pura e simplesmente isso.

SH – Antes de aprovar alguma coisa, chame esse moleque que quero ter uma conversa particular com ele.

As lágrimas de Betty agora acariciavam seu rosto como uma garoa de verão. Abriu um sorriso e beijou a face do pai.

SH – Mas eu não aprovei nada ainda! – Disse ele entre um meio sorriso, mas tentando parecer sério.

B – Não é por isso, é porque seu rosto amanheceu.

Ela se levantou e foi até a porta. Armando esperava-a, sentado nos banquinhos da recepção.

Betty correu até ele abraçando-o. E de repente as coisas estavam no lugar certo, e o mundo fazia sentido de novo.



Armando, assim que viu Betty aparecer na porta, levantou-se num reflexo, sentindo-se atraído a ela por uma força bem maior que seu entendimento. Ainda que soubesse que ela estava indo em sua direção, parecia que tudo em volta se despedaçava para aproximá-los. Quando a sentiu em seus braços quis somente que aquele instante parasse, pelo menos até sentir claramente aquele momento que parecia tão louco, tão absurdo em sua cabeça confusa.

B – Ele quer falar com você. A sós – Betty levantou os olhos, e Armando sentiu-se banhado em um mar de tranqüilidade azul.

Ele respirou fundo.

A – A sós – repetiu, neutro.

B – Mas está tudo bem agora, pode confiar em mim.

Armando acariciou o rosto de Betty com a ponta dos dedos.

A – O que disse a ele?

B – Contei desde quando começamos a nos encontrar, mas não entrei em detalhes.

A – Ok – diz se desvencilhando dela.

B – Eu te amo...

Aquelas palavras eram as asas a brotar em suas costas.

A – Eu também te amo, mi vida, mais que tudo.

Beijou-lhe a mão e saiu em direção à presidência, o coração galopando num cavalo desgovernado.

Bateu na porta, entrando e fechando-a.

A – Seu Hermes.

Seu Hermes, sentado na beirada do sofá, crescera e inchara de novo. Tinha o semblante blindado de titânio e respirava pesadamente. Armando sentou-se ao seu lado, a alma tremendo de medo, as vistas sibilando e uivando como o vento noturno numa janela de noite insone.

Seu Hermes ajeitou-se no sofá, olhando bem no fundo dos olhos dele, de cima.

SH – Afinal, doutor, me diga: Quais são as suas intenções para com a minha filha?

Armando pigarreou. Olhou o calendário e percebeu o cenário amarelara e que voltara anos no tempo. Aquela pergunta lhe soava áspera e fria.

A – Eu amo sua filha mais que tudo no mundo, Seu Hermes. Beatriz me conquistou para sempre.

O olhar de Seu Hermes era cortante, e a pele de Armando estava fina demais.

SH – É muito fácil dizer essas coisas, doutor... Muito fácil porque o diabo é porco.

Armando, em vão, tentou inchar e se blindar como ele. Eram dois homens adultos, poderiam ficar no mesmo nível. Mas sempre que se media com Seu Hermes, se percebia muito inferior.

A – Mas o que eu poderia fazer para o senhor acreditar em mim?
SH – Não sei, isso é você que tem que me demonstrar...

A – Eu sei que o senhor não está de acordo com meu relacionamento e de Betty...

SH – E não estou mesmo!

A – Sim, e não lhe tiro a razão, certamente eu procederia dessa mesma forma em seu lugar... Mas, Seu Hermes, sua filha é o mundo em torno do qual minha vida gira. Se não permite que continuemos a nos ver, simplesmente está assinando a minha sentença de morte.

Seu Hermes contraiu o cenho, deixando transparecer sua mágoa.

SH – Por que, doutor Mendoza? Por que??? Se a ama tanto, por que não fez nada às claras, como uma pessoa decente? Pode confessar a mim que não a ama, daremos um jeito. É só pela empresa, não, é? Quando a Ecomoda não estiver mais embargada pela Terramoda, tudo vai voltar ao normal. Pois eu peço que não dê mais um desgosto a Betty...

Armando ficou tão surpreso com as palavras de Seu Hermes, que suas idéias, quase ordenadas coerentemente, começaram a correr e se esconder em locais impossíveis de se encontrar.

A – Mas não é isso, Seu Hermes! Eu a amo de verdade!

SH – Se a magoar, eu te parto em dois!
Armando não conseguiu evitar sorrir diante da preocupação de Seu Hermes. As idéias pararam de bricar e voltaram a aparecer.

A – Seu Hermes, eu admito que, no começo, minhas intenções para com sua filha não eram as mais decentes. Mas sua filha me conquistou, primeiro como secretária, depois como minha melhor amiga e depois como o amor da minha vida. Ela mudou completamente tudo em mim, me purificou e eu sou outro homem. Um outro homem que tudo o quer é estar com Betty até que a morte nos separe, ou nem isso, porque às vezes penso que nem isso vai nos separar.

O semblante de Seu Hermes mudou bruscamente. Desanuviou. Armando respirou aliviado, por dentro, ao perceber que acertou em alguma coisa.

SH – Está me dizendo, com isso, que está pensando em se casar com Betty?

A – Claro que sim, Seu Hermes! – Nem precisou pensar para dizer – É o que eu mais quero, me unir a Beatriz perante todas as leis. A dos homens e a de Deus.

Armando quase percebeu um meio sorriso no rosto de Seu Hermes.

Seu Hermes olhou-o de relance, mas seu semblante já não era o mesmo. Não podia negar que as palavras de Armando o agradaram.

SH – É muito difícil confiar em suas palavras, Doutor, depois de ver que o senhor quis me fazer de idiota... Mas vou te dar uma chance de mostrar se o que me fala é de verdade ou de mentira, porque minha filha o ama.Vou permitir seu namoro com Betty, mas, de agora em diante, debaixo das minhas vistas. Nada com relação a vocês dois vai me escapar, ouviu bem? E nem adianta tramar nada, porque eu vou até no inferno, mas descubro tudo!

Armando, por um momento, cruzou as mãos e brincou com os polegares, numa atitude adolescente, e, sobretudo, ansiosa.

A – Obrigado, Seu Hermes, muito obrigado.

Seu Hermes ainda mantinha a expressão dura.

SH – Não estou fazendo isso por você, e nem pense que tem a minha confiança... E também não pense que tudo será um mar de rosas e que vocês dois poderão correr soltos por onde bem quiserem. Minha filha é uma mulher decente, Dr. Mendoza...

A – Armando, Seu Hermes.

SH – Dr. Mendoza... Como ia dizendo, minha filha foi criada em moldes tradicionais... Não é dessas qualquer que você oferece carona na esquina e elas aceitam... Por isso o esquema na nossa família é outro, e por isso mesmo, você vai ter que ir lá em casa oficialmente pedir permissão para mim e para minha esposa para namorar minha filha. A partir disso, os encontros de vocês serão lá e somente lá, sob a minha supervisão! Você pode até enganar minha filha... Mas a mim, não, e eu estarei com os olhos bem abertos para seu primeiro momento de fraqueza.

Naquele momento Armando teve plena noção das coisas que Betty falara. Mas ainda assim, estava esperançoso. Depois de passar por tudo o que ambos passaram, não seria aquilo que o faria desistir.



Assim que Armando entrou na presidência e fechou a porta, as meninas aglomeraram em volta de Betty, que, se sentindo extremamente débil, desmontou-se em cima dos banquinhos da recepção. Sandra gritou para que alguém trouxesse um copo com água para ela, e Berta o fez rapidamente, ligando em seguida para Mariana que subiu correndo.

AM – Ai, Betty, me desculpa! Mas ele disse que vocês o estavam esperando e me proibiu de anunciá-lo.

B – Não foi culpa sua, Aura Maria, não foi culpa de ninguém...

Br – Mas ele pegou vocês mesmo? No flagra?

Betty somente acenou com a cabeça quando terminou de virar o copo. Não tinha forças para descrever o que se passou.

Br – Meu Deus! – Disse entre um meio sorriso se transportando àquele momento construído pela sua cabeça.

Sa – E você acha que vai dar tudo certo?

Ma – Eu sinto boas vibrações, Betty, mas quer que eu tire as cartas?

B – Não, Mariana, obrigada... Prefiro me beneficiar com a dúvida...

I – Mas Seu Hermes só quer o melhor para você, filha, tenho certeza de que vai aprovar seu namoro.

B – Eu não consigo nem pensar no que faria se ele não aceitar, Inesita. Contrariar meu pai é tão grave quanto me separar de Armando... Eu não suportaria nenhuma das duas coisas, principalmente depois de presenciar as reações dele...

So – Mas você está melhor, Betty?

B – Sim, obrigada pela companhia, meninas, não sei o que faria se estivesse só.

Berta saiu e voltou com um copo. Betty não pôde deixar de sorrir enquanto ela colava o copo na porta e colava a orelha no copo.

Br – Pois vamos tirar esse peso do seu peito agora, Betty – susurrou.

As outras meninas correram para perto de Berta, com exceção de Inesita.

I – Essas meninas...



Seu Hermes se levantou.

SH – Tenho dito. Quando o senhor poderá ir até minha casa para resolvermos isso?

Armando tentava parecer natural, mas de suas mãos escorriam todo seu constrangimento.

A – Pode ser hoje, Seu Hermes.

SH – Ótimo, hoje. Vou ligar para Júlia. O espero em minha casa depois do jantar. As 20:00h está bom para o senhor?

A – Perfeito.

SH – Então me dá licença que vou à minha sala. A partir de hoje virei todos os dias e ficarei durante todo o expediente. Quando sair, diga a Betty que quero que ela venha à minha sala, e diga pra não demorar.

Armando acenou com a cabeça enquanto se levantava e abria a porta. Saiu sem olhar para trás.



Armando abriu a porta de surpresa e as meninas quase caíram para dentro da sala da presidência, porém, ele, tomado de uma cegueira áspera e irritante, não as percebeu. Se sentia totalmente anestesiado, e era assim que enxergava tudo, anestesiadamente. Andou em direção de Betty que subitamente parara de sentir as pernas e não conseguia se levantar.

As meninas voltaram correndo para seus postos. Inesita permaneceu ao lado de Betty.

A – Mi amor, seu pai quer vê-la.

Betty respirou fundo, mas não conseguiu se mover.

B – Eu não posso ir antes de saber o que houve...

I – Eu vou trocar umas palavrinhas com ele para você ganhar tempo, minha filha.

Os dois sorriram. Armando sentou-se ao lado dela e beijou-lhe a testa.

A – Muito obrigado, Inesita, mas foi tudo menos ruim do que eu pensava.

I – Que bom.

Disse já indo para a sala de Seu Hermes.

Armando passou as mãos pelos cabelos dela, exalando tranqüilidade.

A – Está tudo bem, mi vida. Vamos continuar nos vendo.

Os olhos de Betty se acenderam de novo.

B – Ai, graças a Deus!

A – Sim, mas agora não vai mais ser como antes...

Betty percebeu que ele dizia isso prevendo situações difíceis. Sentiu uma pontada no estômago. Será que ele realmente agüentaria passar por tudo o que os esperava? Súbito uma vergonha inesperada afogueou-lhe o rosto. Ela sabia que não era mais uma criança. E estaria prestes a viver um namoro adolescente. Sua consciência apontava o dedo bem perto de seu nariz e perguntava insistentemente: “Até quando ele agüentará isso?”

B – Disso eu sei... E te avisei que seria assim a partir do momento em que ele soubesse.

A – Sim... Mas hoje à noite vou à sua casa, oficializar a nossa relação – Armando parecia divertido.

Betty sorriu envergonhada escondendo seu rosto no ombro dele.

B – Que situação desagradável, mi amor...Eu sei que você não está acostumado com essas coisas. Mas meu pai é muito conservador...

A – Está tudo bem, Beatriz – disse entre um sorriso meigo – eu vou fazer tudo o que ele quiser até que ele confie em mim...

Segurou o rosto dela, fazendo-a olhar para ele:

A – Você vale muito a pena...

Beijou-a de leve com medo de que Seu Hermes aparecesse.

A – Agora trate de colocar um sorriso nos seus lábios. A partir de agora somos oficialmente namorados, e isso me deixa feliz, mi amor.

Betty sorriu obedecendo-o e obedecendo a seu próprio coração.

B – Quero ver até onde vai durar seu otimismo, mi amor. Mas fico feliz com ele mesmo assim.



Inesita bate à porta da sala de Seu Hermes, anunciando-se.

I – Com licença, Seu Hermes, eu sei que o senhor está esperando a Betty, mas gostaria de falar com o senhor um minutinho.

Seu Hermes olhou por cima dos óculos. Inesita não estava na sua frente à toa... Seu respeito por ela diminuiu imediatamente após concluir que ela também sabia de Betty. Era inacreditável que ela compactuasse com aquele tipo de situação que nem ele mesmo sabia como denominar. Se sentiu mais idiota ainda.

SH – A senhora também sabia de tudo, não é? Aposto que todos sabiam de tudo, menos o idiota aqui...

Sente-se Inesita.

Ela sentou-se.

I – Não creio que faça muita diferença nessa hora saber quem sabia ou não da história...

Seu Hermes respirou fundo. Diabos...

SH – A senhora tem razão, nada vai mudar o fato daquele maldito ter tecido uma teia de mentiras para prender minha filha... Mas vou sugar até a última gota de sangue dele...

Inesita sorriu placidamente.

I – Seu Hermes, eu vi Seu Armando crescer nessa empresa... E posso dizer com muita segurança que o conheço bem. Desde sempre foi um bom menino, um pouco perdido no meio do conforto que sempre teve, mas com um coração de ouro. Eu sei que ele sempre foi imediatista nas suas diversões, e sempre teve tudo o que quis, inclusive as mulheres, todavia, mudou completamente tão logo sua filha cruzou a presidência. Primeiro porque ele nunca teve uma pessoa em quem confiasse de verdade. Segundo porque nunca encontrou alguém tão coerente com o próprio coração como sua filha, e, por ultimo, nunca havia encontrado alguém que o enxergasse por detrás de todo o entulho onde ele se escondia.

O que Inesita dizia não se encaixava.

SH – Mas ele não tinha uma noiva? Não ia casar? Ninguém decide casar do nada!

I – Exatamente. Marcela talvez fosse o que representasse o sentimento mais próximo de amor para ele. Ela sempre esteve ao seu lado, desde criança. Mas ele nunca a amou, Seu Hermes. Tinham brigas intermináveis pela Ecomoda, mais competiam entre si que cooperavam...

SH – Mas ele estava com ela por alguma razão...

I – Nunca saberemos ao certo o porquê, mas todas aqui sabemos que por amor não era. Eles sempre estiveram juntos, Armando pode ter pensado que era assim que as coisas teriam que ser. Estavam acostumados um ao outro... Também não tenho essa resposta... Mas posso dizer com toda segurança que ele sofreu muito pela sua filha, principalmente quando ela foi para Cartagena. Ele pagou o preço pelos seus erros, todas nós vimos isso. Ele sofreu uma mudança muito profunda que terminou por trazer à tona a pessoa boa que ele sempre foi e que insistia em manter escondida. Tudo graças à sua filha, Seu Hermes.

Seu Hermes escutava atentamente. Queria que tudo aquilo fosse verdade, mas era muito fácil falar. E se Armando o enganara por que não seria capaz de enganar uma pobre senhora como a Inesita?

I – Eles se amam muito, mais do que pensei que pudesse haver amor nessa minha vida, e olha que vivi muito. Eles se amam e se merecem porque o maior desejo de cada um é fazer o outro feliz. Portanto, Seu Hermes, estou aqui para te pedir que dê um voto de confiança ao Seu Armando e a esse relacionamento, será algo de que se orgulhará muito no futuro...

Seu Hermes ajeitou os óculos e coçou a cabeça... O que mais o incomodava era o fato de não poder negar que o Dr Mendoza não era um mal partido. Era de boa família, culto e educado... Talvez pudesse ter mudado... Não! Por que não?

SH – Eu vou dar uma chance para que ele me prove que tudo isso que você está dizendo é verdade, Inesita. Obrigado pelas suas palavras. Mas também, na minha condição de pai, não posso facilitar muito, Betty é uma menina decente e o diabo é porco. Mas levarei em conta o que me disse...

Inesita sorriu e se levantou.

SH – Quando sair, diga a Betty que quero vê-la, pode me fazer esse favor?

I – Sim, Seu Hermes, com licença e obrigada.

SH – De nada.



Quando Inesita abriu a porta, as meninas rodearam-na ficando tão próximas umas às outras que quase roubam o oxigênio do espaço.

AM – Como foi lá, Inês?

M – Ele estava bravo?

Br– Te expulsou da sala?

So – Não quis te escutar.

Inesita saiu de perto das meninas.

I – Foi tudo bem, meninas, agora me deixem respirar.

Foi em direção de Betty.

I – Ele quer te ver, filha.

Betty assentiu e se levantou. Armando se levantou junto com ela.

A – Quer que eu vá contigo?

B – Está tudo bem... Não deve ser nada, depois te conto.

Armando beijou-lhe a testa.

A – Estarei na minha sala.

B – Sim.

Saíram cada um para um lado.



Betty bateu à porta.

B – O que foi, papai?

Seu Hermes fez sinal para ela entrar.

Betty demorou um pouco para se mover. Sabia que estava tudo bem, mas sentia seus joelhos tremendo. Entrou e sentou-se rapidamente.

SH – Então, Betty – seu tom ainda é seco – não sei se o Dr Mendoza já te falou, mas hoje ele vai lá em casa.

Betty assentiu, sem graça. Tentou sorrir, mas o que saiu foi um esboço pálido de sorriso. O tom seco de seu pai era de uma aspereza cortante.

B – Ele me disse – disse olhando para os dedos.

SH – Eu, por você, decidi aprovar esse namoro – Seu Hermes tentou transparecer seriedade, mas o amor em seus olhos escapou e iluminou a sala.

Betty sorriu.

SH – Mas... Ainda não o aceitei de fato, tudo vai depender do comportamento dele.

B – O senhor não vai se arrepender, prometo! – Ela não conseguia parar de sorrir.

SH – Assim espero Betty, assim espero... Então agora vamos trabalhar, afinal, a empresa não anda sozinha




Escrito desde May 8, 2008, 7:20 PM
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