Chegaram. Ele abriu a porta para ela, ajudou-a a descer e acompanhou-a, dando-lhe o braço que Betty aceitou, mas evitando olhá-lo diretamente nos olhos.
Foi nesse momento que ela caiu em si e lembrou-se de que iriam encontrar os pais de Armando. Sentiu-se um grão de areia frente ao oceano armado em onda à sua frente. Deve ter se encolhido nesse momento porque sentiu Armando tocando sua mão e dizendo.
A - Vai dar tudo certo.
Ela olhou-o para agradecer, mas ele estava olhando pra frente, a expressão rígida, procurando a mesa onde seus pais os esperavam.
Armando bem que queria envolvê-la em seus braços e dizer pra ela não se preocupar com este encontro. Todavia, Betty parecia uma estátua de mármore ao seu lado... Tinha medo de tocá-la e sentí-la esfarelar-se entre seus dedos... Como as coisas poderiam se dar assim?
O maître os levou até a mesa onde estava o casal Mendoza que se levantou para recebê-los. Betty sentia o rosto quente e se sentia efusiva demais no seu nervosismo. Sorria demasiadamente. Armando mal via os pais à sua frente. Chegava-lhe ao cérebro imagens amargas difíceis de discernir. E via somente gelo na expressão de Betty que lhe ardia os olhos e o congelava por dentro. Era uma situação descabida que o fazia se sentir sufocantemente alheio à própria vida. Viu sua mão tocar o ombro de Betty, quando se sentaram. E sussurrou ao seu ouvido:
A - Betty, precisamos conversar...
Era exatamente a frase que ela não queria ouvir. Sua estrutura de papel estremeceu ante àquele sussurro. Teve de se esforçar muito para se manter no controle e evitar que seus olhos se enchessem de lágrimas. Assentiu com a cabeça, nervosamente, sem olhar pra ele.
D. Margarita observou o clima tenso entre os dois, diante do que não conseguiu esconder um esboço de sorriso. Talvez este capricho do filho durasse menos do que previra. Mas não menos do que tinha que durar.
R - E como está tudo? – Seu Roberto se dirigiu à Betty. Tinha a expressão simpática.
B - Mui... Muito bem, Seu Roberto. - Engasgou consigo mesma - O senhor sabe, a empresa é tradicional e muito reconhecida. Passamos por um momento difícil, mas, em um futuro breve, será apenas uma cicatriz da qual a Ecomoda terá orgulho em falar sobre.
Seu Roberto sorriu ternamente. É verdade que nutria grande admiração pela inteligência dela, e por sua capacidade de manejar os números e os negócios. Todavia, além disso, também nutria grande simpatia, e estava feliz com a escolha do filho, apesar de todos os pesares...
R - É verdade que a empresa tem um bom nome e tem uma historia, mas não seja modesta ao esconder a sua competência... Todavia, vamos descontrair um pouco e evitar falar de negócios. Quando perguntei se estava tudo bem, me referia à vocês.
Betty sorriu e abaixou a cabeça, tímida. Não sabia o que dizer. Essa atitude cortou o coração de Armando que cerrou as sobrancelhas.
A - É claro que estamos bem, está tudo bem – disse mais para si que para sua família, e precisava muito desta afirmação.
O casal Mendoza se entreolhou e o silencio caiu pesado em cima da mesa, zombando especialmente de Armando que se sentia estúpido.
E Betty se sentia desesperadamente sozinha. Tinha vontade de escorrer para debaixo da mesa, cada vez que sentia o olhar de D. Margarita - e o sentia muitas vezes. Armando estava longe demais para escutá-la gritando por ajuda.
A - E vocês, como estão? - Se desviasse o foco da conversa talvez desviasse o vento e a chuva.
SR - Bem, muito bem, nos divertindo agora que temos tempo. Aproveitando que estamos aqui na Colômbia, antes de voltar para Londres, passaremos uns dias em Cartagena , Santa Marta e San Andreas.
DM - Sim, Londres é sempre muito fria, é bom aproveitar o sol um pouquinho.
B - E Cartagena é realmente um ótimo lugar para isso – conversou com as suas lembranças.
Armando odiou aquele comentário. Agora ela martirizava-o com isso. Tinha absoluta certeza que o fazia de propósito. Falava de Cartagena como uma indireta para falar naquele francês imbecil. Endireitou-se na cadeira, com o desprezo colado nos olhos. Era só questão de uma linha ou duas de conversa.
SR - Sim, é verdade. Eu e Margarita temos ótimas lembranças de lá. Acho que foram nossas melhores viagens...
Dona Margarita sorriu:
M – Ah, Roberto, eu gostei mais de quando viajamos para as ilhas gregas.
Roberto devolveu-lhe o sorriso.
SR - Você sempre diz isso, mas nunca te vi mais feliz do que naquelas praias.
M - Talvez seja porque você goste muito de lá...
SR – Disso não há dúvida, Deus foi mais generoso conosco ao nos dar um lugar como Cartagena... Não concorda, Beatriz?
B – Concordo plenamente, Seu Roberto. Mas sou suspeita para falar, Cartagena partiu minha vida em duas...
SR – Um belo cenário para uma boa lembrança...
B – Ah, sim, sim, boas lembranças, bons amigos... Inclusive conhecemos uma atriz brasileira, Taís Araújo, em Cartagena, eu, D. Catalina e Michel. Era uma moça muito divertida, e sempre foi muito simpática comigo. Aliás, todos foram muito simpáticos comigo.
Armando ergueu as sobrancelhas em desdém.
A – Principalmente o francês... - não pôde evita-lo.
Betty olhou-o de sobrancelhas contraídas. Ia falar algo a respeito, porque não suportava essa atitude de Armando, mas Seu Roberto falou antes. E ela agradeceu por isso.
SR – Francês? Está falando de Michel Boînet?
Dona Margarita estranhou a atitude do filho. Estava com ciúmes.
Betty e Armando ergueram as sobrancelhas.
B – Sim, ele mesmo. O conhece?
SR – Só de vista. Seu restaurante, em Cartagena, é muito famoso, e comemos lá da última vez. Comida estava excelente, ele é realmente muito bom.
Betty sorriu orgulhosa do amigo.
B – Sim, ele gosta muito do que faz...
SR – E ficamos surpresos porque é um rapaz muito humilde. Pedimos para cumprimentá-lo, e quando o maître o chamou, ele mandou a equipe toda dele, e só depois veio. Nos disse que ele mesmo fazia muito pouco, a equipe dele, sim, fazia muita coisa. Foi uma atitude muito bonita dele.
DM – Sim, é verdade...
SR – E caracteriza a atitude de um excelente líder. Seguramente que seus companheiros o seguiriam até o inferno. Eu o seguiria.
Betty assentiu, então os Mendoza conheciam Michel... Mas também, como não...
Olhou Armando que tentava se esconder atrás da mesa, com a expressão dura. Via-o remexer os olhos, balançar a cabeça, morder o canto da boca... Ela sabia que falar em Michel o incomodaria, mas para ela era impossível dissociar a imagem da cidade da imagem de seu amigo tão querido. E era, sim, muito bom mencioná-lo, lembrá-lo, ainda que nunca mais tenham se visto, apenas tenham se falado uma vez por telefone, desde o episódio do Almirante Padilha...
Armando simplesmente não acreditava... Até os próprios pais conheciam esse maldito? Coçou a testa, nervoso. E Betty, para que mencioná-lo agora? Para dizer que se ele fosse para a Venezuela ela já tinha quem cuidasse dela? Que era um homem muito bonito, muito humilde, muito bom etc etc...? Que só possuía qualidades? A metade que ele não era? Exatamente o que ele não era?!
Nesse momento os pedidos chegaram, e, quando Armando pegou os talheres, Betty viu o corte mal tratado na sua mão. Assustou-se. Tudo perdeu a importância. Somente via aquele machucado que estava horrível, e estranhava que Armando não lhe desse a devida atenção. Disse saltando de si mesma.
B – Armando, que aconteceu com a sua mão?! - Disse tomando-a.
Armando esquecera-se do corte. Doía-lhe muito mais as interrogações fincadas em sua mente. Ele levantou as sobrancelhas, olhando pra mão, sem se mexer, apenas se deliciando com aquele pequeno toque, ainda que viesse da pena dela para com ele.
A – Me cortei com o abridor de cartas, creio...
B – Mas está muito feio! Temos que cuidar disso...
A – Não, não se preocupe Betty, não é nada de mais...
Mas Betty já encostava a ponta do lenço na taça de água e já limpava o machucado, em seguida procurando um band-aid dentro de sua bolsa. Os dois recortados do cenário e colados entre as estrelas.
Seu Roberto mirava os dois, com a expressão satisfeita. Ficou preocupado no início, quando os dois chegaram, distantes, mal se falando... Todavia, quando percebeu que Armando estava com ciúmes de Michel – o que era impossível não notar - , e, também, ali, naquele momento, descansou. Eles realmente se gostavam, não havia dúvida, e Armando estava salvo... Margarida, por outro lado, se sentia quebrar por dentro. Era impossível que fosse seu filho ali, naquele dia. Armando não agia daquele jeito, não se importava com as mulheres com quem saía... E, agora, ele e... ela... tão perto, tão juntos... Havia perdido, havia perdido...
Quando Betty terminou, Armando olhou a própria mão, acariciando o curativo.
A – Muito obrigado, Betty – Sorriu envolvido, levantando a mão para acariciar seu rosto, num reflexo, mas parando no início do caminho.
Betty percebeu, lhe sorriu e, em pensamento, colocou sua mão por cima da que estaria em sua face.
B – Não podia deixar daquele jeito, podia infeccionar.
E ela percebeu que não poderia deixá-lo sozinho, em nada.
E ele percebeu que não poderia fazer nada sem ela.
Mas ninguém disse nada, só conversavam com os próprios pensamentos, imersos, cada um nas próprias conclusões, na própria frustração, e, ainda, na própria satisfação.
Terminaram de comer, falaram de amenidades, Betty falou muito pouco, limitava-se a responder o que lhe perguntavam. Julgava que o casal, sobretudo Dona Margarita, fazia muito esforço para tratá-la bem. Era um pouco desgastante entrar no mesmo espetáculo e se esforçar para se sentir agradável, todavia, estava lá, e, apesar de tudo, era menos do que ela pensava, o que fazia os atos de Armando para com a sua família muito maiores.
Levantaram-se e se despediram. Os Mendoza ficaram olhando o casal sair.
DM – Parece que eles estão brigados... - Margarita disse mais para si que para Roberto.
SR – Sim, é verdade, mas se parece que eles estão brigados, é certeza de que eles se gostam...
Margarita não acreditava que a expressão do marido era de satisfação.
Armando parou em frente à porta do carro, sem abrí-la.
A - Betty, será que podemos conversar agora? – Disse, acariciando o curativo,olhando para a própria mão, as cenas do por vir explodindo na sua mente, viajando pelo seu sangue e latejando o pequeno corte infinito...
Betty olhou no relógio, e não viu nada. As palavras não-ditas por Armando lhe doíam na garganta e não estava preparada para isso.
- Desculpa, Armando, desculpa mesmo. Podemos conversar depois do expediente?Estou esperando várias ligações importantes para essa tarde, não posso me dar ao luxo de não atendê-las.
Armando respirou fundo, esfregando os olhos. Ela estava evitando-o. E isso era muito mal.
A - Pode ser, sim, não quero incomodar - disse mal-humorado.
Entraram no carro e, com o silêncio sussurrando possibilidades medonhas no ouvido de cada um, foram direto para a empresa, onde todos perceberam o clima estranho entre os dois que balbuciaram uma despedida e saíram cada um para sua sala.
Assim que Betty abriu a porta, Seu Hermes saiu de sua sala, ávido por noticias.
SH - E como foi lá, minha filha? - Disse se sentando à mesa em frente à Betty.
B - Foi tudo bem, papai, os Mendoza são pessoas muito educadas e realmente muito requintadas.
SH - E o que eles disseram quando você falou pra eles irem lá em casa antes de voltarem pra Londres?
B – Quê?!
Com o peso que sentia de um tudo que não concebia bem o que era, definitivamente não sabia como lembraria de ter coragem de convidar os Mendoza para a própria casa.
SH – Não acredito, Beatriz Pinzón, que a senhorita não os convidou para ir à nossa casa!
B – Ahn... não? - E ainda bem que não porque nem sabia se continuaria sendo a namorada de Armando.
SH - Mas, como não, Betty?! Ficou louca?! Eles vão achar que você não tem família, que é uma dessas da vida que esses executivos acham pra se divertir e depois descartam.
Betty suspirou, pesada.
B - Papai, eles já te conhecem, e o senhor já fez propaganda suficiente da família para que eles não pensem isso.
SH - Mas eles não conhecem o ambiente aonde você vive, e isso é uma coisa obrigatória!
B - Está certo, papai, na próxima oportunidade eu os convido.
SH - E que seja antes de voltarem!
B – Certo. Depois é que não tem jeito mesmo...
Seu Hermes fez uma careta e voltou para sua sala. Betty debruçou-se sobre a mesa, esperando que o dia fosse realmente cheio de modo que ela se esquecesse de quem era, e de modo que ela não pensasse que teria que ouvir de Armando que a situação estava insustentável e que ele precisava de um tempo. Menos ainda que ele daria esse tempo na Venezuela. Não! Morreria se essas palavras se materializassem na voz dele.
Armando nem quis se sentar, nem quis ver os recados de Sandra sobre sua mesa, pediu para que ninguém o incomodasse e, simplesmente, pegou uma garrafa de uísque e se deitou no sofá. Era assim que esperaria o dia passar. Ou não passar.
Foi muito difícil para os dois não se verem naquela tarde. Vez ou outra um e outro ensaiavam sair, mas as inquietações eram mais densas que as portas dos escritórios e os impediam. Então voltavam, partidos.
Final do expediente, Armando se ajeitou e foi até a sala de Betty. Ensaiara mil vezes o que tinha que dizer com a garrafa de uísque: Dizer que não ia, que sentia muito pelas coisas que dissera, que estava mais longe de deixar de ser o sempre estúpido que era, mas que iria tentar mais arduamente. Ela não merecia nada daquilo que falara. Tomou o último gole e se dirigiu para a presidência.
Betty reviu em sua mente todos os acontecimentos de um passado não muito distante. Era de uma aspereza dolorida se lembrar de como era bonito ver Armando e Alejandra juntos, de como ele conseguia se portar tão bem perto dela, e do quanto ela era linda, elegante e tinha vivido coisas que ela nunca viveria. Alguma coisa superior que não existia, e por isso era superior, pisava-lhe a garganta e doía tanto que sufocava, e sufocava tanto que doía mais ainda. Era inútil tentar barrar as lágrimas que explodiam em seus olhos, tanto que nem se importava mais se seu pai ia aparecer e se deparar com ela daquele jeito.
Ficaria totalmente sem saída se não aceitasse esse convite de ir para a Venezuela. E, claro, a parte de que quase se esquecera: queria demais ir...
Armando bateu na porta e abriu-a.
A – Vamos?
Os olhos de ambos vacilantes, as vozes baixas e sem tom...
Seu Hermes saiu correndo da sua sala, quebrando o clima.
SH - Vamos, vamos!
Entraram os três no carro, e mais um percurso em companhia do sarcástico silêncio...
SH – Que foi com vocês dois?
Armando contraiu o cenho, mas não disse nada, tinha o pretexto de estar conduzindo.
B – Como assim, papai?
SH – Estão muito caladinhos pro meu gosto, sem sorrisinhos e sem telepatia...
Betty sorriu.
B – Sem telepatia, só o senhor mesmo, papai...
SH – Hum, eu sei de tudo, de tudo...
Betty assentiu como quem não se importava... E a pergunta ficou mesmo sem resposta. Na verdade, não havia resposta... Não queriam que houvesse uma resposta...
Quando desceram, Seu Hermes foi direto pra dentro, e quando Betty foi entrar, Armando segurou seu braço. Doía-lhe todos os seus músculos naquele momento, e não suportava mais o fel transbordando em seu corpo.
A - Betty, eu não estou agüentando mais essa situação, precisamos conversar!
Betty olhou para a mão de Armando, que a apertava forte como que querendo compartilhar com ela uma dor para a qual não estava preparada. Fechou a porta e olhou Armando com os olhos cheios de lágrimas.
B - Eu vou.
Armando franziu as sobrancelhas em completa surpresa. Não sabia o que estava esperando, todavia, não era definitivamente aquilo.
A – Hum? - disse soltando-a, como se houvesse sido despregado do mundo.
As lágrimas escorreram dos olhos de Betty e ela se aninhou no peito dele.
B - Eu disse que eu vou pra Venezuela, mi amor. Você tem razão sobre tudo, eu quero ver você bem, por isso eu vou...
Armando abraçou-a como que num impulso. Estava no meio do caminho entre a culpa por ela estar daquela maneira, e a felicidade por ela ter aceitado o convite. Apertou-a contra si. Precisava saber que ela estava ali perto, por todo o dia que não esteve.
E, sentindo-a, quebradiça, em seus braços, lhe assolou a mesma culpa de sempre, aterrorizante como uma primeira vez. Isso o fez perder o ar por um segundo. Ah, como era desgraçado, intolerante e imaturo... Aninhou a cabeça dela em seu peito.
A - Eu não tenho razão sobre nada do que eu disse, mi vida, você não merecia aquilo, desculpa, eu não pude evitar... Mas me perdoa, pela última vez, me perdoa. Não quero mais ver você sofrendo e me evitando como hoje. Eu não estava agüentando mais.
Betty respirou fundo. Mirou com um abismo em cada olho.
B - Eu não estava te evitando, só não sabia como chegar até você.
Armando segurou o rosto dela entre as mãos. Era dolorido demais se deparar com aquele olhar.
A - Pode me perdoar, mi vida? Te peço isso pela última vez. Pode esquecer aquele episódio estúpido pelo qual passamos e as coisas voltarem a ser como eram? Eu não agüentaria isso por mais outro dia.
B - E você pode me perdoar por nunca enfrentar o meu pai por você?...
Armando silenciou-a com um beijo. Aquele comportamento dela era que doía mais nele. Ela tinha que gritar, pedir coisas absurdas, não lhe pedir desculpas.
A - Você não tem que me pedir perdão – Sorriu - , nem eu enfrento Seu Hermes...
Betty sorriu assentindo.
Nesse momento D. Julia abriu a porta.
DJ - Vamos entrar, meus filhos: Hermes está que não se agüenta lá dentro. E eu não consigo segurá-lo mais.
Armando que tomou a mão de Betty e levou-a para dentro.
Enquanto ele se sentava no sofá, Betty passou correndo e foi com a mãe até a cozinha.
DJ - O que houve entre vocês dois? Não me parecem bem. Você estava chorando, minha filha...
Dona Julia ajudou Betty a se recompor.
DJ – Ainda bem que você veio direto pra cá. Se seu pai a vê assim e desconfia que é por Armando, coloca-o para fora a pontapés...
B - Foi um mal entendido, mãe, passou. Mas eu e Armando ainda precisamos conversar. A senhora não tem idéia da gravidade da situação em que estou metida.
Dona Júlia arregalou os olhos e colocou a mão na barriga da filha.
DJ – Betty...
Betty riu, surpresa com a atitude da mãe.
B – Não, mãe! Não, por Deus. Eu e Armando nem temos nos encontrado, desde que meu pai descobriu tudo. Não é isso. Mas é grave igual.
Dona Júlia sentou-se. Era melhor que estivesse sentada.
DJ – Então conta, minha filha... Deixa eu saber o que de tão grave é...
Betty sentou-se de frente para a mãe.
B - Imagina que será inaugurada uma loja na Venezuela e fomos convidados. É imprescindível a nossa presença. E quem nos convidou foi Alejandra.
DJ – Aquela que estava com Armando no dia do desfile das suas amigas?
Betty assentiu.
DJ – Ai, Deus Santo...
B - Eu não suportaria deixá-lo só com Alejandra, mamãe. Além do mais, eu sou a representante da empresa, tenho que estar lá.
DJ – Seu pai ainda não sabe disso...
B – Não faz idéia, Alejandra conversou com Armando por telefone. Mas a gente vai ter que dar um jeito, eu já aceitei o convite. É por isso que eu preciso conversar com o Armando hoje. Tem como distrair o papai um pouquinho?
DJ – Você já aceitou?! E se seu pai não deixar?!
B – SE ele não deixar, mãe? Ele NÃO vai deixar. Mas se eu não aceitasse esse convite, seria o fim do nosso romance, e, ai, mãe, eu não saberia viver sem ele, a senhora sabe...
Dona Júlia sorriu.
Dj – Acho que você está exagerando, Betty. Não creio que Armando a deixasse por esse motivo. De qualquer forma, vamos ver o que eu posso fazer para distrair seu pai...
Dona Julia pegou o café dentro de uma lata e escondeu-o debaixo da pia. Betty foi para a sala e sentou-se ao lado de Armando no sofá. Dois minutos depois, D. Julia apareceu na sala.
SH - Cadê o café, Julia? Sabe que eu não fico sem café essa hora.
Dj - Ai, Hermes, é isso que eu vim te falar: acabou e eu não vi.
SH - Mas eu não comprei esses dias?
DJ - Mas já acabou. Você toma café o tempo inteiro. Por que não sai pra comprar?
SH - E aonde eu vou achar mercado aberto a essa hora?
B - No centro, papai.
Sh - Mas se esqueceu de que meu carro está na oficina? E a essa hora é perigoso sair à pé...
A - Não seja por isso que o senhor vai ficar sem seu café, Seu Hermes. Vai no meu carro.
Seu Hermes levantou as sobrancelhas, completamente tentado pelo diabo de quem reclamava tanto.
SH - No seu carro?
A - Sim, por que não? Confio plenamente no seu cuidado.
Armando entregou-lhe as chaves. Se ele tivesse tanto cuidado com o carro como tinha com a filha, realmente não havia com o que se preocupar.
Seu Hermes olhou o carro lá fora, olhou as chaves e estalou a língua.
SH – Então eu vou. Juízo vocês, hein! Não demoro.
Saiu emocionado. Dona Julia correu para a janela e quando viu que ele arrancou com o carro, saiu.
DJ - Meninos, qualquer coisa estou lá em cima.
B - Ok, mamãe.
Quando D. Júlia sumiu da vista dos dois, Armando levantou-se e puxou Betty, abraçando-a forte, como se ela fosse o abrigo longe dos furacões.
A - Te amo, mi vida, te amo tanto... Hoje foi um dia muito estranho... Parece que tem uma eternidade que não a vejo, que não a sinto... Fiquei com tanto medo de você me deixar que tinha medo de ir até a sua sala, de me dirigir a você... Mas tinha que te pedir perdão por tudo, estava me sufocando.
Betty olhou-o bem fundo nos olhos, inquietos, e colocou uma mão em seu rosto.
B - Mas agora passou, vamos esquecer isso...
A - Sim...
Armando beijou-a intensamente, acendendo todas as brasas apagadas durante o dia pelas inquietações. Começou a percorrer seu corpo por cima da blusa enquanto imaginava sua pele com todos os detalhes de que recordava... E fazia tanto tempo... Muito tempo de um tempo que nunca era suficiente.
Sua respiração se tornou errática e seu coração acelerou-se. Sua mente se tornou errática e seus instintos aceleram. Sua vida tornou-se errática e... Tudo o que sabia era que tinha muita urgência de sua Betty.
A - Vamos pro seu quarto - seus instintos falaram mais alto, ofegantes, enquanto ele deslizava as mãos pelas costas dela.
Betty quase disse sim, embriagada de presença dele e da necessidade de tê-lo colado a si. Mas abaixou a cabeça e sorriu, um sorriso pálido, doído.
B - Mi amor, precisamos conversar... Foi pra isso que meu pai saiu. Precisamos falar sobre a viagem.
Armando suspirou, tentando deitar fora toda a loucura dentro de si e beijou-lhe a testa. Todavia, de verdade, a última coisa que queria era conversar.
Voltaram a sentar-se no sofá.
A – Será que seu pai não demora mesmo?
Betty sorriu.
B – Se bem conheço meu pai, ele vai demorar um pouquinho hoje...
A – Então ainda tenho esperanças... - disse malicioso, beijando-a.
Betty sorriu. Armando não tinha conserto.
Ele recostou-se no sofá e deitou a cabeça, olhando para o teto.
A - Bom, mi amor, sobre a viagem, diga que a franquia da Venezuela é vital para a empresa, que será uma visita profissional, e que você está praticamente intimada a ir, afinal, a senhorita é a representante legal da Ecomoda.
B – Sim, vamos ver... E quantos dias vamos ficar, aonde, em quais eventos iremos?...
A - Bom, a viagem vai durar, creio, 1 mês...
B - 1 mês ? - Betty olhou-o assustada.
Armando riu.
A - Brincadeira, mi amor, brincadeira... Bem que eu queria que essa viagem durasse um mês inteiro, pra ver se eu saciava toda essa vontade de estar contigo. Mas serão apenas três dias. No primeiro a gente chega, se distrai um pouco, no segundo vamos ao coquetel de inauguração. Acho que depois do coquetel, Alejandra disse que reuniria alguns amigos na casa dela...
B - Hum, agora entendi porque o senhor está tão animado em ir...
A – EEUU??? Não, Betty, por favor, estou animado em ir COM VOCÊ.
B - Brincadeira, mi amor,brincadeira... - Imitou-o.
Armando sorriu.
A - Certo. No 3o dia a gente tira pra eu te mostrar a cidade que é linda, e depois voltamos. Muito pouco tempo, mas melhor que nada.
Roubou-lhe um beijo rápido. Betty riu.
A - Será que Seu Hermes não vai querer ir?
B - Meu pai? Não. Ele tem medo de avião.
Armando sorriu: “Que alívio”.
B - "Mas vai mandar o Nicolas, no lugar dele" - ela pensou, mas não diria, um problema de cada vez a ser resolvido.
Beijaram-se. Armando trouxe Betty para cima de si, apertando-a contra seu peito, querendo senti-la com a intensidade acumulada durante todo o dia em que ficaram sem se ver.
A – Betty... Eu te amo tanto, eu te quero tanto... - gemia ofegante, enquanto enfiava as mãos por dentro da blusa de Betty e lhe acariciava os seios sobre o sutiã. Betty se abandonava nele e não queria mais nada.
B – Eu também, mi amor... Eu também... - Mal conseguia articular as palavras.
Armando pegou a mão dela e a levou entre suas pernas. Betty olhou-o nos olhos , com a testa encostada na testa dele.
B – Mi amor, meu pai pode chegar a qualquer momento...
Armando, olhando nos olhos dela, colocou a própria mão sobre a dela e pôs-se a fazer os movimentos que o agradava, buscando os lábios de Betty.
A – Não quero pensar nisso, Betty... Só quero sentir você... E que você me sinta...
O cérebro de Armando ardia em fogo e incendiava todos os seus pensamentos.
Betty se sentiu profundamente unida a ele naquele momento. O entendia... E quis lhe mostrar isso desabotoando-lhe a calça e começando a acariciá-lo, beijando-lhe para silenciá-lo e silenciar-se quando ele subiu sua saia e começou a fazer a mesma coisa com ela.
A – Vamos pra algum outro lugar, Betty... - Armando quase lhe suplicava, mal conseguindo se segurar.
Betty olhou-o, acariciando seu rosto, se buscando perdida nele. Levantou-se e o trouxe para a cozinha. O lugar mais escondido daquele piso, já que não o poderia levar para o seu quarto. Armando beijou Betty intensamente, percorreu seu pescoço com a língua, abriu-lhe alguns botões da blusa e beijando cada parte, enquanto acariciava-lhe em seu ponto mais íntimo. Betty deslizava as mãos por todo seu corpo, demorando-se em suas partes mais sensíveis. E ele rapidamente tirou uma camisinha de dentro da carteira e deu-lhe a ela, que a colocou nele. Armando, então, sentou-a na mesa, beijando-lhe os lábios, sentindo todo o seu corpo na pontas dos dedos, e terminaram o que começaram na sala, semi-vestidos, entre gemidos e necessidades abafadas, até o mundo à sua volta contrair no seu inicio e expandir ao infinito.
Armando recostou a cabeça entre os seios de Betty, depois de beijar-lhe o pescoço. Betty riu.
B – Armando, você é um louco... - disse passando os braços por sobre os ombros dele e aninhando-o em si.
Armando ergueu a cabeça, com uma expressão esgotada.
A – Acho que eu vou dar meu carro de presente para o seu pai, se isso nos permitir outros momentos como este...
Betty riu novamente.
B – É melhor você se recompor, mi vida, agora ele pode realmente chegar a qualquer momento...
Armando deu um último beijo em Betty e correu para o banheiro. Betty ajeitou-se, ajeitou a saia, tentando desfazer os amassados, e voltou para a sala. Exatamente nesse momento, ela viu o carro de Armando parando na porta de sua casa e seu pai saindo e tocando a campainha. Dona Júlia desceu correndo para abrí-la.
SH - Está aqui, mulher! Capricha nesse café!
Entrou.
SH – Onde está o Dr?
B – No banheiro...
Seu Hermes contraiu as sobrancelhas.
DJ – Que foi, Hermes?
SH – Você estava aqui o tempo inteiro...
DJ – Mas,claro!
SH – Hum...
B – E como foi com o carro, papai? - Era melhor mudar de assunto logo.
Seu Hermes sacudiu as chaves, animado.
SH – É um carro mais do que excelente! As ruas parecem tapetes, nem se sente acelerar... Uma maravilha!
B – Ah, que bom. E cuidou bem dele?
SH – Claro que sim, minha filha! Olha com quem a senhorita está falando...
Armando saiu do banheiro completamente normal. Sentou-se ao lado de Betty evitando olhá-la para não se denunciarem. Tomou a mão dela entre as suas.
A – Gostou do carro, Seu Hermes?
SH – Muitíssimo, muitíssimo, Dr. Um excelente carro, estava falando com Betty agora sobre isso.
A – Ah, fico feliz que tenha gostado, também gosto muito dele.
Seu Hermes assentiu.
A – Mas, quando o senhor quiser, não faça cerimônia, ele estará à sua disposição.
Seu Hermes agradeceu animado. E Armando realmente queria que Seu Hermes quisesse muito...
Dona Julia arrumou tudo rapidinho. Armando se serviu e, quando Seu Hermes disse que já ia subir, ele se levantou, se despediu de todos e saiu acompanhado por Betty. Fecharam a porta e ele abraçou-a, finalmente podendo olhá-la diretamente nos olhos.
Permaneceram abraçados longamente.
A – Até amanhã, mi vida. Que tenha uma boa noite e esteja bem.
B – E você também.
Mas nenhum dos dois se separavam.
A – E obrigado por hoje. Foi um dia tão longo... Mas que acabou tão bem...- com um sorriso malicioso.
B – Sim, é verdade – Betty assente ruborizada.
Armando endireitou-se e puxou o rosto de Betty para um beijo.
A – Até amanhã, mi vida. Te amo...
B – Até amanhã. Também te amo.
A – Muito.
B – Muito – disse sorrindo.
Beijaram-se longamente, até que Armando saiu num impulso porque não conseguiria sair de outra forma.
Entrou no carro sorrindo. Não estava completamente satisfeito, mas, pelo menos, estava saciado por um momento.
Betty subiu e deitou-se sem banhar-se. Não queria se desfazer-se da presença dele em sua pele. Deslizou a mão pelo próprio corpo enquanto sentia-o em si. E foi enrolada no próprio corpo que adormeceu.
Escrito desde Aug 25, 2008, 3:12 PM de la direcci�n IP 190.29.97.242
Armando chegou ao seu apartamento, sufocando com o ar azul-escuro do ambiente. As imagens lhe chegavam ásperas e tudo o que tinha definido eram as lembranças recentes de seu encontro com Betty... Ah, Betty, Betty... Vagueia pelos cômodos, se serve um copo de uísque, e logo a lembrança dela se projeta para fora, inundando o vazio com seu perfume, com o seu espectro. Assim, inebriado, se deita e a presença de Betty em seu corpo se faz tão forte que ele ainda pode sentir sua mão sob a dele, deslizando pelo seu corpo, acariciando sua parte mais íntima. Sente a respiração dela sincronizada com a sua, os gemidos sobrepostos ao seu, até que tudo se contrai em um nó de sentimentos e anseios e vontades para explodir logo em seguida desfazendo-se em um tapete de escuridão sem fim... E ela pousou-se sobre ele calmamente, voltando para dentro de si, enquanto normalizava sua respiração e ele tinha condições de dormir...
Betty dormiu embalada pelas lembranças dos beijos e das carícias de Armando. Se sentia muito leve, ainda que seu corpo se sentisse fragmentado, como se lhe faltasse um órgão. Se surpreendia ao se ver tão sem idéia da dimensão da sua necessidade de Armando, ainda que soubesse que ele era tudo na vida dela... Todavia era uma necessidade confortável, pois tinha plena certeza de que naquele momento os pensamentos dele estavam irradiados para si...
Despertou-se tranqüila no dia seguinte, mas sua tranqüilidade durou cerca de minutos: assim que se lembrou de que havia prometido ir almoçar com Dona Margarida e Seu Roberto não pode deixar de sentir-se nervosa. Sabia que os pais de Armando haviam sonhado com um casamento entre ele e Marcela desde que estes eram pequenos e estiveram muito perto de ver seu sonho se realizar. E tinha muito medo de não ser aceita pelo casal Mendoza, porque além de não pertencer ao mesmo círculo social, talvez eles a culpassem pelo fim do relacionamento entre seu filho e a herdeira dos Valencia. Também não podia deixar de se sentir envergonhada por haver se envolvido com Armando quando ele ainda estava comprometido. Mesmo sabendo que Armando já não amava a noiva, que ele mantinha o compromisso apenas pela empresa, Betty carregava esta culpa em sua consciência. Havia traído todos os valores e princípios que seus pais haviam lhe ensinado em nome daquele amor...
Arrumou-se com esmero, pois o almoço seria no clube e ela queria causar boa impressão, ou pelo menos não se sentir destoante do ambiente. Durante o café da manhã Dona Júlia percebeu o nervosismo da filha. Sabia que seria difícil para Betty adaptar-se ao mundo do seu namorado, mas ela confiava que tudo acabaria bem, porque sabia que Betty o amava muito e sabia também que Armando amava muito sua filha. E ela esperava que esse sentimento fosse forte o suficiente para aparar as arestas deste relacionamento entre pessoas tão diferentes. Disse à Betty que se mirasse no exemplo de Armando, fazendo tantos sacrifícios para adaptar-se às exigências de Hermes... Depois da conversa com a mãe, Betty sente-se um pouco mais tranqüila e pensa que ela tem razão. “Se Armando está fazendo tanto por mim, eu também posso. Não devo me acovardar agora.” Com esse pensamento ela sai de casa, sempre acompanhada de seu pai, e sente-se renovada ao receber um sorriso maravilhoso de Armando, que tinha a capacidade de iluminar seu dia.
Chegando à empresa, os três se despediram e seguiram cada um para sua sala. Armando foi para vice-presidência maquinando um plano para tirar Betty de sua sala nem que fosse por 30 segundos. Somente queria lhe dar um beijo e dizer que estava com ela não importasse o que acontecesse. Passa por Sandra que estava ao telefone e entra para sua sala, fechando a porta. Mal se senta e seu telefone toca.
S – “Seu Armando, Alejandra, da Venezuela, posso passar?”
Armando teve um estalo na garganta quando escutou esse nome. Alejandra?! Desde que eles conversaram e Armando disse estar apaixonado por Betty que os dois não se falavam. Teve uma súbita curiosidade sobre o que poderia ser, todavia tinha medo de pegar o telefone e Betty não gostar.
Sacudiu a cabeça de leve. Que ridículo: Alejandra era uma amiga, e Betty não era Marcela.
A – Claro, Sandra! Pode passar!
Betty, entrou, sentou-se e tentou se jogar no mar de papéis que tinha à sua frente. Todavia, só conseguia pensar nesse almoço, em como os pais de Armando iriam reagir, em como iriam recebê-la... Para Armando poderia parecer bobagem, mas para ela era muito importante a aprovação do casal. Seria muito dolorido estar com Armando sem a benção dos pais dele, seria como ser a “outra” ciclicamente...
Estava perdida nesses pensamentos, quando Armando entrou em sua sala, os olhos brilhando, como há muito não o via. Seu Hermes saiu da sua sala imediatamente para ver quem havia entrado.
SH – Dr Mendoza.
A – Seu Hermes, preciso que revise o orçamento dos materiais para a próxima coleção, por favor.
SH – Dê-me aqui, já assino.
Assim que Seu Hermes entrou para sua sala novamente, Armando correu e deixou um bilhete na mesa de Betty que o pegou sorrindo.
A – “Me encontre na sala do Nicolas em dez minutos. Ótimas notícias. Te amo. Armando.”
Betty acenou positivamente e Seu Hermes saiu da sua sala.
Sh – Aqui está, Dr Mendoza, totalmente de acordo com o planejado.
Armando balançou a cabeça em afirmativo.
A – Obrigado, Seu Hermes. Até o almoço, mi vida.
B – Tchau, mi amor.
Armando saiu da sala e a recepção estava deserta. Contraiu o cenho, balançou a cabeça e foi para a sala do Nicolas. Este, quando o viu, ergueu as sobrancelhas.
N – Que passa, Dr Mendoza?
A – Nicolas, você pode sumir por uns dez minutos e me deixar a sós com Betty?
N – Posso, claro, claro.
A – Mas não fique andando por aí, senão Seu Hermes pode vê-lo. Por que não vai lanchar alguma coisa?
N – Posso?
A – Tem a minha permissão e a de Betty, pode ir.
Nicolas não se atreveu a contestar. Um lanche lhe faria muito bem. Levantou-se e saiu, tomando cuidado para que ninguém o visse.
Betty pegou uns papéis e disse que ia discutir uns relatórios com Nicolas. Saiu.
Trancou a porta quando entrou para a sala. Armando esperava-a, sentado no sofá, com um olhar de abraço apertado. Suas pupilas dançavam. Betty colocou os documentos que segurava na mesa de Nicolas e se sentou ao lado dele que já se colocou por cima dela, beijando-a, deitando-a no sofá.
B – Você me parece animado – disse acariciando o rosto dele.
Armando beijou-a mais uma vez, embriagando-se com seu gosto e tentando esquecer aquelas paredes pelas quais estava cercado. Tentava se manter o mais tranqüilo possível, mas não podia negar que estava sendo tudo muito mais complicado do que o que ele previra. Quando Betty lhe dizia que a partir do momento em que seu pai soubesse de tudo as coisas iriam ficar difíceis, ele não imaginara que fosse tanto... Como era torturante estar ao lado dela e não poder fazer o que seu coração pedia e seu corpo desejava... Por isso aproveitou aqueles minutos fabricados a fio de ouro que recebera e apertou-a bem forte contra si, querendo projetá-la fielmente para dentro dele, ou querendo projetar-se nela, pra não se sentir mais tão partido em si mesmo, um vidro trincado, tão somente... Olha-a com expressão de quem está com muita sede em frente a uma fonte de água pura, no entanto proibida, inacessível.
Betty percebe a neblina que se apossa do rosto de Armando. Há alguns dias ela vem percebendo isso e sente medo. Teme que ele não agüente a pressão de seu pai e toda aquela situação que, para ele, deve ser ridícula. Sente-se culpada. Mais uma vez diz para si mesma: “Beatriz Pinzon Solano, você já é uma mulher adulta, independente. Por que aceita isso?”
Quando Armando percebe o olhar torturado de Betty como a lhe pedir desculpas, senta-se no sofá, trazendo-a para seu colo e, tenta dissipar a tensão, ao dizer:
A – Tenho novidades, mi amor! – em tom alegre.
B – Sim? Quais? – sorrindo, acariciando o rosto dele.
A – Alejandra me ligou.
O sorriso de Betty desaparece. Ela sai do colo dele. Se desenterrasse alguma palavra dos escombros que se tornara sua mente, ela a diria.
Armando percebeu a noite súbita no escritório. Tratou logo de justificar.
A – A franquia da Venezuela será inaugurada daqui a 15 dias. E ela nos convidou para participarmos do coquetel de inauguração.
Armando se mostra muito entusiasmado com esse convite.
B – “Nos” convidou, ou convidou “você”?
A – Nos convidou Betty. A todos os executivos da Ecomoda. Ela enviou os convites formais por correio, mas me ligou para reforçar. Ela faz questão de que estejamos presente.
B – Com certeza! – irônica – ela deve estar com muita vontade de “me” ver, não, Armando?
A – Pois ela me disse que ficaria muito contente e honrada com sua presença.
B – Ela ficaria muito contente é se eu não fosse e você aparecesse lá sozinho, isso sim!
E ri, com sua risada inconfundível, tentando disfarçar o pavor que tinha do porvir.
A – O que é isso, Betty!
B – Armando... Posso ser inexperiente, mas não sou boba, nem cega...
A – Não sei o que você quer dizer com isso, Betty...
B – Não mesmo?
A – Veja, ela me afirmou que o convite é para todos os executivos de Ecomoda e que faz questão da sua presença. Só me pediu que avisássemos com certa antecedência quantos de nós iremos para que ela possa providenciar as reservas no hotel. Você sabe que essa franquia é uma das mais importantes que temos, não? Penso que deveríamos prestigiar a inauguração.
B – Hum... Está com saudade da Alejandra, Armando? – Para onde Betty olhasse, via apenas a figura perturbadora daquela mulher por quem não conseguia sentir absolutamente nenhum ódio, o que tornava as coisas piores ainda.
A – Betty! Eu falo sério.
B – Eu sei, eu sei. Realmente a empresa para a qual Alejandra trabalha é uma importante parceira para nós. Mas você sabe que temos muito trabalho por aqui. Estamos desfalcados de executivos. E além disso eu não gosto dessas coisas, Armando.
A – Eu sei que temos muito trabalho, mas seriam apenas dois dias, Betty.
B – Você pode ir se quiser. Aliás, acho que você deve ir. Afinal você é o responsável pela área das franquias. Mas eu ficarei aqui.
A – Mas, Betty! – e abaixa o tom de voz para que não denuncie a presença dos dois ali – eu pensei que seria uma excelente oportunidade para estarmos sós... É uma viagem de trabalho, seu pai não poderia falar nada...
Betty finalmente entende o entusiasmo de Armando com aquele convite.
B – Ai, Armando! Você ainda não entendeu? Meu pai jamais aprovaria que eu viajasse com você sozinha. – ela diz mortificada.
Armando quase perde a calma diante daquele comentário. Se levanta, anda pela sala e encosta na porta trancada. Na sua cabeça um furacão varre tudo o que está perto e todas as coisas se confunde àquele vento violento, sem começo nem fim. Olha pra Betty, e o silêncio cobre não somente seus lábios, mas seus olhos e seu tato, na tentativa de impedir a raiva que esmurra seu peito. E não há nada... Ele sacode a cabeça tentando espantar tudo isso, e, como não consegue, abre a porta e sai.
Betty olha-o sair numa uma visão embaçada. Assim como suas vistas, a tristeza que sente por debaixo da pele é monocromática.
Ela nunca teve medo como agora...
Abre a porta para ir atrás dele, mas as meninas do quartel, que parecem ter chegado exatamente naquele momento, a impedem.
AM – Betty, Betty!!! Precisamos te contar uma coisa!
Mas as vozes das meninas estavam baixas demais perto dela mesma gritando dentro de si para si.
B – Depois, meninas, depois...
So – Mas é sobre a venezuelana...
B – Ah, se for isso eu já sei...
Sa – Ai, pobre, Betty, deve mesmo saber, você não me parece bem...
B – Eu estou bem, só quero ficar só.
Vai para sua sala, mas para em frente à porta.
Armando bate forte a porta, querendo arrancá-la dali. Tem todas as veias envenenadas de raiva, e a necessidade de dizer o indizível explode no lugar errado, fazendo com ele passe o braço por sobre a mesa varrendo todos os objetos para o chão. Está sufocado asfixiado as palavras arrebatando em forma de impulso empatando em sua garganta impedindo-o de raciocinar. Começa a chutar a mesa repetidas vezes, querendo que doesse para que ele se sentisse humano novamente, mas a raiva envolve-o cegando-o protegendo-o. Se joga na cadeira, sacode os objetos que não tinham ido para o chão, e quando se corta com o abridor de cartas, cai em si, desajeitado, enorme, pesado. Debruça-se sobre a mesa. Que raio de vida era essa! Ele era Armando Mendoza, ele poderia ter a mulher que ele quisesse, na hora e do jeito que quisesse. Ele poderia levar a vida que quisesse e ir pra onde quisesse sem ter que dar a menor satisfação. Havia tanta mulher no mundo, por que ele teve que se apaixonar justo pela mais complicada?!
Passa a mão pelo cabelo, puxando-o, soca a mesa, e, nesse momento tão inapropriado, entra Betty. A raiva asfixia o Armando num quarto de sua mente e sua voz pedindo socorro é inaudível. O sangue que mancha a mesa é negro e viscoso, mas Betty não o vê por estar com os olhos cobertos com um véu denso de lágrimas.
Armando se levanta na hora.
B – Armando, nós temos...
Mal sabe ela que o Armando está morrendo...
A – ... Que conversar?! Não, Betty, não temos, se eu escutar de novo que você não vai tomar nenhuma atitude na sua vida porque o seu pai não deixa, eu juro que não serei responsável por mim! – Disse ofegante, num tom elevado.
B – Eu só gostaria que você me entendesse...
Betty não conseguia conter as lágrimas que Armando não enxergava.
Armando arregalou os olhos. Estava ligeiramente vermelho.
A – Te entender??? TE ENTENDER, BETTY?!? E A MIM?! POIS ME ENTENDA AGORA VOCE!!! Olha pra mim, OLHA PRA MIM! Betty, eu não agüento mais! Eu tenho feito a minha parte, eu tenho sido perfeito! PRA TE AGRADAR! Eu tenho saído completamente fora do meu mundo POR VOCÊ!!! E VOCE NÃO PODE FAZER NADA POR MIM, NUNCA! Eu tenho vontade de arrebentar o primeiro que eu vejo sempre quando você cita o nome do seu pai. VOCE NÂO CONSEGUE DAR UM PASSO SEM ELE!!! Olha pra você, é presidente de uma empresa, é uma mulher completamente independente. POR QUE, BETTY, POR QUE?! Eu estou ficando louco! Louco e totalmente sem chão, eu não sei mais o que eu faço!!! Eu faço tudo pra estar contigo, não trabalho mais, não durmo mais!!! E eu não agüento mais! Você não faz nada, não se esforça, parece que nem quer estar comigo. EU PODERIA ESTAR COM QUALQUER MULHER, MAS ESCOLHI VOCÊ, E EU NÃO SEI...
Dá dois passos para o lado e tropeça na cadeira. Pega-a e a atira longe, assustando Betty.
Ela não entende como ele pode estar tão cego, e aquelas palavras machucam-na demasiadamente. Da mesma forma que ele não trabalha e não dorme, ela também, da mesma forma que ele está sem chão, ela igualmente...
Não consegue segurar um soluço que vem com a vontade de dizer uma montanha de coisas para ele, mas não adiantaria dizer nada naquele momento.
B – Se você se sentir melhor me magoando, talvez essa conversa tenha servido pra alguma coisa.
Vira-se e sai.
Aquelas palavras são a flecha, diretamente no calcanhar de Aquiles. Armando cai. O telefone toca e ele o chuta para longe. Arrasta a cadeira de volta e se senta. Se debruça mais uma vez.
A – E agora?
O pequeno corte na sua mão arde infinitamente. Ele duvida se é mesmo um corte.
Betty corre para o banheiro da recepção. Não pode entrar pra sua sala transtornada como está.
Seu Hermes escuta o barulho de coisas se estilhaçando, depois escuta a voz de Armando, sem saber discernir o que diz, todavia, com a plena certeza de que está brigando com alguém. Betty não está em seu escritório e ele, com uma desconfiança aguda, sai. Encontra as meninas encolhidas olhando para a vice-presidência.
SH – O que foi essa barulhada?
AM – É Seu Armando, Seu Hermes.
SH – E Betty?
So – Saiu da sala de Nicolas e se enfiou no banheiro.
SH – Ah... E será que o doutor Mendoza está bem? Eu deveria ir falar com ele?
Sa – É melhor, não, Seu Hermes...
Be – Acredite se quiser, mas é normal isso na empresa, em pouco tempo o senhor se acostuma.
Sa – Berta?!
Be – Humpf, verdade seja dita. Ficou desse jeito depois que recebeu um telefonema da Venezuela. Alguma coisa que deu errado...
Seu Hermes ergue as sobrancelhas...
SH – Pois eu digo uma coisa importante às senhoritas: O diabo é porco.
Voltou para sua sala.
So – E ele diz lá outra coisa?
Todas riram e voltaram a trabalhar.
Betty trancou-se no banheiro e tudo o que tinha para dizer escorreu de seus olhos manchando de leve a blusa. Chegara ao limite e a única coisa que passava pela sua cabeça era a possibilidade de Armando deixá-la. Doía demais isso, e doía saber que ele tinha razão, motivo pelo qual suas palavras machucaram tanto. Fora tão difícil chegar aonde chegaram, para terminar daquele jeito tão estranho. De repente tudo pareceu muito sem sentido, e ela odiou a providência divina por não existir, naquele momento ela tinha certeza de que nada existia...
Armando continuava debruçado conversando sozinho, se mastigando a si próprio e sentindo um gosto repulsivo da sua figura. Como se não bastasse todo o histórico de idiotices que cometera com relação à Betty, agora havia mais essa linha a acrescentar. E ele odiava o modo como ela não gritava com ele, não partia pra cima dele, não lhe esbofeteava... Como se Betty fosse como todas as outras... Idiota!... Sua culpa sempre era infinitamente grande quando era com ela... Na verdade, desconhecia isso antes de conhecê-la... Imbecil!... Se ela for esperta vai te deixar agora, porque não merece as coisas que você faz... E se ela o deixasse, ainda que você o merecesse... não tinha oxigênio suficiente no seu cérebro para continuar esse pensamento...
O telefone toca de novo, tirando-o do transe. Procura-o entre os objetos jogados no chão e o atende.
A – Armando Mendoza.
DM – Armando, meu filho, você está bem? Sandra me disse que não estava em condições de me atender antes.
A – Sim, estou bem, mamãe, foi uma bobagem.
DM – Entendo... Estou te ligando pra confirmar o almoço de hoje.
Armando fechou os olhos.
A – Confirmado, encontraremos vocês no Le Noir.
DM – Certo. Fica com Deus, meu filho.
Desligaram.
Armando discou o ramal da presidência, mas um arrepio percorreu-lhe a espinha ao pensar em escutar a voz gelada de Betty, dizendo coisas que ele não queria ouvir, como escutara em sua sala há pouco. Desligou. Ligou para Sandra.
A – Sandra, comunique-se com Beatriz e lhe diga que dentro de uma hora a busco para almoçarmos.
Sa – Sim, senhor.
Desligou o telefone, procurou um copo e a garrafa de uísque. Seu melhor amigo nessas situações.
B – O que foi, Sandra?
Sa – Betty, Seu Armando disse que daqui uma hora mais ou menos te busca pro almoço.
B – Que???
Ainda tinha o bendito almoço... se sentiu um grão de areia na praia...
Sa – Aconteceu alguma coisa entre vocês?
B – Por que?
As – Seu Armando quebrando tudo, você saindo da sala dele pálida... Foi a ligação da venezuelana, não foi, Betty?
Betty piscou duas vezes, assustada com a lanterna que acendera frente aos seus olhos. Aquela briga horrível perto dessa inauguração da franquia da Venezuela.
B – Avise-o que estarei esperando.
Desligou o telefone sem esperar a resposta de Sandra, atônita.
Simplesmente, estava deixando-o ir para junto da pessoa para quem mais tinha medo de perder Armando.
Esse intervalo de hora passou de forma dolorida tanto para Armando quando para Betty. Ele não pensava em outra coisa senão no que diria para pedir desculpas. Ela não merecia aquilo, não era culpa dela, porque sua raiva não sabia disso? Diante de tudo por que ela já havia passado, era perfeitamente compreensível que Seu Hermes a prendesse tanto. Mas seus sentidos eram surdos a todas as explicações... E seus sentidos eram seu guia invariavelmente... Maldito, maldito, maldito!
Betty sempre tinha que sair às pressas para o banheiro porque não conseguia conter a vontade de chorar que rasgava seu peito e ardia em seus olhos. Chorava por Armando, e por ela, e por ser quem era, e pelas coisas que aconteceram no passado, e pelo pai maluco que tinha, e... De repente não sabia por que chorava, mas a vontade era igual. Depois respirava fundo e voltava como se nada tivesse acontecido. E tinha vontade de chorar por isso também...
Chegada a hora, Armando se preparou meticulosamente para ir até sala dela. Não poderia errar em nada, não dessa vez.
Quando a porta da sala da presidência se abriu, Betty, por mais que já o esperasse, levou um susto.
A – Vamos?
Ela assentiu somente, estava gelada de medo.
Fizeram o percurso em silêncio: ela tinha medo de dizer alguma coisa e ele voltar a explodir, ele empregava toda sua força de vontade na tentativa de adivinhar o que ela estava pensando que não sobrava espaço para pensar em nada para dizer. A verdade é que, em situações de tensão, Betty era uma verdadeira incógnita para ele, no mais intenso sentido da expressão. Lembrava-se de que Marcela partia pra cima dele, ameaçava-o, incitava-o ate que ele perdesse a paciência, mas sempre dizia tudo o que se passava na cabeça dela. Betty era um universo fora do sistema, uma exceção à regra de tudo o que conhecia... Então por que teimava em compara-la com Marcela? Respirou fundo: Verdade seja dita, Marcela foi o único arremedo de relação estável que tivera na vida. Como ele ainda se atrevia a dizer que era tão experiente quando o assunto era mulher?
E Betty continuava calada.
This message has been edited by umnovofinal de la direcci�n IP 189.15.196.139 on Jun 11, 2008 7:10 PM
Escrito desde Jun 9, 2008, 8:29 PM de la direcci�n IP 189.15.187.52
O encosto da cadeira onde Betty se apoiou, assim que desligou o telefone, seguramente, era feito de tristeza. Uma tristeza macia e úmida que entrelaçava em seu corpo como uma segunda pele. Ouvir falar dos pais de Armando foi como se seu passado corresse à sua frente e ela pudesse deslumbrá-lo adiante novamente. Era muito decepcionante o modo como julgava ser vista pelos dois. Como se não bastasse ser de origem humilde e ser feia, ainda foi responsável pela separação dele e de Marcela... Mas, não, ela não foi a responsável, não podia se culpar por desfazer uma relação que começou desfeita... Contudo, fora amante dele, mesmo sabendo que ele era um homem comprometido e isso era um buraco negro que sugava para si todas as qualidades que poderia vir a ter.
Estava debruçada sobre a mesa quando todas as meninas entraram em sua sala dizendo que já era hora do almoço e confirmando o encontro no Correntazo.
Ela levantou a cabeça.
B - Eu não vou mais, meninas.
AM - Mas como assim, Betty?! Que houve?
B - Não, nada de mais... Apareceu um compromisso de última hora...
AM - Mas, Betty??? - Aura Maria fazia gestos perguntando do plano que elas haviam combinado.
M – Foram os pais... – Fez um gesto com a cabeça indicando a vice-presidência – .Não foram?
Sa – Que pais?
So – Como assim, Sandra? Não viu Seu Roberto e Dona Margarida??? – Sophia cochichava.
Sa – Não! Estão aqui?
Betty acenou afirmativamente.
Sa – Aonde eu estava que não os vi?
As meninas fizeram gestos que não sabiam.
B - Vão tranqüilas, meninas. Bom apetite.
AM - Eu peço alguma coisa pra você antes de ir, então.
B - Sim, obrigada, Aura Maria.
Saíram todas grudadas uma na outra da presidência.
Seu Hermes saiu da sua sala arrumando a camisa. Deparou-se com a filha cabisbaixa, em silencio.
SH – Vamos?
B – Ah, papai, descobri que não posso... Apareceu um erro de conta aqui nas saídas da empresa e eu preciso descobrir aonde...
SH – Então eu fico e te ajudo.
B – Não, não precisa, papai, não é nada tão grave assim.
SH – E o Dr. Mendoza?
B – Almoçando com os pais.
SH – Hum... Então Dr. Roberto está na cidade... Depois tenho que conversar com ele, afinal, nossas famílias têm que se conhecer...
E Betty ainda havia se esquecido disso, o que contribuiu ainda mais para seu baixo astral.
SH – Eu vou almoçar. Você ia comer com suas amigas e por isso eu disse à Júlia que almoçava em casa... Mas estarei aqui na empresa... A qualquer hora, não se esqueça disso, mocinha. Quer que eu traga alguma coisa pra você?
B – Não, Aura Maria já pediu o meu almoço, papai. Obrigada.
SH – Tudo bem. Fica com Deus, minha filha.
Ainda bem que ele sairia. Tudo o que Betty queria era um momento a sós... Com o próprio momento.
Armando voltou para a Ecomoda sozinho, ainda não havia acabado o horário do almoço, a conversa com os pais não fora longa. Passou pela presidência para verificar se Betty estava por lá, todavia, ficou surpreso ao ver que realmente estava. Significava que ela nem tinha saído.
Bateu na porta aberta. Betty sorriu, mas um sorriso fosco.
B – Olá, mi amor, como foi com seus pais?
Armando fez um gesto perguntando se Seu Hermes estava lá e ela disse que não. Então ele correu e curvou-se para beijá-la.
Betty sorrriu.
B – Mas ele enfatizou que voltaria a qualquer momento.
Armando sentou-se na cadeira, de frente para Betty, e pegou o telefone.
A – Wilson, assim que você vir o Seu Hermes chegar, liga aqui na presidência.
W – Certo, Seu Armando!
A – Se ele entrar e eu não for avisado, você está demitido, escutou?
W – Sim, Seu Armando.
A – Então repete.
W – Se o Seu Hermes entrar sem o senhor saber, estou demitido.
A – Então está combinado.
Desligou o telefone e levantou-se, trazendo Betty para si e sentando-se no sofá com ela em seu colo.
Beijaram-se. Em seguida Betty deitou a cabeça no ombro dele, escondendo seu rosto ali, na tentativa de entrar em Armando e conseguir se esconder completamente de tudo.
A – Que foi, mi amor? Nem saiu para almoçar...
B – Não foi nada, Armando... Me conta como foi seu almoço... Vocês falaram de mim? – disse com a cabeça deitada no ombro dele.
Armando sorriu. Beijou os cabelos dela.
A – E eu consigo falar de outra coisa?
Betty sorriu e levantou a cabeça.
A – Ah, que bom, consegui fazer você sorrir.
B – Mas me conta... Você falou da gente?
A – Bom, sim...
B – E eles aprovaram?
Armando ergueu as sobrancelhas, a frase chegara tropeçando aos seus ouvidos.
A – Se aprovaram? Betty, comigo é diferente, a meus pais eu só comunico as coisas...
B – Mas como foi?
Ele sorriu. E ela ainda insistia no que ele considerava um adorável disparate.
A – Calma, mi amor! Por que você está tão ansiosa? – Disse jogando o cabelo dela para trás – Deixa as neuras pra mim... Em primeiro lugar você não tem que se preocupar com a aprovação dos meus pais, só com a minha – beijou-a rapidamente, deslizando os lábios para o pescoço dela fazendo com que sua respiração acelerasse ligeiramente – e essa você tem nos maiores índices possíveis.
Betty sorriu mais uma vez, pelas palavras e pelo gesto dele. Beijou-o, e, em seguida, acariciou-lhe o rosto.
B – E em segundo lugar...? – Se havia um primeiro lugar, também havia um segundo. Seus olhos tinham um brilho ocre pela ansiedade, mas ainda assim era um brilho.
A – Bom, em segundo lugar – contornou a silhueta dela com as mãos enquanto beijava-lhe a orelha. Betty gemeu baixinho e passou os dedos pelos cabelos dele. Armando respirou fundo controlando o incontrolável, e voltou o rosto para ela – em segundo lugar, ninguém reclamou de nada... Minha mãe perguntou se estávamos bem e eu disse que estávamos maravilhosamente bem... O que é uma grande verdade.
Começou a brincar com os botões da blusa de Betty e conseguiu desabotoar três até o momento em que ela se deu conta e segurou a mão dele com os olhos bem abertos de surpresa, assim como o seu sorriso.
B – E ela perguntou com que tom?
Armando ergueu as sobrancelhas:
A – Como assim?
B – Ah, não sei, Armando, ela estava perguntando num tom triste ou... Se bem que... – Ela se encolheu, mas ele a trouxe de volta, colando-a novamente nele.
A – Mi amor, mi amor, não se preocupe com isso... Se você tem um filho, o que mais deseja para esse filho? Que ele seja feliz, não é? Pois, minha mãe sabe que no fundo só serei feliz com você... Então...
B – Então...? – Nada a satisfazia.
Ele tocou de leve a ponta do nariz dela com o indicador.
A – Fim de papo, mi vida, fim de papo... Além do mais teremos só mais uns minutos aqui, juntinhos, vamos parar com essa conversa sem saída e aproveitar...
Beijam-se apaixonadamente, esquecendo por algum tempo de seus pais e de todo o resto do mundo, enquanto arrancam à unha os imprevistos pregados entre e um e outro e se saboreiam na fenda que abriram, até que o telefone toca avisando que Seu Hermes já havia chegado.
Final do expediente, Armando passa na sala de Betty. Seu Hermes havia ido ao banheiro.
Armando olha para os lados, procurando-o e Betty aponta o dedo em direção ao banheiro da presidência. Armando corre, então e dá-lhe um beijo rápido, apertando-a contra si.
A – Então, vamos dançar hoje?
Betty se sentia muito cansada. Aquela visita dos pais de Armando tinha realmente lhe pesado nas costas. Além do mais o empecilho que representava seu pai não era dos menores, nem dos mais fáceis de transpor.
B – Tem certeza de que quer isso, Armando?
Armando acariciou o rosto dela, seu olhar pesou nele também.
A – Na verdade, mi amor, só queria passar um tempo sozinho contigo fazendo o que for...
Nesse momento Seu Hermes abre a porta e Armando dá um pulo pra trás.
SH – Olá, Dr Mendoza.
A – Olá, Seu Hermes, podemos ir?
Sh – Ah, sim, sim, claro, vamos.
Saíram os três se despedindo, ao longo do caminho, dos funcionários que ainda estavam na empresa.
Armando não sabia de onde surgia aquela tranca na sua garganta sempre que se deparava com Seu Hermes. Fez o trajeto calado, ensaiando as palavras certas como se não pudesse errar em discurso muito importante. E tudo isso para o simples fato de chamar Betty para sair. Como era complicado esse namoro, que cruz! Por outro lado, sem Betty, era simplesmente impensável pensar.
Chegaram e foram carinhosamente recebidos por Dona Julia que os esperava com a mesa pronta para o jantar.
Seu Hermes chegou e sentou-se, todavia Armando permaneceu de pé atrás de Betty segurando em seu ombro.
SH – O que foi? Pode sentar.
As palavras ferviam e evaporavam na cabeça de Armando.
A – Sim... Não, não, obrigado, Seu Hermes. Na verdade eu gostaria de pedir uma coisa ao senhor hoje.
SH – Está esperando o que? Peça!
Armando sorriu totalmente sem graça. Respirou fundo.
A – Na verdade eu gostaria de pedir permissão para levar Betty a... - Armando apertou de leve o ombro de Betty como que pedindo ajuda.
B – Ao cinema!
A – Isso! Ao cinema. É coisa rápida, a gente volta cedo, não precisa se preocupar...
A tranqüilidade do semblante de Seu Hermes foi se contraindo em rugas graves de expressão. Ele olhou Armando de esguelha, um olhar agudo de desconfiança.
SH – E o que te faz pensar que já pode ir tirando minha filha de casa a essa hora da noite?
Armando escorregou dentro de si e caiu de costas. Levantou-se tonto.
A – Bom, Seu Hermes, eu acho que já dei provas do meu caráter e das minhas intenções para com sua filha... Além do mais é um programa rápido e voltaremos cedo.
Dona Julia se interpôs:
DJ – Ai, Hermes, é só um cinema... Meu Deus, homem!
Seu Hermes coçou o queixo.
SH – Eu sei, mulher, eu sei! Mas o diabo é porco e certas coisas não despendem muito tempo... Eu sei do que estou falando.
Betty franziu as sobrancelhas. Armando riu por dentro. Definitivamente, Seu Hermes não foi um santo na juventude.
B – Papai, eu pediria que o senhor confiasse, se não em mim, na educação que me deu.
Seu Hermes coçou o queixo mais uma vez.
SH – Hum... Não.
Armando esperou que ele continuasse a falar, que tentasse justificar, mas Seu Hermes permaneceu calado.
B – Mas, papai!
SH – Veja: eu tenho que admitir, doutor Mendoza, que o senhor tem se comportado muito bem com Betty na minha frente... Mas, eu já fui jovem e sei que na frente dos pais é uma coisa...
A – Seu Hermes...
SH – Não, não precisa falar nada... Certas coisas mudam com o tempo, mas certas coisas não mudam. Os instintos humanos não mudam. Por que?
A – "Porque o diabo é porco..." – Pensou Armando com desdém.
SH – Porque o diabo é porco... É uma coisa que eu canso de dizer.
A campainha nesse momento tocou.
SH – Julia,vai atender a porta... Então, eu mesmo acompanharia vocês dois ao cinema, porque é uma coisa que um pai decente faria, mas trouxe trabalho pra casa e isso tem que estar pronto até amanhã. Ainda mais porque Seu Roberto está na cidade e pode querer conferir esses fechamentos a qualquer hora.
Nicolas entrou cumprimentando Betty e Armando.
SH – Veio jantar, Nicolas?
N – Não, Seu Hermes, vim só ver como vocês estavam.
DJ – Mas vai ficar pra jantar, não, é, meu filho?
N – Se a senhora insiste... Já posso comer agora?
Armando acompanhava a cena de sobrancelhas erguidas no mais profundo estranhamento... Mantinha uma esperança de que o despertador tocaria a qualquer minuto e ele acordaria para mais um dia de trabalho.
B – Então sua resposta final é "não" , papai? Não vai considerar que somos duas pessoas adultas e responsáveis? Não há mesmo o que fazer para que nos permita ir?
Seu Hermes olhou em volta e se deparou com a figura desajeitada de Nicolas no sofá, de olho na comida. Sorriu. Aquelas visitas na hora das refeições o irritava e seria uma vingança, ao mesmo tempo em que poderia ter os olhos em cima dos dois sem estar presente.
SH – Bom, pensando melhor... Há uma forma de eu permitir que saiam.
B – E qual seria?
SH – Se Nicolas for junto.
Armando esfregou os olhos. Não poderia ter se esquecido de programar a TV pra desperta-lo.
Para Betty, essa saída, dos males, fora o menor. Nicolas era seu amigo.
Nicolas olhou para os dois lados, sem entender.
N – Hein?
SH – Nicolas, hoje eu quero que você acompanhe Betty e Armando ao cinema.
N – Mas, Seu Hermes, eu vou de vela?
SH – Não, você vai como amigo do casal.
N – Dá na mesma. Não tem nem uma companhia pra mim?
SH – Tem, Nicolas: Deus. Você vai com uma missão, certo? Então a melhor companhia é Deus.
Nicolas se mexeu no sofá olhando para Betty e Armando. Este se mantinha de cabeça baixa esfregando os olhos e Betty, vendo-o daquela forma, se sentia a pessoa mais estúpida do mundo. Mas ainda assim pedia com um gesto de cabeça para que Nicolas aceitasse, porque realmente era o único modo de sair com Armando. Pelo menos por enquanto.
N – Eu vou, né?
SH – Certo, então podem ir, mas até meia-noite quero Betty em casa. E olha que estou sendo bonzinho.
Betty pegou Armando pela mão e saiu arrastando-o para fora de casa. Nicolas foi atrás dos dois. Armando saiu sem proferir nenhuma palavra: por que o despertador não tocava?
Ainda do lado de fora Armando segue sem acreditar no que está vivendo. A situação é absurda demais para ser real. Perdido em sua perplexidade escuta Betty dizer a Nicolas:
B – Obrigada, Nicolas! Se não fosse por você meu pai não deixaria a gente sair hoje.
N – Não esquenta, Betty! Os amigos são pra essas coisas. Mas eu vou querer muita pipoca, alguns refrigerantes e uns chocolates, porque não pude jantar – esfrega o estômago.
Betty caminha até o carro, praticamente puxando Armando pelo braço. Este, como se fosse um robô, abre a porta para que Nicolas e Betty entrem e senta-se ao volante, no entanto, permanece parado.
B – Vamos, mi amor?
Armando começa a despertar do transe.
A – Sim, vamos.
Liga o carro mas antes de colocá-lo em movimento o desliga.
A – Pra onde vamos?
B – Para o cinema, mi amor!
A – Eu sei Betty, mas para qual cinema? Qual filme vamos ver?
B – Eu não sei... Nem pensei nisso...Quais são os filmes em cartaz?
N – Que tal se formos ver o Gladiador?
Armando olha para ele com a expressão incrédula: “O diabo ainda por cima quer escolher o filme!”. Mas depois recapitula: “De qualquer forma, tanto faz, afinal tudo o que eu quero é ficar com Betty por algum tempo longe dos olhos de Seu Hermes”.
Betty, que tem a mesma intenção que Armando, aceita a sugestão de Nicolas e por fim eles se põem a caminho do cinema.
Ao chegarem, Armando estaciona o carro e vai abrir a porta para que Betty saia.
Nicolas sai do carro e já vai se encaminhando para a fila dos ingressos, quando Armando o detém segurando-o pelo braço.
A – Nicolas, tome. – e lhe dá algumas notas de dinheiro. – isso é para que você compre suas pipocas, seus refrigerantes seus chocolates e o que mais quiser, mas preste atenção: sente-se bem longe de mim e de Betty, entendeu? Eu só quero ver sua cara de novo na saída.
Nicolas, espantado com a cara de Armando, pega o dinheiro e trata de sumir logo.
N – Pode deixar Armando, pode deixar!
A – E nem uma palavra disso ao Seu Hermes!
N – Não se preocupe, eu sou um túmulo! – fazendo sinais de que manterá a boca fechada.
Betty que assiste a cena toda, divertida, se aproxima de Armando, rindo.
B – Mi amor, não precisava assustá-lo assim... Lembre-se que nós só estamos aqui por causa da ajuda dele.
A – Está bem, Betty. Depois eu peço desculpas. Agora vamos que eu quero pegar um lugar especial – com um ar malicioso.
Já dentro do cinema, Armando escolhe a última fileira, no lado que tem menos gente e próximo à parede. Dá uma geral e vê com satisfação que Nicolas está sentado na terceira fileira, bem longe deles, com uma grande bolsa de pipoca em seu colo. Nesse momento a sala escurece e começam a passar os trailers.
Armando agradece a Deus o fato de o cinema não estar cheio naquela noite e, principalmente o fato de ter poucas pessoas próximas do lugar que ele escolheu. Ele relaxa e passa o braço pelos ombros de Betty.
A – Afinal não foi má idéia vir ao cinema, mi amor – sussurra no ouvido dela – assim podemos ficar bem juntinhos por 2 horas e longe do seu pai.
Em seguida se dedica a depositar leves beijos em seu pescoço e em sua orelha. Betty compreende que ele não vai deixá-la assistir o filme e fecha os olhos para saborear o momento. Armando começa então a dar pequenas mordidas em lugar dos beijos e a passar a língua úmida e quente por onde mordia, enquanto com a voz rouca e a respiração já entrecortada continua sussurrando:
A – Sinto tanto sua falta, Betty...Te quero tanto...
Segura o rosto dela com a mão e busca seus lábios para um beijo sedento, como havia muito tempo eles não se davam. A mão desliza de seu rosto e começa a percorrer o braço de Betty, depois sua cintura e quando chega aos seus seios ela se assusta, apesar de sentir a pele queimar, ela se lembra de onde estão e o afasta um pouco olhando em volta.
B – Armando, mi vida, estamos no cinema.
Armando também olha em volta e percebe que ninguém está prestando atenção neles. As pessoas mais próximas são um casal de namorados que também não parecem muito interessados no filme e o restante mantém os olhos fixos na tela.
A – Ninguém está olhando pra nós, Betty.
E continua a beijá-la e a explorar seu corpo, descendo a mão para suas coxas.
E assim o tempo vai passando, o filme vai passando e Armando não desgruda nenhum momento de Betty. Pelo contrário, se torna cada vez mais atrevido, enfiando uma mão por baixo da blusa dela, acariciando seus seios por cima do sutiã. Betty não tem mais vontade própria, sente medo que possam descobri-los, mas isso só faz aumentar o prazer. Quando ela não acredita que Armando se atreva a mais, ele afasta suas pernas e acaricia sua coxa por baixo da saia. Ela geme baixinho: “Meu Deus, vamos acabar fazendo amor aqui mesmo!”. Armando, entre um beijo e outro, continua sussurrando coisas em seu ouvido, e perguntando se Betty está gostando. Como se tivesse vida própria Betty vê sua mão acariciando o corpo de Armando, os ombros fortes, o peito, chegando à cintura, passando para as coxas. Ele então pega sua mão e a coloca sobre seu sexo dizendo:
A – Está sentindo, mi amor? Vê o que você faz comigo?
Betty sente seu rosto queimar, assim como outras partes de seu corpo...
Sem acreditar no que está fazendo ela começa a mover a mão suavemente e ouve os gemidos abafados de Armando que está com o rosto escondido em seu pescoço.
A – Isso é uma tortura, Betty!
Assustada, ela quer retirar a mão. Mas Armando não permite.
A – Uma doce tortura, mi vida. Continua.
Betty o acaricia e ele mergulha novamente o rosto entre seus cabelos. Mordisca de leve sua orelha.
A – Te amo, Betty, te amo... Não sei mais o que eu faço porque não tem mais espaço em mim pra guardar isso.
Betty buscou seus lábios e afogou-o com um beijo, ao mesmo tempo em que intensificou suas carícias. Passou a língua pela orelha dele.
B – Você disse exatamente o que eu sinto.
Entre carícias, e palavras de amor, o filme termina, a sala de repente se ilumina e os dois se assustam e se separam num pulo.
O desejo contido chega a doer em Armando, mas ele sabe que não adianta fazer nada senão respirar fundo e esperar que volte ao normal logo. Permanece sentado ao lado de Betty, que o cobre com o próprio corpo, esperando que os demais saiam da sala.
Nicolas logo alcança os dois.
N – Muito bom esse filme! Vamos?
Armando pede mais uns dois minutos e Nicolas se senta na cadeira da fila da frente, esperando o fim dos créditos. Assim que a tela se apaga, Armando e Betty se levantam e saem silenciosos, mas de mãos dadas, cúmplices, acompanhados por Nicolas que ainda comia uns chocolates.
Chegam a casa e Seu Hermes está na sala, esperando-os. Examina bem a fisionomia de todos, querendo encontrar algum vestígio de algo errado.
Sh – Gostaram do filme? – Ele pergunta num tom tão agudo como seu olhar.
Nicolas se interpõe.
N – Excelente filme, Seu Hermes! Excelente! Não é, pessoal?
Os dois olham-se e olham para Nicolas, pegos de surpresa.
B e A – Sim, muito bom, valeu a pena – dize, se olhando, querendo convencer a Seu Hermes.
N – Eu gostei mais da cena da primeira batalha, muito intensa, e vocês dois?
Armando fuzilou Nicolas com o olhar, uma vez que este sabia que os dois não viram filme nenhum.
B – Ah, eu gostei de ver o Coliseu, todo estruturado... – a primeira cena do filme, tudo de que ela se lembrava.
A – E eu gostei do final, é... – todo mundo sempre gosta de final de filmes mesmo.
Nicolas fingiu uma cara de surpresa.
N – Nossa, mas no fim ele morre, como você pode ter gostado disso?...
Armando se mexeu de forma desengonçada. Essa era nova.
A – Ele morre, é... – Isso era mais uma pergunta que não podia ser feita, do que uma reflexão –. Mas, por isso mesmo que gostei, nunca tinha visto um filme em que o personagem principal morria no fim do filme.
N – E o amor dele pela esposa, hein...?
B – Mas ele não morre?
N – É, mas quando ele morre, ele encontra a mulher dele.
Nicolas tinha que se controlar para não rir. Realmente era muito engraçado ver o casal se embaraçar para responder àquelas perguntas tão simples. Sabia que seria decepado no dia seguinte, motivo pelo qual o fazia se aproveitar mais da situação.
Seu Hermes olhava os dois, cada vez mais impaciente. Eles viram ou não o tal filme?
A – E esse é o final.
N – É o final.
A – Então, Betty, foi aquela hora em que você saiu para ir ao banheiro.
B – Ah, é mesmo! É mesmo! Perdi o final do filme, que coisa...
A – Mas depois a gente vê de novo... É um filme pra se ver mais de uma vez.
B – Com certeza.
N – E aquela parte em que....
Armando cerrou as vistas, prestes a responder Nicolas com algo absurdo, mas Betty se interpôs antes.
B – Nicolas, está muito boa nossa discussão – olhou o relógio –, mas está tarde e eu preciso acordar cedo amanhã...
SH – É verdade, é verdade... Todos precisamos.
N – Então é melhor eu ir mesmo... Amanhã a gente se encontra mais pra discutir o filme... Boa noite, Seu Hermes. O senhor também tem que ir ver o filme, muito bom.
SH – Boa noite, Nicolas! Da próxima vez eu vou.
E ele saiu rindo...
SH – Eu vou subir, então. Boa noite pra vocês dois.
A – Eu também estou indo. Boa noite, Seu Hermes.
B – Eu te acompanho até a porta.
SH – Não demore, Betty.
B – Pode deixar, papai.
Betty e Armando saíram, e assim que fecharam a porta ele a abraçou forte e se beijaram sem pressa entre sorrisos de alívio por terem saído ilesos de tudo.
A – Vou acabar morrendo com isso, a gente precisa se encontrar a sós, mi amor... Mas hoje, foi ótimo... Apesar de eu estar com vontade de esganar o Nicolas.
Betty beijou-o no rosto.
B – Mas Nicolas se comportou bem. E graças a ele saímos.
A – Ta, ta, ta.
Beijaram-se como se estivessem a margem do rio do mundo. Armando vai encostando Betty na parede e encostando-se nela, querendo que as roupas de ambos entre em combustão e a pele deles possam se tocar e se derreter e construir um novo ser. O beijo dos dois vai se tornando mais intenso querendo dizer ao outro o que o corpo quer e as palavras não conseguem. Ficam assim, um tempo, um no outro, sem noção de nada, até que a luz do quarto de Seu Hermes acende e Armando se da conta de que era um sinal para ele ir embora. Tudo nele dói mais uma vez.
A – Tchau, mi amor, amanhã passo pra te buscar...
B – Tchau...
A – Vou sonhar com você a noite toda.
Betty sorriu.
B – Eu também.
A – Te amo. Muito!
Beijaram-se mais uma vez e ele foi embora.
Escrito desde May 18, 2008, 8:00 PM de la direcci�n IP 189.15.222.82
Cha cha Charlie", a música disparou no som e despertou Armando. Ela ainda tocou repetidas vezes enquanto ele se aprontava para buscar Betty, tocou repetidas vezes em sua mente no caminho para a casa dela e repetidas vezes no caminho para a Ecomoda... Duas semanas que passaram sorrindo pra ele e Betty. Sentia seu Hermes cada vez mais próximo e menos desconfiado, as visitas estavam mais macias e se tornando um hábito saudável. A única coisa que trombava de ombros com ele era a necessidade de Betty em sua casa, em sua cama, sentir sua pele fundida na dele, sua respiração acariciando-lhe todo o corpo. Entretanto essas esbarradas doíam mais no começo.
Betty não pôde deixar de perceber os olhos dele cantando essa melodia de energia contagiante e colorida. Sorriu.
B - Você me parece diferente hoje, mi amor.
Armando olhou para ela pelo retrovisor do carro.
A - Diferente como?
B - Parece mais... - mexeu nos óculos buscando as palavras - não sei explicar bem, como se a sua alma estivesse dançando...
Seu Hermes olhou Armando um tanto assustado.
A - Doutor Mendoza, cuidado com esses estados de espírito... O diabo é porco, por isso tampa e destampa.
Armando sorriu. Simplesmente nada poderia estragar-lhe o bom humor.
Chegaram à empresa, ele se despediu de Betty com um selinho e esperou-a entrar para sua sala. Enquanto a olhava, viu umas modelos passarem por eles e Seu Hermes segui-las com o pescoço. Não pôde deixar de sorrir: "Seu Hermes, Seu Hermes, o diabo é porco..." Foi com esse pensamento que se virou topando com Inesita e quase derrubando-a.
A - Meu Deus, Inesita! Me desculpe! - Armando não sabia se ria ou se ficava profundamente constrangido, as imagens do ocorrido se misturaram com a da visão de Seu Hermes olhando para as modelos.
Inesita olhou-o com as sobrancelhas erguidas. Armando pedindo desculpas... Em outra situação a mandaria olhar por onde andava.
I - Tudo bem, meu filho, não se preocupe.
E um raio em um segundo cruzou a mente dele, cortando-a em camadas de idéias que lhe pareceram perfeitas. Segurou Inesita pelos ombros.
A - Inesita! Você caiu do céu hoje! Preciso que me faça um favor!
I - Sim... - disse sorrindo, tamanha a agitação do seu olhar.
A - Em dez minutos chame Seu Hermes ao ateliê... E gaste mais dez minutos distraindo-o com as modelos. Certamente isso não vai incomodá-lo.
Inesita piscou os olhos, estranhando. Não conseguia ligar uma coisa à outra.
I - Mas o que eu faço, Seu Armando? Seu Hermes não parece ser o tipo de homem que sai atrás de modelos.
Armando olhou na direção por onde Seu Hermes seguiu, sorrindo.
A - Diga qualquer coisa, Inesita! Invente que duas delas brigaram e peça que as aconselhe...
I - Mas, Doutor, não seria uma coisa muito correta...
O sorriso grudara nos lábios dele e teimava em ficar.
A - Por favor, Inesita! Por mim!... E por Betty!
Inesita sorriu, como resistir àquela expressão?
I - Está bem, está bem...
Armando deu-lhe um beijo na bochecha.
A - Muitíssimo obrigado, Inesita! Muitíssimo obrigado!
E saiu em direção à sua sala cantarolando enquanto Inesita ia para o ateliê.
Aura Maria esticou o pescoço, esperando-o entrar. Em seguida virou-se pra Sandra.
Am - Hmm, Seu Armando hoje, hein... Será que ele e Betty?...
So - Que jeito, Aura Maria?! Ele teria que pedir permissão para o Seu Hermes!
Sa - Quem diria, Seu Armando...
So - É...
Am - Nossa, mas ele está tão animado...
So - É, minha filha, mas cada pessoa tem um jeito de manifestar a própria loucura...
As meninas assentiram e voltaram a trabalhar.
Assim como o planejado, dez minutos depois, Inesita apareceu, bateu à porta da sala de Betty, ligeiramente ansiosa.
I - Licença, Betty, mas seu pai está na sala dele?
B - Está, sim, Inesita. É alguma coisa grave? Você não me parece bem... – Disse mostrando um lugar para que se sentasse.
Seu Hermes, que escutara seu nome ser mencionado, saiu de sua sala.
SH - Gostaria de falar comigo, D. Inesita?
I - Sim, Seu Hermes, fico até sem graça, o que eu gostaria de pedir é até de ordem pessoal.
SH – Pois, sim?
I - Duas modelos no ateliê, brigando por causa de modelito... Eu preciso de alguém com autoridade suficiente pra aconselhá-las...
Betty franziu as sobrancelhas. Nunca ouvira falar disso. E depois que Armando parara de escolher as namoradas pela vitrine da empresa, também nunca ouviu falar de brigas de nenhum tipo entre as modelos. Pareceu-lhe que as palavras faltavam à Inesita e Betty tinha medo de que ela pudesse não estar contando as coisas como realmente eram.
B - Nossa, Inesita, mas isso costuma ocorrer?
In – Muito raro, minha filha... – Inesita não sabia o que dizer.
Betty coçou a testa.
B - Mas isso é falta de profissionalismo, acho que eu mesma vou falar com elas!
Inesita arregalou os olhos, era tudo o que não podia ocorrer, mas, para seu alívio, Seu Hermes se interpôs.
SH - Betty, como D. Inesita disse, é melhor alguém com autoridade falar sobre isso, se ela acreditou que eu poderia fazê-lo, deve ser porque ela acha que eu sou uma pessoa de fibra. E são percebidos os valores nos quais acredito quando se vê você, Betty, se pode perceber o que uma boa educação faz com uma pessoa.
Betty esboçou um sorriso. Tudo isso porque queria ir ver as modelos...
B - Certo, papai, é melhor que você vá...
SH - Então, eu vou. Vamos, D. Inesita.
I - Sim...
Inesita sorriu sugestivamente à Betty que pensou que ela sorria por seu pai. Voltou a sentar-se à sua mesa, rindo das desculpas de Seu Hermes.
Armando ficou o tempo todo à espreita, com a porta entreaberta, esperando o momento em que Seu Hermes sairia acompanhado de Inesita. Por incrível que pareça, estava tranqüilo, certo de que tudo daria certo. Assim que os dois viraram, ele abriu a porta vagarosamente, certificando-se de que eles não voltariam e caminhou para a sala de Betty, entrando e fechando a porta atrás de si, cantarolando a música que dançava a manhã inteira na sua cabeça.
Betty olhou-o, voltando-se novamente para os papeis que estava lendo, e, no mesmo segundo, olhou-o de novo, se deparando com aquele sorriso malicioso e triunfante. De repente tudo ficou claro para ela. Levantou-se, indo na direção dele.
B - Isso da Inesita foi ideia sua... - sorriu - está ficando muito criativo, mi amor.
Armando sorriu e abraçou-a apertado, arriscando uns passos de dança com ela que o seguia desajeitadamente, sem entender o motivo daquela felicidade toda.
Mergulhou o rosto em seus cabelos e afogou-se em seu pescoço.
Betty riu. Ele voltou-se para ela para contemplar-lhe a expressão.
A - E olha que você nem escutou minhas idéias para o almoço. E nem os meus planos para a noite de hoje...
E silenciou os pensamentos dela com um beijo.
B - Então vamos nos sentar ali no sofá e você me conta.
Armando prendeu-a com os braços. Há muito que a palavra “sofá” deixara de lhe soar macia.
A - De jeito nenhum, mi amor. Deixa o sofá para quando formos à sua casa. Agora eu quero mais é sentir você bem coladinha a mim. Vamos ali pra sala de reuniões que quando seu pai chegar eu saio pela outra porta.
Betty sorrriu e se encaminharam para lá, de mãos dadas. Armando encostou-se na mesa e puxou ela para si, beijando-lhe o pescoço.
A - Vamos almoçar juntos hoje, Betty, só nós dois, no meu apartamento...
B - E em que você está pensando para enganar o meu pai?...
A - Tenho tudo programado: Você diz que vai almoçar com as meninas, diz que é um passeio de mulher – disse enquanto tirava o cabelo de Betty do ombro e o jogava para trás.
B - Mas ele, no mínimo, vai querer me levar até o local, para se certificar de que realmente estarei lá.
A - Sim, sim, sim. Você o deixa acompanhar vocês. Só faça com que ele não fique lá... Mas você vai, eu estarei no Correntazo esperando, e quando ele sair, te pego e a gente sai.
Betty sorriu, tudo de que realmente precisava era um tempo sozinha com Armando em um lugar tranqüilo.
B - Nossa, tinha me esquecido da sua criatividade...
A - Mas, mi Betty, atualmente só uso minha capacidade intelectual contigo. Agora vem cá, quem mandou a senhorita sair do meu abraço?
B - Bom mesmo que você só a use comigo - disse se aninhando ao peito dele.
Beijaram-se. Armando deslizou as mãos pelo corpo dela apertando-a contra si. Betty passava as mãos pelas costas dele, o desejo também correndo por suas veias. Ele acariciou os seios dela sobre a blusa e nenhum dos dois eram mais donos dos próprios impulsos. Nesse momento ouviu-se alguém mexendo na porta trancada e a realidade estapeou a face dos dois, acordando-os daquela embriaguez.
B - Ai, meu Deus, é meu pai!
Deram-se um último beijo e Armando saiu apressado, enquanto Betty se recompunha rapidamente para abrir a porta. Assim que Seu Hermes deu o primeiro passo pra dentro, Armando saiu da sala, fechando a porta cuidadosamente.
Seu Hermes voltou do ateliê com a missão cumprida. Falou de como se portam as verdadeiras damas diante de uma adversidade, e tinha certeza de que elas seriam outras mulheres daquele momento em diante. Falara com eloqüência e autoridade. Sentiu-se satisfeito em ter o olhar de tantas mulheres belas direcionados para si, assim como suas mentes abertas para o conhecimento que ele tinha a oferecer.
Afastou as portas da presidência, mas elas permaneceram no mesmo lugar. Afastou com mais força, e nada. Começou a tentar abri-la nervosamente, como se não pudesse acreditar que não estava conseguindo.
Betty correu e abriu-a, lívida.
Sh – O que é isso, Betty?! Essa porta trancada?!
B - Desculpa, papai, devo ter trancado sem querer... – disse virando o rosto e sentando à sua mesa calmamente, quase implorando para seu coração parar de palpitar.
Mas Seu Hermes não escutou a filha, estava olhando atrás das portas, debaixo da mesa...
Viu a porta da sala de reuniões fechada.
SH - Betty, Betty, cansei de dizer que o diabo é porco, você tem que me ouvir.
Abriu a porta, mas a sala estava vazia.
B - Eu sei disso, papai, mas não estou entendendo. Quero mesmo é que o senhor me conte o que houve com as modelos, se será necessário eu tomar alguma providencia – controlava de forma sobre-humana o timbre de sua voz de modo que ele não vacilasse.
Mas Seu Hermes estava sentado à mesa da filha com o telefone na mão.
SH - Sandra, o Dr. Mendoza se encontra em sua sala?
Armando estava correndo para sua sala quando Sandra atendeu o telefone.
Sa - O Dr Mendoza, Seu Hermes? – Disse olhando para Armando.
Armando fez um gesto para que passasse pra ele e correu para sua sala.
Sa - Está, sim, vou passar pra ele... Ah, não precisa, não? Ok, então... Siiim, ele já está a bastante tempo aqui... Tem certeza de que não quer que eu passe pra ele?... O senhor que sabe... Então tá...
Sandra olhou para as meninas.
Sa - Ai, pobre Betty com esse pai dela. Acredita que ele me ligou pra saber se o Seu Armando estava aqui na sala dele pra ver se ele estava ou não com Betty?
So - Mas que ele estava com a Betty, ele estava, a gente viu o homem sair de lá que nem um tiro, né?
AM - E entrar que nem um tiro também. O que será que eles estavam fazendo lá dentro?
Sa - Muita coisa é que não deu pra fazer, nesse tempinho...
O telefone de Sandra tocou. Era Armando querendo saber o que foi feito da ligação de Seu Hermes. Sandra disse que não era nada de mais e Armando soube que ele estava mesmo querendo checar se ele esteve na presidência. Respirou fundo. Calculara mal o tempo em que deveria ter ficado lá. Pensou se isso não teria uma conseqüência grave para Betty, não poderia colocar tudo a perder a essa altura, com tudo dando certo entre eles.
Betty olhou o pai seriamente. Depois da cena que seu pai fizera, tinha todo o direito de ficar chateada.
B - Papai, eu peço desculpas de verdade por ter trancado a sala, mas te falei que foi sem querer. Foi vergonhoso pra mim isso que o senhor fez: checar com a Sandra se o Armando estava na sala dele... Eu não tenho mais 15 anos, papai... Desde quando revelamos tudo para o senhor, tanto eu quanto Armando estamos nos portando muito bem, você me conhece, pai, pra que ficar fazendo isso?
SH - Betty, eu posso até conhecer você, mas também conheço muito bem a fama desse doutor Mendoza ...
B – Pois então, espero que depois de checar, tenha ficado claro que ele não esteve aqui.
Sh - Hmm... Sim... Mas, se esteve, foi muito veloz...
B - É porque não esteve... Mas chega de falar disso, vamos voltar ao trabalho. Quero saber se devo demitir as modelos que brigaram.
Seu Hermes arregalou os olhos, como que transportando para uma outra dimensão, não muito enquadrada nos moldes tadicionais...
Sh - Não, filha, claro que não! Foi uma briguinha de nada, a Inesita exagerou. Conversei com elas e resolvi tudo, pode ficar tranqüila. Agora eu vou pra minha sala. E, da próxima vez que eu sair, quero essa porta aberta. Nem trancada nem fechada: Aberta!
Betty suspirou
B - Sim, papai, aberta... Vou ali falar com Nicolas e já volto.
Sh - Certo.
Betty saiu, mas parou em frente à mesa de Aura Maria.
Am - Betty, seu pai pegou vocês?
B - Não, Aura Maria, mas quase... Essa situação está ficando insustentável, meu Deus...
Am - Mas você e o Seu Armando têm se encontrado em off por aí, né?
Betty sorriu do comentário da amiga e não pôde deixar de pensar no tempo em que não fazia amor com Armando. Sentiu saudade do gosto da pele dele.
B - Aura Maria, daqui uma meia hora, uma hora, mais ou menos, chama as outras meninas e vai ate a minha sala me convidar pra almoçar, diz que é uma reunião de mulheres, qualquer coisa...
Aura Maria sorriu maliciosamente.
Am - Humm, estou entendendo, Betty, pode deixar que a gente te leva pra almoçar hoje, nem que seja a ultima coisa que fazemos!
B - Obrigada. Se meu pai me procurar, estou na sala do Nicolas, ok?
Am - Ok.
Betty entrou na sala do amigo e desmontou-se na cadeira.
N - E aí, Betty?
B - E aí, Nicolas? Pode continuar com seu trabalho, só vim aqui porque disse ao meu pai que viria aqui.
N - Ah, tudo bem. Fique à vontade. Mas você não me parece bem, o que houve?
B - Hoje meu pai quase que me pega com Armando na minha sala. E eu me vi simplesmente no meio de um cruzamento. Se obedeço ao meu pai e só me encontro com Armando lá em casa, magôo o Armando, e se agrado ao Armando e me encontro com ele às escondidas, acabo mentindo para o meu pai, coisa que eu detesto...
N - É... Muito complicado, muuuito complicado...
B - É... Porque eu amo o Armando, preciso dele e tudo o mais, mas também preciso da aprovação do meu pai - suspira. - Preciso de um favor seu.
N - Não sendo dinheiro emprestado - ri - pode falar.
Betty balança a cabeça em negativa, sorrindo.
B - Pode ficar tranqüilo, não vai te custar muito, não. Depois de uns vinte minutos que meu pai estiver fora na hora do almoço, ligue e faça-o voltar a qualquer custo, não importa o que.
N - Hum... E será que ele vem mesmo?
B - Claro, ele te considera como um filho. Além do mais, você o conhece, sabe as palavras exatas para persuadi-lo.
N - Sei não, mas vou tentar.
B - Você não vai tentar, Nicolas, você vai ter que conseguir.
N - E o que eu ganho em troca?
Betty olhou-o de soslaio.
B - E desde quando o senhor anda ficando tão interesseiro?
N - É brincadeira, Betty, brincadeira, pode deixar comigo.
B - Então, me deixa voltar para a minha sala. Obrigada, Nicolas, de verdade.
N - De nada, Betty, estamos aí pra isso.
Betty voltou para sua sala, para seus papéis e para o vazio que sentia.
Aura Maria entrou pouco depois, entregando a Betty um bilhete e fazendo um gesto com a cabeça mostrando que ele veio da vice-presidência. Seu Hermes, em sua sala, não percebera nada.
Betty pediu para que Aura Maria esperasse e abriu-o.
A - (Mi amor, me desculpa. Seu pai ficou muito desconfiado? Não quis ir aí pra não levantar suspeitas. Nosso plano para o almoço está de pé. Um beijo, mi vida, que espero dar pessoalmente a sós. Do seu, Armando.)
Betty sorriu e escreveu sua resposta sob o olhar curioso de Aura Maria que permanecia com o pescoço esticado.
B - (Meu pai realmente ficou chateado, mas sinto que ele não quer acreditar que você esteve aqui, então contentou-se com a resposta que eu dei. O plano para o almoço está de pé e aguardo esse beijo ansiosa. Te amo. Betty)
Dobrou o papel e entregou a Aura Maria que saiu. Encostou-se na cadeira. Estava ansiosa, mas essa adrenalina que lhe contraía os músculos era agradável. Queria muito estar com Armando. Olhou em direção à sala do pai e suspirou. "Ai, pai, porque o senhor não é como todo mundo?"
Chegada a hora do almoço, tudo estava combinado. As meninas haviam falado com Betty e Seu Hermes havia dado permissão, desde que pudesse levá-la. O plano B já fora bolado e Armando estava para sair, um pouco mais cedo para esconder-se, quando Mariana ligou para sua sala e anunciou a chegada de Margarida e Roberto Mendoza. A oxigenação no cérebro de Armando falhou por um segundo. Ele deitou a cabeça na mesa.
A - Que cruz, meu Deus, que cruz!
Pegou o telefone e ligou para Aura Maria que transferiu a ligação para Betty.
B - Diga, mi amor.
A - Betty, mudança de planos.
B - Como assim? O que houve?
A - Meus pais chegaram e estão subindo.
O sangue de Betty parou de circular por um momento fazendo com que ela perdesse o instante.
B – Como?
Nesse momento os dois entraram na sala de Armando.
A - Eles acabaram de entrar na minha sala – Armando escondia seus planos debaixo do tapete, exatamente o mesmo onde seus pais pisavam.
M - Viemos te chamar pra almoçar - cochichou.
A - Acabaram de me chamar para almoçar, você vem conosco? - disse fazendo um gesto para que os dois se sentassem.
Em verdade, Betty perguntara “como” se referindo a alusão que Armando fizera dos pais. Roberto e Margarida na Ecomoda, ela não podia acreditar... Era a primeira vez que o casal os visitava depois que ela e Armando se reconciliaram. Sentiu um gosto retorcido na boca e as imagens que vinham em sua mente eram ásperas como a culpa que a incomodava e quentes como a vergonha que sentia por tudo... Não era de seu amor por Armando, disso ela nunca teve vergonha, mas de todas as situações a que se submeteu para vivê-lo. Se sentiu feia e opaca como sempre fora, como se uma chuva de verdade caísse por sobre sua cabeça e começasse a borrar toda a pintura que ela fizera tão cuidadosamente. Queria chorar. Queria sumir. Queria ser digna da benção dos pais de Armando. Queria ser livre. De culpa. De incômodo. De insegurança...
Não tinha estrutura para ver Roberto e Margarida.
B - Não, mi amor, ainda não me sinto pronta para encará-los... Ai, não sei... Mas hoje, não, preciso me preparar...
A - Ah, o que é isso, meu anjo! Não vai ser nada comparado ao que eu passei – ele, sentindo o peso daquelas palavras, tentou brincar.
Betty sorriu tristemente gelando o telefone.
B - A gente combina isso depois. Vocês devem ter muito que conversar e eu prefiro deixar vocês á sós, ok?
A - Você que sabe...
B - Fica assim, então. Um beijo, mi amor, bom apetite.
A - Um beijo, te amo.
Desligaram. Armando ficou olhando o telefone, se sentia mal, responsável por aquele estado de espírito de Betty... E não havia nada que pudesse convencê-lo do contrário.
Dona Margarida não conseguia esconder o constrangimento que sentia ao ouvir Armando dizer aquelas palavras. E conversava com uma ternura que ela não tinha idéia que o filho era capaz de sentir. Por que não com Marcela? Essa pergunta era um raio a estalar e partir o quadro do futuro que desenhara tão carinhosamente.
Armando recuperou seu lugar na realidade e cumprimentou os dois com um abraço.
A - Deveriam ter me comunicado que chegavam hoje, eu os teria buscado no aeroporto.
M - É que decidimos de ultima hora, meu filho, mas... Se estivermos atrapalhando alguma coisa, podemos marcar esse almoço para um outro dia.
A - “Já que tinha que ser, que fosse logo”...
A - Não! Mas é claro que não, mamãe! Vocês absolutamente nunca atrapalham! Além do mais, é um prazer muito grande recebê-los. E os senhores apareceram em um momento muito oportuno. Há muitas coisas que preciso falar com vocês...
Margarida sentiu um arrepio na espinha. Sentia exatamente o que era. Sentia que não queria sentir. Ainda assim, toda suspeita do mundo era muito mais leve que um grama de certeza.
R - Alguma coisa grave?
A - Não, papai, não se preocupe. Somente coisas boas!
Roberto se sentia satisfeito com o amadurecimento do filho. Se havia mudado por Betty, então ela o merecia. E ponto final.
R - Percebo mesmo que seu semblante está muito melhor.
Armando assentiu sorrindo.
A - Então, vamos?
Os dois acenaram afirmativamente e saíram.
Chegaram ao Le Noir e se acomodaram. Armando mirou os pais nervosamente, sem saber exatamente o que o esperava. Ele percebia que seus pais já sabiam de seu relacionamento com Betty. Sua mãe ainda estava em Bogotá quando eles finalmente se reconciliaram. De início ela parecia haver aceitado esse relacionamento, visto que já havia se conformado com o fato de que seu grande sonho – ver Armando e Marcela casados – não se realizaria. E após ver todo o sofrimento de seu filho quando Betty o abandonou após a fatídica junta, a esnobe senhora estava decidida a colocar como prioridade a felicidade de seu filho e, principalmente, a não cometer outro erro como o que cometera com Camila. Ainda que para isso tivesse que engolir seu orgulho e aceitar uma “nora” de origem humilde, que não pertencia ao Jet Set colombiano.
A – E como foi a viagem? - se ele não falasse qualquer coisa, provavelmente morreria sufocado em expectativas.
M – Bem, meu filho. Um pouco cansativa... Você sabe que já não temos idade para ficar de avião em avião por aí, cruzando o atlântico.
A – O que é isso mamãe, a senhora ainda é muito jovem. Aposto que ainda dá trabalho para meu pai, han? Com certeza ainda atrai muitos olhares masculinos...
DM – Deixe de bobeiras, menino!
SR - Mas sou obrigado a admitir que de vez em quando eu percebo mesmo alguns olhares de terceiros para sua mãe...
Riram.
M - Vocês dois me respeitem, por favor - disse entre um meio sorriso.
SR - E como vai a empresa, Armando?
Armando não pôde deixar de esboçar um sorriso... Encostou-se na cadeira, relaxado.
A - Não poderia estar em melhores mãos. Beatriz tem feito um trabalho excelente! Do jeito que estamos, muito em breve saíremos do embargo e levantaremos a empresa.
A pele da face de Armando brilhava enquanto ele falava de Betty.
A - Eu nem seria capaz de falar tudo o que ela vem fazendo... Tem um cuidado quase maternal... - fica em silencio, um segundo, como que refletindo sobre o que dissera - Cuidado esse que eu deveria ter tido, mas...
Seu Roberto mexeu na cadeira, pôs a mão no ombro de Armando.
SR - Não falaremos mais disso, Armando. O que passou, passou, você bem sabe... Temos que agradecer a Deus por estarmos de pé, e é isso...
A - Sim... E agradecer à Betty.
M - E você e ela? Estão bem? - Perguntou com medo de pronunciar as palavras, como se pertencessem a um feitiço poderoso capaz de transformar a sua realidade.
A - Sim, muito bem! Apesar de que meu relacionamento com Betty é radicalmente diferente dos outros que eu já tive.
SR - O que você quer dizer com isso, Armando?
A - Ah, pai, se eu te contasse tudo na íntegra o senhor não acreditaria... Mas fique satisfeito em saber que seu filho se tornou um homem exemplar, daqueles que pedem permissão ao pai da namorada para se encontrar com ela e toma um chá de cadeira nas visitas.
Seu Roberto sorriu.
SR - Eu até pagava pra ver isso... O pai a mantém nas rédeas curtas, han?
M - Mas, meu filho, você não está acostumado a isso... Vale a pena?
A - Com toda certeza do mundo vale a pena... Se não for pra eu ficar com ela, não quero ficar com mais nenhuma outra...
Ela percebeu que seu filho nem hesitara em responder, como já hesitara tantas vezes e por coisas muito menores. Era dolorido demais ouvir aquilo, mas, dentro de um paradoxo colorido, agradeceu a Deus por ter colocado alguém capaz de trazer o verdadeiro Armando à tona.
Os pratos foram servidos e eles almoçaram em silencio.
Escrito desde May 8, 2008, 8:05 PM de la direcci�n IP 189.15.196.47
Quando o relógio gritou que era hora de trabalhar, Armando já estava acordado. Olhou-o enquanto ele esperneava no criado mudo, e demorou ainda para desligá-lo. Estava moído. Não queria sair da cama. Tivera uma péssima noite de sono com Seu Hermes a vigiá-lo de dentro do armário e de debaixo da cama... Sorriu do que não poderia chamar de própria desgraça porque era muito engraçado... Não acreditava que um homem da idade dele de repente se via assustado com um velho pai de uma namorada... Mas não podia negar que Seu Hermes chegava a lhe causar calafrios cada vez que pousava sem contornos por cima das coisas para onde olhava. Mas era só um velho... Todavia um velho a quem teria que respeitar se quisesse que Betty ainda o amasse... Betty... Se não saísse da cama como queria, iria passar um dia inteiro sem vê-la... Se não a visse, não respirasse sua presença, não degustasse seu perfume, seria muito torturante, como apreciar uma pintura sem tinta. Levanta-se, toma um banho rápido para compensar o tempo em que ficou na cama, e depois de tudo pronto, toma uma xícara de café e sai para a casa de Betty. Lá chegando, buzina somente, mas quem sai é Dona Júlia.
DJ - Olá, ... Armando, como está, meu filho?
A - Bem, muito bem, Dona Júlia. Mais uma vez obrigado pelo chá ontem, me fez muito bem.
DJ - De nada - diz sorridente - Vamos entrar, tomar um cafezinho, Betty e Hemes ainda demoram um pouco.
A - Bom para mim, então, que poderei ter mais uma oportunidade de tomar seu café.
Dona Júlia sorri encabulada.
DJ - Ah, Armando, nem é tanto assim...
Ele desceu do carro.
A - Claro que é! Se a senhora vivesse num passado muito longínquo seria uma feiticeira poderosa contra os maus espíritos.
Assusta-se com o comentário dele. Faz o sinal da cruz.
DJ - Ai, Seu Armando, Deus me livre e guarde...
Armando sorri e dá o braço a ela.
A - Mas foi um elogio, Dona Julia. Vamos?
Ela segura-o e entram.
Armando vê Betty e Seu Hermes sentados à mesa. Betty quando o vê, levanta-se rapidamente para recebê-lo. Ao vê-la, Armando já não vê mais sua casa, nem Dona Julia, nem Seu Hermes, descem cortinas de paisagens oníricas à sua volta e cobrem todo seu campo de visão.
Betty acabara de descer quando a buzina do carro de Armando tocou lá fora. Isso já bastou para seu coração acelerar e ela se sentir maior. Eram sensações que nunca passavam. Ela foi em direção à porta para recebê-lo, mas Dona Julia adiantou-se e pediu para que a filha se sentasse porque ela o receberia. Sentou-se, mas não conseguiu comer nada, com uma pressão boa no peito que a atrapalhava, pressão essa que só cessou quando viu Armando entrar pela porta, com toda a manhã no sorriso.
B – Bom dia, Armando!
Armando pega suas mãos e as leva aos lábios. Se pudesse, trazia-a para dentro de si, amarrando sua alma na dele.
A – Bom dia, Betty, como está? Dormiu bem?
B – Sim, e você?
Armando suspirou.
A – Bem também, Betty... "Na verdade, não, faltou você lá" - Se pensasse bem alto talvez ela escutasse.
SH - Olá, Dr Mendoza! Sente-se, sente-se, senão Betty não come e nos atrasaremos!
Armando tentou segurar o sorriso, sem sucesso. Todas aquelas situações descobriam-se desta forma para ele, com uma comicidade tão aguda que ofuscava qualquer outro sentimento que ele pudesse vir a ter, tanto que, fora a urgência de Betty que apertava suas vísceras, ele não se sentia tão incomodado.
A – Bom dia, Seu Hermes...
Betty o segura pela mão.
B – Sente-se aqui, mi amor, do meu lado.
Armando puxa a cadeira para que ela se sente, e, assim que ele se senta, Dona Julia vem com uma xícara de café fumegante e uns paezinhos recém saídos do forno. Toda a situação cheirava a um passado não vivido.
A - Obrigado, Dona Julia.
Serve-se e se delicia. De repente, ali, não se sente mais inteiro nem despregado. É como se fosse um braço ou uma perna grudado naquele tronco de mesa. Seu Hermes, enquanto come, lê o jornal e praticamente conversa com as frases com as quais se depara. Dona Julia logo se junta a eles e sempre pergunta se esta tudo bem, se as coisas estão do agrado. Seu Hermes obviamente reclama que o café está doce, que os pães estão sem sal, que está faltando isso ou aquilo, Betty entra no meio do assunto, diz que o pai está falando da boca pra fora, e em momento nenhum venta gelado, ou paira névoa, nem silêncio. Ele abaixa a cabeça e sorri, agradecido.
Betty percebe, coloca sua mão sobre a dele.
B - Que foi, mi amor?
A - Nada, nada, não. - Beija a têmpora dela.
Seu Hermes tira o jornal de frente do rosto e olha-os com olhos felinos. Armando quase sente que cometeu um crime.
SH - Vamos? - Diz olhando o relógio.
A - Sim - diz limpando os lábios.
A - Dona Julia, mais uma vez, obrigado por tudo.
DJ - De nada, meu filho, te esperamos hoje à noite?
A - Sem falta!
Dona Julia sorriu. E Betty encostou-se no peito dele, grata pela sua persistência. Armando estava se portando de uma forma que ela nunca pensou que ele conseguiria, e era uma surpresa tranqüilizante para ela.
Foram os três para a Ecomoda.
Freddy estava na porta com Wilson quando os três chegaram. Não pôde acreditar que vira Seu Hermes descendo do banco da frente. Começou a rir, agarrado a Wilson.
F - Ah, bela vida que não se cansa de me surpreender! Quando penso que já vi de tudo, meus lindos olhos se deparam com uma cena dessas.
Armando passa pelos dois.
A - Bom dia!
B e SH - Bom dia!
W e F - Bom dia, Seu Hermes, Dra Betty.
Betty e Seu Hermes entram.
F - Dr?
Armando, que estava entrando, volta, receoso, podia esperar qualquer coisa vinda de Freddy.
A - O que?
F - Me responda uma coisa...
Armando espera calado (semblante não muito animador) o que ele tem para dizer.
F - Tudo tranqüilo no seu novo serviço de táxi?
Armando cerra as vistas, fuzilando Freddy com o olhar e entra sem dizer nada.
Freddy e Wilson continuam rindo do lado de fora.
Ele cumprimenta Mariana que diz que Betty e Seu Hermes já subiram. Suspira. Sobe sozinho e vai direto para sua sala.
Durante a manhã não vai tanto à sala de Betty. Dispensa todos os minutos que tem pensando em uma maneira de burlar o monitoramento de Seu Hermes. Mas nada lhe parece suficientemente convincente. Precisaria ser bastante criativo. Quando se cansava de pensar, trabalhava um pouco, mas logo sua mente pegava um atalho estranho e ele voltava a pensar no assunto. Até que um desses atalhos deu em algum lugar. Ocorreu-lhe uma idéia. Ligou na produção e pediu para que chamassem Betty lá devido a um problema que ocorrera. O supervisor obviamente não entendeu, mas Armando disse para ele fazer e não perguntar. E disse para esvaziarem a supervisão, só por um intervalo pequeno de tempo. Dito isso, esperou na sua sala. Pediu Aura Maria para ligar pra ele assim que Betty saísse, mas não foi necessário porque depois de alguns minutos o telefone tocou.
A - Armando Mendoza.
SH - Dr Mendoza, preciso dos fechamentos que o senhor pegou ontem com Betty.
A - Levo em um minuto, Seu Hermes.
E em um minuto ele apareceu lá, a adrenalina jorrada nas veias, as pupilas ligeiramente dilatadas.
A - Aqui.
Olhou em volta esforçando-se para ser verossímil.
A - Onde está Betty?
Seu Hermes, ainda que não desviasse os olhos dos papéis que Armando lhe entregara, ergueu as sobrancelhas. Betty não estava com ele. Disfarçou.
SH - Pra te falar a verdade, não sei, deve ter ido falar com Nicolas. - Disse sem desviar os olhos dos papéis que estava examinando.
A - Ah, sim, quando ela voltar, diga-lhe que daqui meia hora passo para levá-la para almoçar - suas mãos suavam.
SH - Sim, ok, em meia hora estaremos prontos.
Armando sorriu, esperou um elefante listrado brotar do chão, ou as pinturas saírem de dentro dos quadros...
A - Qualquer coisa, estarei em minha sala conversando com a franquia de Porto Rico.
SH - Certo, certo.
Saiu.
"Que cruz, meu Deus!" Mas era uma cruz de pena que fazia-lhe cócegas no pescoço.
Assim que ele saiu da sala de Seu Hermes, Aura Maria lhe disse que Betty já havia saído. Desceu para a produção, assoviando.
As meninas do quartel trocaram olhares sugestivos, mas não disseram nada.
Betty desceu para averiguar o "problema" de que lhe falaram. Parecia algo grave, uma vez que o supervisor responsável não queria lhe informar por telefone. Andou por todo o lugar perguntando aos empregados se eles sabiam de alguma coisa, mas o andamento estava normal e ninguém sabia lhe informar sobre nada errado. Foi até à supervisão para ver se achava o rapaz que ligou para ela, mas o que viu foi a figura de Armando, sentado, só.
Sorriu. Entendeu tudo. Sentiu fogos de artifícios explodir em si.
Para Armando, não tinha preço a visão de Betty parando na porta, seu semblante preocupado desvanecendo-se naquele sorriso de mar calmo e convidativo.
B - Foi daqui que veio uma ligação reportando um problema? - Disse encostada na porta, andando, em seguida, na direção dele.
Armando se levantou, fechou as cortinas da sala e passou a tranca na porta.
A - Sim, e é um problema gravíssimo, devo dizer.
Foi até ela e abraçou-a, seu corpo em chamas, sua cabeça embaçada por toda a fumaça. Betty deixou-se levar porque precisava tanto do toque dele como ele do dela, e era tão seguro abandonar-se nele...
Beijaram-se longamente, avidamente, como se há muito não se vissem.
Armando desliza as mãos por todo seu corpo, o desejo transbordando nos seus dedos, derramando-se dos seus lábios. Começa a desabotoar os botões de sua blusa quando o toque ansioso de suas mãos frias a trazem de volta para a realidade.
Ela se separa dele que ainda tenta ir de encontro a ela.
A - Que foi, mi vida... - ele diz meio rouco, bêbado de toda aquela urgência.
B - Não, Armando, assim, não... - Ela diz abotoando a blusa.
Armando toma um gole de realidade e respira fundo. A abraça.
A - Desculpa, mi vida, desculpa...
Betty encostou a cabeça em seu peito.
B - Eu te entendo, Armando, é sério... Eu também preciso de você, mas, você sabe, aqui é arriscado, meu pai pode descobrir e aparecer...Falar nisso, como você conseguiu que ele não viesse atrás de mim ou de você?
Armando se separou dela e sorriu, sentou-se num sofá que ficava no canto da sala.
A - Eu sabia que assim que você descesse ele ia me ligar, então esperei ele certificar-se de que eu estava em minha sala e que isso era mesmo um problema na produção.
Betty estava séria. Armando não conhecia a teimosia do pai dela como ela conhecia.
B - Mas então é melhor você ir porque ele vai ligar de novo.
Armando sorriu, superior.
A - Tirei o telefone do gancho, ele vai pensar que estou na minha sala fazendo ligações, pelo menos por um tempo... Então sente-se aqui do meu lado. Deixa eu aproveitar esses minutinhos que consegui a sós com você.
Betty sorriu aliviada.
B - Promete que vai se comportar?
A - Como um perfeito cavalheiro.
Betty sentou-se ao lado dele e beijaram-se mais uma vez, docemente.
B - Perfeito cavalheiro você é em todos os momentos, mi amor. E tem sido mais ainda passando por tudo isso comigo.
A - Mas, Beatriz, passo e passo de novo! Por um lado tem sido desafiador. Passei a manhã inteira pensando nisso...
Betty sorriu.
B - Por isso foi só duas vezes à minha sala? - Havia uma nota leve de tristeza na voz dela.
A - Foi, você ficou chateada? - Ele percebeu e não pôde disfarçar uma ligeira surpresa.
B - Agora sabendo que foi por isso, não.
Armando colou de novo seus lábios aos dela. Acariciou seus seios sobre a blusa e Betty, um reflexo, colou seu corpo no dele ansiando por seu toque. Armando enlaçou-a trazendo-a para cima dele, mas mais uma vez ela fugiu de suas mãos.
A - Desculpa, desculpa... Mas... Você vai acabar me matando - disse rapidamente a última frase.
Betty sorriu se recompondo e ajoelhando-se no sofá.
B - Você que vai acabar me matando! Acha que só você precisa de mim?
Armando segurou-a pelos ombros deitando-a no sofá. Colocou-se por cima dela e beijou-a mais uma vez.
A - A gente tem que inventar alguma coisa rápido!
Provocou cócegas nela fazendo-a se remexer e rir.
B - Sim, mais uns poucos encontros e meu pai vai começar a ficar mais a vontade, ele já está, não percebeu? Não nos acompanha até a porta e faz as coisas que a minha mãe pede.
A - Sim, eu percebi. Mais alguns poucos encontros... Certo.
B - Agora é melhor você ir. Senão ele vai começar a desconfiar.
A - Ok... Ah, eu disse a ele que ia te pegar pra almoçar e devo te dizer que ele se auto-convidou para ir também.
Betty escondeu o rosto nas mãos.
B - Ai, meu Deus, que vergonha!
A - Vai ser divertido, mi amor.
B - No Lenoir?
A - Tem algum outro lugar em mente?
B - Faremos assim, deixe que ele escolha.
A - Por mim...
Ele ainda permanecia deitado em cima dela. Betty riu.
B - Então vai, Armando!
Ele beijou-a longamente de novo. Saiu de cima dela.
A - Vai primeiro, Betty, eu não estou... Hã... Apresentável.
Betty olhou-o e sorriu. Levantou-se. Beijou-o de leve nos lábios e saiu.
Seu Hermes ligou para o escritório de Armando duas vezes para certificar-se de que ele realmente estava fazendo o que tinha falado. Como o telefone só dava sinal de ocupado, ele julgou que ele estava mesmo falando no telefone. Continuou com seu trabalho.
Pouco tempo depois Betty retornou. Assim que ouviu a porta se abrir, Seu Hermes saiu imediatamente da sala e se pôs a examiná-la minuciosamente. Ela se esforçou muito para não deixar transbordar o sorriso de sua alma nem o brilho dos seus olhos. Evitou olhar diretamente para o pai.
SH – Que houve na produção?
B – Discussão entre funcionários, papai... O supervisor disse que ia demitir as duas, e então elas aprontaram um escândalo maior ainda e ele ficou sem saber o que fazer.
SH – Hum... Isso é trabalho do Gutierrez...
B – É, eu sei, e disse isso a eles, mas disseram que não o encontraram...