Capítulo 1

by Candida

 
Ágata arruma as malas e sente-se aliviada por ir embora, pois sente que o perigo ronda seu irmão e consequentemente ela também. Fechou o zíper da mala, respirou aliviada sentindo que as coisas finalmente poderiam caminhar para ela e para Bernardo, ele poderia conseguir um emprego fixo e honesto e ela poderia até voltar a estudar, enfim teriam uma vida normal, um sorriso desenhou-se em seu rosto e seus olhos adquiriram um brilho a muito tempo esquecido. Porém seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho dos passos apressados de Bernardo que invadiu o quarto.
- O que foi Bernardo? Que pressa é essa?
- Eu tenho que sair Ágata, mas eu volto, e quando voltar quero que você esteja pronta.
- Como assim? O que ta acontecendo? Eu já estou pronta, se quiser partimos agora. Você já ligou para Isabel não é mesmo? Ela já esta nos esperando, vamos então.
- Agora não! Eu já disse que tenho que sair.
- Eu vou junto com você.
- Não! Eu vou sozinho, e você vai ficar aqui e não vai abrir a porta pra ninguém, entendeu? – Um flechada de remorso atingiu o coração de Bernardo ao ver os olhos marejados de Ágata, percebeu que magoou a irmã, baixou o tom de voz, suavizou a expressão ao aproximar-se dela e abraça-la com ternura.
- Não quero te magoar, não é você, nada tem a ver com você, alias, tudo que eu quero é não te envolver. Você é uma flor no meio de um lamaçal, e eu não quero que você se suje, entendeu?
- Eu queria tanto que tudo isso acabasse.
- Vai acabar! Falta pouco agora, eu só tenho que fazer mais uma coisa.
- Que coisa? Bernardo eu tenho medo.
- Não precisa ter, já ta quase no fim, e tudo vai acabar bem, amanhã nós vamos estar longe, felizes na nossa vida nova, você confia em mim?
- Eu...confio. Mas eu só quero que tome cuidado.
- Eu vou tomar. Fique pronta, assim que voltar nós partiremos, antes do anoitecer. – Ágata consetiu com a cabeça, mas sua expressão ainda era de preocupação, percebendo isso, Bernardo abraçou forte a irmã e a beijou carinhosamente na testa.
- Por favor, não saia de casa enquanto eu não voltar e não abra a porta pra ninguém, você me promete.
- Eu prometo. – Bernardo caminhou a passos largos até a porta mas foi detido pelo som da voz de Ágata.
- Que Deus te acompanhe irmão!
- Fique com ele!

Ágata não conseguia deixar de se preocupar com Bernardo, ficou apreensiva apesar do irmão dizer que tudo ficaria bem, ela sentiu que algo estava errado, Bernardo iria fazer alguma coisa, ele saiu com o tal CD em que havia gravado o esquema de crimes de Raul, ela pode ver claramente que ele pegou a velha boneca de pano que era dela, era lá que ele havia escondido o CD, isso significava que alguma coisa saiu errado, Bernardo disse que só usaria o CD caso Raul descobrisse que iriam embora e tentasse impedir. Por mais que Bernardo tivesse dito que tudo acabaria bem, o coração de Ágata dizia o contrário, e isso a torturava, onde ele estaria? O que estaria acontecendo? Porque ela se sentia assim tão inquieta? Os dedos trêmulos tocaram a imagem de Santa Clara, no folheto que ela guarda o meio da bíblia e os lábios aflitos murmuraram: “Minha Santa Clara roga por meu irmão”.

***

Bernardo apertou a velha boneca de pano contra o peito e apressou o passo ele precisava chegar rápido até a delegacia, entregaria o CD, Raul seria preso e ele e Ágata poderiam respirar aliviados, ele não queria que as coisas tivessem chegado a esse ponto, pois sabia isso o incriminaria também, ele certamente seria preso e Ágata ficaria sozinha, mas era sua única alternativa, preferiria Ter de ficar longe dela em uma cela de prisão do que imaginar que os homens de Raul pudessem fazer alguma coisa contra ela, isso ele não permitiria, estava disposto a entregar sua liberdade em troca da segurança da irmã. Raul havia descoberto sobre o CD e Bernardo temia que ele fizesse algo contra Ágata, apesar de nunca Ter mencionado que tinha uma irmã, ele temia por ela, nas raras vezes em que foi visto com Ágata inventou que ela era filha do dono do quarto que ele alugava, mas mesmo assim ele temia que Raul ou alguém desconfiasse de algo. A cada passo que dava mais convencido ficava de que estava fazendo o certo.
“Ágata é mais importante que tudo”
Olhou para a velha boneca, ele havia dado a Ágata quando ela completou 8 anos, lembrava-se até da expressão de felicidade o rosto dela e do beijo estalado que ela deu nele agradecendo.
“Você é meu irmão preferido!”
“Bobinha eu sou seu único irmão!”
“Mas se eu tivesse mais cem irmãos você ainda seria o preferido”.
“Gostou mesmo?”
“Adorei, vou dormir abraçada a ela toda noite”.

- E prometo que compro outra pra você Ágata.”– Murmurou Bernardo ao chegar em frente à delegacia, era só entrar, agora não podia, não queria mais voltar atrás.
- É isso que eu tenho que fazer. – Olhou mais uma vez para a velha boneca. – É isso que eu vou fazer! – Fez menção de entrar mas uma mão forte o segurou pelo braço, virou-se surpreso e...
- Raul!
- Que você acha que vai fazer?
Não respondeu a pergunta e num incontrolável extinto de sobrevivência desvencilhou-se de Raul e desandou a correr, foi na direção do circo que estava acampado na cidade, lá teria muitas pessoas seria mais difícil Raul encontrá-lo era o que ele pensava mas Raul não se deu por vencido e foi atras a princípio a passos largos e apressados para não chamar atenção das pessoas mas procurando não o perder de vista, porém Bernardo tomava distancia e Raul começou a correr também desviando das pessoas que chegavam para o espetáculo do circo. Ao perceber que Raul o perseguia Bernardo pensa em esconder a boneca, mas onde? Foi em direção ao estacionamento passou pelos carros na esperança de encontrar algum destrancado, mas nada, não encontrava, podia sentir que Raul estava cada vez mais próximo quando de repente, um carro com o vidro aberto, era a chance dele, correu até o carro, forçou a porta, mas estava trancada, forçou o vidro tentando baixa-lo um pouco mais, estava desesperado, viu quando uma mulher se aproximava, vinha em direção ao carro, ela estava falando no celular e não havia se dado conta da presença dele ainda. Bernardo forçou mais e o vidro desceu dando-lhe espaço para que pudesse enfiar o braço todo, quando Bernardo tentou destravar a porta avistou Raul vindo em sua direção, podia ver o ódio em seu olhos, ele não teria tempo de fazer uma ligação direta na fiação do carro antes de ser pego pela mulher, a provável dona do carro, ou até mesmo por Raul, sem saída ele pegou a boneca tirou o CD e o jogou dentro do carro e novamente disparou a correr em direção as barraquinhas do circo. Olhou para trás e viu que Raul passou pelo carro após esbarrar na mulher e continuou a persegui-lo. Bernardo andava apressado infiltrando-se entre as barraquinhas tentando despistar Raul, por um momento achou que havia conseguido, pois não o viu mais, parou por um momento apoiando-se numa barraquinha vazia, estava exausto, não tanto por correr, mais pela aflição que o consumia. Respirou fundo tinha que ir embora, iria buscar Ágata e os dois teriam pouco tempo para fugir, mas quando se virou teve novamente a visão da morte:
- Raul...
- O que achou que estava fazendo Macau? Você sabe muito bem o fim daqueles que brincam comigo, não sabe? Mas é muito burro pra entender isso, caso contrário, jamais faria a bobagem que fez.
- Eu não tenho CD nenhum, já falei, pode me revistar, eu não sei do que você ta falando, é sério, eu não sei de nada, eu não fiz nada!
- Vou te dar menos de um minuto pra me falar, poupo sua porcaria de vida.
- Eu já disse que não sei do que você ta falando, eu não tenho CD nenhum.
- Seu tempo ta acabando e a minha paciência também
- Raul, por favor, eu to dizendo, eu não fiz nada, acredita em mim.
- Ultima chance. – falou e se aproximou com os olhos fixo nos de Macau percebendo o medo e desespero.
- Não sei, não fui eu, não fui eu... – sentiu algo atravessar-lhe o peito e lhe roubar todo o ar tamanha foi a dor, seus olhos escureceram-se com a última imagem que neles ficaram, Raul com um sorriso satânico empunhando uma pequena pistola, provavelmente equipada com silenciador, pois não ouviu o disparo, apenas sentiu o estrago que fez em seu peito, olhou para sua camisa e uma mancha de sangue se fazendo e tornando-se cada vez maior. Um suspiro doloroso saiu de seus lábios e suas pernas vacilam, ele segura-se na barraca de circo mas suas forças o traem, fazendo com que ele vá de encontro ao chão levando junto a lona da barraca cobrindo parcialmente o corpo já sem vida.

***

Bruno espera ansioso em frente à faculdade a saída de sua namorada Julia. Já olhou no relógio umas vinte vezes, está ansioso por vê-la.
- Julia...Julia.
Ficou lembrando do domingo à noite, quanto combinaram de jantar fora, mas caiu um temporal, resolveram ficar em casa, comeram no quarto enquanto assistiam a um filme de suspense, ela estava visivelmente com medo e ele divertia-se tentando assusta-la, no final acabaram na cama. Ao lembrar de tudo isso, esboçou um sorriso, estava louco de saudade, queria vê-la, abraça-la, beija-la. Seus olhos se encheram de luz quando avistaram o objeto de seu desejo vindo em sua direção. Como estava linda, a mulher mais linda que ele já viu, o coração dele disparou, como se quisesse sair do peito e ir ao encontro da diva em sua frente. Como se adivinhasse o pensamento dele, ela o brindou com um de seus sorrisos. Linda! Lindo sorriso! Sem mais poder se conter ele a abraçou e a rodopiou no ar. O que antes era um sorriso transformou-se numa gargalhada e ele pode ouvir a música do riso dela. Como amava aquela mulher!
- Se você demorasse mais cinco minutos, eu juro que iria invadir essa faculdade e iria arranca-la de lá.
- Se eu soubesse que faria isso, juro que teria ficado, de propósito, só para ver você chegar e me arrebatar em seus braços. – Ele não respondeu nada, cobriu os lábios dela com um beijo cheio de desejo.
- Vamos almoçar juntos?
- Pucha amor não vai dar, eu marquei com a minha mãe no salão, eu não queria ir mas ela insiste na minha opinião sobre o novo corte de cabelo, como se fizesse alguma diferença eu dizer que alguma coisa, ela sempre faz do jeito dela.
- Que pena!
- Pena mesmo, um almoço com você seria bem mais interessante, mas minha mãe faz questão...
- Tudo bem amor! A gente se vê a noite então.
- A noite? Que pena Bruno...acho que não vai dar também! Eu combinei com a Lenita e a Débora. A gente vai terminar um trabalho e estudar um pouco. Mas se você quiser eu desmarco e a gente sai.
- Não... não precisa desmarcar, vai estudar com suas amigas. Eu sei que a faculdade é importante pra você e que você é uma aluna aplicada, eu entendo.
- Você é maravilhoso sabia. – Beijou-o levemente nos lábios.
- Elas vão vir na sua casa e você vai na casa delas.
- O que? Quem?
- Suas amigas. Se você quiser eu posso te levar a casa de alguma delas.
- Não!..É...não precisa, meu pai vai me levar.
- Então não vamos nos ver hoje, será que eu agüento?
- Não vamos estar fisicamente separados, mas meu coração, meu pensamento vai estar com você, você sabe.
- E você sabe que eu não vivo sem você minha linda. – Como um toque final para sua declaração ele a beija apaixonadamente.


***

Ágata sente sufocada em casa na espera de Bernardo, ele saiu a tarde dizendo que já voltaria e já era noite e nenhuma noticia, ela não podia ficar mais naquela agonia, resolveu sair, queria respirar.
Caminhou pela cidade na esperança de encontra-lo, mas a cada passo que dava mais era tomada por um pensamento funesto.
“Aconteceu alguma coisa”.
Sentia em seu coração que algo estava errado, no dia anterior ela e o irmão estavam fazendo planos, iriam embora daquela cidade e teriam uma vida diferente e agora tudo era incerto. Desde que chegaram em Primavera Ágata temia pelo destino do irmão, ela sabia que ele tinha se envolvido com gente de má índule e pior, que andava se comportando como esses delinqüentes, ele já não se importava em conseguir um emprego, dizia que nada iria faltar a ela e que eles teriam uma vida cômoda, queria que ela voltasse a estudar, mas ela se recusou.
“Não quero construir minha formação com esse dinheiro sujo”
Nada de vida fácil. Bernardo vivia atormentado, sempre nas sombras, se escondendo de todos, a vida que ele imaginou ser tranqüila transformou-se na sua incessante agonia. Ágata suplicou para irem embora daquele lugar, mas ele sempre dizia que agora era tarde demais, que ele já estava envolvido e não tinha mais volta. Até o dia em que ele apareceu em casa com um CD, dizendo que essa seria a salvação deles, ali estava gravado todo o esquema de venda de droga para os EUA, esquema que era armado por Raul, o pior pesadelo de Bernardo, mas agora o pesadelo iria chegar ao fim, ele seria livre. Ágata também seria livre, enfim viver uma vida normal, agir como se não estivesse fugindo do mundo, iriam embora e encontrariam a paz. Mas não, nada disso aconteceu, agora ela esta ali, sozinha perambulando pela rua, com uma dúvida terrível em seu coração.
“Será que o Raul descobriu o que Bernardo fez?”
Se isso acontecesse seria o fim de tudo. Sonhos, planos. Ela já nem desejava ir embora, queria apenas que Bernardo aparecesse e acabasse com a aflição que a consumia.
“Bernardo, Bernardo, onde você está meu irmão?”
Avistou de longe uma movimentação estranha no circo, uma aglomeração de gente, carros da polícia. Inevitavelmente pensou que Bernardo poderia estar envolvido, correu até la, a polícia havia cercado uma pequena área e as pessoas não poderiam se aproximar.
- Sabe o que aconteceu? – Perguntou a uma mulher ao lado.
- Parece que a polícia encontrou um homem morto, mas já foi levado daqui.
- Quem era? – Perguntou sentindo seu coração apertar.
- Não sabem, ele estava sem documentos, mas parece que é um homem jovem.
A angustia de Ágata agora parecia retalhar seu coração. Sentiu de súbito uma vontade de chorar, mas conteve-se.
“Bernardo está bem... Bernardo está bem”.
Repetia inúmeras vezes isso, talvez na esperança dela mesma acreditar. Olhou ao redor e avistou um policial segurando um envelope plástico e dentro do envelope uma boneca.
“Não pode ser... é a minha boneca”.
Sentiu sua visão escurecer e o ar lhe faltar, era sua velha boneca de pano, a mesma onde Bernardo havia escondido o CD, deveria estar com ele, mas não, estava ali, nas mãos de um policial, isso significava que seu pior pesadelo aconteceu, Raul descobriu tudo, e se ele descobriu, Bernardo já não estava mais vivo. Ágata sentiu uma dor terrível no peito, uma vontade de gritar e colocar para fora o desespero que a possuía. Agarrou-se em suas ultimas forças e caminhou trocando as pernas, já não disfarçava sua tristeza e seu choro era alto e doído, tentou correr, mas suas pernas não obedeciam, era como se estivesse em transe, vivendo um pesadelo.
“Não pode ser, Bernardo meu irmão...não pode ser...”
Os sons altos da freada de pneus e da buzina de um carro a fizeram despertar. Olhou para o carro e quando percebeu que o motorista iria descer, seu impulso foi correr, precisava ficar só, não queria que ninguém visse sua agonia.
Bruno saiu do carro mas não teve tempo nem se quer de ver direito a menina que quase atropelou.
- Espere! Você está bem. – Ela não ouviu o chamado de Bruno e ele a perdeu de vista.
- Espero que eu não tenha a machucado! Ela parecia tão desesperada.

***

Julia retocou o batom no espelho retrovisor do carro de Lenita enquanto esta prendia o cinto de segurança. Débora era a única das três que parecia reprovar a idéia de passar uma noite rodando as baladas da capital.
- Julia você tem certeza que quer fazer isso?
- Claro que eu tenho, não fui eu quem teve a idéia?
- É que eu tenho medo...
- Medo de que Débora? Que bobagem, a gente só vai se divertir.
- Mas já vai ser uma viagem chegar até a capital e nós ainda vamos ficar perambulando por aquelas ruas perigosas, lá é cidade grande não é Primavera não viu Julia!
- Ahrrr!!!! Claro né! É por isso que a gente ta indo pra lá!
- E se alguém descobrir?
- Ninguém vai descobrir, para todos os efeitos, nós três fomos estudar na casa de uma amiga, se por acaso procurarem pela gente, não vão nem por onde começar. Deixa de ser boba e aproveita! Lenita diz pra essa medrosa que vai ser uma noite inesquecível!
- Relaxa Débora, vai dar tudo certo, ninguém vai descobrir nada! E se descobrirem não tem importância, nós não vamos fazer nada de mais.
- O problema não é esse Lenita. Nós mentimos para todos e isso que eles vão nos cobrar se descobrirem.
- Mas isso a gente contorna! Nós temos é que nos divertir, somos maiores de idade, livres e desimpedidas!
- Nem todas...
- Como assim?
- Nem todas são livres e desimpedidas Lenita...
- Você ta falando da Julia. – Lenita e Débora olham para Julia que parece indiferente ao que elas insinuam. – É um risco que ela ta correndo...
- Você disse muito Lenita. – Replicou Julia calmamente. – Um risco que “eu” estou correndo e da minha vida cuido eu, vocês não precisam se preocupar.
- Tudo bem Julia, o namorado é seu e você deve saber o que faz, mas eu acho loucura, arriscar um namoro com Bruno Camargo!
- Eu também acho! Se eu fosse você não deixaria aquele homem lindo sozinho uma noite sequer!
- Se você fosse eu Bruno não estaria com você. Ele gosta de mulheres quentes envolventes, que façam o sangue dele correr mais rápido nas veias e não me leve a mal, mas esse não é bem o teu estereotipo Débora!
- Não precisa falar assim! Faça o que quiser.
- Faço mesmo! Bruno esta nas minhas mãos. – Faz um gesto apontando para a palma da mão. – Eu sei muito bem como controla-lo, e vamos parar com isso, o tempo urge, vamos logo!
Lenita e Débora ficam espantadas com a frieza de Julia. As três garotas seguiram para capital atrás dos agitos das baladas.


***

“O que eu faço sem você Bernardo?” – Soluçou Ágata enquanto deixava uma flor no túmulo de Bernardo.
Os dias que se passaram desde a morte de Bernardo foram terríveis, após um tempo sozinha Ágata foi fazer o reconhecimento de corpo, ligou para Isabel e pediu para ajuda-la com as providencias para o funeral.
Isabel cursou a faculdade de informática com Bernardo e os dois até tiveram um rápido romance, depois tornaram-se apenas amigos e ela se aproximou de Ágata também.
Já estava tudo combinado com Isabel, Ágata e Bernardo voltariam para Capital e morariam temporariamente com Isabel até se estruturarem melhor, quem sabe Bernardo e Isabel voltassem a namorar, os dois andavam conversando bastante, Ágata percebia que Bernardo ficava horas ao telefone com Isabel e foi para ela que ele ligou no dia de sua morte, avisando que a noite os dois já poderiam se ver finalmente.
Depois da morte de Bernardo, Isabel insistiu para que Agata a acompanhasse até a capital, mas ela recusou, seu irmão estava enterrado naquela cidade e era ali que ela ficaria, pelo menos nos próximos meses, depois ela decidiria o que fazer, tinha esperança que o tempo fosse um balsámo para sua dor, estava enganada. O tempo passou, mas sua dor não.

***

Aquele era um dia movimentado no consultório do respeitado Dr. Raul Sampaio, em sua sala ele acabara de dispensar uma paciente receitando apenas alguns remédios e acalmando-a dizendo que seu caso não é nada sério. Fechou a porta e atendeu o celular que tocava.
- Alo...
- ...
- Pode falar, eu estou sozinho.
- ...
- Eu já não dei as ordens?! – Raul já começou ficar impaciente. – Eu quero que mande alguns homens arrancar alguma coisa daquela garota na capital, foi ela a última pessoa com quem Macau falou. Tenho certeza que era pra lá que iria se eu não o tivesse pego. Essa garota deve saber alguma coisa!
- ...
- Não importa! Apenas dêem um susto.
- ...
- Eu sei que ela não esta com o CD. Macau estava com o CD antes de morrer, deve ter escondido em algum lugar... mas ela deve saber de alguma coisa.
- ...
- Não discuta minhas ordens! Mande alguém até lá e faça o que tem de ser feito.
Raul desligou o telefone muito nervoso, não atenderia ninguém mais naquele dia, seu maior problema era encontrar o CD, onde poderia estar? E com quem? Raul descobriria, disso ele não tinha dúvida.

***

Já haviam se passado três semanas desde a morte de Bernardo e Ágata tinha que reestruturar sua vida, ela sabia que isso seria difícil, apesar de perder os pais quando ainda era criança ela sempre teve o irmão ao seu lado, e agora estava sozinha, ela estava ciente que as dificuldades seriam grandes mas teria que continuar caminhando e o primeiro passo seria encontrar emprego. Senta-se diante da pilha de jornais a sua frente e começa sua busca, circula algumas ofertas que considera interessantes, mas é difícil se concentrar, sente um vazio, uma sensação de abandono, uma vontade de chorar, mas ela havia se decidido não chorar mais, teria que seguir em frente. Não adiantou sufocou um soluço, mas logo percebeu que uma lágrima marcou o jornal em suas mãos, o que faria, estava sozinha, frágil e desamparada. Controla seu choro ao ouvir o barulho da campainha do telefone.
- Alo...
- Ágata é Isabel.
- Oi Isabel.
- Você está bem?
- Dentro do possível.
- Eu não vou poderei te visitar esse final de semana, vou ver meus pais. Meu pai ligou avisando que minha mãe não passou muito bem e eu vou ver como ela está.
- Vai sim Isabel. Vai cuidar de sua mãe eu vou ficar bem.
- Tem certeza? Se você quiser pode vir comigo.
- Não! Não precisa, vai com Deus, eu estou bem. Preciso colocar as coisas em ordem. Vai e não se preocupe.
- Tudo bem. Mas se precisar de alguma coisa já sabe.
- Sei sim. Pode deixar.
- Cuide-se!
- Você também!


***

Isabel fechou a porta malas do carro e caminhou até a porta do carro.
- Droga! Esqueci a o presente da mamãe em cima da cama.
Caminhou para casa novamente, entrou deixou a porta aberta, ela seria rápida, iria apenas pegar o embrulho, ao voltar notou a porta fechada.
- Na certa foi o vento.
Ao força-la para abrir percebeu que ela estava trancada a chave.
- Estranho...Não o vento não tranca a porta com a chave!
- Não mesmo!
Isabel virou-se e deu de cara com um homem estranho parado no meio de sua sala, controlou seu espanto e tentou manter a calma.
- Quem é você? O que faz aqui? Vou chamar a polícia.
- Digamos que você tem coisas a nos dizer.
- Que coisas? Eu não te conheço. - Foi em direção ao telefone mas foi detida pela voz ameaçadora daquele estranho.
- Pois eu acho melhor você ficar onde esta e calar a boca, só abrir quando for responder as perguntinhas que nós vamos fazer!
- Se não sair agora mesmo, eu vou gritar!
Ao dizer isso, Isabel percebeu que os punhos do homem fecharam-se e a expressão dele se encheu de raiva, Marcia fez menção de correr e se trancar no quarto mas o homem barrou sua passagem e levantou uma das mãos, ao fazer isso, mais dois homens apareceram vindos da cozinha.
- Agora você vai falar tudo que o chefe quer saber!


***

Ágata já estava saindo com alguns jornais debaixo do braço, mas foi detida pela campainha do telefone.
- Alo.
- Ágata...
- Eu mesma!
- Ágata...Você...
- Isabel?... – a voz parecia ser de Isabel, mas estava fraca demais, ela tinha dificuldades em distingui-la.
- Cuidado... – A respiração de Isabel estava lenta e ofegante.
- Isabel é você? A voz está diferente, esta acontecendo alguma coisa?
- Ágata...Vieram atrás de mim... foi orrivel...
- O que? O que fizeram com você?! Quem? Quem foi atrás de você?
- Eu não sei...Eles queriam saber de um CD...Falaram do Bernardo...
- O CD... – Ágata agora já fazia idéia quem eram as pessoas que procuraram Isabel.
- Isabel você esta bem? O que eles fizeram com você? Por favor diga alguma coisa!
- Eu vou ficar bem...Eles só ficaram me ameaçando, perguntando coisas que eu não sabia... me apontaram uma arma. – Isabel tentou se controlar mas os soluços revelaram que ela estava aos prantos. – Eu achei que iria morrer.
- Isabel... Mas o que mais eles fizeram? Você chamou a polícia? Esta mesmo tudo bem com você?
- Eu estou bem agora. Eles só queriam me ameaçar... me assustar... não sei...Falaram de Bernardo... eu não sei o que esta acontecendo Ágata...Mas tome cuidado...Eu não mencionei teu nome mas eles podem te procurar...Saia daí...Vá embora!
- Eles não vão me procurar Isabel! – Ágata sabia que Bernardo havia escondido que tinha uma irmã, mas não entendia como eles chegaram até Isabel. – Isabel você procurou a polícia?
- Acabei de ligar, eles já devem estar chegando, mas os bandidos já forma embora.
- Eles disseram mais alguma coisa?
- Perguntaram de um CD e perguntaram se eu conhecia o Bernardo, ficaram me ameaçando, cuide-se Ágata, eles podem te procurar.
- Esta bem Isabel eu vou me cuidar, fique tranqüila.
- Eu vou para casa dos meus pais, acho que a temporada por lá vai ser mais longa do que eu esperava.
- Eu sinto muito Isabel...
- Não precisa Ágata. Olha eu não sei o que Bernardo andava fazendo por aí, mas não quero que me conte, quero continuar com a imagem boa que tenho dele.
- Não importa o que eu disser Isabel você vai ter sempre uma imagem boa dele, porque ele era bom!
- Eu tenho que desligar, a policia esta chegando, talvez a gente não se fale por um bom tempo...Você tem certeza que não quer vi comigo?
- Absoluta! Acredite Isabel eu to muito triste com o que aconteceu com você...
- Não fique, eu estou bem agora... e espero que você também fique bem, eu não sei quem é essa gente, mas eles são capazes de tudo, agradeço a Deus por estar viva e peço a ele por você.
- Isso já é mais que suficiente Isabel. Deus e Santa Clara cuidarão de mim e de você.




Mensagem enviada Jun 29, 2006, 2:59 PM
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