Livro Coração Selvagem(Júlia)

by Débora

 
Coração selvagem
A Rogue's Heart
Laurie Paige




Resumo
Ele era um belo demônio que entrou sem ser convidado no paraíso de Whitney Thompson.
Ela não sabia seu nome ou a razão pela qual ele vagava pelos campos. Mesmo assim, quando uma forte nevasca caiu, Whitney abriu as portas de sua casa e de seu coração para ele, um completo estranho.
Guiado por lembranças de traição e mágoas, Gabriel Deveraux voltara ao Oregon para limpar seu nome e depois ir embora para sempre. Nada no mundo faria com que ele chamasse àquele lugar frio e infernal de lar, nem um anjo de grandes olhos azuis, que poderia salvá-lo de sua vida sem sentido e tornar a Montanha Rogue um paraíso.



Tudo bem, mãe. Ontem nevou. A montanha? Está linda. Lembra o último Natal que passamos aqui com a vovó? O cenário é aquele, um cartão de Natal. Estou adorando.
Whitney Thompson prendeu o telefone entre a orelha e o ombro, enquanto lia a lista de tarefas do dia. Olhou para uma das paredes parcialmente lixadas da sala de estar e bufou ao lembrar-se de que o sr. Peters ainda não chegara.
Olhou pela janela, para as colinas com os cumes cobertos de neve. Herdara aquela propriedade havia oito anos, da avó materna. A casa da fazenda possuía dez quartos, e Whitney pretendia alugá-los para pessoas que quisessem um lugar barato para passar uns dias, ou talvez para aquelas que desejassem morar num ambiente caseiro.
Ela começou a pensar em nomes para o local, como Pensão Rio Rogue, Pensão Riacho, Pensão da Vovó...
- Você me ouviu?
A voz da mãe trouxe-a de volta do devaneio.
- Oh, desculpe, havia um chiado na linha - Whitney disfarçou. - O que disse?
- Scott foi promovido. Ele é jovem para ser promovido a tenente-coronel.
- Estou feliz por ele.
Scott fora o primeiro candidato a marido de Whitney, que a sra. Thompson escolhera.
Era loiro, tinha olhos azuis e um corpo de Adônis, além de inteligência e bom humor, mas por que Whitney não se apaixonara por ele? Às vezes, ela mesma não entendia. Disse a si mesma que talvez quisesse alguém especial. Reconheceria essa pessoa especial, se ficassem frente a frente? A sra. Thompson acreditara que encontrara o genro quatro vezes, o que fizera com que Whitney fosse cautelosa quanto ao amor.
Apaixonar-se parecia fácil, continuar apaixonada era difícil. Queria um amor que durasse para sempre, como o de seus avós.
- Fomos à Casa Branca ontem à noite, numa recepção para o novo embaixador das Nações Unidas - a sra. Thompson contou.
Seu último marido, o coronel John G. Jones, fora transferido para o Pentágono havia poucos meses.
Whitney murmurava "sei", enquanto a mãe recitava a lista de convidados, incluindo a posição de cada um. Aliviada por estar fora de eventos sociais e políticos, não tinha nenhum interesse em voltar àquele círculo.
Mas a mãe não compreendia, não aceitava sua decisão, e ligava semanalmente para contar a Whitney o que ela estava perdendo, sem ver que essa estratégia não funcionava.

A sra. Thompson terminou de fazer a descrição da recepção.
- Se vier para casa na Páscoa, apresento você a todos os jovens em quem tenha algum interesse - falou.
Whitney olhou para o homem alto entre as árvores. Já encontrara alguém que lhe havia despertado algum interesse.
- Pode vir de avião...
- Obrigada, mãe, mas não posso. E agora tenho que desligar. Cumprimente o general por mim, está bem?
A mãe despediu-se, desapontada. Ao colocar o fone no gancho, Whitney suspirou, aliviada. Por um momento, ficou recordando o passado, quando a mãe tentara insistentemente para que ela se encaixasse no cenário político.
Uma vez, um repórter dissera que conseguiria um emprego para Whitney, depois que ela questionara um senador sobre uma verba destinada a educação que fora desviada. Aquele incidente ocorrera numa festa, na mansão do senador, na Virgínia, o que deixara a sra. Thompson irada, claro.
Whitney riu e olhou ao redor da sala de estar, que exibia paredes escalavradas e nenhuma mobília. Transformar a velha casa em uma bela hospedaria era seu sonho. Por oito anos, trabalhara como analista de comunicações para um membro do congresso, economizando cada centavo de seu salário para mudar-se para aquela casa e começar seu próprio negócio.
Ninguém a impediria de concretizar seu sonho. Voltou a atenção para o homem caminhando entre as árvores. Pegou o binóculo, uma relíquia dos tempos em que observava os pássaros, e ajustou o foco. Conseguiu ver o rosto do estranho com clareza e ficou confusa, pois tinha quase certeza de que o conhecia de algum lugar.
Impossível. Nunca o vira. Mas o sentimento de familiaridade não a abandonou. Havia algo de poderoso e primitivo nele que a atraía. Ela movimentou a cabeça negativamente. O estranho não era nenhum galã de cinema, mas era muito atraente. Ela o imaginou como um caçador solitário, um homem com uma missão a cumprir. Ele tinha olhos e cabelos pretos e uma expressão de seriedade.
De repente, o estranho parou. Whitney ficou gelada e arrepiada. Ele olhou para a casa dela e seguiu em sua direção. Sentindo-se como uma heroína de um filme de Alfred Hitchcock, ela observou-o aproximar-se. Teria o estranho percebido que estava sendo espionado?
Talvez o sol tivesse feito com que as lentes do binóculo brilhassem. Não era possível, pois era de manhã, o sol estava a leste da casa, e o estranho, a oeste. Mas de alguma maneira, ele sabia que ela estava lá.
O estranho pousou o olhar exatamente na janela onde Whitney estava. Ela não ousou mover-se, como se estivesse hipnotizada. De súbito, ele voltou para a fazenda Deveraux. Ele desapareceu num piscar de olhos, como num sonho. Whitney ajustou o binóculo, mas não o viu mais. Colocou o binóculo na prateleira, e um sentimento de desespero dominou-a. Depois de enfiar no bolso da calça jeans a lista do que era preciso ser feito, vestiu a parca e pegou a bolsa. Tinha lugares para ir e pessoas para ver. Não tinha tempo para ficar sonhando.
Lá fora, a neve caía. Whitney seguiu trinta e três quilômetros até a estrada principal e chegou na cidade quinze minutos depois.
- Olá - o sr. Tall cumprimentou-a, quando ela entrou na casa de materiais de construção, em seguida colocou outra tora na lareira e esfregou as mãos. - Aproxime-se, deve estar com frio.
Whitney limpou as botas sujas de neve no capacho e sorriu. Tinha certeza de que era uma das melhores freguesas do sr. Tall por causa da reforma da casa.
- Bom dia - respondeu. - Aqui está tão quentinho! A manhã está muito fria.
- No meu alpendre, às seis horas da manhã, estava abaixo de zero. A estrada para sua casa está livre?
- Está.
Whitney tirou do bolso da calça a lista dos artigos que o sr. Peters dissera que seriam necessários. Riverton tinha apenas uma mercearia, uma farmácia, um correio, um posto de gasolina, uma loja de materiais de construção, um mercadinho, um restaurante e duas lanchonetes.
Havia uma serraria, que era da mesma família havia seis gerações. Os homens da cidade trabalhavam lá, ou tinham pequenos negócios.
O velho sr. Peters era um carpinteiro aposentado, que trabalhava meio período, quando ele e a caminhonete estavam bem.
- Deixe-me ver - o sr. Tall disse, pegando a lista. - Acho que tenho tudo, e você pode levar agora mesmo.
- Que bom - Whitney falou, aproximando-se da lareira. O sr. Tall foi ao depósito, e Whitney passou a conversar com a esposa dele, uma senhora que tinha artrite, mas continuava a tricotar para os netos.
- Teve problemas para vir à cidade? - a sra. Tall perguntou.
- Nenhum.
- Achei que nevou muito, esta madrugada. Não conheço nenhuma mulher que more por aqui sozinha, como você.
Whitney ficou feliz com a preocupação da mulher, mas já tivera muita desaprovação por parte dos pais em relação a seus planos. Trabalhara muito para realizar seu sonho, por isso, ou conseguiria realizá-lo, ou morreria tentando.
- Minha avó morava sozinha - declarou.
- É mesmo. Abigail Thompson era independente. Você se parece com ela, exceto por ser mais alta e mais magra.
Como a avó, Whitney tinha cabelos ruivos, mas Abigail Thompson fora baixinha e gordinha, ao contrário da neta, que não conseguia ganhar peso para ter mais curvas. Contudo, Whitney tinha um rosto bonito e delicado, pernas longas e torneadas, que deixaram muitas amigas de escola com inveja, e grandes olhos azuis.
Sentiu um aperto no peito. Amara a vovó Thompson, adorara visitá-la. A fazenda, a velha casa, os quarenta acres de terra eram recordações fixas na mente de Whitney, enquanto a mãe trocava de marido e de casa como quem trocava de roupa.
- A propósito, você tem visto alguém na velha fazenda Deveraux? - a sra. Tall indagou.
Por alguma razão, Whitney decidiu ser cautelosa quanto ao misterioso estranho.
- Por quê? Alguém a comprou? - perguntou.
- Eu não sei. Um fazendeiro contou que viu as luzes acesas, na semana passada. Tenha cuidado.
Whitney movimentou a cabeça afirmativamente. Recordou que não havia trancado a porta da frente da casa ao sair, porque o sr. Peters podia chegar enquanto ela estava fazendo as compras.
Mas acalmou-se ao convencer-se de que ninguém iria querer o que havia na casa. Os móveis em estilo vitoriano foram divididos entre os membros da família havia anos, e os que ficaram não valiam muito.
Depois de pagar, Whitney foi até a mercearia e ao mercadinho para comprar comida. Em seguida, entrou no restaurante, deliciou-se com o saboroso prato do dia, tomou um cafezinho, então voltou para casa.
Quando parou a caminhonete na frente da casa e desligou o motor, ficou sentada no veículo por alguns minutos, pensando. Onde originalmente devia haver apenas marcas de suas pegadas, havia outras também. Ela ficou arrepiada e olhou aflita para o caminho até o bosque, mas naquela direção a neve estava intacta.
Ao observar as pegadas, concluiu que eram de um homem. Teria sido o estranho misterioso? Whitney sentiu seu coração bater acelerado. Quem estivera ali e por quê?
Mordeu o lábio inferior, enquanto olhava para a porta da frente da casa. As pegadas não ultrapassavam o portão, por isso seja lá quem tivesse estado na propriedade, não poderia ter entrado na casa.
Ela sentiu os lábios secarem e engoliu em seco. Disse a si mesma que não estava com medo, pois havia algo de puro e nobre nos modos do estranho, e as pegadas podiam pertencer ao sr. Peters.
Abriu a porta da caminhonete e desceu. De imediato, soube que não havia ninguém por perto, porque sentia um espírito de solidão e vazio pairando no ar. Sorriu. Tinha um "amigo fantasma", que afastaria a impressão de solidão. Pegou a bolsa, alguns pacotes de compras, e correu para a casa.
- Oh, que inferno!
Whitney colocou o livro de lado e olhou para o fogo na lareira. O vento soprava forte lá fora, balançando os galhos das árvores. Por alguns instantes, ela ficou amedrontada ao ouvir um rangido.
Estava num dos quartos, o que escolhera como seu e também o único aposento habitável na casa, naquele momento. Ali encontrava-se a mobília que trouxera de seu apartamento: cama, mesas, cadeiras, armários, um sofá e poltronas.
O cômodo enorme possuía uma lareira que estava funcionando, a única fonte de calor na casa, exceto pelos chuveiros elétricos. Tanto a lareira, na sala de estar, como o aquecedor, no porão, precisavam de reparos.
Whitney cruzou os braços na frente do peito e estremeceu, quando um cão ou um coiote uivou a distância. Lembrou-se do estranho. Era como se sentisse por perto seu espírito forte, protetor e gentil. Sorriu e fechou os olhos.
Um ruído, mais precisamente um estalido de madeira, fez com que ela abrisse os olhos e olhasse ao redor. Tudo sereno. Levantou-se e aproximou-se da janela. Avistou pegadas que iam da casa até o bosque. Achou que não fossem pegadas, que a luz da varanda e as sombras das árvores e da casa criavam ilusões que ativavam sua imaginação.
- Você está aí fora, estranho? - murmurou. - Está me observando? Pretende me ferir?
Depois de alguns minutos, voltou ao sofá e pegou o livro, em seguida largou-o de novo. Era melhor parar de ter histórias de terror, mesmo que o autor estivesse na lista de best-sellers.
Sentindo-se uma idiota porque provavelmente não havia ninguém lá fora, pegou a camisola, entrou no banheiro e vestiu-se. Antes de ver o estranho, não ter cortinas nas janelas sem venezianas não a preocupara.
Depois de preparar-se para dormir, escovou os cabelos e aninhou-se sob os cobertores. Com a luz apagada, o fogo na lareira produzia sombras no teto. Ela imaginou casais valsando, até que caiu no sono.
Whitney tomou o café da manhã usando luvas, porque a temperatura na cozinha estava muito baixa. Bocejou e riu ao ver a respiração sair de sua boca em forma de fumaça. Se o eletricista não aparecesse, ela começaria a fazer bonecos de vodu. O primeiro boneco representaria o sr. Peters. Ele ligara logo cedo, dizendo que não podia trabalhar porque o ombro doía.
Por que dissera que faria o serviço, se não estava disposto? Ao perceber que estava ficando irritada, ela mudou o rumo dos pensamentos. Foi para a sala de estar e olhou para a parede parcialmente lixada. Decidiu que tiraria o resto da tinta sozinha. Usando uma máscara para proteger o nariz e a boca, começou o trabalho.
No final da tarde, parou para tomar uma xícara de chocolate quente. Ao passar por um espelho, sorriu ao ver como se achava coberta de pó branco. Lavou o rosto e preparou o chocolate. Carregou a xícara para o quarto e telefonou para o eletricista. Por causa da nevasca, ele tivera duas emergências, mas deu certeza de que apareceria na semana seguinte.
Ao desligar o telefone, foi até a janela, com receio de que seu sonho fosse uma fantasia que nunca se realizaria. Olhou a neve cair. Um vulto preto entre as árvores chamou-lhe a atenção.
Aproximou-se do vidro da janela e olhou fixamente para um ponto entre um pinheiro e a cerca. Havia algo ali. Uma pedra? Um tronco de árvore?
Fosse lá o que fosse, estava meio coberto de neve. Whitney, de súbito, lembrou-se do estranho. A última vez em que o vira ele usava calça jeans, botas, parca e chapéu pretos. Pegou o binóculo e focalizou as lentes no objeto que lhe chamara a atenção. Largou-o bruscamente, correu para o quarto e vestiu meias grossas, botas, casaco de lã, o chapéu. Então, pegou um cobertor.
Devia estar louca, para querer sair com aquela tempestade de neve, mas, se o que avistara entre o pinheiro e a cerca fosse um homem, e ele estivesse machucado, não podia deixá-lo exposto ao frio.
A nevasca intensificou-se subitamente, enquanto Whitney cruzava o campo. Ao chegar à cerca, viu que estava quebrada. Após passar pela abertura, ajoelhou-se ao lado do vulto. Era um homem, deitado com uma das faces na neve e as pernas encolhidas. Os braços estavam cruzados, e as mãos embaixo das axilas. A postura indicava que ele se preocupara em manter-se aquecido, depois que caíra ou fora derrubado.
Whitney sentiu um calafrio e olhou ao redor para ter certeza de que estavam sozinhos, em seguida voltou a atenção para o estranho, imóvel, o que a fez pensar que ele estava morto.
Respirou fundo, tirou uma luva e pousou a mão no pescoço dele para ver se havia pulsação. A pele estava gelada. Ela afastou a mão de imediato. Mordeu o lábio inferior e tentou de novo. Conseguiu encontrar a pulsação, mas muito fraca.
Concluindo que ele precisava aquecer-se o mais rápido possível, começou a examiná-lo. Abriu o zíper da parca e passou as mãos nos braços e nas costelas dele, procurando por ossos quebrados. Ele estava sem chapéu, e ela notou sangue na cabeça, mas nada de fraturas.
Ao deslizar as mãos até as pernas e tornozelos dele, notou que o pé estava preso numa velha armadilha para ursos, coberta pela neve, presa por uma corrente num galho caído e com uma pedra em cima. Ralhou consigo mesma por não ter percebido aquilo antes e amaldiçoou os bárbaros caçadores.
Precisava aliviar a pressão no pé dele para que pudesse soltar o tornozelo, que podia estar quebrado. Pensou em mover o galho, nem que fosse alguns centímetros, mas o suficiente para que pudesse soltar a corrente. Tentou pela primeira vez, não conseguiu. Usou o peso de seu corpo e conseguiu movê-lo o suficiente para aliviar a dor que o estranho devia estar sentindo.
Ajoelhou-se ao lado da armadilha e utilizou-se de toda a força para abri-la e soltar o tornozelo do homem. Ele gritou de dor, segurou o pé machucado e fitou-a. Whitney levantou-se de imediato.
- Pode se mexer? - perguntou. - Precisamos entrar.
- Precisamos? Quem?
O estranho olhou ao redor, como se estivesse procurando inimigos. Afetada pelo sentido de alerta dele, ela também olhou em volta, mas não havia nada nem ninguém além deles, das colinas, do vento e da neve.
- Estou sozinha - Whitney declarou. - Se eu e você trabalharmos juntos, chegaremos até minha casa. Olhe, eu trouxe um cobertor. Vou cobri-lo, então iremos para minha casa e pediremos ajuda.
- Não.
CAPÍTULO II

Whitney observou fixamente os olhos pretos do estranho, chocada com tamanha intensidade. Ele parecia ameaçador, perigoso.
- Bem, foi só uma idéia - ela falou, amedrontada. Ele a fitou por alguns instantes, então pareceu relaxar.
- Minha casa fica logo ali - Whitney disse, decidindo que o estranho não podia ser tão mau quanto aparentava. - Conseguirá andar?
- Acho que não. Ajude-me a sentar.
Ela se sentou atrás dele, pegou-o pelas axilas e levantou-o, deixando-o apoiar-se em suas coxas e reclinar a cabeça em sua barriga, enquanto ele olhava ao redor. As atitudes do homem, que parecia esperar que alguém caís-se sobre ele a qualquer instante, deixavam-na nervosa.
- Arraste-me - o estranho ordenou.
- Não pode rastejar?
Ele era um homem grande, tinha ombros largos, pernas musculosas, mais de um metro e oitenta e cinco de altura. Arrastá-lo pela neve seria difícil, sem contar que Whitney tinha receio de machucá-lo ainda mais.
- Não sei - ele respondeu. - Acho que meus pés e minhas pernas congelaram.
- Tudo bem. Deite-se no cobertor.
- Trouxe um cobertor? - ele repetiu e encarou-a. - Procure uns galhos fortes. Podemos fazer um trenó.
Estava notavelmente mais fraco, quando Whitney trouxe os galhos. Após rolá-lo para o improvisado trenó, ela suspirou, pois não teria forças para arrastá-lo.
- Talvez, se eu fosse até em casa e pegasse uns pregos para firmar o cobertor nos galhos, ou trouxesse minha caminhonete até a cerca...
- Não. É... muito perigoso... Pedras e buracos... estão cobertos de neve.
Ele era a pessoa mais negativa que Whitney conhecera.
- Qual é a sua idéia, então? - ela indagou. - Como posso ajudá-lo?
- Vou... rastejar.
- Pegue minhas luvas. Ele franziu a testa.
- Procure... as minhas - pediu com esforço. - Estão por aí.
Whitney notou que, a cada minuto, ele se mostrava mais fraco, hipotérmico, prestes a entrar em choque, porém concluiu que a perna dele não estava quebrada depois de vê-lo movimentá-la. Encontrou um par de luvas perto dos pinheiros e colocou-as nas mãos másculas.
Enquanto se sentia uma inútil, o estranho tentava rastejar, mas a perna esquerda parecia não obedecê-lo.
- Diabos! - ele exclamou, deitando-se na neve. - É inútil.
- Deixe-me tentar puxá-lo.
Whitney comentou consigo mesma que poderia machucá-lo mais, contudo, se não o levasse para casa logo, ele morreria congelado.
O estranho ignorou-a, permanecendo deitado na neve. Ficou imóvel por alguns instantes, o que a fez entrar em pânico, ajoelhar-se ao lado dele e examinar-lhe o pulso. Quando o encontrou, apesar de notá-lo fraco, suspirou, aliviada.
Envolveu-o no cobertor mais uma vez e puxou-o pela neve, pelo mesmo caminho que fizera para chegar até ele. Ao alcançar a cerca, seus braços tremiam. Enquanto passava o estranho por baixo do arame, um pouco de neve caiu em seu pescoço, o que a fez ficar arrepiada.
Estava com frio, e suas mãos e suas faces começavam a ficar entorpecidas. Olhou por sobre o ombro na direção da casa e suspirou, pois o caminho era um aclive. O sr. Peters podia muito bem aparecer agora, pensou. Deixou o misterioso estranho ao lado da cerca e subiu o aclive. Pisou num buraco e caiu, permanecendo deitada alguns segundos para recuperar o fôlego. Disse a si mesma que não podia perder tempo. Levantou-se e seguiu para casa o mais rápido que podia.
Lá dentro, ofegante e com dor nas costas, tirou a parca e o suéter molhados, em seguida despejou chocolate em duas xícaras e colocou-as no microondas para aquecer o liquido.
Correu para o quarto e trocou de roupas. Voltou para a cozinha, pegou as xícaras e as chaves da caminhonete, então, tornou a sair. Guiou o veículo declive abaixo, cuidadosamente, estacionando-o ao lado do estranho. Ele estava deitado no mesmo lugar em que ela o deixara. Whitney abriu as duas portas da caminhonete, sentou-se no chão, ajeitou o estranho contra si, inclinou a cabeça dele contra seu peito e levou-lhe a xícara aos lábios.
Beba isto - falou e, quando não obteve resposta, gritou: Beba!
O estranho abriu os olhos, mas não fez nenhum movimento. Um minuto atrás estivera inconsciente, mas agora mostrava-se alerta. Fitou-a, olhou ao redor e só então relaxou.
Whitney pressionou a xícara contra os lábios dele, forçando-o a tomar um gole.
- Mais - comandou, no momento em que ele reclinou a cabeça em seu peito, fazendo com que os bicos de seus seios ficassem eretos.
O misterioso estranho fechou os olhos, mas estava consciente. Virou a cabeça, roçou-a contra os seios pequenos e redondos e suspirou.
- Beba - Whitney pediu com certa dificuldade, porque uma onda de calor percorria seu corpo, inquietando-a.
Ele franziu a testa, então bebeu todo o chocolate num gole só. Depois, pousou a cabeça entre os seios dela. Talvez ele não esteja tão mal assim, Whitney pensou.
- Agora vem a pior parte - falou. - Tem que entrar na caminhonete.
- Não posso.
- Fique quieto. - Ela ficou de pé e segurou um braço musculoso. - Vamos, levante-se. Ele não se mexeu. Teria desmaiado? Whitney respirou fundo e gritou:
- Vamos, seu gorila! Não consigo carregá-lo sozinha!
- Que mulher rabugenta!
Ela notou que ele mordeu os lábios para conter um grito de dor ao tentar levantar-se, apoiado numa perna só.
- Muito bem - Whitney declarou. - Agora dê um passo. A caminhonete está logo ali. Percebeu que o pé ferido não aguentaria o peso do corpo grande, de modo que ele não poderia dar nenhum passo.
- Vá saltando num pé só - ordenou.
Devagar, com o estranho gemendo de dor a cada pulo, ela conseguiu levá-lo até a caminhonete. Usando suas últimas forças, ajudou-o a sentar-se no banco do passageiro e fechou a porta, antes que ele desmaiasse e caísse para fora.
Tremendo por causa do esforço excessivo, acomodou-se no assento do motorista e pôs o veículo em movimento, levando-o até a porta da frente de sua casa.
- Venha. Não desista agora - encorajou-o ao ajudá-lo descer.
O estranho desmaiou assim que ficou em pé. Whitney cambaleou, mas conseguiu carregá-lo para dentro de casa, o que pareceu levar uma eternidade. No quarto, tirou-lhe as luvas e o casaco e deitou-o na cama. Tirou uma das botas, mas ficou com receio de tirar a do pé machucado antes que o médico o examinasse.
- Fique aqui - disse.
- E aonde... você acha... que eu iria? -Esquiar.
Se o estranho conseguia replicar com cinismo, era porque não estava prestes a morrer. Mais tranqüila, ela foi telefonar para o médico.
- Não há nenhuma ambulância disponível? - repetiu o que ouvira, então ouviu a atendente informar que o hospital mais próximo ficava em Medford. Exclamou: - É mais de uma hora de carro!
-Deixe o número de seu telefone, que pedirei ao médico para ligar para você.
Whitney deu o número, despediu-se e correu para a lareira, que acendeu, antes depegar uma toalha e segura-la perto do fogo. Assim que ficou aquecida, colocou-a no redor do pé ferido do homem.
- Tire minha bota - ele ordenou.
- Não posso. Pode ser perigoso. Estou esperando a ligação do médico.
- Tire!
Whitney inclinou-se sobre ele e tirou-lhe a temperatura. Ele estava frio, apesar dos esforços de ambos para chegarem até a casa.
- Seu tornozelo pode estar quebrado - ela observou. - Posso piorá-lo, tirando a bota.
Sua trança deslizou pelo ombro e pousou sobre o peito dele. O estranho segurou-a com firmeza, chegando a puxá-la.
- Vou perder meu pé, se a circulação não for reativada o mais rápido possível. Tire a bota! - gritou.
Whitney fitou-o e percebeu que ele tinha um hematoma no lado da testa e um ferimento na cabeça, que sangrara, mas o sangue secara. Ele devia ter batido a cabeça numa pedra, quando fora pego pela armadilha e caíra.
Ela ficou temerosa, com os nervos à flor da pele. O homem podia estar com uma hemorragia interna, podia morrer!
- Aguente firme - ela falou. - Você bateu a cabeça em algum lugar.
- Diga... algo... que eu ainda... não saiba. - Ele puxou a trança. - Tire a bota.
- Tudo bem, tudo bem.
Sem muita esperança, Whitney tentou gentilmente tirar-lhe a bota, mas o tornozelo estava muito inchado. Tirou suas próprias botas e sentou-se na cama, cuidadosamente estendendo a perna entre as pernas musculosas, apoiando o pé contra a virilha dele, sem deixar de notar como a temperatura naquele local era quente, o que a fez corar levemente.
- Desculpe - pediu, quando ele ergueu a cabeça do travesseiro e fitou-a. - É que preciso de um lugar de apoio.
Ele ergueu uma sobrancelha, malicioso.
- Um lugar de apoio para puxar sua bota - ela acrescentou, comentando consigo mesma que parecia uma virgem envergonhada no primeiro encontro sexual.
O estranho repousou a cabeça no travesseiro.
- Tudo bem - disse. - Não achei que fosse... me estuprar. - Respirou fundo. - Depressa.
- Poupe suas forças.
Devagar, ela foi girando a bota e sentiu que o couro começava a ceder. Aumentou a força, e seu pé pressionou mais intimamente a virilha do estranho. Quando tirou a bota, olhou-o e viu uma expressão de dor em seu rosto. Em seguida, ele desmaiou. Ela cobriu o corpo poderoso com um lençol e um cobertor, então repousou os pés dele em suas coxas, cobriu-os com seu suéter e aguardou a ligação do médico.
De repente, Whitney despertou e, pasma, percebeu que estava deitada na cama, com o pé do estranho contra sua barriga. O céu estava escuro. Já era noite. Ela devia ter dormido por um bom tempo.
Olhou para o homem. Ele moveu a cabeça e segurou a beirada do cobertor com força. Sua expressão indicava dor, e seus lábios mexiam-se, murmurando alguma coisa, como se ele estivesse delirando.
Whitney deslizou a mão para baixo do suéter e examinou os pés dele. Estavam aquecidos. Ao apalpar cada dedo dos pés, um esquisito sentimento dominou-a, uma mistura de carinho e intimidade. Não sabia o nome do homem deitado em sua cama, mas ele já não era mais um estranho.
- Criamos um vínculo - Whitney murmurou.
De subito, o telefone tocou. Era o doutor Payne, e ela explicou o problema detalhadamente.
- Pode vir agora? - Whitney indagou. - Ou mandar uma ambulância?
- As estradas estão fechadas. Parece que você fez tudo o que era possível.
- Mas ele bateu com a cabeça, acho que teve uma concussão. Precisa de ajuda.
- O ferimento está sangrando?
- Não.
- Apenas o mantenha imóvel e aquecido. Não o deixe apoiar ou fazer força com o pé. Deixe o pé apoiado em travesseiros e aquecido, mas nada de pressionar a pele com os cobertores. Ligue, se algo acontecer. - O médico ditou um número de telefone. - Faça-o beber bastante liquido quente.
Depois de repetir as instruções, ela voltou para o lado da cama e permaneceu ali, pensativa, então, foi até a lareira e pôs mais lenha. De meias, foi à cozinha e voltou com uma lata de café e outra de chá, que colocou sob as cobertas, formando uma tenda sobre os pés dele. Era o melhor que podia fazer no momento.
Subitamente, lembrou que não tinham jantado. Vendo que o homem dormia, decidiu tomar banho, antes de preparar o jantar.
Mais tarde, banhada e usando roupas limpas, foi para a cozinha, preparou uma sopa e levou um prato para o quarto. Sentou-se em sua poltrona favorita e comeu, olhando para seu "paciente".
Ao terminar, deixou o prato de lado e envolveu-se num cobertor. Estendeu os pés sobre uma banqueta e fechou os olhos, embora dissesse a si mesma que não podia dormir, porque tinha de ficar alerta para alimentar o fogo da lareira e cuidar do homem.
Gabriel abriu os olhos e olhou ao redor do aposento, alarmado, mas sem se mexer. Tinha a sensação de que a cabeça ia explodir e sentia fortes dores no pé. Lembrou da dor que sentira, quando prendera o pé na armadilha para ursos e caíra na neve.
Um suspiro alertou-o de que não estava só. Virou a cabeça para a esquerda e viu a mulher que o ajudara, sentada numa poltrona, enrolada num cobertor. Pousou o olhar nos cabelos ruivos e recordou os belos olhos azuis que o faziam lembrar os mares da Irlanda.
Observara-a espionando-o com um binóculo, não tinha certeza quando, assim como não tinha certeza do tempo em que estava naquela casa. Uma dor na cabeça lembrou-o de que a batera numa tora, quando caíra. Tudo por causa de uma coruja. Fora estupidez. Assustara-se com luzes na estrada e quisera esconder-se, mas uma coruja assustara-o, ele se esquivara, perdera o equilíbrio e prendera o pé na armadilha. Depois da queda, só escuridão, frio, dor. Precisara de ajuda, mas em quem confiaria?
Whitney suspirou. Gabriel observou-a dormir. Ela aparecera no meio da tempestade de neve, aquecera-o, livrara-o da dor. Ele chegara a pensar que era uma alucinação. Ela o fizera levantar, fizera com que seu pé doesse, gritara com ele, empurrara-o, até que fizesse o que ela queria. E, se a obedecera, fora porque desejava dormir. A mulher movimentou-se, bocejou, espreguiçou-se e abriu os olhos, mas, por alguns segundos, pareceu não recordar onde estava. Contudo, ao perceber que estava sendo observada, abriu um sorriso.
Aquele sorriso deixou Gabriel desnorteado. Ele não conseguia lembrar a última vez em que alguém o olhara daquela maneira, se isso acontecera, um dia.
Lembrou-se da mãe de descendência indígena, olhos e cabelos pretos, que o amara muito, mas morrera, deixando-o, ainda pequeno, com o pai, um homem que raramente sorria e falava muito pouco.
- Oh, você acordou - a estranha disse. - Deve estar com fome.
Levantou-se da cadeira, jogou mais lenha na lareira e saiu do aposento. Gabriel sentiu-se só, mas, quando ela voltou, ele ficou aliviado, embora achasse que depender tanto de alguém não era prudente. Aprendera aquela lição aos dezesseis anos de idade, em sua própria casa. - Você precisa comer - ela observou. - O médico recomendou que tomasse muito líquido quente.
Pousou a bandeja com o prato de sopa no criado-mudo ao lado da cama, então ajudou Gabriel a sentar-se, para depois acomodar-se ao lado dele. Pegou o prato, a colher, e começou a alimentá-lo.
Surpreendendo a si mesmo, ele não fez nenhuma objeção. Comeu a sopa de tomates que ela lhe oferecia, como se fosse um bebê sendo alimentado pela mãe.
- Você está febril - a mulher contou, pousando a mão na testa dele após o término da refeição e mostrando-se preocupada. - Beba isto. É um chá de ervas. Nada de cafeína. Sua cabeça ainda dói?
Gabriel moveu a cabeça afirmativamente e arrependeu-se no mesmo instante, pois a dor piorou. Para agradá-la, tomou o chá, mesmo detestando aquele tipo de bebida. Detestava toda aquela situação, mas no dia seguinte daria um jeito de livrar-se.
Sem pensar, tocou o queixo dela e disse a si mesmo que tinha de beijar aqueles lábios sedutores. Deslizou o dedo indicador por eles, desejando ter força suficiente para abraçar a mulher e beijá-la. Percebeu que ela desejava isso também, o que o surpreendeu. Deixou a mão cair na coxa bem torneada, afagando-a.
- Linda... - murmurou.
De súbito, alarmou-se. Não podia perder tempo sonhando, pois tinha um trabalho a fazer: descobrir quem estava usando sua fazenda para estocar mercadorias roubadas. Daquela vez não seria falsamente acusado de fazer parte de um bando de ladrões, como acontecera quando tinha dezesseis anos.
Sua salvadora saiu do aposento carregando a bandeja, e Gabriel olhou para as janelas, notando que não havia cortinas que oferecessem privacidade. Aquilo o deixou inquieto.
A noite podia esconder muitos olhos curiosos. Quando ela voltou, trazia um bule.
- Quer mais chá? - indagou.
- Quero, mas, primeiro, onde fica o banheiro? Ela se mostrou alarmada.
- Você não pode levantar - declarou.
- Preciso ir ao banheiro.
Ele tirou o cobertor e, ao ver que estava vestido, compreendeu por que se sentia desconfortável: tinha o costume de dormir nu.
- O médico proibiu-o de sair da cama - a mulher disse, aproximando-se dele como um anjo da guarda.
- Preciso ir ao banheiro - ele repetiu.
- Espere um pouco.
Gabriel observou o balanço sensual dos quadris arredondados, ao vê-la sair do aposento mais uma vez. Ela voltou logo, trazendo uma garrafa.
- Tome. Use isto.
Ele imediatamente percebeu para que serviria a garrafa. Pegou-a, e a linda ruiva saiu do quarto como uma gazela assustada. Ele refletiu sobre aquilo, enquanto fazia o que estava com vontade de fazer.
Ela parecia estar perto dos trinta anos, mas mesmo assim ficava agitada ao menor sinal de intimidade. Gabriel não sabia se a definia como tímida ou inexperiente, o que era difícil de acreditar, nos dias atuais.
Colocou a garrafa no chão ao lado da cama. Em seus trinta e dois anos, ele se machucara muitas vezes e passara por tantos hospitais que já não tinha mais vergonha das funções do corpo humano.
- Pronto! - gritou.
Whitney voltou, evitando olhá-lo nos olhos, pegou a garrafa e saiu. Gabriel estava sonolento quando ela retornou, minutos depois.
- Sente aqui - pediu.
- Como está sua cabeça?
- Dói muito.
Ela passou a mão na testa dele.
- Tem sangue nos cabelos - comentou. - Também levou uns arranhões. Lembra de ter batido com a cabeça ao cair?
- Não.
Gabriel não queria conversar a respeito. Em sua opinião, se um homem respondia a uma pergunta, as mulheres tinham mais doze para fazer. Quanto menos falasse, melhor.
Passou a mão na trança dela.
- Tem belos cabelos - declarou. Ela corou.
- Obrigada - agradeceu. - Acho-os vermelhos demais. Os de minha avó paterna eram mais bonitos.
Estava sendo modesta, ou não tinha idéia de quanto era atraente? Gabriel fitou-a de cima a baixo, notando que ela era esbelta, tinha seios pequenos e curvas suaves.
- Obrigado por ter me ajudado - agradeceu.
- De nada.
- Você salvou minha vida.
Ela o fitou, então desviou o olhar.
- Você precisa dormir. Já passa de meia-noite.
- Vá dormir também.
Ela colocou mais lenha na lareira. Depois, sentou-se na poltrona e envolveu-se no cobertor.
- Deite-se numa cama - ele falou.
- Bem... quem sabe, mais tarde.
Gabriel refletiu que devia haver apenas a cama que estava ocupando. Fora idiotice não ter percebido aquilo antes.
- Pode dormir aqui - sugeriu.
Viu-a arregalar os olhos. Teria sido criada num convento? Ele tentou sorrir para mostrar que era inofensivo e levou a mão à cabeça.
- Só não se mexa muito. Minha cabeça parece que vai explodir - brincou. Whitney sorriu.
- Sei que é uma desculpa esfarrapada - continuou, zombeteiro -, mas neste caso é a pura verdade.
- Às vezes eu falo, enquanto durmo.
- Conversarei com você. Venha. Não vou conseguir dormir, a menos que você descanse também.
Gabriel viu-a relutar.
- Preciso manter a lareira acesa - ela comentou.
Ele ficou desapontado, mas aceitou-lhe a decisão. Fechou os olhos. Algum tempo depois, sentindo a cama balançar, os cobertores agitarem-se, suspirou, satisfeito.
CAPÍTULO III

Whitney permaneceu em silêncio, enquanto o dr. Payne examinava o paciente. Ficou tensa ao notar a expressão preocupada do médico, quando ele passou as hábeis mãos na cabeça ferida.
- Concussão? - indagou, achando que o dr. Payne chamaria a ambulância.
De súbito, percebeu que não queria que o estranho fosse embora. Não fantasie, ralhou consigo mesma. O que sabe a respeito desse homem? Se quer construir uma pensão, deve manter os dois pés no chão. .
- Alguém acertou-o com algum objeto na cabeça? - o dr. Payne perguntou.
Ela ficou alarmada.
- Não sei. Acho que ele bateu a cabeça numa pedra. Olhou para o corpo másculo estendido em sua cama. Sem saber ao certo por que, recordou que dormira ao lado dele naquela mesma cama.
- Há farpas de madeira cravadas na pele - o dr. Payne informou. - Parece que foi atingido com um pau. Foi sorte não ter morrido.
- Encontrei-o deitado na neve, com o pé preso numa armadilha, e achei que ele tivesse...
Whitney parou de falar ao tomar consciência do que o médico acabara de dizer. Alguém quisera matar o estranho?
Gabriel não se mexeu até que o dr. Payne passou as mãos em seu tornozelo ferido. Então, abriu os olhos e, ao ver o médico, relaxou e fitou Whitney, mais exatamente os lábios dela.
- Gabriel Deveraux? - o médico indagou. Whitney conhecia aquele nome. Lembrou que estava visitando a avó, quando o dono da fazenda Deveraux morrera, havia uns doze anos. No dia do enterro, quando explorava os arredores, acabara encontrando o pequeno cemitério daquela família, numa das colinas. Um jovem estava ao lado da sepultura fechada recentemente, com uma expressão de tristeza tão grande que tocara o coração de Whitney.
Quando ele a vira, estreitara os olhos, e sua expressão passara de tristeza para raiva. Ao perceber que ele vinha em sua direção, Whitney fugira, notando que invadira uma propriedade particular.
Mais tarde, naquele mesmo dia, a avó contara que o rapaz, Gabriel, não se entendia muito bem com o pai, o velho que falecera, e que fugira de casa aos dezesseis anos de idade. "Fez muitas bobagens, esteve envolvido com ladrões, foi preso, mas libertado, por falta de provas", contara.
Whitney pensou no adolescente que fugira de um lar infeliz, imaginou-o voltando para enterrar o pai, com sentimentos confusos de raiva e tristeza. Perguntou-se que tipo de vida ele levara desde então, sozinho.
- Se alguém tentou matá-lo, talvez seja melhor chamarmos o xerife - sugeriu.
- Não - Gabriel manifestou-se. Ela o encarou.
- Mas se alguém está tentando matá-lo...
- Eles não estão tentando me matar. Foi burrice minha. Entrei na casa da fazenda, mesmo sabendo que está prestes a desabar, e uma trave caiu em minha cabeça.
Whitney ia repreendê-lo, mas comentou consigo mesma que talvez ele quisera explorar a velha casa para reviver momentos de felicidade.
- E a armadilha? - questionou. - Como...
- Quando me machuquei, sabia que precisava de ajuda, e sua casa é a mais próxima. Estava vindo para cá.
- Muitos arranhões, mas nada demais - o dr. Payne declarou, examinando o pé do paciente. - Vamos tirar as roupas dele.
O coração de Whitney bateu acelerado, quando ela viu o médico desabotoar e abrir o zíper da calça jeans de Gabriel.
- Eu o levanto, você puxa a calça - o dr. Payne instruiu, erguendo os quadris de Gabriel.
Ela ficou excitada, percebendo que queria conhecer Gabriel por inteiro, pele, músculos, mente, coração e alma. Hesitou por alguns segundos, então preparou-se para fazer o que o médico pediu.
- Não.
A voz áspera de Gabriel fez com que Whitney se afastasse. Ele mesmo ergueu os quadris, e o dr. Payne tirou-lhe a calça. Ela ficou encantada com a perfeição das pernas musculosas.
Gabriel fitou-a com um brilho intenso no olhar. Whitney sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo. Murmurou uma desculpa e correu para a cozinha para preparar café.
Preocupava-se com aquela inexplicável obsessão por Gabriel Deveraux, descendente de franceses, comerciantes de peles de animais, de índios americanos e colonizadores irlandeses.
Quando voltou para o quarto, viu o médico tirar o suéter de lã de Gabriel, deixando-o apenas com uma camiseta branca.
- Coloquei um travesseiro sob o pé dele, para que o tornozelo ferido fique elevado, e também providenciei uma tala para deixá-lo imóvel - o dr. Payne informou. - Tem um par de meias para emprestar?
- Tenho - Whitney respondeu.
- Foi muito bom você não ter mexido no pé dele, porque poderia ter piorado o ferimento.
- Minhas aulas de primeiros-socorros foram muito úteis.
- Pode ficar com ele uns dias?
- Não será necessário - Gabriel protestou. Whitney colocou mais lenha na lareira, ainda sentindo-se confusa com os sentimentos que Gabriel despertava nela e, ao mesmo tempo, magoada por ele se recusar a ficar.
- Há alguém que possa cuidar de você? - o dr. Payne indagou.
Silêncio.
- Seria incômodo tê-lo aqui por uns tempos? - o médico perguntou a Whitney. - Não há necessidade de ele ficar no hospital, e sua casa é bem acessível para mim.
- Por mim não há nenhum problema - ela respondeu.
- Não vou ficar aqui - Gabriel declarou.
Ele e Whitney encararam-se desafiadoramente.
- Bem, podemos mandá-lo para o hospital - o dr. Payne falou.
- Não - Gabriel disse, olhando-o com ar de teimosia.
- Então, acho que terá de ficar aqui.
- Tenho um quarto, na estação de esqui - Gabriel insistiu, passando a mão na testa.
Whitney estremeceu ao observá-lo, percebendo que até falar causava-lhe dor, o que fez com que a mágoa que sentia se transformasse em piedade. O dr. Payne franziu a testa.
- Não poderá ficar sozinho nos próximos três dias - informou. Gabriel fitou a ruiva. Não conseguia deixar de olhá-la desde que a vira pela primeira vez, entrando na velha casa vitoriana da fazenda que herdara havia alguns anos.
Fechou os olhos ao sentir dor, daquela vez causada pelo unguento que o médico passava em sua cabeça, mas estava ciente de que aquele desconforto não era nada. Tinha sorte de estar vivo.
A voz doce da mulher que o salvara penetrou em sua mente, quando ela fez uma pergunta ao médico. Quando se ferira, ele a chamara em pensamento, e ela fora ajudá-lo, levara-o para casa, aquecera-o, dera-lhe conforto.
Soltou um gemido, quando a cabeça doeu mais uma vez. Levou as mãos à testa, como se quisesse acabar com aquela tortura. Mãos delicadas e macias pousaram sobre as suas. Ele reconheceu de quem eram e relaxou.
Focalizou a atenção na ruiva, que lhe afagou as mãos, enquanto o médico terminava de cuidar do ferimento. As mãos dela eram macias e gentis, pequenas, se comparadas com as dele, tinham um toque agradável. Ele comentou consigo mesmo que ela devia ser uma amante perfeita. Pegou-lhe as mãos, levou-as à boca e beijou cada dedo.
Ela enrubesceu, e só então Gabriel recordou que havia mais alguém no aposento.
- Desculpe - pediu, dizendo a si mesmo para ter mais cuidado.
- O ferimento vai deixar uma pequena cicatriz - o médico disse, enquanto guardava seus instrumentos. - Vou passar aqui à noite para ver como ele está. Estas pílulas são para amenizar a dor. Dê os antibióticos de quatro em quatro horas. Tente mantê-lo calmo e na cama, por três dias.
- Pode deixar - ela prometeu.
- Muito bem.
Gabriel queria que o médico saísse dali logo, pois desejava ficar sozinho com a ruiva. Podia estar com um ferimento na cabeça, mas não estava morto. Já agradecera por ter sido salvo?
- Obrigado - murmurou.
- Há muita vida nesse homem, por isso não se preocupe muito com ele - o dr. Payne brincou.
- Obrigada por ter vindo - ela agradeceu.
Gabriel não conseguia manter os olhos abertos. Ia desmaiar de novo, mas não queria. Viu a ruiva e o médico saírem e ressentiu-se por ela deixá-lo.
- Quanto a ficar exposto ao frio, acho que não haverá nenhum problema, exceto que a pele dos dedos ficará escura e depois descascará - o dr. Payne disse.
Gabriel não conseguiu ouvir mais nada do que os dois diziam, falando dele como de uma criança, não um homem de trinta e dois anos. Suspirou e fechou os olhos. A dor parecia estar sumindo vagarosamente. O médico aplicara alguma injeção? Qual era o nome da ruiva?
Whitney acabou de lixar uma parede, achando que merecia um banho. Estava coberta de pó branco, dos pés à cabeça. Pegou o relógio de pulso, que colocara num bolso, e olhou-o. Era quase hora do jantar. Preparara sopa de legumes, pois Gabriel recusara a sopa de tomates, no almoço.
Ele se levantara muitas vezes durante a tarde, sempre assegurando, de modo irritante, que estava bem. Era resmungão e teimoso.
Pé ante pé, Whitney foi até o quarto para pegar o pijama de flanela. Antes de ir para o banheiro, olhou para o homem dormindo em sua cama. Viu que ele tinha se livrado de um cobertor, mas parecia dormir tranquilamente.
Tomou um banho bem quente, depois vestiu o pijama e enrolou os cabelos numa toalha. Sorriu ao se ver no espelho. Com o pijama abotoado até o pescoço, parecia uma velha solteirona. Desabotoou os dois primeiros botões, então o terceiro. Agora parecia uma solteirona distraída. Voltou a fechar os botões. Calçou os chinelos e saiu do banheiro.
Antes de entrar na cozinha, passou pelo quarto. Gabriel continuava dormindo. Bastou olhá-lo para que seu coração batesse acelerado. Nenhum outro homem fora capaz de despertar os sentimentos que ela estava experimentando naquele momento.
Após colocar a sopa no fogo para esquentar, voltou ao banheiro para secar os cabelos. Estava quase terminando, quando ouviu um barulho e, em seguida, gemidos tão altos que a assustaram.
- Oh, não! - exclamou, largando o secador e correndo para o quarto, certa de que Gabriel caíra da cama.
Quase acertou. Ele estava apoiado na cama, e a cadeira que ficava ao lado caíra no chão.
- O que está fazendo?! - ela exclamou, furiosa, mas aliviada por ele não ter se machucado ainda mais. - Ficou louco?
Envolveu a cintura dele com um braço e tentou recolocá-lo na cama. Ele não se mexeu.
- Você precisa voltar para a cama - ela falou.
- Preciso ir ao banheiro.
- Por favor, volte para a cama. Vou lhe trazer... uma garrafa.
- Não. Banheiro - Gabriel insistiu, passando um braço pelos ombros dela e empurrando-a na direção da porta.
- Por favor, me escute, se você cair...
- Quanto antes chegarmos ao banheiro, melhor.
- Tudo bem, vamos. E não me culpe, se cair e bater essa sua cabeça dura.
Passo a passo, cruzaram o quarto, andaram pelo corredor e chegaram ao banheiro. Ela hesitou, sem saber ao certo o que fazer.
- Fora! - Gabriel ordenou, apoiando uma das mãos na parede e a outra na pia.
- Eu... Talvez seja melhor... que eu fique.
- Não sou um bebê. Não preciso de ajuda. - Gabriel arrependeu-se imediatamente da brusquidão de sua voz, mas detestava parecer fraco. - Saia, por favor.
Com movimentos calculados, fez menção de baixar a cueca samba-canção. Whitney arregalou os olhos e saiu, fechando a porta.
Ele se sentou no vaso. Olhou para o boxe e imaginou a linda mulher tomando banho, com os cabelos molhados, deslizando o sabonete pelo corpo sensual...
Ele também precisava de um banho, que o animaria e tiraria aquela horrível sensação de sujeira. Tirou a camiseta, a cueca, as meias, a tala e a faixa. Com grande esforço, entrou no boxe e abriu o chuveiro. Passava xampu nos cabelos, quando a cortina do boxe correu para um lado. Abriu os olhos e teve uma grata surpresa.
- Não acredito! - a ruiva exclamou.
Gabriel notou, satisfeito, que ela não ficara vermelha. Na verdade, os olhos azuis fitaram-no de cima a baixo, como se ela não conseguisse decidir qual parte tocaria primeiro. Ele não tinha idéia de que era tão atraente fisicamente, contudo, deixando a modéstia de lado, reconheceu que tinha um corpo bem esculpido, que as mulheres pareciam apreciar.
- Seu idiota!
Gabriel pestanejou, mudo.
- O que está tentando fazer? - ela vociferou. - Quer se matar?
Estava irada. Gabriel olhou ao redor para ver se deixara alguma coisa fora do lugar. As mulheres detestavam desordem no banheiro. A que o acolhera aos dezesseis anos de idade ensinara-lhe, entre outras coisas, algumas regras, instruindo-o sobre certas manias femininas.
- Estou tentando tomar banho - ele respondeu.
- Tire esse xampu da cabeça. Esqueceu o ferimento? E se eu conseguir levá-lo de volta para a cama, sem nenhum outro ferimento além dos que já tem, vou matá-lo. Ela puxou um banquinho para perto do boxe, sentou-se e forçou Gabriel a colocar a cabeça debaixo do jato do chuveiro.
- Ei, se quer tomar banho comigo, é só dizer - ele brincou, enlaçando-a pela cintura.
- Está me molhando! - ela protestou veementemente.
- Calma, enfermeira, não sabe que minha cabeça dói? - ele reclamou.
Levou as duas mãos às orelhas, enquanto Whitney continuava a repreendê-lo. Mulheres! Nunca se sabe o que elas querem, comentou consigo mesmo.
- Louco! - ela esbravejou e chamou-o de outros nomes, sem que ele soubesse por quê.
- Chega! Não vou permitir que uma ruiva desbocada, mal-humorada e de pijama de flanela fique gritando comigo!
Notou como o tecido molhado colara nos seios, delineando os contornos perfeitos.
- Você é linda - murmurou, afagando os seios redondos, enquanto fechava os olhos e encostava-se na parede, adorando aquele momento de puro prazer.
- Oh, pelo amor de Deus! - ela gritou, afastando as mãos dele. - Fique quieto. Vou tentar tirá-lo daqui antes que caia. E não se atreva a desmaiar!
- De jeito nenhum.
Gabriel estava feliz, e fazia muito tempo que não se sentia assim. A ruiva resmungou um pouco mais, mas suas mãos faziam movimentos gentis, enquanto ela tirava-lhe o xampu dos cabelos.
- Erga o braço - ordenou.
Esfregou-o todo, o rosto, o pescoço, o peito, as costas, as pernas e os pés. Quando a melhor parte estava para começar, ela se levantou, fechou a cortina e mandou-o apressar-se.
Gabriel ficou descontente por ela ter abandonado o serviço pela metade. Afinal, era um homem ferido, que precisava de cuidados. Terminou o banho e, ao abrir a cortina, viu-a de roupão e com uma enorme toalha nas mãos para secá-lo.
- Pronto - ela murmurou, aliviada, após enxugá-lo e enrolar-lhe a toalha ao redor da cintura.
Gabriel ficou preocupado quanto ao seu desempenho sexual com as dores de cabeça que vinha sentindo. Decidiu deixar para fazerem amor outro dia, pois não queria desapontá-la.
- A sopa está pronta - ela anunciou, guiando-o de volta à cama.
Para Gabriel, ainda era impossível apoiar o tornozelo machucado no chão. O médico falara que o frio fora o que provavelmente impedira que os ferimentos ficassem piores. A mulher ajudou-o a acomodar-se, colocou a tala para manter o pé imóvel e cobriu-o com um cobertor.
- Não estou com fome - Gabriel declarou.
Ela o ajudou a vestir uma camiseta enorme, que devia usar como camisola.
- Mas vai comer.
Esse anjo vai me tornar humano, ele pensou. O carinho, o modo como me olha, fazendo-me desejá-la cada vez mais, a preocupação comigo, fazem com que eu me sinta estranho. Talvez isso não me faça nada bem.
Viu-a sair e voltar com um prato de sopa numa bandeja. Ela se sentou na cama e obrigou-o a comer.
- Obrigado, Irlandesa - Gabriel agradeceu, assim que terminou a refeição. Ela lhe deu um copo de água e duas pílulas.
- "Obrigado", pelo quê? - indagou.
- Pelo jantar. A sopa estava deliciosa. Foi você quem fez?
- Foi. Como me chamou?
- Irlandesa.
- Por quê?
- Seus olhos são tão profundamente azuis como o mar que cerca a costa da Irlanda. Gabriel fitou-os por alguns instantes, então lembrou-se de que tinha um trabalho a fazer e que, depois do trabalho terminado, venderia a fazenda, apagaria da mente as péssimas recordações e sairia daquela região para sempre.
Olhou ao redor do aposento, concluiu que a ruiva estava reformando a casa, e que o próximo passo seria encontrar alguém com quem dividi-la.
- Meu nome é Whitney Thompson - ela informou.
- Thompson. Parece familiar.
- Meus avós moraram aqui.
Gabriel lembrava-se vagamente dos velhos Thompson. Costumava cumprimentar os vizinhos, quando os via, mas nunca tivera oportunidade de socializar-se. Ele e o pai dificilmente saíam da fazenda.
Estava tão cansado que permitiu que Whitney o cobrisse, sem protestar. Fitou o rosto bonito e os cabelos ruivos. Disse a si mesmo que um homem arriscaria tudo para possuir uma mulher igual àquela.
CAPÍTULO IV

Whitney trocou o roupão de banho por um confortável conjunto de moletom flanelado, em rosa e preto, um dos presentes que recebera de Natal da mãe e do padrasto, calçou um par de meias e chinelos. Ao voltar para o quarto, colocou mais lenha na lareira, em seguida acomodou-se na poltrona.
Gabriel Deveraux era um homem que possuía uma incrível capacidade de recuperação. Após o episódio no chuveiro, ela decidira dormir na poltrona, pois achava melhor não tentar o destino.
Destino? Eram seus próprios instintos rebeldes que precisavam ser dominados. Gabriel revirou-se na cama, e o cobertor caiu no chão. Whitney levantou-se e cobriu-o de novo. Ele segurou-lhe os cabelos, assustando-a. Tinha reflexos muito bons. Mesmo dormindo, mantinha vigilância sobre tudo o que acontecia a seu redor.
Whitney tentou livrar os cabelos da mão forte.
- Fale comigo - ele pediu.
- Não está dormindo? - ela perguntou, pousando a mão na testa dele e percebendo que estava quente.
Olhou para o relógio de pulso e notou que estava na hora dos antibióticos.
- Não consigo dormir - Gabriel falou. - Estou muito impaciente.
Abriu os olhos e soltou os cabelos de Whitney. Ela se sentou na cama e pegou do criado-mudo as cápsulas de antibiótico e um copo de água.
- O que está fazendo neste lugar isolado? - ele indagou. Ela sorriu. Fitou-o e, por um estranho momento, achou que seria sugada para dentro daquela alma turbulenta. Ele pareceu ter percebido, porque pestanejou e desviou o olhar.
- Sempre amei esta fazendinha - Whitney declarou. - Quando vinha para cá, no verão, meus avós me levavam para pescar e para piqueniques nas colinas. Eu detestava setembro. Era quando tinha de partir. Mas jurava que viveria aqui, quando crescesse.
Fez uma pausa, recordando as noites que chorara na cama, ansiosa para voltar.
- Esta é minha verdadeira casa - concluiu.
-Veio para ficar? - Gabriel perguntou, franzindo a testa.
- Vim.
- Sozinha?
- Não exatamente. Vou transformar esta casa numa pensão.
- Sei - ele murmurou, nitidamente não aprovando a idéia.
- Com o crescimento do turismo em Ashland, por causa do festival de Shakespeare, no verão, e com a popularidade das estações de esqui, meus negócios irão de vento em popa.
Gabriel ajeitou-se contra os travesseiros, sentando-se, então passou a mão nos cabelos dela.
- Quais são seus sonhos? - ela ousou indagar.
- Desisti de ter sonhos há muito tempo.
- Quando tinha dezesseis anos e saiu de casa? Gabriel segurou com firmeza uma mecha dos cabelos ruivos.
- O que sabe a respeito? - indagou,
- Minha avó me falou sobre você, depois que seu pai... Quando você voltou para casa... Eu vi você no cemitério.
Whitney mais uma vez viu os olhos dele mostrarem angústia e não resistiu à tentação de deslizar um dedo pelos lábios firmes.
- Você parece tão triste... - comentou.
Gabriel segurou-lhe as mãos e pousou-as em seu peito.
- Você pode fazer um homem esquecer tudo o que aprendeu na vida, Irlandesa - falou, e em seguida soltou uma risada carregada de cinismo. - Seus olhos convidam os homens a penetrar em sua alma.
- Não. Só convidam você.
Encararam-se. Ela percebeu a angústia que ele trazia dentro de si, a bondade que trancava em seu íntimo, o carinho que não queria admitir.
- Por quê? - Gabriel perguntou.-Você não me conhece.
- Oh, conheço, sim.
Whitney percebera que ambos pertenciam àquele lugar. Os dois tinham voltado, dois peregrinos de volta ao lar.
- Voltou para reclamar sua herança? - ela indagou. Ele moveu a cabeça negativamente e soltou-lhe as mãos.
- Dê-me mais pílulas para aliviar a dor - pediu. - Talvez assim você se sinta mais segura para vir para a cama, e ambos teremos uma boa noite de sono.
Deitou-se, fatigado. Whitney deu-lhe as pílulas e tirou-lhe a temperatura. Gabriel olhou-a como se estivesse procurando por algo que só ele sabia o que era, então sorriu e fechou os olhos.
Ela ficou sentada um bom tempo ao lado dele, na cama, observando-o. Eram como almas perdidas, que o destino colocara frente a frente. Pertenciam àquele lugar. Com essa certeza em mente, ela voltou para a poltrona, depois de colocar mais lenha na lareira.
- Vai viajar? Na casa de sua irmã? Na Califórnia? Whitney repetia fragmentos de sentenças, enquanto o sr. Peters explicava por que passaria algum tempo fora da cidade e atrasaria o trabalho na casa dela.
- Passei aí na sexta-feira, para avisá-la - ele disse.
- Por que não entrou? Deixei a porta aberta.
- Não devia sair e deixar a porta aberta. Coisas estranhas acontecem na casa da fazenda ao lado.
- Sei.
- Eu a vejo na primavera.
Ao colocar o fone no gancho, Whitney olhou pela janela, para a neve que caía. Lutando contra a raiva e a frustração, decidiu terminar o serviço sozinha. Tudo o que precisava era de um livro que a ensinasse como tapar os buracos nas paredes e pintá-las.
Observando atentamente a alcova embaixo da escada, pensou como seria o hall de entrada. Se retirasse o quartinho, teria um amplo e conveniente espaço para a recepção.
Caminhando pelo corredor, parou na porta do quarto para ver Gabriel. Ele estava sentado numa cadeira em frente à lareira, com os pés sobre um banquinho.
- O que está fazendo? - ela indagou, entrando no quarto e parando ao lado dele.
- Aquecendo os pés.
- Vou aquecer umas toalhas e...
- Estou bem assim. Whitney apontou para a cama.
- Volte para lá, e agora! O médico disse que devia ficar na cama pelo menos três dias.
- Eu decido onde ficar e por quanto tempo. Aturdida com a força do olhar dele, ela hesitou, incerta quanto ao que fazer. Para sua consternação, lágrimas encheram-lhe os olhos.
- Tudo bem - disse. - Vou preparar um pouco de chá.
- Irlandesa...
Whitney saiu do quarto o mais rápido que pôde, indo direto para a cozinha, antes que chorasse na frente dele. Parou na despensa e encostou a testa no vidro frio da porta do armário, procurando retomar a compostura.
A deserção do sr. Peters não é nenhum desastre, pensou. Encontrarei outra pessoa para me ajudar. Quanto a Gabriel Deveraux, que vá para o inferno. Ousa me tratar com rispidez, enquanto ocupa minha cama e meu tempo. Da próxima vez que eu for brincar de Florence Nightingale, cuidarei de um cãozinho.
Coçou a nuca, passou a mão no rosto e percebeu que estava exausta por ter dormido mal. Ficara a noite toda colocando lenha na lareira, para que Gabriel não pegasse uma pneumonia, devido à forte tempestade de neve que caíra. Por isso estava tão desanimada e frágil naquela manhã.
Gabriel tivera um sono agitado, virara a cabeça de um lado para o outro e murmurara o tempo todo, sem contar que jogara o cobertor para fora da cama diversas vezes. Uma grande mão pousando em seu ombro a fez saltar de susto. Ela se virou e viu Gabriel.
- Desculpe - ele pediu.
Whitney ergueu o queixo e olhou-o com frieza.
- Você tem razão - disse. - Não sou sua dona. Gabriel fitou-a com intensidade. Ela ficou tensa, engoliu em seco e desviou o olhar.
- Vou ajudá-la na reforma da casa - ele se ofereceu. Era óbvio, que ouvira a conversa ao telefone e deduzira que o sr. Peters não mais trabalharia na casa.
- Como? - ela perguntou, olhando para o pé machucado.
- Eu a ajudarei assim que meu tornozelo estiver curado - Gabriel respondeu. - O inchaço já diminuiu. E realmente preciso de um emprego.
Whitney refletiu que ele devia estar mesmo precisando de dinheiro, porque a fazenda não produzia nada havia anos, e os impostos deviam estar atrasados.
- Tenho mãos hábeis - Gabriel falou com sarcasmo, olhando o corpo esbelto de cima a baixo.
Whitney encarou-o, sem saber o que responder. Ninguém antes lhe falara daquela forma sedutora, como se ela fosse uma mulher incrivelmente sensual, tão desejável que um homem não era capaz de controlar-se.
Sentiu-se lisonjeada, mas ralhou consigo mesma por estar sendo idiota, como na noite anterior, quando achara que ambos pertenciam àquele lugar. Pensou nas razões pelas quais não devia contratá-lo.
- Pago dez dólares por hora - pegou-se dizendo. Devo estar ficando louca, pensou.
- Eu aceito - Gabriel disse.
Aceitou tão rápido que Whitney não acreditou. Ela, então, lembrou que ele dissera que se hospedara numa estação de esqui, e a diária devia ser cara.
- Inclui quarto e comida - acrescentou.
- Tudo bem - ele concordou, inexpressivo. Whitney ficou magoada com aquele jeito negligente, porém concluiu que ele devia estar desesperado, mas que era muito orgulhoso para admitir.
De algum modo, o compreendia. Sabia o que era ter orgulho. Queria fazer daquela casa a melhor pensão da região.
- Posso pedir que tragam sua bagagem da estação de esqui para cá? - indagou.
- Não estou hospedado num hotel da estação de esqui, mas na casa de uns amigos. Vou telefonar e pedir que mandem minhas coisas para cá.
Whitney percebeu que ele colocara uma barreira entre eles, por isso apenas movimentou a cabeça afirmativamente e saiu. Foi para a cozinha, acendeu o fogão e colocou uma chaleira com água para ferver.
- Tem bolo de café - falou. - Quer um pedaço, para acompanhar o chá?
Quando não houve resposta, ela olhou ao redor. Gabriel sumira tão silenciosamente quanto aparecera. Num impulso, ela correu para o quarto a tempo de vê-lo mancar na direção da cadeira em frente à lareira. Era incrível ver um homem com um físico como o dele mover-se sem fazer nenhum barulho, ainda mais com um pé machucado.
Questões sobre o passado de Gabriel passaram pela cabeça de Whitney enquanto ela preparava o lanche da tarde, mas foram colocadas de lado.
Não o ouviu fazer a ligação para os amigos com quem estava hospedado, mas, uma hora depois, um veículo com o logotipo da estação de esqui trazia a bagagem dele. Um jovem, com o mesmo logotipo do carro no bolso direito da jaqueta, desceu, carregando uma mala e uma mochila de náilon.
Whitney, que abrira a porta ao ouvir o carro chegando, pediu-lhe que entrasse e indicou o caminho do quarto. O jovem informou que tinha um recado de Rafael Barrett para Gabriel e aguardou que ela se retirasse.
Desculpando-se, Whitney saiu do aposento e andou pelo corredor, perguntando-se quando Gabriel ligara para seus amigos e por que o dono da estação de esqui mandara um recado para ele.
Ficou inquieta. Gabriel Deveraux era um mistério. Ela sabia muito pouco a respeito dele. Talvez tivesse sido idiotice dar-lhe emprego e livre acesso a sua casa. Aquele lugar era seu sonho. Uma decisão errada, e arruinaria tudo. Whitney suspirou, pensando em outro sonho que tinha, o de dividir a vida com um homem especial.
Enquanto a neve caía, Whitney trabalhava nas paredes de um quarto, sempre ciente de Gabriel caminhando pelos cômodos. Como um gato, ele se movia com flexibilidade, graça e em total silêncio. Muitas vezes, naquela manhã, encontrara-o bem próximo de si, encostado na parede, observando-a trabalhar.
Num determinado momento, ela captara uma estranha emoção nos olhos dele, que a fizera engolir em seco. Como um intruso, ele invadia seus pensamentos, noite e dia.
À tarde, terminado o serviço no quarto, ela foi olhar a alcova sob a escada. Aquele quartinho era sua próxima meta. Levou alguns objetos para o porão e varreu a sujeira do chão. Às cinco horas, dirigiu-se ao banheiro, louca por um banho.
Parou ao ouvir um barulho vindo do porão. Gabriel devia estar lá embaixo. Ela rezou para que ele fosse cuidadoso e evitasse outro acidente. Imaginou-o deitado na neve, ferido na cabeça e no pé, deixado lá por algum bandido. Não acreditara na história da coruja que ele lhe contara.
Além do mais, Gabriel fora à fazenda Deveraux, na semana anterior, e com certeza tivera tempo suficiente para explorar a antiga propriedade. Whitney recordou o aviso da sra. Tall sobre terem visto luzes acesas na casa abandonada. Talvez devesse ser mais cuidadosa. Pé ante pé, e com uma pesada chave inglesa nas mãos, desceu ao porão.
Antes de girar a maçaneta da porta, saiu e fechou a porta atrás de si.
- O que está acontecendo? - ele indagou. Sentindo-se ridícula, Whitney baixou a chave inglesa e fitou-o.
- O que veio fazer aqui? - atacou, transformando sua preocupação em raiva, por ele tê-la assustado.
- Ligar o aquecedor.
- Está quebrado. Precisa de uma peça nova. Gabriel moveu a cabeça negativamente.
- Não. Os controles só precisam de um ajuste. Há uma etiqueta que diz que o gerador foi limpo e reparado há oito anos. Acho que não foi usado desde então.
- O eletricista disse que precisava comprar uma peça, mas que viria consertá-lo.
- Cancele - Gabriel disse, sorrindo. - Ou, quando o eletricista aparecer, deixe que eu converso com ele.
Whitney comentou consigo mesma que jamais alguém se oferecera para cuidar de seus problemas. Aquilo trouxe uma estranha sensação, algo próximo da ingenuidade.
- Obrigada, vou cancelar o conserto - decidiu.
- É o melhor que tem a fazer. Há móveis no porão e no sótão.
Ela comentou consigo mesma que ele revistara a casa de cima a baixo. Procurando o quê? Talvez objetos de valor para roubar. Era engraçado, mas, no íntimo, ela achava essa idéia absurda.
- A maioria é sucata - observou. - Os melhores móveis foram levados há muito tempo.
- Por parentes, aposto.
- Não era justo que os móveis ficassem se estragando, embora fizessem parte de minha herança, como a casa. O juiz permitiu que a família levasse os móveis que quisesse.
- Mas a casa ficou para você?
- Ficou.
- Essa "sucata", como você diz, é de madeira de excelente qualidade: carvalho, freixo, nogueira. Se forem consertados e encerados, os móveis parecerão novos.
Whitney sorriu. Aquele sorriso fez com que Gabriel sentisse paz e alegria. Ele franziu a testa. Não podia se permitir sentimentos daquela espécie. Tinha um trabalho a fazer: encontrar os ladrões que haviam usado a fazenda, limpar seu nome, então vender a propriedade e livrar-se daquelas tristes lembranças para sempre. Até lá, manteria distância da ruiva.
Mas, para se manter distante dela, era preciso estar ocupado. Enquanto explorava a casa, revia seus planos. A cabeça já não doía tanto, e a perna já aguentava seu peso, por isso ele pagaria seu débito, ajudando-a na reforma da casa.
O trabalho também seria uma desculpa para manter sua fazenda sob observação, sem levantar suspeitas. Como Whitney, as pessoas da cidade creriam que ele precisava de dinheiro.
Analisara seu plano de todos os ângulos. Acreditava que daria certo. Olhou para Whitney e perguntou-se como resistiria à tentação de tocá-la. Ter uma família não fazia parte de seu futuro. Quando pegasse os ladrões e vendesse a propriedade, iria para bem longe dali.
- Quando pretende abrir a pensão? - indagou.
- O mais rápido possível. - Ela franziu a testa, torceu o nariz, então riu. - Quero estar com tudo pronto na Páscoa.
Gabriel comentou consigo mesmo que os grandes olhos azuis eram encantadores. Jamais conhecera uma pessoa que confiasse tanto nos outros, com tanta ingenuidade. Ela o acolhera, um total estranho, sem pensar que podia estar correndo perigo.Ele disse a si mesmo que a ensinaria a não confiar tanto nas pessoas. Alguém podia aparecer e tirar proveito de tamanha inocência.
- E sua fazenda? - Whitney perguntou. - Vai precisar consertar a cerca, se quiser criar gado. Oh, a sra. Tall falou que viu luzes acesas e alertou-me...
Hesitou. Gabriel notou que ela ficara confusa. As pessoas da cidade suspeitaram dele, muitos anos atrás, quando descobriram que havia mercadorias roubadas no celeiro da fazenda. Nem mesmo o pai acreditara nele e dera-lhe uma surra. Gabriel jamais o perdoara por aquela grande injustiça. Com as marcas da surra, saíra de casa no mesmo dia, assim que o pai se deitara.
Mas, naquele momento, para sua grande surpresa, sua bela salvadora não o olhava com desconfiança, ao contrário, mostrava-se preocupada.
- Alguém está usando sua fazenda para fins ilegais? - Whitney indagou. - Você os pegou, e por isso eles tentaram matá-lo? Devíamos chamar o xerife.
- Não é preciso chamar o xerife. Como eu já disse, foi um acidente.
- Eu não acredito que tenha sido um acidente.
- Não acredita que uma trave caiu do telhado sobre minha cabeça? - Ele sorriu. - Tem imaginação muito fértil, Irlandesa. A vida não é como um filme de John Wayne.
- Você devia ser mais cuidadoso. O pessoal daqui atira primeiro e pergunta depois, especialmente quando estranhos andam entre as árvores, sem razão aparente.
Como não queria discutir, Gabriel preferiu mudar de assunto.
- Encontrei uma cama num dos quartos do andar de cima - contou. - Vou me mudar para lá.
Whitney ficou desapontada, mas não deixou transparecer. Gabriel comentou consigo mesmo que o melhor que tinha a fazer era não ficar muito perto dela, pois, se não fosse cuidadoso, esqueceria por que voltara e por que tinha de partir.
-O estrado da cama não está quebrado? - ela perguntou.
- Encontrei umas ripas no porão. Vou consertá-lo. Whitney moveu a cabeça afirmativamente e fitou-o como se soubesse que ele escondia alguma coisa. Gabriel suspirou e disse a si mesmo que ela era uma complicação da qual ele absolutamente não precisava.
Whitney não fez nenhum comentário, enquanto Gabriel consertava a cama. Quando ele carregou a bagagem para o andar superior, ela o seguiu com cobertores, lençóis, fronha e travesseiro.
- Você encontrou um colchão de penas! - exclamou, surpresa ao comprovar a maciez e conforto do colchão.
- Encontrei. Há mais dois, lá no sótão.
Gabriel mostrava-se muito introspectivo. Respeitando a privacidade dele, Whitney não disse mais nada, terminou de arrumar a cama e saiu do quarto, indo para a cozinha, onde checou a lasanha que havia deixado no forno. Começou a preparar uma salada. Quando a refeição estava pronta, levou pratos, copos, talheres e guardanapos para a mesa em seu quarto. Indo de novo à cozinha, voltou com a lasanha, a salada e uma garrafa de vinho em uma grande bandeja.
Ao entrar no aposento, viu Gabriel olhando pela janela, na direção de sua fazenda.
Notou que ele acendera a lareira e sorriu, satisfeita.
- Jantar! - anunciou alegremente, vertendo vinho nos copos. Gabriel virou-se, e ela perguntou: - Gosta de vinho tinto?
Ele moveu a cabeça, afirmando, e aproximou-se da mesa.
- As estradas vão ficar fechadas até que a nevasca acabe - comentou.
- Com certeza.
Começaram a comer em silêncio. Whitney, de alguma forma, sentia que Gabriel a ajudaria por uns dias, então partiria. E isso a entristecia.
- A lasanha está deliciosa - ele elogiou.
- Obrigada. - Ela tomou um gole de vinho e olhou para o fogo na lareira. - Vai morar em sua fazenda?
- Não. Vou vendê-la na primavera.
- Vai vender sua casa?
- Mal pode ser chamada de casa, agora, com as janelas quebradas e o telhado quase desabando.
- Mas, algum dia, você pode pensar em voltar a morar lá. Eu gostaria de poder comprar sua propriedade - Whitney falou impulsivamente. - Talvez eu possa arrendar as terras...
- Não. Quero vendê-la.
A rapidez da recusa dele magoou-a, mas ela disfarçou, encolhendo os ombros.
- Não tenho recursos financeiros para arrendar, muito menos para comprar - declarou.
- Mas se tivesse...
- Bem, pensei em convidar minha mãe e meu padrasto para morarem perto de mim, mas é uma péssima idéia. Eles vão achar que têm o direito de interferir em tudo.
- Como fizeram no passado?
Gabriel parecia conhecer a vida de Whitney, e isso a inquietava.
- Minha mãe sempre acha que sabe o que é melhor para mim - ela confidenciou.
- Mas você não concorda?
Whitney movimentou a cabeça negativamente, e o elástico que prendia seus cabelos soltou-se, caindo em seu colo. Com rapidez, ela prendeu os cabelos de novo, sentindo, nervosa, a intensidade do olhar de Gabriel.
Ele parecia inquieto. Whitney acreditava que, se o tempo não estivesse tão ruim, ele estaria lá fora, procurando sabia Deus o quê.
- O que esteve fazendo em sua fazenda, na semana passada? - indagou. - Eu o vi no bosque.
- Eu não sabia que havia alguém morando aqui, até ver luzes acesas e fumaça saindo pela chaminé.
- Parece que você não ficou feliz com minha presença nesta casa.
Gabriel sorriu.
- Eu planejava usá-la como abrigo - confessou.
- Pretendia invadir minha casa?
- Já fiz coisas piores.
- Por boas razões, aposto.
Whitney não conseguia vê-lo como uma má pessoa. Se pudesse mergulhar na alma dele, sabia que veria angústia e solidão, mas não maldade.
Gabriel baixou o garfo e fitou-a.
- Meu Deus, você seria capaz de destruir um homem - murmurou.
Whitney mordeu o lábio inferior e permaneceu em silêncio, enquanto Gabriel levava a mão à testa como se estivesse com dor de cabeça. Ela não compreendera as palavras dele, pois não tinha a intenção de destruir quem quer que fosse. Olhou para a lareira e suspirou.
- Não confie em ninguém - ele aconselhou. - Teria uma decepção, mais cedo ou mais tarde.
Whitney concluiu que alguém em quem ele confiara o traíra, deixando cicatrizes profundas. Ou seria uma referência a eles dois? Estaria Gabriel alertando-a para não se apaixonar por ele, porque podia se machucar?
- Sei cuidar de mim mesma - ela afirmou, pondo-se de pé.
Juntou a louça suja e levou-a para a cozinha.
CAPÍTULO V

Whitney voltou para o quarto, achando que Gabriel já fora para seu novo aposento, mas encontrou-o olhando pela janela.
- Que tal um joguinho de pôquer? - sugeriu.
- Pôquer?
- É.
Whitney pegou o baralho, sentou-se à mesa e embaralhou as cartas. Gabriel acomodou-se numa cadeira a sua frente.
- O que vamos apostar? - indagou.
- Oh, esqueci. - Ela se levantou, mexeu numa das caixas de papelão no canto do aposento e voltou com uma caixa de palitos de dente. - Palitos?
- Tudo bem.
Ela dividiu os palitos meio a meio, e cada um colocou um na mesa.
- Mais uma carta - ele pediu, colocando outro palito e pondo na mesa, de face para baixo, uma das que tinha na mão. Depois de dar-lhe uma carta, Whitney olhou para as suas, mas pensando nele. Gabriel nunca seria dependente de outra pessoa, não permitiria que ninguém entrasse em seu coração. Ela não podia amarrá-lo e obrigá-lo a ficar.
Seus olhos encheram-se de lágrimas. Ela não era emotiva, mas adivinhava uma ternura em Gabriel que a comovia. Suspirou. Podia estar errada. Talvez ele fosse um homem frio, rude, incapaz de amar. De qualquer modo, era melhor concentrar-se nas cartas. Sugerira o jogo para fazê-lo esquecer o que pudesse estar deixando-o inquieto. As horas passaram, e os dois divertiram-se muito, um observando as estratégias do outro a cada jogada.
- Onde aprendeu a jogar? - Gabriel perguntou. Whitney não estava jogando mal, mas começava a perder uma partida atrás da outra.
- Com os rapazes, na faculdade - respondeu. - Eu era a única mulher no meio deles. Tínhamos o costume de jogar pôquer a noite inteira, depois das provas finais.
- Sei - ele murmurou num tom de desaprovação.
- Éramos todos amigos, nada mais.
Ela gostava de ficar com eles, mas nenhum fora aquele homem especial que esperara encontrar para dividir seus sonhos e sua vida.
- Eles deviam ser cegos - Gabriel falou.
Com grande dificuldade, Whitney dominou o ridículo orgulho que sentiu, pois, se ele continuasse a dizer frases daquele tipo, começaria a acreditar, o que seria tolice. A mãe sempre quisera que ela se portasse como uma princesa e se casasse com um príncipe, mas Whitney fora exatamente o oposto. Naquele momento, porém, desejava ser uma sofisticada mulher fatal.
Das dez às onze horas da noite, tentou recuperar seus palitinhos perdidos, mas, à meia-noite, apostou o último e perdeu.
- Você é sortudo, ou está trapaceando? - questionou.
- Palavras agressivas.
- Desculpe. - Ela bocejou. - O jogo acabou.
- Mais uma partida.
- Terei de encontrar mais palitos.
- Aposte outra coisa.
- O quê?
- Um beijo.
Whitney pestanejou, hesitando. O olhar dele era desafiador, visivelmente chamando-a de covarde.
- Tudo bem - Whitney aceitou, observando-o dar as cartas.
Com as que tinha em mãos, sabia que venceria. Ficou desapontada. Por uma fração de segundo, pensou em trapacear para não vencer, pois, afinal, perdera a noite toda. Por que ganhar a última partida? Baixou as cartas. Gabriel fitou-a, pensativo.
- Ainda pode me beijar - disse.
- Eu ganhei!
- Mas quer o beijo.
- Eu...
Ela não tinha como negar. Ele se levantou e foi para junto da cadeira dela. Segurou-lhe as mãos, ajudando-a a se erguer e, quando ficaram frente a frente, ele inclinou a cabeça. Ela não conseguiu conter o tremor dos lábios, que estavam ansiosos pelo beijo.
- Você me deixa louco, quando faz isso - ele murmurou.
- Isso o quê?
- Quando treme, como se não pudesse esperar... Gabriel soltou um gemido e puxou-a para si, beijando-a apaixonadamente. Whitney sentiu que ele desejava muito mais do que um beijo, e ela também desejava, mas não ousava admitir.
Pousou as mãos nos ombros largos. Gabriel tocou os seios macios e sentiu o corpo dela enrijecer, o que o fez soltá-la. Ela emitiu um gemido de protesto.
- Não - ele falou ao vê-la aproximar-se.
Whitney parou, confusa, em seguida virou-se, embaraçada. Gabriel segurou-a pela cintura e pousou a testa nos cabelos ruivos.
- Não entende? - indagou. - Não posso apenas beijá-la e depois soltá-la.
- Foi exatamente o que acabou de fazer.
- Mais um minuto e eu a levaria para aquela cama e não a deixaria sair até o amanhecer. Você não teria como me impedir, porque não tem idéia da força de sua própria paixão.
- Tenho, sim.
- Diabinha, sou eu quem dá as lições aqui.
- Lições? - Whitney repetiu, encarando-o.
- Lições. Você é muito ingênua. Abre sua casa e seu coração para estranhos, confiando neles, achando que são tão honestos quanto você. A vida não é assim.
Ela sentiu-se humilhada, mas ergueu o queixo e fitou-o bem dentro dos olhos.
- Você me desejou - declarou.
- Ainda desejo. Se fizermos amor...
Gabriel movimentou a cabeça negativamente e tocou os lábios dela com o dedo indicador.
- Seria o paraíso - disse. - Seria uma sensação poderosa, algo que você jamais imaginou.
- Por que parou?
- Porque pessoas espertas não se aproximam tão intimamente de outras.
- Por quê? Gabriel sorriu.
- É melhor assim - respondeu. - Você tem seus sonhos, e eu tenho... os meus.
Afastou-se e colocou mais lenha na lareira.
- Fique aqui, porque este aposento é mais quente do que o seu - Whitney sugeriu. - Ficamos juntos, na primeira noite. Dormi com você, na cama.
- Eu sei. Quando se deitou... confiou em mim...
- Ainda confio.
- Por enquanto. E se as coisas ficarem ruins? Com aquela enigmática pergunta, Gabriel saiu do quarto. Whitney ouviu os passos dele ecoarem pelo corredor e, de repente, teve vontade de chorar.
- Foi muito bom sentir a casa aquecida, quando acordei - Whitney comentou durante o café da manhã. - Obrigada por consertar o aquecedor.
- É para isso que serve um biscateiro.
Estava sendo difícil para Whitney encará-lo, depois da noite anterior, mas ela respirou fundo, forçou-se a ignorar o que havia ocorrido e decidiu agir como se nada tivesse acontecido. Contudo, não era fácil olhar para os lábios dele e não recordar a deliciosa sensação que experimentara ao tê-los sobre os seus.
Sentiu o coração bater acelerado. Sempre fora amiga e companheira de homens, na faculdade e no trabalho. Era estranho pensar em si mesma como uma mulher capaz de seduzir.
- O sol está brilhando - falou. - É bom ver essa luz, depois de tantos dias de céu encoberto e tempestades, não é?
Olhou pela janela, fazendo uma pausa.
- Vou ligar para a prefeitura e pedir que venham retirar a neve o mais rápido possível - disse.
- Isso já foi providenciado. Whitney encarou-o.
- Rafael Barrett disse que mandará sua equipe para cá, assim que terminarem o trabalho na estação de esqui.
E como que para comprovar as palavras dele, os dois ouviram o barulho de um motor vindo da estrada, na direção da casa.
- Por que ele mandaria a própria equipe para cá? - Whitney questionou.
- É um favor.
Mas o proprietário da estação de esqui não conhecia Whitney. Ele era amigo de Gabriel, e essa amizade não combinava com a idéia que ela fazia dele, um solitário que vagueava pelo mundo. Ela ficou inquieta, pois havia muitas coisas a respeito dele que não compreendia.
- Quais são seus planos para hoje? - Gabriel perguntou.
- Vou ver se encontro cortinas para as janelas dos quartos.
- Há várias cortinas no sótão. Ainda não explorou a casa?
- Não. Vim para cá três dias depois do Ano-novo. Aí, fiquei muito ocupada, tentando conseguir crédito e encontrar alguém para fazer a reforma. Limpar o sótão e o porão não se encontravam em minha lista de prioridades.
- Devia ir ver o que tem lá.
- Eu vou. Acho que você me ajudará muito. Foi o único que viu utilidade naquela mobília velha.
Ele deu de ombros.
- Limpar e consertar aqueles móveis dará trabalho - declarou. - Não me agradeça antes de ver o resultado.
O aviso não a incomodou, pelo contrário, ela entendeu que ele levaria muito tempo, consertando a mobília. Sorriu, pois sentia-se incrivelmente feliz. Xingou-se de idiota, porém nenhuma palavra mudaria o que estava sentindo. Ao terminar a refeição, pegou uma caneta e um bloco de papel e começou a escrever as tarefas do dia.
- O que quer que eu faça hoje? - Gabriel indagou.
- Você ainda não está...
O olhar dele a interrompeu.
- Você é quem sabe - ela se rendeu, tentando pensar em algo que não o cansasse muito.
- Prenderei as cortinas, se encontrar no sótão algumas que lhe agradem. Enquanto isso, vou lixar as paredes.
Whitney franziu a testa, certa de que ele não seria muito eficiente, com o pé machucado.
Homens! Não conseguem admitir a própria fraqueza, comentou consigo mesma.
Talvez devesse bater com um pau no outro lado da cabeça de Gabriel, para ver se conseguia fazê-lo criar juízo.
- Vou lavar roupa - falou. - Se me der as suas, lavo-as também.
Ele pareceu estupefato com aquela sugestão.
- Posso cuidar de meus pertences - respondeu.
- Pouparemos água, sabão e energia, se eu lavar todas juntas.
Whitney levantou-se da mesa, juntou a louça suja e começou a lavá-la na pia. Olhou por sobre o ombro e sorriu. Gabriel franziu a testa e desviou o olhar.
- Posso cuidar de minhas roupas - insistiu.
Ela fechou a torneira, irritada com aquela teimosia. Ele pensava que ela nunca vira roupas íntimas masculinas?
- Não seja bobo - ralhou. - Costumava dividir tarefas domésticas com um estudante que morava no apartamento junto ao meu, quando estava na faculdade. Nós nos revezávamos na lavanderia.
Gabriel fitou-a, estreitando os olhos.
- Você lavou as roupas íntimas de um homem que não era seu namorado?
- Lavei. Homens e mulheres podem ser simplesmente amigos.
- Sei.
Sem mais palavras, Gabriel saiu da cozinha, retornando minutos depois. Jogou algumas roupas no chão. Whitney não fez nenhum comentário, mas, quando juntou suas roupas com as dele, viu nisso um alto grau de intimidade.
Recordou os sermões da mãe por sempre mostrar-se rebelde e contrária à idéia de que uma mulher tinha de ser submissa a um homem, cuidar dele, ser uma segunda mãe. Mas suspeitava que Gabriel jamais tivera alguém que cuidasse dele.
No final da manhã, quando o sol iluminava e aquecia a casa, subiu a escada para o sótão e viu vários móveis e caixas de papelão.
Começou a procurar as cortinas que Gabriel mencionara, abrindo caixa por caixa. Encontrou objetos e outras lembranças da vida da avó, além de revistas e jornais. Os objetos, fotos e cartas, ela guardou, mas colocou as revistas e os jornais numa caixa e levou-os para o porão, para serem jogados no lixo.
Ao voltar para o sótão, abriu um baú e achou cortinas, que formavam oito pares, de cetim, damasco e brocado, nas cores amarela e branca. Ficou radiante. As cortinas pareciam pertencer à sala de estar e à antecâmara, e combinavam com a decoração que ela planejara. Carregando um par delas, desceu rapidamente a escada.
O telefone tocou, e ela ouviu Gabriel atender.
- Whitney, é para você! - ele gritou.
- Já vou.
Era a primeira vez que ele a chamava pelo nome, e ela gostou.
A ligação era do sr. Tall, e ele avisou que o material que ela encomendara havia chegado.
- Vou buscá-lo à tarde - Whitney disse.
- A estrada está aberta?
Ela olhou para Gabriel e sorriu.
- Está - respondeu, em seguida agradeceu ao sr. Tall e despediu-se, colocando o fone no gancho. - Quer uma carona até a cidade?
- Vou terminar de lixar a despensa.
- Talvez eu precise de ajuda para carregar o que encomendei, mas deve ser muito pesado para você.
- Irei com você.
- Tem sapatos folgados?
- Tênis - Gabriel falou, subindo a escada. Whitney percebeu que ele estava inquieto mais uma vez, mas a viagem até a cidade o faria mudar de humor. Dez minutos depois, estavam fora da casa, entrando na caminhonete.
- Nada melhor do que ter os amigos certos - ela comentou, vendo a estrada limpa. Ele não respondeu. Ela sintonizou o rádio numa estação local, que tocava música romântica sertaneja. Fitou Gabriel rapidamente, então voltou a atenção para a estrada.
Uma hora depois, chegavam à cidade. Whitney encontrou uma vaga em frente à casa de materiais de construção. Entrou na loja e foi conversar com a sra. Tall, enquanto aguardava que o sr. Tall pegasse os papéis de parede, as venezianas, as tintas e os pregos.
- Você sobreviveu à nevasca - a sra. Tall comentou.
- É verdade. Não vi nenhum relatório sobre o tempo. Caiu muita neve?
- Muita. E vem mais por aí.
- É mesmo? Teremos uma quebra de recorde este ano, não?
A idosa entreabriu os lábios para responder, mas fechou-os ao ver Gabriel entrar na loja.
- Lembra-se de Gabriel Deveraux? - Whitney perguntou. - Ele concordou em me ajudar na reforma da casa.
- E Jack Peters? - a sra. Tall indagou.
- O sr. Peters decidiu visitar a irmã na Califórnia. Eu precisava que alguém fizesse o serviço.
- Olá, sra. Tall - Gabriel cumprimentou.
- Bem, fazia muito tempo que nós não o víamos - a sra. Tall comentou, baixando seu tricô e fitando-o.
- Muito tempo, mas acho que ninguém sentiu minha falta.
- Seu pai era um homem difícil, mas honesto. Ele ficou com o coração partido, quando você fugiu de casa. No final da vida, era um homem solitário e amargo.
Whitney ficou furiosa, porque a mulher não tinha o direito de censurar Gabriel, pois não conhecia a relação que existira entre pai e filho.
- Talvez ele devesse ter pensado nisso, antes de partir o coração do filho e forçá-lo a sair de casa - intrometeu-se.
Gabriel pousou a mão no ombro dela.
- Isso foi há muito tempo - falou.
Quando Whitney olhou-o, notou que ele estava irritado com ela. Desviou o olhar, ralhando consigo mesma por não ter ficado de boca fechada.
- Whitney! - o sr. Tall gritou.
- Com licença - ela pediu, indo para o balcão. Enquanto preenchia o cheque, manteve uma conversa impessoal, então ajudou os dois homens a levar o material para a carroçaria da caminhonete.
Quando estavam prontos para partir, ela sentiu a consciência pesada e voltou à loja para pedir desculpas à sra. Tall.
- Esse suéter que está tricotando vai ficar maravilhoso - elogiou. - Está quase pronto, não é?
- Fiz doze, no ano passado - a mulher contou, erguendo seu trabalho. Então, pousou-o no colo e olhou para Whitney. - Não se apaixone por Gabriel Deveraux. Admito que ele tem boa aparência e chama a atenção, mas não é uma boa pessoa.
- Ele é prestativo, tem me ajudado muito - Whitney declarou.
- Quando adolescente, esteve envolvido com ladrões. Tenha cuidado.
- Está dormindo em minha casa desde sábado, sra. Tall. A mulher mostrou-se chocada. Whitney sabia que, a partir daquele momento, aquele seria o assunto predileto de todos os mexeriqueiros da pequena cidade.
- Ele prendeu o pé numa armadilha para ursos, e eu o encontrei e levei para minha casa. O dr. Payne pediu para que eu cuidasse dele. Agora, Gabriel trabalha para mim.
- Vai se arrepender. Ninguém sabe nada a respeito dele, onde esteve nos últimos anos, o que esteve fazendo. Ele pode ser um fugitivo da polícia, um ladrão, um assassino...
- Sra. Tall, Gabriel Deveraux é um bom homem, honrado e confiável, como tantas outras pessoas que conheci.
- Vamos embora? - Gabriel chamou da porta, surpreendendo-a.
Whitney virou-se e percebeu, pela expressão dos olhos escuros, que ele continuava agastado com ela.
- Vamos - respondeu. - Tchau, sr. Tall. A volta para casa foi feita em total silêncio.
CAPÍTULO VI

Whitney estava com os nervos à flor da pele, enquanto estacionava a caminhonete na frente da casa. Ao desligar o motor, olhou para Gabriel.
- Não faça aquilo de novo - ele avisou.
- Não posso ficar calada, ouvindo um amigo ser caluniado.
- Ela não estava sendo maliciosa, mas alertando-a para não dar confiança a estranhos.
- Você não é um estranho - Whitney retrucou, enfurecida. - Nasceu e foi criado aqui.
- E ganhei a reputação de rebelde. Eu era um típico adolescente, insolente e atrevido. Escute, Irlandesa, não preciso de ninguém para me defender. O que aconteceu comigo nesta cidade foi há muito tempo. Pouco me importo com o que eles pensam.
- Oh, uma vez se importou, tanto que fugiu - Whitney argumentou, tocando-o no braço, sentindo que era importante que ele compreendesse a própria vulnerabilidade.
Gabriel ficou tenso com aquele toque e não respondeu.
- Não é verdade? - ela insistiu.
- Você parece ter todas as respostas - ele replicou, puxando o braço.
- Você foi acusado de roubo. Seu pai não acreditou em sua inocência, quando você implorou...
- Não implorei nada.
- Quando você disse que não tinha nada a ver com aqueles roubos. Foi por isso que fugiu. - Whitney olhou-o com ternura e simpatia. - Não foi?
- Foi. Quer saber toda a história? Ele tirou o cinto e bateu em mim até deixar minhas costas marcadas, rejeitou-me, mas eu fiquei imóvel e mudo, insolente até o fim.
Gabriel desceu da caminhonete e bateu a porta com violência. Whitney sentiu lágrimas nos olhos e abanou a cabeça, incapaz de falar.
- Poupe suas lágrimas - ele disse com aspereza. - Vai precisar delas, quando aqueles em quem você confia partirem seu coração. A sra. Tall teve razão em alertá-la. Você não sabe nada a meu respeito, nem sobre a vida que vivi.
- Sei, sim.
- Fiz coisas, Irlandesa, que chocariam sua mente puritana. É melhor proteger-se, em vez de ficar me defendendo.
Gabriel pegou duas sacolas da carroçaria e entrou em casa. Whitney continuou sentada, com as mãos no volante, olhando os cumes das montanhas cobertos de neve.
Os raios do sol brilhavam, espalhando calor, mas ela sentia o coração gelado. Apesar do aviso para ser menos inocente, ela se preocupava com Gabriel e com as injustiças que ele sofrera no passado.
As pessoas da cidade, sem prova nenhuma, julgaram-no um ladrão. O próprio pai, a única pessoa que o conhecera suficientemente bem para ficar a seu lado, não acreditara em sua inocência. Daí por diante, Gabriel não confiara em mais ninguém.
Whitney entendia-o e, de alguma forma, precisava ajudá-lo a superar a angústia e a mágoa que ele carregava no peito.
- Você é especial, Gabriel - murmurou. - Você é especial para mim.
Suspirou. Pela primeira vez na vida, achou que se apaixonar era um risco, mas já não tinha como sufocar o amor que sentia por Gabriel. Whitney pôs as mãos na cintura, olhando com satisfação as paredes da alcova, já empapeladas. Guardou o resto do papel de parede e foi ao banheiro lavar-se.
O telefone tocou. Ela secou as mãos rapidamente e voltou à sala. Como o telefone encontrava-se no segundo degrau da escada, sentou-se ali, com as costas apoiadas na parede.
- Alô?
Com a outra mão, tirou os sapatos e massageou os pés.
- Quero falar com Gabriel Deveraux, por favor - uma voz masculina, impaciente e abrupta, requisitou.
- Vou chamá-lo.
Whitney conteve a tentação de perguntar quem era. Levantou-se, andou pelo corredor, só de meias, e parou bruscamente na porta de seu quarto.
Gabriel estava no último degrau de uma escada de mão, pendurando uma cortina na janela. Ela ficou alarmada e com receio de chamá-lo, porque ele poderia assustar-se e cair. Observou por alguns instantes as mãos ágeis colocarem a cortina nos trilhos. De repente, ele virou a cabeça e a viu.
- O que é? - indagou.
- Você não devia estar aí em cima. É muito perigoso. Pode cair. - Ela correu para segurar a escada, enquanto ele descia. - Há outra escada no porão, mais alta.
- Eu vi.
- E por que não a usou?
- Esta é mais fácil de ser carregada. Veio até aqui por alguma razão em particular, ou só para brigar comigo?
- Oh, alguém telefonou e quer falar com você. Gabriel franziu a testa.
- Por que não disse antes? - resmungou, saindo do aposento o mais depressa que podia.
Whitney examinou o quarto. Com as cortinas, parecia muito melhor, e ela teria privacidade.
Antes de pensar em pendurar as cortinas, os dois haviam levado as sacolas da casa de materiais de construção para um quartinho atrás da cozinha, então arrumado a mobília da sala de estar e do quarto.
Numa das caixas de papelão que trouxera de seu apartamento, ela encontrara um aparelho de telefone e a secretária eletrônica, que já haviam sido ligados e prontos para o uso.
Embora ainda não fosse muito tarde, Whitney decidiu dar por terminado o trabalho daquele dia, pois Gabriel já forçara muito o pé ferido. Pegou seu pijama de flanela e foi tomar banho. Escutou a voz de Gabriel, ao passar pelo corredor.
- Ontem à noite? Na tempestade?
Ele riu com cinismo. Whitney parou, mas não ouviu mais nada, porque ele começou a falar baixinho. Ela queria saber o que acontecera na noite anterior, e com quem ele estava falando. Além do dono da estação de esqui e das pessoas que o haviam hospedado, Gabriel não se referira a mais nenhum amigo.
Entrando no banheiro, ela fechou a porta e tirou as roupas. No chuveiro, sua mente não parou de criar especulações a respeito de Gabriel. Quando saiu do banheiro, enrolada no roupão de banho, encontrou Gabriel em seu quarto, colocando lenha na lareira.
- Parou de trabalhar cedo - ele comentou.
- Estou cansada e acho que você também está. Não devia apoiar seu peso no pé machucado por tanto tempo.
Gabriel deu de ombros. Não estava preocupado consigo mesmo. Olhou para a janela, na direção de sua fazenda, então dirigiu-se para a porta.
- Vai tomar banho agora? - Whitney indagou. - Pensei em preparar o jantar mais cedo.
- Tudo bem.
Enquanto Gabriel tomava banho, Whitney fritou os peitos de frango cortados em cubos, em seguida colocou-os num prato, decorando-os com montinhos de espinafre.
Aos poucos, numa bandeja, ela ia levando a louça e a refeição para seu quarto. Pousou a bandeja sobre a mesinha de centro. Após juntar duas mesinhas de canto, colocou sobre elas pratos, copos, talheres e guardanapos, então voltou para a cozinha para buscar o bule de chá.
Ao passar pelo banheiro, ouviu o chuveiro sendo fechado. Imaginou Gabriel nu e ficou excitada. Movimentou a cabeça negativamente e continuou a andar. Ao voltar, escutou uma porta abrir-se, depois fechar-se, e achou que ele devia estar no quarto que escolhera.
Poucos minutos depois, Gabriel apareceu no quarto dela, usando suéter azul e calça jeans escura. Whitney recordou que lavara aquelas roupas junto com as suas. De repente, o clima tornou-se muito íntimo.
- Sente-se na poltrona - Gabriel sugeriu, ao vê-la acomodar-se no sofá.
- Não, estou bem aqui - ela respondeu, achando que a poltrona junto à lareira era mais confortável para ele.
- Quero sentar no sofá, para estender a perna.
- Seu tornozelo está inchado?
- Um pouco. Acho que o forcei muito, hoje.
Whitney ficou surpresa ao ouvi-lo admitir aquilo. Notou que ele aguardava que ela se levantasse para poder se acomodar, então apressou-se em ir para a poltrona. Gabriel ajeitou-se no sofá, encostando-se num braço e estendendo a perna no assento.
- Que tal assistirmos ao noticiário? - propôs. - Há dias não sei o que está acontecendo no mundo.
Whitney ligou a televisão e, enquanto comiam, assistiram a um telejornal. Quando começaram as notícias locais, ela notou que Gabriel franzia a testa, mostrando-se preocupado.
O apresentador do jornal anunciou que mercadorias, estimadas em meio milhão de dólares, haviam sido roubadas, e que Carl Lightfoot encontrava-se na cena do crime para divulgar o boletim policial.
O repórter estava em frente à loja de equipamentos para escritórios. A câmera mostrou várias viaturas policiais estacionadas na rua, pessoas movimentando-se para todos os lados, e em seguida focalizou um homem alto, de uniforme. O xerife. Respondendo a uma pergunta do repórter, ele informou que não havia pistas sobre a identidade dos assaltantes, e que a polícia local e a estadual estavam trabalhando em conjunto.
Whitney reconheceu a voz do xerife como sendo a do homem que ligara para Gabriel.
- Ele interrogou você? - ela indagou, furiosa. Gabriel olhou-a, parecendo confuso.
- O xerife - Whitney explicou. - Foi ele quem ligou hoje à tarde, não foi? A polícia sempre suspeita de pessoas que já tiveram problemas no passado. Ele queria saber se você tinha um álibi para ontem à noite?
- Você tem assistido a filmes demais.
- Você esteve aqui a noite inteira. Posso testemunhar isso.
- Obrigado - ele ironizou. - Se alguém perguntar, vou mandar que falem com você.
Olhou para a televisão, então para Whitney, que notou que havia paixão no olhar dele, algo que a atitude ríspida não conseguia encobrir.
A notícia seguinte foi a previsão do tempo. Gabriel voltou a atenção para o telejornal, e sua expressão tornou-se remota.
Após a refeição, foi para o quarto. Mais tarde, quando já estava deitada, impaciente e agitada, Whitney ouviu o assoalho acima dela ranger. Estaria Gabriel observando sua fazenda, pensando no tempo em que a mãe vivia, em que ele era feliz?
Whitney tinha certeza de que ele já fora feliz, quando corria pelos campos verdes e ensolarados, cheio de juventude e vida. Mas aquilo era passado. No presente, ele parecia triste e gostava de observar a escuridão da noite, como se procurasse alguma coisa. Mas o quê?
- Esse ficou muito bom - a vendedora comentou. - O tom de azul combina com seus olhos.
Whitney olhou-se no espelho e não gostou do vestido azul, de modelo conservador.
Suspirou, movendo a cabeça negativamente.
- Acho que vou procurar mais um pouco - disse. Vestiu a calça jeans e o suéter e saiu da loja. Não encontrara nada que a satisfizesse, em Riverton, Medford ou Ashland. Estava sem sorte.
Gabriel estava parado em frente à loja, olhando a vitrina.
- Vamos? - Whitney perguntou.
Ele concordou com um gesto de cabeça, virou-se e entrou na caminhonete pelo lado do motorista. Já estavam na terceira semana de janeiro, fazia dezesseis dias que ela o encontrara com o pé preso na armadilha, e ele vinha se recuperando sem problemas.
O dia seguinte seria sexta-feira, dia do Festival de Inverno da Câmara de Comércio de Riverton, e Whitney queria usar algo novo, bonito e especial.
Ela olhou para Gabriel e confessou a si mesma que desejava que ele a visse com outras roupas, além de calças jeans e suéteres.
Durante o percurso, cada vez que os olhares deles se encontravam, algo acontecia dentro dela, seu coração parecia parar, então batia violentamente. Whitney comparou-se a uma adolescente com os hormônios fervilhando. Sentiu-se aquecer. Olhou para as árvores cobertas de neve, mas nem a neve conseguia acalmá-la.
Faria vinte e oito anos em abril. As vezes, tinha vontade de jogar a precaução no lixo e apenas se divertir, mas isso seria estupidez. Onde estava o bom senso que sempre a guiara?
Em frente à casa, ela e Gabriel desceram da caminhonete e pegaram as sacolas com as compras do mercado, levando-as para a cozinha.
Já anoitecera, quando Gabriel terminou de instalar a nova pia e o fogão. A cozinha estava pronta.
Whitney preparou sanduíches para o jantar.
- O que vai usar amanhã à noite? - indagou, enquanto comiam na mesa da cozinha.
Gabriel fitou-a como se ela houvesse feito uma pergunta ofensiva. Whitney imaginou-o na cama, usando aquela camiseta que emprestara a ele, logo nos primeiros dias, então visualizou-o tomando banho. Sentiu os bicos dos seios ficarem eretos e pressionarem o casaco do pijama de flanela.
- O que vai usar? - insistiu.
- Eu não vou ao festival.
- Você tem de ir!
Whitney pretendia usar a comemoração para reintroduzi-lo na comunidade.
- É uma ordem? - Gabriel perguntou.
- Não, claro que não. É que eu pensei... Bem, não importa.
Ela lutou para esconder seu desapontamento, pois jamais passara por sua mente que ele não iria.
- Não vou ficar na cidade, por isso não há motivo para eu me socializar com os cidadãos locais - Gabriel argumentou. - Você, ao contrário, tem todos os motivos. Benevolência é importante, nos negócios.
Tomou um gole de chocolate quente.
- Os comerciantes podem indicar sua pensão a turistas, mas só o farão se a conhecerem e gostarem de você - continuou. - Você precisa ser sociável, eu não.
Whitney preocupava-se com Gabriel, mergulhado num mundo no qual não havia ninguém que se importasse em saber se ele estava vivo ou morto.
- Para onde irá, quando for embora? - indagou. Gabriel notou que os olhos azuis mostravam-se preocupados, apesar de ela tentar esconder os sentimentos.
- Não se preocupe comigo - falou.
- Não estou preocupada. Por que deveria estar?
Ele sabia que Whitney estava mentindo e comoveu-se. Queria tocá-la, acariciá-la, possuí-la. Não sabia por quanto tempo mais conseguiria manter distância entre eles.
Toda noite, deitava-se na cama e pensava no modo como ela o tratara, salvando-lhe a vida. Sem se importar com a própria segurança, ela o levara para casa, colocara-o em sua cama, dera-lhe um emprego e ficara ao lado dele, indo contra os moradores locais.
Isso incita certos sentimentos num homem, Gabriel disse a si mesmo. Mas são sentimentos que não posso permitir que me afetem. Abanou a cabeça. Tinha outros planos, um trabalho a fazer, uma carreira para seguir e parte do mundo para conhecer. Ignorou a voz da própria consciência, que dizia que ele já conhecera metade do mundo e nada o impressionara.
Sentia falta de um lugar para chamar de lar, mas voltara ao Oregon para pegar os bandidos que usavam sua fazenda, limpar seu nome, depois vender a propriedade.
Terminou a refeição, pediu licença e foi para o quarto. Seria uma longa noite, como todas as outras.
Whitney ouviu o ranger do assoalho. Gabriel ficava mais inquieto a cada dia. Vivia de mau humor, e sua raiva era quase palpável. Ela estava convicta de que logo ele iria embora e perguntava-se o que ainda o segurava ali. Seria o meio milhão de dólares em equipamentos que tinham sido roubados?
Seu coração recusava-se a acreditar nisso. Ela se revirou na cama, então levantou-se e puxou a cortina para ver a lua e avistou um facho de luz cortando a escuridão.
Focalizou toda a atenção naquela direção. Ficou imóvel, esperando ver outro facho. De repente, percebeu que o rangido do assoalho parara. Dez minutos passaram-se. Ela não viu mais nada de estranho lá fora. Aos poucos, relaxou e voltou para a cama. Estava quase dormindo, quando ouviu uma porta bater.
Levantou-se e correu pelo corredor, na direção da frente da casa. Olhou pela janela e avistou um vulto, que logo desapareceu atrás de uma árvore. Minutos depois, com frio, voltou para a cama. Já passava da meia-noite, quando ouviu a porta da frente abrir-se e fechar-se e depois o rangido dos degraus da escada de madeira.
Perguntou-se onde Gabriel estivera, e com quem. Arrepiou-se, apreensiva. Puxou as cobertas até o pescoço, sentindo o coração bater descompassado.
Whitney levantou tarde, na manhã seguinte. Lavou-se e vestiu-se, cansada por causa da péssima noite de sono, longas horas em que mil perguntas passaram por sua cabeça.
Gabriel estava sentado à mesa, tomando café, quando ela entrou na cozinha. O rosto másculo não mostrava nenhum sinal de uma noite mal dormida.
- Bom dia - ele cumprimentou.
- Bom dia.
Whitney abriu o armário, pegou uma xícara e serviu-se de café, encostando-se na pia.
- O que há? - ele indagou.
- Nada.
- Vamos, irlandesa, diga o que está passando por sua cabeça. Não gosto de olhares especulativos. Sei como as mulheres agem.
Whitney ficou irritada e pousou a xícara na pia, com força.
- E como é que os homens agem? - rebateu.
- O quê?
- O que me diz de sair de casa no meio da noite? Não pensou que podia haver alguém lá fora, um malfeitor, por exemplo, pronto para eliminar quem cruzasse seu caminho?
Gabriel hesitou.
- Pensei - respondeu.
- Mas você precisou ir até sua fazenda, quando viu um facho de luz, não é?
- O que sabe sobre isso?
- Da janela de meu quarto, vi um facho de luz na direção de sua propriedade.
- Era para você fechar as cortinas, à noite - ele comentou com azedume. - Foi por isso que as pendurei.
- E fecho, mas como tive dificuldade para dormir, levantei-me e puxei um lado para ver a lua.
- O que mais você viu?
- Vi alguém entre as árvores. Com certeza era você, porque depois ouvi-o voltar para dentro.
- Nunca mais me espione - ele avisou em tom de ameaça.
Eles se encararam, furiosos, mas Whitney não se sentiu amedrontada.
- Eu não estava espionando - ela replicou. - Estava preocupada com sua segurança e, pelo jeito, sem motivo.
- Como, sem motivo?
- Talvez você não esteja em perigo. Talvez tenha ido à fazenda para se comunicar com seus contatos.
- É o que pensa?
- Não... Eu não sei... Quero saber por que saiu durante a noite.
Gabriel cerrou os punhos.
- Acreditará em mim, se eu lhe contar? - perguntou com um cínico sorriso nos lábios. Ela moveu a cabeça, afirmando.
- Pura e simplesmente? - ele insistiu.
Whitney percebeu que ele não confiava nela, mas por que deveria, se as pessoas que o viram crescer foram as primeiras a magoá-lo com suas desconfianças?
- Pura e simplesmente - respondeu, sorrindo. - Acho que foi investigar quem estava em sua propriedade. Estou certa?
- Acha que eu admitiria que fui à fazenda com outro propósito, como, por exemplo, reclamar minha parte do meio milhão de dólares?
Whitney indagou-se se não estava sendo a maior idiota do mundo, mas na verdade aceitaria qualquer resposta que Gabriel desse, pois não acreditava que ele fosse capaz de mentir.
- Olhei sua alma e sei que ela é boa - disse. Palavras inadequadas, porém foram as melhores que encontrou.
Gabriel moveu a cabeça negativamente.
- Irlandesa, ou você é a mulher mais inteligente do mundo, ou a mais burra - declarou.
- Obrigada - ela agradeceu com cinismo, percebendo que ele não ia responder por que saíra de casa no meio da noite. - Quer panquecas, para o café da manhã, ou prefere ovos mexidos?
- Panquecas.
Whitney refletiu que ele devia ter forçado muito o pé ferido, caminhando pela neve para chegar a sua fazenda. Sentiu um calafrio. Homens que roubavam meio milhão de dólares podiam atirar em qualquer intruso, e Gabriel, querendo defender sua propriedade, poderia ter morrido.
Refletiu que ele devia ter voltado, depois de tantos anos, por saber que sua fazenda estava sendo usada por criminosos, a quem pretendia desmascarar, pois certamente não desejava ter seu nome ligado a um bando de ladrões outra vez.
Indo contra a opinião popular e ficando ao lado de Gabriel, ela estava sendo a única pessoa sensata, capaz de ver a honestidade dele, ou estava sendo a única imbecil que acreditava em suas mentiras?
Sensata ou imbecil, só as atitudes de Gabriel diriam. Mas ele podia se ferir, e até morrer, enfrentando os bandidos. Ou ser acusado novamente de fazer parte de uma quadrilha. Se os investigadores encontrassem mercadorias roubadas na fazenda, ele estaria numa encrenca séria.
Claro que Whitney testemunharia a favor da honestidade de Gabriel e diria que ele ficara em sua casa, saindo só com ela, a não ser na noite em que vira um facho de luz em sua fazenda.
Recordou que, na primeira vez em que o vira, comentara consigo mesma que Gabriel parecia um homem que tinha uma missão a cumprir. E tudo levava a crer que era isso mesmo.
Quando ele voltou à cozinha, trazendo a caixa de ferramentas, ela decidira esperar para ver o que aconteceria.
- Vou consertar um dos móveis que estão no porão - Gabriel informou. - Quais são seus planos para hoje?
- Quero começar a pintar a sala de estar.
- Irei ajudá-la, assim que acabar o conserto do móvel.
- Tudo bem - respondeu Whitney, dirigindo-lhe um sorriso incerto.
CAPÍTULO VII

Whitney estava parada na frente do armário, olhando suas roupas, mas nenhuma agradou-a. Os dois vestidos de noite que comprara para frequentar as festas sociais da mãe eram sofisticados demais.
Hesitante, olhou para o vestido que a mãe lhe dera de presente, no Natal. Era um vestido preto, justo, de mangas compridas, com decote princesa. Ao mesmo tempo que parecia modesto, era provocante.
- Use-o.
Whitney virou-se e viu Gabriel encostado no batente da porta, com as mãos nos bolsos da calça jeans,
- É muito... muito...
Ela nem conseguia encontrar um termo para classificar o vestido.
- Insinuante? - ele sugeriu, sorrindo como se estivesse desafiando-a.
- É muito insinuante para Riverton, não acha? Whitney detestava mostrar-se insegura. Afinal, fora às muitas recepções que a mãe oferecera, apesar de ficar sentada num canto do jardim, como se fosse uma das plantas. Só que, naquela noite, ela queria chamar a atenção de um homem especial.
- Riverton está mais sofisticada, atualmente - Gabriel observou.
- Talvez.
Whitney não sabia se usava o vestido ou não, e disse a si mesma que decidiria depois do jantar.
Gabriel entrou e entregou-lhe uma caixa pequena, amarela, com desenhos orientais.
- Hena? - ela indagou ao ler o nome escrito na embalagem.
- Estive no Oriente Médio, e as mulheres de lá usam esse produto com tintura de hena nos cabelos. O efeito é surpreendente. Achei que gostaria de tentar.
- Tudo bem. Vou aplicá-la agora mesmo.
Pegou uma toalha e foi para a cozinha, onde procurou um recipiente de plástico para preparar a mistura do pó de hena com água quente. Em seguida, no banheiro, molhou os cabelos, passou a mistura e decidiu deixá-la por quarenta minutos.
Após escrever uma carta para sua melhor amiga em Washington, fez sanduíches para o jantar, sentindo-se uma idiota com uma touca plástica na cabeça para evitar que a hena escorresse.
- Encantadora - Gabriel comentou com um sorriso, acomodando-se à mesa.
- Você devia sorrir mais vezes - ela disse. O sorriso dele desapareceu.
- Você fica muito bonito, quando sorri - Whitney persistiu. - Não que não seja bonito quando está sério, mas quando sorri parece tão... - Franziu a testa. - Você me deixa nervosa. Isso nunca me aconteceu antes.
A explicação era simples: os amigos da faculdade eram apenas rapazes com quem estudava ou jogava cartas. E Gabriel, o que era? Whitney não tinha certeza. Havia uma corrente de desejo inegável entre eles, uma corrente que era inquietante, excitante, profunda e incerta.
- A paixão pode ser muito perigosa - ele murmurou -, especialmente se você nunca a experimentou.
- Há sempre uma primeira vez.
Ela não acreditava no que acabara de dizer. Frases provocantes não faziam seu género. Era muito direta e honesta para aquele tipo de jogo, ou, pelo menos, fora.
Gabriel riu.
- Cuidado, irlandesa, porque posso aceitar sua oferta.
- Eu não fiz uma oferta. Ou fiz?
Ele não respondeu. Pegou um sanduíche de presunto e queijo e saboreou-o em silêncio.
Whitney desejou pensar em algo que o fizesse retomar o assunto.
- São quase seis horas - Gabriel avisou.
Ela acabou de comer seu sanduíche, então foi para o banheiro e tomou banho, lavando os cabelos. Enrolou uma toalha na cabeça, vestiu o roupão e foi para o quarto, terminar de se arrumar.
Enquanto vestia a meia-calça preta, ouviu Gabriel entrar no banheiro e abrir o chuveiro. Seria muito divertido, se ele a acompanhasse à festa. Ela sentiu uma onda de prazer percorrer-lhe o corpo, ao imaginar-se saindo e voltando para casa com ele.
Olhou para a cama. Gabriel estava bastante recuperado para...
Respirou fundo e disse a si mesma para parar de pensar em bobagens. Depois de aplicar perfume em pontos estratégicos, vestiu calcinha e sutiã pretos, depois o vestido. Passou dez minutos secando os cabelos, impaciente, usando a temperatura máxima do secador. Mal podia esperar para ver o efeito causado pela hena.
Ao terminar, olhou-se no espelho e viu, surpresa, que os cabelos estavam mais sedosos, brilhantes, bem menos vermelhos. Satisfeita, maquilou-se. Então, pegou a bolsa e a parca, olhou-se no espelho novamente e ficou boquiaberta, pois estava incrivelmente sensual e provocante.
Não queria que as pessoas da cidade a vissem como uma... Bem, algo que ela não era. Pensou em tirar o vestido e usar seu recatado conjunto azul-marinho.
- Está linda.
Whitney virou-se e deparou-se mais uma vez com Gabriel entre os batentes da porta, observando-a. Ele usava um terno azul-escuro, camisa azul-clara e gravata listrada, nos dois tons.
- Você vai? - ela indagou.
- Vou. A estrada deverá estar coberta de gelo, quando você voltar para casa.
Whitney olhou-se de novo no espelho.
- Este vestido é...
- Perfeito - Gabriel completou, aproximando-se.
- Não acha que é muito...
- Não, não acho. É melhor calçar as botas e levar os sapatos para calçá-los lá. Não pode andar na neve com esses saltos.
Minutos depois, os dois saíram de casa e entraram na caminhonete. No caminho para a cidade, Whitney não conseguia parar de olhar para Gabriel. Pela primeira vez na vida, estava completamente apaixonada.
Gabriel estacionou o veículo próximo ao centro comunitário, achando que errara ao decidir ir à festa, mas a tentação o vencera. Ele era apenas um homem, não um santo. Tentou acalmar-se, enquanto Whitney trocava as botas pelos sapatos. Então, ajudou-a a descer do veículo, e juntos correram para dentro do centro comunitário.
Ele tentava ignorar a paixão que existia entre eles, mas a cada minuto ficava mais difícil. Às vezes, chegava a ser quase impossível, como naquela noite. Só que paixão não tinha espaço no esquema que ele montara para sua vida.
Mesmo sabendo que não deveria ir à festa com ela, decidira acompanhá-la, como um guarda-costas. Whitney era linda, e algum idiota local podia não aceitar um "não" como resposta, sem contar que o caminho de volta para casa era longo e muito perigoso, no inverno.
- Olá! - o prefeito exclamou ao vê-los. - Coloquem os casacos ali. Aqueçam-se na lareira. Há muitos jovens casais por lá.
Whitney sorriu e conversou com o prefeito e sua esposa, puxando Gabriel para seu lado e apresentando-o.
- O pai dele era o proprietário da fazenda ao lado da propriedade de minha avó - explicou. - Vocês devem se lembrar.
Gabriel notou os olhares especulativos do casal, como se os dois estivessem recordando as circunstâncias de sua partida. Concluiu que as lembranças permaneciam eternas, em pequenas cidades. Por Whitney, ele sorriu e forçou-se a ser cordial, porque não queria embaraçá-la. Entraram no salão, e ele percebeu que Whitney estava orgulhosa por estar ao lado dele, como se ele fosse um prêmio ou algo do gênero.
Do outro lado do salão, um par de olhos acinzentados chamou a atenção de Gabriel. O xerife, Sidney Macklin, sorriu-lhe, então olhou para Whitney.
Sidney fora colega de classe de Gabriel, que se surpreendeu ao ver que ele se tornara xerife. A família Macklin tinha grande influência local. Pelo jeito, o irmão mais novo cuidava dos negócios da família, enquanto Sidney cuidava da cidade.
Gabriel fez um gesto de cabeça na direção do xerife e ignorou a indagação nos olhos dele quanto a sua presença na festa. Já não dava mais para andar às escondidas para não levantar suspeitas. Mas cedo ou tarde, todos saberiam que ele estava de volta. Os ladrões também ficariam sabendo e logo cairiam na armadilha. Ele então ficaria livre daquele lugar, para sempre.
Ele sentiria a falta de Whitney, quando fosse embora. Franziu a testa, desgostoso com essa constatação, e decidiu que não se deixaria envolver pelo charme dela. Whitney apresentou-o a um outro grupo de pessoas. O perfume dela o enfeitiçava. Ele experimentava sensações e sentimentos que esquecera havia muito tempo, pois apenas causavam dor. Confiança e envolvimento só traziam mágoa. A banda começou a tocar.
Gabriel notou o olhar rápido que Whitney lançou-lhe, enquanto continuava a conversar, e disse a si mesmo que não dançaria.
Diversos casais de várias idades dirigiram-se à pista de dança. Sem saber como, Gabriel viu-se entre eles, com Whitney. Sem alternativa, abraçou-a, e ela se ajeitou contra seu peito.
- Você é como fogo - Gabriel murmurou. - Queima o bom senso de qualquer homem.
- Precisamos ser sensatos, esta noite?
- Precisamos.
- Eu queria...
Whitney calou-se, mas não havia necessidade de palavras. Gabriel sabia o que ela queria. Contudo, o que podia oferecer a uma mulher como aquela? Oh, tinha muito dinheiro, devido, primeiro, à sorte no pôquer, depois à sociedade com um amigo num posto de gasolina e ao emprego perigoso no governo americano. Mas, com o dinheiro, ofereceria também um nome manchado, um passado suspeito e um futuro questionável.
Olhou para Whitney. Ela o fitou com os olhos repletos de confiança e paixão.
- Não tem jeito - ele falou.
- Tem que ter.
- Não vou ficar aqui, irlandesa.
Whitney sentiu um aperto no peito e baixou a cabeça.
- Entendo - murmurou, controlando-se, para então erguer a cabeça e sorrir.
Gabriel teve de fazer um grande esforço para não beijá-la.
- Não me olhe assim - pediu. - Não permita que seu coração se machuque. Nenhum homem merece isso.
- Você merece. Amar é um grande risco, mas dá significado a tudo. Pode transformar a derrota em triunfo. Mas é preciso acreditar nele. É preciso dar-lhe uma chance.
- Amor não está nos meus planos, não neste momento.
- Por quê?
- Porque as coisas estão difíceis e não posso me distrair.
- Há algo acontecendo em sua fazenda, e você está tentando descobrir o que é, certo?
Gabriel franziu a testa e apertou Whitney contra seu corpo.
- Você já viu demais - falou.
Ao término da dança, guiou-a até uma mesa.
- Gabriel! - uma bela mulher de longos cabelos pretos e grandes olhos verdes chamou, surpresa.
- Glória - Gabriel disse, parecendo feliz em vê-la. Em seguida, fez as apresentações.
- Whitney é minha vizinha e também minha... patroa. Whitney, Glória é uma amiga.
Após dizer "oi" e sorrir calorosamente para Whitney, a mulher deu total atenção a Gabriel.
- O que está fazendo por aqui? - perguntou.
- Estou pensando em vender a fazenda. Whitney notou que Gabriel dissera "estou pensando". Talvez ele estivesse mudando de idéia. O coração dela encheu-se de esperança.
- Vai vender sua casa?! - Glória exclamou. - Todos precisam de um lugar para onde voltar.
Whitney fitou-o e viu um sorriso irônico nos lábios firmes.
- Já me disseram isso - Gabriel respondeu, então olhou ao redor. - Onde está Rafael?
- No banheiro. Talvez seja melhor você ir atrás dele. Ele já está lá há muito tempo. - Provavelmente está discutindo com alguém como fazer a comunidade prosperar. Vou trazê-lo de volta.
Gabriel deixou-as e seguiu na direção do banheiro masculino. Próximo a elas, um murmúrio chamou a atenção de Whitney.
- Olhe! Não é Gabriel Deveraux? - uma mulher perguntou a outra.
- É. Nunca pensei que ele voltasse. Nem se incomodou em comparecer ao funeral do próprio pai.
- Ouvi dizer que o velho Deveraux expulsou-o de casa. Whitney cerrou os punhos. Gabriel voltara, quando o pai falecera. Talvez não houvesse conseguido chegar a tempo para o enterro, ou talvez não quisesse ver pessoas que com certeza o acusariam mais uma vez.
- Quer dizer que é vizinha de Gabriel - Glória comentou.
- Sou. Vou abrir uma pensão, na esperança de pegar os hóspedes que não conseguirem lugar na estação de esqui. Gabriel está em minha casa, enquanto me ajuda nas reformas.
Glória pareceu feliz ao saber que ele estava empregado.
- Que bom! - falou. - Eu pensei... Bem, deixa para lá. - Sorriu misteriosamente. - Ele trabalhou na estação de esqui também. Peça-lhe para contar a você.
Whitney percebeu que havia muito mais por trás daquela simples sugestão, mas não tinha idéia do que fosse. Sentiu um calafrio.
Antes que pudesse fazer mais perguntas, Gabriel e Rafael apareceram, e ela ficou desconfiada. Gabriel podia ter trabalhado para aquele homem na estação de esqui, mas parecia que os dois se conheciam havia muito tempo. O xerife olhou-os atentamente, como um predador à procura da presa. Whitney amedrontou-se e tentou sorrir normalmente, enquanto era apresentada a Rafael.
Estava ciente da tensão que Gabriel tentava esconder de todos. Se não estivesse atenta a cada movimento dele, também não perceberia. O xerife teria parado Gabriel e insinuado coisas? E se as mercadorias roubadas fossem descobertas na fazenda abandonada, e prendessem Gabriel? Alguém acreditaria que ele era inocente?
Whitney pôs a mão na testa, subitamente necessitando afastar-se daquelas pessoas que pareciam tão amigáveis e ao mesmo tempo tão cruéis.
- Estou com dor de cabeça - mentiu. - Acho que vou para casa.
Gabriel pousou a mão no queixo dela e forçou-a a encará-lo.
- Tudo bem - concordou, embora não estivesse compreendendo nada. - Obrigado pelo convite, Glória. Daremos uma resposta em breve.
Whitney tomou consciência de que não ouvira o convite que a mulher fizera.
- Não demorem muito - Glória aconselhou, sorridente. - Partiremos na semana que vem.
- Glória e eu nos casaremos na casa dos pais dela, no próximo sábado - Rafael esclareceu.
- Ah... - Gabriel murmurou.
Whitney teve vontade de dar um beliscão nele por responder tão secamente.
- Parabéns - falou, Tenho certeza de que serão muito felizes.
Rafael olhou para a noiva.
- Não tenho dúvida - declarou.
- Nem eu - Glória reforçou. Seguiu-se um breve silêncio.
- É melhor irmos - Gabriel disse,- a estrada deve estar coberta de neve.
Despediram-se do casal de noivos, e Gabriel ajudou Whitney a vestir a parca, mostrando-se com muita pressa de ir embora. Quando ele manobrava o veículo, ela viu um homem alto, de uniforme, saindo do centro comunitário.
Durante todo o caminho, ela olhou para trás, mas não viu nenhum carro seguindo-os. No entanto, por alguma razão, tinha certeza de que o xerife estava no encalço deles.
- Alguma vez você já teve a sensação de que algo está para acontecer, mas não sabe o que é? - Whitney indagou.
Gabriel fitou-a de soslaio, porém não disse nada.
- É como eu me sinto agora - ela explicou. - Uma premonição de perigo, sei lá.
- Leva premonições a sério? Não devia. Acho melhor parar de ler aqueles livros de mistério.
Whitney tinha certeza de que ele a estava enganando, impedindo-a de descobrir alguma coisa, encobrindo fatos. Pressionou os lábios e não disse mais nada.
Whitney, deitada na cama, ficou olhando para o teto, com mil pensamentos correndo pela mente. Não conseguia esquecer os dois conselhos de Gabriel: não permitir que seu coração se ferisse e não levar premonições a sério.
Daquele momento em diante, teria mais cuidado, não dividiria suas apreensões com ele. Observaria e esperaria. Acabou adormecendo. Pouco antes do amanhecer, acordou abruptamente e foi para a janela a tempo de ver Gabriel atravessar o bosque e pular a cerca que dividia as duas propriedades.
Um homem encontrou-o lá, e os dois seguiram na direção do bosque. Whitney correu para pegar o binóculo, mas quando voltou já era tarde, pois os dois já haviam desaparecido entre as árvores.
Trinta minutos depois, quando pensava em voltar para a cama, viu Gabriel saindo de trás de um pinheiro. Ele parou, olhou ao redor, então pareceu olhar para a janela do quarto dela.
Mesmo sabendo que não podia ser vista, Whitney ficou tensa. Quando Gabriel voltou a caminhar, ela se apressou em vestir-se, e descer. Encontrava-se na cozinha, quando ouviu-o entrar pela porta da frente, subir a escada, tornar a descer.
Gabriel entrou na cozinha e fitou-a de modo estranho.
- Acordou cedo - comentou.
- Você também - ela respondeu, oferecendo-lhe uma xícara de café.
- Tinha coisas a fazer.
- Por exemplo?
Whitney notou que ele estava furioso, mas não sabia se era com o homem com quem se encontrara, ou com ela.
- Você não vai me contar? - indagou.
- Não, não vou contar - Gabriel respondeu, tomando um gole de café. - Você disse que confiava em mim. Prove.
- Como?
- Não faça mais perguntas. Não tente descobrir o que estou fazendo, ou o que vai acontecer. Não é problema seu, e não quero ter de me preocupar com você.
Gabriel pedia uma confiança cega. Whitney estremeceu.
- Não posso deixar de ficar preocupada, mas não vou interferir - assegurou. Eu prometo.
CAPÍTULO VIII

Witney parou no meio da sala de estar e olhou para a mobília que ela e Gabriel haviam trazido do porão e do sótão.
- Não gostei - falou.
Ele bufou, mas foi ignorado.
- Vamos trazer o sofá para cá - Whitney pediu.
- Era onde estava, dois minutos atrás.
- É o melhor lugar. Um, dois, três, já! Ergueram o sofá e carregaram-no para o lugar anterior.
Depois do esforço, ela se encostou na parede e respirou fundo.
- Descanse um pouco - Gabriel recomendou.
- Não. Quero deixar a sala de estar arrumada. Vamos pôr a mesa e as cadeiras em frente àquela janela.
Com a ajuda de Gabriel, arrumou os móveis da sala e da antecâmara. Quando tudo estava no lugar, como ela desejava, ele colocou as mãos nos bolsos da calça, observando-a caminhar pelo aposento.
- Está perfeito - Whitney declarou. - Quero abrir a casa no final do mês, para visitação. Acha que conseguiremos?
- Talvez.
- Vi umas roupas antigas num baú, lá no sótão. Vou ver se encontro um vestido, depois que terminar de colocar o papel de parede no corredor. Talvez eu consiga achar um em estilo vitoriano, para usar na inauguração. O que vai fazer esta tarde?
- Vou trabalhar nas janelas.
Gabriel passara os últimos dias cuidando dos encanamentos e das janelas. O telefone tocou. Ela foi até o vão sob a escada, transformado em espaço de recepção, e atendeu.
- Pensão B & B - anunciou.
Um homem queria saber se ela teria dois quartos disponíveis para o final de semana e disse que fora o proprietário da estação de esqui quem dera a indicação.
- Este final de semana? - ela repetiu. - Desculpe, mas não estaremos...
Gabriel tirou-lhe o fone da mão.
- Recepção - declarou. - Vou checar nossa agenda. - Sorriu para Whitney. - Não teremos quartos disponíveis antes de março, desculpe.
Informou o preço das diárias, muito mais alto do que Whitney pretendia cobrar. Ela aguardou que ele anotasse o nome, endereço e telefone do homem e desligasse o telefone, antes de censurar:
- O que fez foi horrível, quero dizer, mentir para o homem...
- Eu menti?
- Disse que estávamos lotados.
- Não, eu disse que não tínhamos quartos disponíveis até março, e é verdade, não?
- Bem, é, mas você deu a entender...
- O que ele pensou é problema dele.
Gabriel entregou-lhe a folha de papel com os dados do homem.
- Vou ao porão, pegar a caixa de ferramentas.
- O preço que você deu foi muito alto - Whitney disse. - A maioria das pessoas não pode pagar tal preço por um quarto.
Ele, que começara a andar, parou e virou-se.
- Elas podem se dar ao luxo de viajar. Você devia ver as propagandas nas revistas de viagem. Dê ênfase aos aspectos saudáveis deste lugar: nada de outdoors, nada de poluição, ao contrário, ar puro, natureza, esse tipo de coisa.
- Eu estava pensando em famílias que não podem pagar o preço da estadia na estação de esqui, mas que adorariam ficar aqui.
Gabriel observou-a por alguns instantes, então sorriu.
- Eu devia saber - murmurou, em seguida movimentou a cabeça negativamente e seguiu seu caminho. - Você não é capaz de explorar ninguém.
Ela saboreou aquele tenro sorriso, antes de ler o que estava escrito no papel. Aquele seria seu primeiro hóspede.
No final da tarde, Whitney subiu ao sótão. Aproximou-se das caixas de papelão e dos baús. Abriu um deles e encontrou o vestido de noiva da avó. Colocou o vestido na frente do corpo e andou até uma janela para olhar seu reflexo na vidraça. Tentou sorrir, mas não pôde. O momento parecia muito solene, e ela pensou em todas as esperanças e sonhos que aquela vestimenta despertava.
Num impulso, tirou a calça jeans e o suéter e vestiu o vestido. De repente, Gabriel apareceu e ajudou-a a fechar os botões do vestido, fazendo-a arrepiar-se, cada vez que sua mão roçava-lhe as costas.
Quando terminou, ele soltou os cabelos ruivos e ajeitou-os sobre os ombros dela, então ajudou-a a colocar a grinalda na cabeça. Virou-a para si e fitou-a bem dentro dos olhos.
- Uma noiva devia parecer feliz, não apreensiva - comentou.
- Não sou uma noiva.
Ele pousou as mãos nas faces dela e olhou para os lábios sensuais.
- Por favor... - ela murmurou.
- Não, não posso fazer isso - ele murmurou, soltando-a. - É errado, não faz parte do plano.
- Por quê? Como pode ser errado, se ambos queremos?
Ele a segurou pelos pulsos, como se não quisesse ser tocado.
- Não tenho nada para lhe dar - falou.
- Dê você mesmo.
- Isso não é suficiente. Você quer viver aqui. Quer um nome limpo, não um que desperte suspeitas e desconfianças.
- Eu não me importo.
- As pessoas nunca esquecem. As maledicências sempre a perseguirão, como no dia em que fui à cidade com você, como aquela noite, no centro comunitário. Sei o que todos pensam.
Gabriel respirou fundo, fazendo uma pausa.
- "Aquele não é o jovem Deveraux, um ladrão?" - continuou. - Quer que isso a persiga para o resto da vida?
- Eles o verão com outros olhos, se você morar aqui e provar que estão errados.
- Levando uma vida exemplar? A natureza humana não funciona assim, irlandesa. Vou me arrepender, vou odiar este lugar, como já aconteceu antes.
- Seria diferente, agora. Você estaria comigo. Gabriel suspirou e fitou-a.
- Você quase me fez voltar a acreditar. Quase - sussurrou.
Whitney pestanejou, mas as lágrimas começaram a cair. Ele acariciou-lhe as faces.
- Ah, irlandesa - murmurou, abraçando-a.
Beijou-a apaixonadamente. Empurrou-a contra a parede, afagando-a, massageando os seios redondos, colocando uma perna entre as dela.
- Nunca me senti assim - Whitney confessou.
- Eu sei. É muito forte.
- É.
- Beije-me com mais paixão, irlandesa.
Ela tentou dar a Gabriel tudo o que ele desejava e mais um pouco. Quando ele abriu os botões do vestido e deslizou a parte superior até a cintura dela, Whitney não teve como conter um gemido de prazer.
- Eu sabia que seus seios eram lindos - ele murmurou, deslizando a mão pelo colo acetinado. - Você tem sardas...
- Elas só aparecem quando uso biquíni.
- Se depender de mim, você nunca usará nada. Aquela idéia era fantasticamente romântica para Whitney, que viu os dois como Adão e Eva num jardim de prazeres.
- Gostei - ela murmurou, desesperada por ser admitida naquele paraíso. Seremos livres para correr pelo campo, fazer amor onde e quando quisermos.
- No riacho, sob os salgueiros. É, no verão, eu gostaria de fazer amor com você na água, embaixo dos salgueiros.
Ele sugou um mamilo, depois outro. Ela gemeu e fechou os olhos, deliciando-se com a sensação.
- Continue... - pediu. - Onde mais faremos amor?
- Nas montanhas, no bosque...
- Será maravilhoso.
- Você irá tremer, quando eu a tocar, e será preciso que me matem, para deixá-la partir.
Whitney abriu os olhos. Gabriel observou-a com um brilho intenso no olhar, então acariciou-lhe o rosto.
- Seria o céu e o inferno. Cada parte de seu corpo guarda promessas de boas e inesquecíveis recordações. Se fizéssemos amor...
Ela ficou desapontada. Ele dissera "se fizéssemos", não "quando fizermos".
- Por que não podemos fazer amor? - perguntou, agarrando-se ao suéter dele.
- Porque tenho de...
Whitney esperou que ele completasse a frase, mas Gabriel não completou. Ele se afastou e olhou-a de cima a baixo, mas foi como se estivesse vendo um quadro que quisesse guardar na lembrança, por saber que jamais teria a oportunidade de revê-lo.
- O banheiro ficou pronto - informou. - Foi o que vim lhe dizer.
Ela ouviu os passos dele ecoarem pela escada. Quando não mais os ouviu, tirou o vestido de noiva e vestiu novamente a calça e o suéter. O sonho acabara. Ela estava de volta à dura realidade.
Depois de guardar o vestido no baú, mexeu nas outras caixas de papelão, separou alguns objetos e decidiu jogar outros fora. Já era noite, quando desceu, relutante em encarar Gabriel. Mas logo percebeu que não devia ter se preocupado, pois ele saíra.
Whitney caminhou de um lado para o outro da sala, olhando para o relógio e contando os minutos. Já passava de meia-noite, e Gabriel ainda não voltara. Ela repetiu diversas vezes a promessa que fizera de não interferir nas ações dele.
Cerrou os punhos e aproximou-se da janela. Desejou que ele estivesse tendo um caso, pois assim, ao menos, saberia que estava seguro, na casa de alguém.
Sentiu um aperto no coração ao imaginá-lo nos braços de outra mulher. Queria-o seguro, mas a seu lado, em seus braços, em sua cama.
Olhou na direção da outra fazenda. Gabriel devia estar lá. Naquele momento, ele podia estar se confrontando, sozinho, com ladrões, furioso por eles estarem usando sua propriedade como esconderijo.
Não, ele não seria tão imprudente. Podia estar irado, mas era cuidadoso e perspicaz. "Confie em mim". Aquelas palavras ecoaram na mente de Whitney. Ela dissera que não interferiria, mas e se ele estivesse caído na neve, ferido, sangrando?
Não sabia o que fazer. Devia ligar para o xerife e exigir que ele desse uma busca na fazenda Deveraux? Se fizesse isso, Gabriel ficaria enfurecido.
"Confie em mim". Mas e se ele estivesse precisando de ajuda? Whitney voltou a andar de um lado para outro. Parou em frente à lareira e olhou para as toras em fogo. Suspirou, sentou-se na cadeira de balanço e decidiu que esperaria mais uma hora, então tomaria uma providência.
Whitney acordou sobressaltada. Olhou ao redor, confusa, então foi ao banheiro, lavou o rosto, prendeu os cabelos e dirigiu-se à cozinha. Eram seis horas da manhã. Gabriel fizera café. Já se levantara, ou talvez nem houvesse dormido.
Whitney subiu a escada, indo na direção do quarto dele, mas, como sempre, a porta estava fechada. Depois de bater duas vezes, respirou fundo e abriu-a. A cama estava vazia e arrumada. Era difícil saber se ele passara a noite ali.
Nada de roupas espalhadas pelo chão, nada de escova ou qualquer objeto de uso pessoal à vista. Aquilo provocou uma estranha sensação em Whitney, como se Gabriel nunca tivesse existido ou morado ali. Ela abriu o armário e viu a mala dele, com todas as roupas dentro, como se ele se achasse pronto para partir a qualquer momento.
Fechou a porta do armário e saiu do quarto, mais preocupada ainda. Voltou para a cozinha e tomou uma xícara de café. Imaginou Gabriel caído na neve, machucado e inconsciente, sangrando. Ele podia estar chamando por ela, precisando de sua ajuda.
Whitney, tomando uma decisão, foi para o quarto, vestiu um suéter mais quente, a parca, colocou um chapéu preto na cabeça e calçou meias, botas e luvas. Saiu de casa e caminhou até a cerca que dividia as duas propriedades. Passou por baixo do arame e aproximou-se do que parecia ser um velho galinheiro.
O silêncio começou a deixá-la nervosa. Reunindo toda a coragem, ela andou na direção do celeiro, mas, ao abrir a porta, ficou espantada com o que viu: computadores, impressoras, máquinas de xerox e de fax, novinhos, cobertos com plásticos. Whitney calculou que ali havia uma fortuna. Por alguns segundos, sua fé em Gabriel perdeu a força.
Ela se enganara a respeito dele? Não, não podia pensar assim. Ele não fazia parte de uma quadrilha! Voltara para a cidade para limpar seu nome. Whitney ouviu um barulho. Olhou para cima e viu uma coruja. Ficou tensa. Pousou a mão na altura do coração e correu para fora do celeiro.
Olhou para a velha casa e viu as janelas quebradas e o telhado parcialmente destruído. A porta da garagem estava aberta, mas não havia nenhum veículo lá dentro. Ela suspirou, aliviada por não notar a presença de ninguém.
Circundou o celeiro e não viu nenhum sinal de Gabriel, nem de luta. Achou que estava sendo idiota. Devia voltar para casa e ao trabalho, antes que Gabriel aparecesse. Se aparecesse. Se não houvesse fugido.
Não, Whitney não podia pensar daquela maneira. Gabriel não era um ladrão. Era um homem honesto, determinado a limpar-se das manchas do passado.
Um súbito pensamento deixou-a gelada. E se ele fora preso? Whitney decidiu que ligaria para o xerife e falaria dos equipamentos escondidos na fazenda Deveraux, se Gabriel não estivesse em casa quando ela voltasse.
Se estivesse, ela perguntaria se ele tinha conhecimento dos equipamentos roubados, escondidos em seu celeiro. Não, não teria coragem de perguntar, pois ele descobriria que ela não cumprira a promessa de não interferir. Fechou os olhos, desesperada. Não sabia o que fazer.
Gabriel parou no meio do pequeno cemitério e olhou em volta. Daquela colina, tinha uma boa visão de sua fazenda e da propriedade de Whitney. Nuvens negras cobriam o céu. Outra nevasca se aproximava. Aquilo faria com que os ladrões retirassem os equipamentos do celeiro antes que as estradas fechassem.
Pelo menos, era o que Gabriel esperava que acontecesse. Estava cansado de esperar. Queria continuar a viver, queria seguir em frente. Mas, para onde iria? Suspirou e sentou-se num túmulo. Lembrou-se dos grandes olhos azuis e dos cabelos ruivos de Whitney. Não sabia o que fazer com ela.
Tentara avisá-la, pois quando fosse embora... Deu um soco na coxa, furioso com a vida. Seus planos eram pegar os ladrões, vender a fazenda e partir. Seria simples, se não existisse uma ruiva que conquistara seu coração. Ela acreditava que ele podia passar o resto da vida ali, que os moradores da cidade esqueceriam o passado e o aceitariam, como se nada tivesse acontecido.
Mas Gabriel tinha certeza de que, ao primeiro sinal de problemas, ele seria o suspeito número um. Era uma pena, mas todas as suas recordações da fazenda e da cidade eram tristes.
Contudo, tinha lembranças recentes, que não eram ruins. Como num filme, recordou o trabalho com Whitney, na reforma da casa, as risadas, os rostos cobertos de poeira, ela vestida de noiva no sótão, os beijos que trocaram, o desejo que ardia em seu corpo...
Loucura. Aquilo era pura loucura. Whitney não fazia parte de seus planos. Às vezes, olhava para ela e pensava em construir um lar e ter uma família.
Pondo-se de pé, andou para a saída do cemitério. Não devia ficar sonhando com o que não podia acontecer. Um homem que não aprendia com os erros do passado era um completo imbecil.
Um movimento em sua propriedade chamou-lhe a atenção, no momento em que ele ia fechar o portão do cemitério. Havia alguém lá embaixo. Correu para lá, pegando um atalho.
Então, devagar, mantendo uma certa distância, para que a pessoa não o visse, andou ao longo da cerca e posicionou-se atrás de uma árvore próxima. Concluiu que a pessoa dirigia-se para a casa de Whitney. Ficou preocupado, pois vira um dos ladrões na fazenda, logo pela manhã. Havia sido a primeira vez que um deles fora checar o material roubado, o que indicava que em breve o retirariam do celeiro.
E se os bandidos tivessem descoberto que ele estava trabalhando para Whitney?
Talvez alguém houvesse sido enviado para vigiá-lo, para que não atrapalhasse os planos da quadrilha.
Seria outra indicação de que aquela situação caminhava para o fim. Que bom. Quanto antes, melhor para Gabriel, pois logo ele poderia sair daquela cidade miserável. Por alguns instantes, ele pensou em Whitney e imaginou que, naquele momento, ela devia estar andando de um lado para o outro da casa, perguntando-se onde ele estava.
Comentou consigo mesmo que o destino não fora justo, quando colocara Whitney em sua vida, tentando-o com os lábios carnudos, os sorrisos amplos, os sonhos de um futuro tranquilo. Sentiria muita saudade dela.
Devia concentrar-se e não sair do rumo que traçara. Voltou a atenção para a pessoa que se aproximava da cerca de arame farpado. Tirou a arma da cintura e esperou para ver quem era, pois tinha a sensação de que se tratava de alguém conhecido.
Provavelmente era um dos moradores da região. Talvez alguém com quem ele tivesse estudado. Ajeitou a arma na mão, sem desviar os olhos da pessoa. Fazia tempo que se cansara daquele trabalho, e pensava em abandonar o serviço secreto. Tornou a pensar em Whitney e experimentou estranhas sensações, distraindo-se por um momento.
Ela dissera que confiava nele. Talvez confiasse mesmo. Mas o que aconteceria, quando chegasse a hora em que seria a palavra dele contra a de todos? Ela ficaria a seu lado? Gabriel duvidava. Ninguém ficara a seu lado, nem seu pai, nem o diretor da escola, nem o pastor da igreja, nem o xerife da época.
Olhou para o bosque. Para onde fora o intruso? Um movimento entre os pinheiros chamou a atenção de Gabriel. Ele apontou a arma naquela direção. Se tivesse de atirar, miraria no ombro. Não queria matar a pessoa, apenas fazê-la parar e responder a algumas perguntas. Ficou pasmo ao ver Whitney sair do bosque e caminhar rapidamente para casa. Ela estivera na fazenda Deveraux, espionando-o! Era aquela sua confiança?
CAPÍTULO IX

Whitney passou por baixo da cerca de arame farpado, tomando o cuidado de não prender a parca. Sentia-se uma idiota. Precisava voltar para casa antes que Gabriel aparecesse e descobrisse que ela quebrara a promessa de não interferir nas ações dele.
Estava preocupada, o que era natural, mas se convencera de que Gabriel acordara cedo para ir pescar, esquiar ou dar uma caminhada. Queria parecer indiferente quando ele aparecesse, não perguntaria nada, não permitiria que ele soubesse de seu momento de desconfiança.
Abriu a porta da frente da casa, caminhou até o meio da antecâmara e notou que Gabriel não havia chegado. Em pânico, pensou que ele nunca mais voltaria, então ouviu o rangido dos degraus da varanda. Correu para abrir a porta e viu-se frente a frente com Gabriel.
- Onde esteve a noite toda? - indagou, furiosa por ele a ter deixado preocupada, esquecendo-se de que dissera a si mesma que seria indiferente.
- Esteve me espionando?
Whitney pensou nas longas horas que passara esperando-o, a desconfortável noite na cadeira, a nervosa e apreensiva busca no quarto dele, nos equipamentos roubados no celeiro da fazenda abandonada.
- Claro que não - negou, enrubescendo.
- Vi você vindo da fazenda. Prometeu não interferir. Deu sua palavra.
Quando ele avançou um passo, ela recuou. Whitney sentiu-se culpada por ter quebrado a promessa e por não saber o que fazer a respeito das mercadorias no celeiro, se as ignorava ou fazia uma denúncia. Sabia que a velha fazenda vinha sendo usada de modo ilegal e concluiu que uma pessoa inocente com certeza chamaria o xerife, a menos que quisesse capturar os bandidos sozinha.
A tensão entre eles aumentou com o silêncio. Por favor, acredite em mim, Whitney implorou em pensamento. Explique o que esteve fazendo. Conte seus segredos.
Olhando bem dentro dos olhos escuros, achou que podia estar sendo uma idiota, mas via neles bondade e honra. Enquanto ela o fitava, a expressão de Gabriel mudou, tornando-se séria e distante.
- Onde esteve? - Whitney indagou.
- Isso importa? Você já não decidiu se sou culpado ou inocente?
Ela desviou o olhar, incapaz de admitir suas dúvidas.
- Fique fora de minha vida - Gabriel ordenou. - Contanto que eu faça o trabalho para o qual você me contratou, o que faço com meu tempo livre é problema meu, entendeu?
Era difícil acreditar que aquele Gabriel ríspido era o mesmo que a beijara apaixonadamente havia menos de vinte e quatro horas. Mas era um homem que vivera sozinho por muito tempo. Nunca dividia nada com Whitney, nem seus pensamentos ou sentimentos, nem mesmo sua paixão.
- Entendi - ela respondeu, erguendo o queixo, não se deixando intimidar. - O que devo fazer com suas roupas, se você desaparecer, como desapareceu ontem à noite, e não voltar?
Gabriel surpreendeu-se com o tom de voz frio e com a pergunta. Hesitou alguns segundos antes de dizer:
- Dê-as para uma instituição de caridade. Whitney moveu a cabeça afirmativamente, virou-se e foi para o quarto, sentindo-se arrasada. Parou no meio do corredor, olhou por sobre o ombro e viu que Gabriel permanecera na antecâmara, olhando pela janela.
Perguntou-se o que ele via lá fora. Estaria a montanha, com os cumes cobertos de neve, chamando-o para longe? Estaria o rio congelado dizendo-lhe para seguir outro caminho, para não ficar no mesmo lugar por muito tempo?
Gabriel estava na casa de Whitney havia um mês e meio, e ela ainda não entrara em seu coração. Ele se recusava a ser defendido por ela, quando ouvia críticas, insinuações ou olhares acusadores do pessoal da cidade. Não desejava nada que viesse dela.
Era um homem solitário e independente. As duas palavras o descreviam com exatidão, ao mesmo tempo que excluíam Whitney. Ela vestiu um macacão surrado e disse a si mesma que havia muito trabalho a ser feito e que, daquele momento em diante, manteria a mente centrada nos negócios, não se deixando levar pelo coração.
Whitney alisou a última folha de papel de parede do quarto de hóspedes. Fechou a lata de cola e dirigiu-se ao banheiro, para lavar-se.
O cheiro de sopa que sentiu ao entrar na cozinha fez com que ela se lembrasse de que ainda não almoçara. Olhou para o relógio e viu que já eram duas horas da tarde. Gabriel estava trabalhando no andar superior. Eles não haviam trocado mais do que dez palavras, desde o dia em que ela fora à fazenda Deveraux.
Whitney preparou torradas e encheu dois pratos com sopa. Depois de colocar tudo na mesa, saiu da cozinha, subiu a escada e foi ao aposento onde Gabriel pintava o parapeito da janela. Parando no vão da porta, observou-o por alguns instantes.
- Nunca vi ninguém que precisasse de um binóculo para pintar parapeitos de janela - falou com ironia.
Gabriel virou-se, segurando um pincel numa das mãos e o binóculo na outra, então caminhou até a mesa. Pousou o binóculo ali, depois jogou o pincel num balde com água e tampou a lata de tinta.
- Eu estava observando algo que me pareceu um urso - explicou. - Já terminei de pintar.
Whitney sabia que ele estivera observando sua fazenda, mas preferiu não fazer comentários.
- Que bom que terminou - disse. - O almoço está pronto.
Ficou feliz por manter uma atitude indiferente, pois daquela maneira Gabriel não poderia acusá-la de estar interferindo em sua vida. Voltou para a cozinha e acomodou-se à mesa. Ele apareceu minutos depois, após lavar-se. Comeram em silêncio.
- A sopa estava boa - Gabriel elogiou ao terminar.
- Obrigada.
Ele notou que ela se recusava a encará-lo, não apenas durante as refeições, mas sempre que se encontravam. Disse a si mesmo que aquilo pouco importava. Estava certo de que Whitney vira o equipamento roubado no celeiro da fazenda. Era óbvio que ela suspeitava de que ele fazia parte do bando de ladrões.
Sentira-se magoado, mas o que esperava? Que ela confiasse cegamente num sujeito de passado duvidoso? Por que ele não contava a verdade, já que a missão acabaria em breve? O xerife já entrara em contato.
A mercadoria seria retirada do celeiro dentro de vinte e quatro horas, de acordo com o informante da polícia. A armadilha para pegar os ladrões estava armada. Logo, todos, inclusive Whitney, saberiam da verdade.
Por alguma razão, aquilo não o deixava satisfeito. Olhou para a fumaça saindo da chaleira, no fogão. O problema era Whitney, com sua atmosfera caseira. Ele ficaria feliz, quando saísse dali. Talvez pedisse demissão do serviço secreto imediatamente.
Ou, melhor, talvez visitasse seu velho amigo, Robert Houston, e a esposa dele, na Virgínia, antes de decidir o que faria. Teve a impressão de que sua vida seria vazia e sem sentido e sentiu-se vulnerável, sentimento que nunca o havia incomodado antes.
Vejam o que a irlandesa fez comigo!, pensou. Preciso sair desta casa. Preciso ir à cidade, ver o xerife, jantar fora. Isso me manterá ocupado por algumas horas. Levou os pratos e talheres para a pia, passou um pouco de água neles, então colocou-os na máquina de lavar louça.
- Escute, desculpe por algum problema que eu tenha causado - falou. - Não planejei encontrá-la, não planejei a atração entre nós.
Whitney percebeu que ele estava com pena, e isso era algo que ela não aceitava.
- Não tem importância - declarou.
- Não? - Gabriel sorriu. - Pois eu queria que as circunstâncias fossem diferentes.
- Estou bem. Atração não significa que tenhamos de passar a vida inteira devotados um ao outro.
Depois daquela frase, Whitney levantou-se da mesa e saiu da cozinha. No quarto, caminhou de um lado para o outro, inquieta. Sentiu que precisava sair de casa e decidiu ir à cidade, fazer compras, assistir a um filme, ficar longe dali por algumas horas.
Tomou banho e vestiu-se, escolhendo um suéter com listras vermelhas, brancas e azuis e calça jeans. Prendeu os cabelos com uma fita vermelha e maquilou-se. Olhou-se no espelho e sorriu.
Pegou a parca e as luvas e seguiu para a porta da frente. Gabriel descia a escada. Eles se olharam, surpresos.
- Eu ia pedir a caminhonete emprestada, mas vejo que vai sair - ele disse.
Ela achou que havia um brilho intenso no olhar de Gabriel, quando ele a examinou de cima a baixo, mas acabou decidindo que fora sua imaginação.
Ele vestia calça jeans preta, camisa branca e jaqueta de couro.
- Vou até Ashland - Whitney informou. Fazer compras. Não voltarei tão cedo.
- Eu também tenho umas coisas para fazer lá.
- Talvez eu vá assistir a um filme.
- Tudo bem.
Desistindo de tentar convencê-lo a não pegar carona, Whitney tirou da bolsa as chaves da caminhonete, e os dois saíram juntos de casa.
Dirigindo pela estrada escorregadia, ela se perguntava que tipo de jogo Gabriel tinha em mente, pois, se tentava confundi-la, estava conseguindo.
Ao chegarem na cidade, ela encontrou uma vaga em frente a uma pequena loja e estacionou a caminhonete ali.
- A que horas e onde nos encontraremos? - indagou, desligando o motor.
Gabriel olhou para o relógio.
- Aqui mesmo, daqui a duas horas? - sugeriu.
- Tudo bem.
Ambos desceram do veículo e seguiram caminhos opostos. Quando Whitney olhou para trás, já não viu Gabriel. Ele tinha a habilidade de desaparecer sem deixar vestígios.
Ela recordou o dia em que o encontrara. Mesmo machucado, ele se mantivera alerta. Em muitas ocasiões, mostrara ter reflexos rápidos e atenção aguçada. Apenas alguém que vivia em constante perigo agia daquela forma.
Whitney tentou imaginar a vida de um adolescente de dezesseis anos de idade, sozinho no mundo, sem ninguém em quem confiar. Gabriel sobrevivera, mas a que preço?
De súbito, uma triste sensação de tempo esgotando-se dominou Whitney. Colocando esses pensamentos de lado, ela entrou numa loja, olhou as roupas expostas e escolheu uma saia longa, preta. Comentou consigo mesma que, com uma camisa branca, formaria um conjunto perfeito para receber os hóspedes. Provou a saia e decidiu comprá-la.
Entrou em mais quatro lojas, antes de encontrar a camisa que desejava, branca, de seda. Olhando para o relógio de pulso, ao sair da loja, viu que estava dez minutos atrasada. Gabriel já estava a sua espera ao lado da caminhonete.
- Fez as compras? - perguntou. Pegou as chaves da mão dela e abriu a porta do motorista, para que Whitney guardasse as sacolas. - Que tal um jantar?
Ela o fitou, surpresa, pois comida era a última coisa que passava por sua cabeça. Sentiu os lábios secarem, enquanto movimentava a cabeça afirmativamente. Xingou-se de idiota, pois seria um simples jantar. Fazia um mês e meio que comiam juntos, três vezes por dia. Ir a um restaurante não seria muito diferente.
Gabriel segurou-a pelo braço e guiou-a até um pequeno restaurante a duas quadras de onde a caminhonete estava estacionada. A iluminação do estabelecimento era tênue, e ele pediu uma mesa isolada.
Whitney olhou-o. Uma "mesa isolada" soara muito íntimo. Ele a fitou e não fez nenhum comentário. Ela ficou arrepiada. A noite indicava mil possibilidades. Quando estavam acomodados à mesa, os dois olharam-se, sabendo que aquela noite seria diferente.
- Vou fazer amor com você aqui mesmo, se continuar a me olhar assim - Gabriel alertou-a.
- E como você está olhando para mim.
- Eu sei, mas um de nós precisa ser sensato.
- Por quê?
- Precisam de mais alguns minutos? - o garçom indagou educadamente.
Whitney olhou para o cardápio.
- Gosta de lagosta? - Gabriel perguntou.
Ela assentiu, movendo a cabeça. E o que iriam comer importava?
Ele fez os pedidos, e o garçom afastou-se. Whitney sorriu, com receio de confiar naquela estranha atmosfera de intimidade que se criara entre ela e Gabriel.
Quando o prato de entrada chegou, junto com o vinho e o pão quente, ele cortou uma fatia, passou manteiga e entregou-a a Whitney.
Ela tentou esconder o nervosismo que aquele gesto carinhoso provocou, mas seus dedos trêmulos traíram-na.
- Você também me deixa nervoso - ele confessou. Whitney tentou imaginar como aquele delicado jogo amoroso iria terminar. A distância entre eles já não mais existia, assim como as regras que Gabriel impusera, embora ela não entendesse por quê.
Não pense, ordenou a si mesma. Apenas aproveite este momento.
- A temperatura parece estar aumentando, não? - comentou, pois o silêncio incomodava-a.
- E está.
- Acho que a primavera chegará mais cedo. Gabriel sorriu. Whitney ficou excitada e baixou o olhar, com medo de expor-se. Ele estendeu o braço e afagou-lhe o rosto.
- Acho que uma onda de calor já está se aproximando - disse.
- Gabriel...
Ela não sabia o que dizer, embora houvesse muito a ser dito.
- Eu gosto disso - Gabriel falou.
- Do quê?
- Do som de meu nome em seus lábios. Quando estivermos sozinhos, talvez você o diga de novo.
- Direi.
- Uma simples palavra que oferece muita coisa - ele murmurou, introspectivo, em seguida suspirou e franziu a testa. - Isto não devia estar acontecendo. Não agora.
- Por quê?
Whitney sentia que o que acontecia entre eles era inevitável, como o movimento dos planetas ao redor do sol.
- Não posso ficar tão vulnerável - Gabriel respondeu.
- Desejá-la faz doer meu coração. Durmo com essa dor, acordo com essa dor. Não há como escapar.
Ela ficou arrepiada, pois ele acabara de confessar que, mesmo sendo forte e independente, precisava dela tanto quanto ela precisava dele.
- No que está pensando? - Gabriel indagou.
- Nunca conheci um homem como você. Eu o seguiria até o fim do mundo.
Whitney sentia que seria capaz de desistir de seu sonho só para seguir Gabriel. Mas não estaria abandonando um sonho, e sim embarcando em outro, porque era preciso um homem e uma mulher para formar um lar, um porto seguro cercado de amor, como aquele que seus avós haviam tido.
- Nunca pensa em se proteger? - Gabriel perguntou de repente.
- Claro que pensaria, se eu ao menos soubesse do que devo me proteger.
- Eu a deixo confusa, não? Não se sinta mal. Eu também estou confuso.
- O que quer de mim?
- Tudo e nada.
- Ah, agora está tudo muito claro - Whitney ironizou.
- Você tem coragem, Whitney Thompson. Se estivéssemos em outra época, em outro lugar...
- O que há de errado com o aqui e o agora?
- Aqui e agora, sem pensar no futuro e no passado? As mulheres, em geral, exigem dos homens um bom nome, querem saber quanto eles ganham...
- Bem, eu sei quanto você ganha - Whitney brincou. Gabriel, porém, não sorriu.
- Você me conhece melhor do que muitas pessoas que me viram crescer. Isso é enervante.
Whitney prendeu uma mecha de cabelos atrás da orelha.
- Viver na mesma casa faz diferença - falou. - Já o vi resmungando e impaciente, já o ouvi assobiar quando está feliz. Você tem hábitos pessoais muito bons e é organizado, me ajuda a lavar a louça...
- Sou um modelo de perfeição.
- Um bom homem.
Gabriel suspirou.
A comida chegou, jantaram em silêncio e, ao terminarem, recusaram a sobremesa, mas aceitaram café.
- Vamos embora? - ele convidou após pagar a conta.
- Vamos.
Caminharam de volta à caminhonete e notaram, admirados, a quantidade de carros estacionados ou circulando pelas ruas, fora o grande número de turistas que enchiam as calçadas.
- Ashland está crescendo - Whitney comentou. - Já não é mais uma cidade estudantil e uma comunidade rural.
Gabriel ajudou Whitney a entrar na caminhonete pelo lado do passageiro, antes de acomodar-se atrás do volante. Minutos depois, estavam a caminho de casa.
Ao chegarem, após desligar o motor, ele segurou as mãos dela entre as suas e disse:
- Não vai acontecer nada.
- É disso que tenho medo.
- E se algo acontecer?
Whitney não tinha resposta. Eles desembarcaram e, ao se aproximarem da porta da casa, Gabriel parou e virou Whitney, de modo que ficassem frente a frente.
- Se este foi um encontro, nosso primeiro encontro, vou deixá-la aqui - ele declarou.
- Sem um beijo?
- Com.
Gabriel abraçou-a e beijou-a apaixonadamente, deslizando as mãos até a cintura delgada, pressionando o corpo dela contra o seu. Whitney enlaçou-o pelo pescoço largo, afagando os cabelos pretos.
- Vamos entrar - ele sussurrou, abrindo a porta. Foram para o quarto dela, de mãos dadas.
- Vou acender a lareira - Gabriel disse. Whitney pendurou a parca no mancebo e jogou a bolsa sobre uma poltrona.
- Tudo bem. Que tal se eu preparasse...
Ela não sabia que bebida oferecer numa ocasião como aquela.
- Chocolate quente - Gabriel decidiu.
Whitney correu para a cozinha. Enquanto aquecia o chocolate, encostou-se na pia e pressionou as mãos frias contra as faces. Por um momento, longe do fascínio de Gabriel, tentou pensar com clareza, julgar o que estava fazendo, ou o que planejavam fazer. Colocou o chocolate quente em duas canecas, que levou para o quarto.
Gabriel tinha tirado a jaqueta de couro, enrolado as mangas da camisa e aberto três botões. Aproximou-se de Whitney e pegou uma caneca de chocolate quente.
Ela hesitou ao escolher um lugar para sentar, olhando do sofá para a poltrona. Ele resolveu o dilema, acomodando-se no sofá, deixando um espaço obviamente destinado a ela. Whitney sentou-se ao lado dele e olhou para o fogo na lareira.
Gabriel colocou a caneca na mesinha de canto e pousou as mãos nas coxas. Depois de um longo silêncio, Whitney percebeu que sua caneca estava vazia e entregou-a a Gabriel, que pousou-a na mesa. Assustou-se, quando ele passou um braço por seus ombros.
- Também estou nervoso - ele confessou. - Isto não fazia parte do plano.
Ergueu o queixo dela com um dedo. Ela passou a língua nos lábios, preparando-os para o beijo. Ele os fitou e sorriu.
- Pronta? - indagou.
- Pronta.
Daquela vez, Gabriel não foi gentil. Seu desejo falou mais alto, e o beijo foi ardente, possessivo, enquanto ele introduzia as mãos hábeis sob o suéter dela.
- Tire tudo - murmurou.
Whitney concordou, movendo a cabeça. Ele a ajudou a tirar o suéter, o sutiã e a calça jeans, jogando-os no chão.
- Onde está seu penhoar? - perguntou.
- Na primeira gaveta da cômoda.
Gabriel levantou-se, abriu a gaveta, pegou o penhoar e entregou-o a Whitney, ajudando-a a vesti-lo, mas não permitiu que ela o abotoasse.
- Você é linda - sussurrou. - Quando olho para você...
- Eu também acho você muito bonito.
- Aquela noite, no chuveiro, quando olhou para mim... Toda noite penso em tocá-la... Tire minha camisa. Quero senti-la contra meu corpo.
Apesar de seus vinte e oito anos, ela nunca despira um homem. Todas as vezes em que chegara àquele ponto, algo a alertara de que não encontrara a pessoa especial. Mas com Gabriel era diferente, o que simplificava tudo. Whitney abriu os botões da camisa e tirou-a, deslizando as mãos pelo peito vasto.
- Vou tirar esta também - ele declarou, referindo-se à camiseta.
Arrancou-a e lançou-a num canto do aposento. Colocou Whitney em seu colo, afagou-lhe os cabelos, o pescoço, os ombros, o colo e os seios, enquanto a beijava apaixonadamente, fazendo-a gemer de prazer.
- Você não tem idéia de quantas vezes imaginei-a tocando meu corpo, desde aquela noite no chuveiro - ele murmurou.
- Você devia ter me contado. Diga o que gosta. Ensine-me a lhe dar prazer.
- Você me dá prazer até quando respira.
As carícias continuaram. Passou-se uma hora. Muito vagamente, Whitney ouviu o relógio da sala badalar e percebeu que era tarde. Desejava mais do que beijos e afagos sedutores.
- Não está na hora de irmos para a cama? - sugeriu.
- Está, sim.
Gabriel carregou-a nos braços até a cama, cobriu-a e, em seguida, colocou mais lenha na lareira para manter o quarto aquecido. Aproximou-se da cama, tirou os sapatos, deitou-se e se cobriu. Whitney franziu a testa, não gostando da barreira de cobertores entre eles.
- Não, deixe-os - ele falou, quando ela tentou afastá-los. - É mais seguro assim.
- Não quero segurança.
Gabriel sorriu e acariciou-lhe o rosto.
- Uma virgem apressadinha e imprudente - murmurou. - Eu quero...
- Eu sei, mas não esta noite. Não vou fazer amor com você.
- Por quê?
- Não é uma boa idéia.
- Por quê?
Por um momento, Gabriel mostrou-se frustrado, sentou-se, beijou-a de leve nos lábios, então abotoou-lhe o penhoar.
Whitney não acreditava no que ele estava fazendo. Prendeu os cabelos atrás das orelhas, num gesto de raiva. Ele pegou as mãos dela e beijou-as.
- Existem coisas que você não entende - disse.
- Explique, para que eu possa entender!
- Não posso, não agora. Há muitas pessoas envolvidas.
- Você não confia em mim. Gabriel franziu a testa.
- Confiei em poucas pessoas em minha vida - falou.
- Aprendi que não se pode confiar em todo mundo, algo que você precisa aprender também.
Fez com que Whitney se sentisse ingênua e inocente, como uma criança que esperava que todos os seus desejos fossem realizados. Mas ela não estava pedindo promessas ou compromisso, ao contrário, não fizera nenhuma exigência.
- Acho que vou passar a odiá-lo - disse. Gabriel olhou para a lareira.
- Era melhor que tivesse me odiado desde o começo - declarou.
Levantou-se, suspirou, pegou o casaco e os sapatos e cruzou o aposento, parando no vão da porta e olhando para trás.
- Talvez eu não esteja mais aqui, quando você acordar - murmurou. - Tchau, irlandesa.
Longos momentos após ele ter saído, Whitney ainda não conseguia pensar com clareza.
Pressionou as mãos no peito, recordando as carícias que haviam trocado. Lembrou que Gabriel não dissera "boa noite", ou "eu te vejo amanhã de manhã". "Tchau" poderia significar uma despedida final?
CAPÍTULO X

Whitney andava de um lado para o outro com a sensação de que algo aconteceria naquela noite. Fosse lá o que fosse, ela estaria pronta. Pegou o binóculo e foi ao quarto acima do seu, para observar a fazenda Deveraux pela janela.
Perguntou-se onde Gabriel estaria escondido. Talvez ele estivesse tentando tirar fotos dos ladrões retirando as mercadorias roubadas, para provar sua inocência ao xerife. Duas horas se passaram. Whitney levara uma cadeira até a janela e envolvera-se num cobertor, pois a noite prometia ser longa.
De repente, percebeu movimentos na fazenda abandonada. Chocada, viu homens cruzando o bosque, carregando caixas. Imóvel, tentou pensar no que fazer. Se Gabriel tivesse contado quais eram seus planos, ela ficaria mais tranquila diante daquela situação.
Comentou consigo mesma que os homens nunca se preocupavam com as mulheres que os amavam, quando estavam entretidos em suas aventuras, agindo como heróis de históriaspoliciais, pegando bandidos e resolvendo crimes sozinhos. As vezes, os mocinhos eram baleados. Nos dias atuais, os escritores escreviam histórias de modo bem mais realista. Pé ante pé, Whitney desceu a escada e calçou as botas. Queria estar pronta caso precisasse agir rápido. Voltou para o quarto e continuou a vigília.
Um estouro fez com que pulasse na cadeira. Um tiro. De imediato, ela tomou consciência de duas coisas: alguém estava armado, e Gabriel podia ser o alvo. Mais dois tiros. De súbito, houve uma enorme confusão na fazenda. Luzes foram acesas, homens corriam, viaturas policiais chegavam.
Whitney teve vontade de correr para lá e ver de perto o que estava acontecendo, mas seu bom senso pediu precaução. Finalmente, a confusão cessou. Luzes piscando na estrada indicavam que mais viaturas chegavam. Alguns ladrões deviam ter escapado.
Onde estaria Gabriel?
Mais duas horas passaram-se, até que a situação voltasse ao normal e os carros começassem a partir. Ao amanhecer, havia apenas dois veículos no local.
Whitney desceu a escada e preparou café e panquecas. De súbito, a porta da frente abriu-se e fechou-se.
- O café está pronto! - ela exclamou, tentando manter um tom de voz normal.
Gabriel apareceu e apoiou-se no batente da porta, nitidamente exausto.
- Sente-se - ela falou, escondendo a preocupação. Não fez nenhuma pergunta, pois convenceu-se de que, se ele quisesse contar alguma coisa, contaria. - Sente-se para comer.
Gabriel tirou a parca, pendurou-a numa cadeira e sentou-se. Após levar o café, as panquecas e suco de laranja para a mesa, ela se acomodou diante de Gabriel e olhou-o.
- Você está com um hematoma no rosto! - exclamou.
- Não foi nada.
Gabriel virou a cabeça, quando ela tentou tocá-lo na face.
Whitney respirou fundo, levantou-se, foi até a geladeira, pegou cubos de gelo, envolveu-os num pano de prato e entregou-os a ele.
- Desabafe - Gabriel resmungou.
- Você poderia estar morto! Vi as luzes, a polícia, ouvi os tiros... Fiquei tão preocupada!
Ele riu.
- Fiquei surpreso por você não ter aparecido lá - disse com um ar de zombaria.
Whitney sentiu lágrimas nos olhos.
- Pensei em ir - confessou.
- Parecem deliciosas - ele comentou, pegando uma das panquecas.
Quando os dois acabaram de comer, ela recolheu a louça e os talheres, colocou tudo na máquina de lavar louça e encostou-se na pia, tomando uma xícara de café.
- Dormiu, esta noite? - Gabriel perguntou. Whitney movimentou a cabeça negativamente.
- É estranho saber que alguém se importa comigo - ele declarou.
Ouviram o ronco do motor de um carro. Ela foi até a sala de estar para ver quem teria ido lá às seis e cinquenta e cinco da manhã. Parecia que muitas pessoas tinham acordado cedo.
Era o xerife. Ele subiu os degraus da varanda e foi recebido por Whitney.
- Entre - ela convidou, sorrindo. - Já fiz café.
- Que bom. Espero que esteja quente e forte.
- Está! - Gabriel gritou da cozinha.
O xerife seguiu naquela direção. Whitney acompanhou-o e colocou uma xícara de café a sua frente, quando ele se sentou. Sydney fitou-a, agradeceu e olhou para Gabriel.
Ela notou que Gabriel não parecia nem um pouco preocupado. Empurrara a cadeira para trás, estendera as pernas e tomava café, esperando que o xerife dissesse o que tinha para dizer.
Whitney forçou-se a não ficar andando de um lado para o outro, enquanto pensava num meio de proteger Gabriel, que estupidamente entrara na confusão. Diria que vira luzes na fazenda e o acordara, que ele insistira em ir lá, irias que nenhum dos dois desconfiava de que havia mercadorias roubadas no celeiro. Que ele nunca fora lá, antes.
Quem, em sã consciência, acreditaria que Gabriel estivera tão próximo de sua antiga casa e não tivera vontade de visitá-la?
Whitney olhou para o xerife. Sydney não parecia idiota, ao contrário, seus olhos eram atentos e inteligentes, apesar de ele estar obviamente fatigado.
- Bem, primeiro, as más notícias - Sydney começou. Whitney arrepiou-se. Gabriel fitou-a.
- Um dos ladrões fugiu - o xerife contou.
Ela olhou para Gabriel e perguntou-se se ele não diria nada em sua própria defesa.
Sydney colocou a xícara na mesa.
- Os cães seguiram o rastro...
- Não era Gabriel - Whitney pegou-se dizendo. Não suportaria vê-lo sendo acusado e preso, sabendo que ele era inocente. O único crime que Gabriel cometera fora não confiar seus planos a ela, que acreditava em sua honestidade.
Os dois homens encararam-na, então se entreolharam, e fitaram-na novamente. Gabriel franziu a testa. Whitney recusou-se a se intimidar, pois ele precisava de um aliado.
- Bem, as pegadas são parecidas - o xerife informou com um sorriso nos lábios.
- Não são, não - Whitney retrucou. - Ele não saiu desta casa, ontem à noite.
Gabriel olhou pela janela. Parecia que não diria nada para se defender. O xerife se mostrava interessado na história dela.
- Ele ficou aqui, comigo - ela insistiu.
- Sei - o xerife murmurou, quase rindo.
- Toda a noite.
Sydney sorriu, enquanto Whitney pensava no que dizer para convencê-lo.
- Em minha cama - ela declarou.
Gabriel engasgou-se com o café. Quando Whitney ousou encará-lo, viu-o levando a mão aos olhos e notou que suas faces enrubesciam.
O xerife riu e movimentou a cabeça negativamente.
- Diabos, Gabriel, se eu encontrasse uma mulher dessas não a deixaria escapar - falou.
Gabriel socou a mesa.
- O melhor que tenho a fazer é estrangulá-la - murmurou, furioso.
Whitney não tinha idéia do que estava acontecendo. Os dois homens sabiam de algo que ela desconhecia, o que a fez acreditar que cometera um erro grave.
- Detesto duvidar da palavra de uma senhorita, mas Gabriel passou metade da noite comigo - o xerife disse.
- Com você?! - Whitney exclamou. - Então, sabe que ele não é um ladrão?
- Sei. Ele é um dos mocinhos.
Ela notou que se fizera de idiota ao afirmar que Gabriel passara a noite toda em sua companhia. Agora entendia o motivo pelo qual ele queria estrangulá-la antes que ela o embaraçasse ainda mais.
O xerife levantou-se.
- Obrigado pelo café - agradeceu. - Talvez eu consiga permanecer acordado até chegar à delegacia. Vou precisar de seu relatório o mais rápido que puder, Gabriel. Temos de conseguir a identidade de todos os bandidos o mais breve possível.
- Sei quem era um deles - Gabriel falou. Estudou comigo no colegial.
- Eu o reconheci. Era suspeito de contrabando, sem contar que era um ladrão no colégio também, mas isso nunca ficou provado.
- Já suspeitava dele, naquela época.
- Foi bom vê-la, srta. Thompson.
O xerife dirigiu-se para a porta da frente, e ela acompanhou-o.
- Por favor, me chame de Whitney. Obrigada por aparecer.
Ela não sabia se devia pedir desculpas por ter mentido, por isso apenas sorriu. Acenou em despedida, quando Sydney pôs a viatura em movimento.
Voltou à cozinha. Gabriel estava de pé, encostado na pia e com as mãos nos bolsos da calça.
- Parece que fiz besteira de novo - ela comentou.
- Pensei... Estava errada, claro... mas estava com medo...
- Estava com medo de que eu fosse um dos ladrões?
- Claro que não! - ela exclamou. - Fiquei com medo de que o xerife pensasse que você fosse um dos ladrões. Eu tinha certeza de que você não fazia parte da quadrilha.
- Como?
- Eu... Bem, quando o encontrei machucado, você... Quero dizer, se você fosse um dos bandidos, não teria de se esconder deles, certo?
Gabriel fitou-a. Whitney queria que ele a abraçasse e a confortasse, pois precisava de carinho, depois de uma noite tão conturbada.
- Nunca ouviu falar em desavenças entre ladrões? - ele perguntou, irônico.
- Você não é ladrão!
Exceto de corações, ela acrescentou mentalmente.
Sentiu-se angustiada. Queria que ele fosse embora e a deixasse em paz, ou, então, que fizesse amor com ela até o dia seguinte.
- Só você e a polícia acreditavam em minha inocência - ele observou. - Todas as outras pessoas pensavam diferente.
- Todas as outras pessoas estavam erradas.
Gabriel fitou-a, parecendo confuso. - Você confiar em mim não fazia parte de meus planos - murmurou.
- Os planos mudaram.
- Preciso ir à cidade.
- Empresto-lhe a caminhonete.
Gabriel aproximou-se dela e acariciou-lhe os cabelos.
- Voltarei assim que puder, daí conversaremos - prometeu.
- Posso ir com você?
- Acho que Sydney pode me defender da sra. Tall e dos outros fofoqueiros, se é com isto que está preocupada.
- Bem, eu... - Ela se calou, quando o viu sorrir. - Você está brincando comigo!
Sentiu que Gabriel já não parecia tão distante, ao contrário, estavam mais próximos do que nunca. Ele a tocou no rosto e nos lábios.
- Você é uma tentação a que não sou capaz de resistir - falou.
- Gabriel...
Naquele momento, Whitney teve a certeza de que ele não iria embora sem que fizessem amor. Mas, quando estendeu a mão para tocá-lo, ele se afastou.
- Agora não, ainda não - Gabriel murmurou. - Eu a desejo, mais do que você pode imaginar, mas precisa saber no que estará se envolvendo.
- Então, volte depressa.
- Estamos muito cansados para lidar com a tórrida paixão que existe entre nós. É melhor que você tenha um tempo para pensar. Durma por algumas horas.
- Vou dormir só com você a meu lado - ela declarou.
- Se ficarmos juntos, nenhum de nós dormirá. Gabriel sorriu, em seguida saiu da cozinha.
Whitney acordou horas depois, com Gabriel sacudindo-a.
- Fomos convidados para jantar - ele disse. - Há gente querendo saber sobre o tiroteio.
Whitney imaginou que todos na cidade já sabiam de sua mentira sobre ter passado a noite na cama com Gabriel. Não estava preparada para enfrentá-los e ser ridicularizada.
- Vá você - falou. - Vou ficar aqui. Não estou com ânimo para sair.
- Você está muito bem. E vamos à estação de esqui, jantar com Glória e Rafael. Existem coisas que eles sabem e que você precisa ouvir.
Sendo assim, como Whitney poderia recusar?
- Dê-me cinco minutos - ela pediu.
Gabriel concordou e saiu do quarto. Whitney escovou os cabelos, vestiu-se e maquilou-se levemente.
- A primavera está chegando - comentou, quando já se encontravam na caminhonete.
- É mesmo. Tenho ouvido pássaros cantando.
- O sr. Peters provavelmente voltará logo e ficará surpreso ao ver o serviço terminado.
Whitney sorriu. Fosse lá o que fosse que Gabriel quisesse que ela soubesse, não mudaria seus sentimentos. Ele era uma boa pessoa, e ela o amava. Talvez tivesse tido alguns problemas, no passado, podia até ter sido preso, como a sra. Tall sugerira, mas ainda assim era um homem honrado.
- A propósito, eles pegaram, hoje de manhã, o único ladrão que fugiu - Gabriel contou.
- Que bom.
Rafael Barrett abriu a porta do chalé principal da estação de esqui antes que Gabriel e Whitney batessem à porta.
- Entrem - ele falou. - O jantar está quase pronto. Fui eu quem cozinhou. Glória está na cozinha, fazendo o teste do paladar.
Pegou os casacos deles e guiou-os até a cozinha, onde Glória recebeu-os, sorridente.
- Veja se está bom de sal - ela pediu a Whitney, estendendo-lhe uma colher.
- Está ótimo.
- Tudo está pronto, então. Podemos ir para a sala? Na sala de estar, tomaram vinho e comeram alguns salgadinhos.
- Adorei sua decoração - Whitney comentou. Depois do jantar, Glória levou-a para conhecer a casa toda.
- Você devia comprar uma banheira de hidromassagem - sugeriu com um brilho no olhar.
- É uma boa idéia - Whitney falou, percebendo que a outra sabia de seus sentimentos por Gabriel e aprovava.
Os dois homens estavam conversando sobre os últimos acontecimentos, quando as duas entraram na sala de estar.
- Bem, mais um caso resolvido pelo agente especial Deveraux - Glória comentou.
Whitney olhou para Gabriel, sem saber o que pensar, sentindo-se traída.
- Acho melhor irmos embora - ele falou. - Foi um longo dia.
Whitney agradeceu aos anfitriões pelo jantar e pela noite agradável.
- Eles são muito simpáticos - disse ao caminharem para a caminhonete.
- São. Rafael e eu trabalhamos juntos durante anos, na Europa e no Oriente Médio.
- Ele também era agente.
- Era.
Whitney permaneceu em silêncio, refletindo sobre muitos fatos que haviam ficado claros. Compreendia por que Gabriel vivia em estado de alerta, afinal tinha um trabalho excitante e perigoso, que o envolvia em muitas e diferentes aventuras. Fora muito idiota ao pensar que ele ficaria a seu lado, cuidando de uma pensão familiar.
Assim que entraram em casa, Gabriel acendeu a lareira da sala de estar, enquanto Whitney ia à cozinha, preparar chocolate quente. Ela voltou com duas canecas numa bandeja, que pousou na mesinha de centro, então acomodou-se numa poltrona. Gabriel observou-a, desejando-a cada vez mais e admitindo que precisava dela acima de tudo, mas, ao mesmo tempo, sem saber que decisão tomar.
- Vê o problema? - perguntou. - Que problema?
Se ela queria um envolvimento amoroso, ele se sentia na obrigação de contar sobre sua vida, sua associação com mafiosos, ladrões e assassinos.
- Lido com bandidos, Whitney. A vida pode se tornar perigosa, se um deles aparecer, querendo se vingar - explicou.
- Aceitarei os riscos, se estiver com o homem a quem amo.
- Não estou pedindo para que aceite nada.
- Eu sei.
- Irei embora em breve.
Gabriel queria que Whitney gritasse, brigasse, batesse nele, mas a calma dela o surpreendeu.
- Gabriel...
- O quê?
- Quando o xerife veio aqui, e eu disse que...
Ele sentiu algo parecido com um nó na garganta, ao recordar que ela mentira para o xerife para protegê-lo. Whitney ficara ao lado dele, sem pensar em si mesma e em sua reputação.
- Peço desculpas por tê-lo embaraçado - ela murmurou. - Pensei que estava ajudando...
- Você o quê?
- Não sabia que você estava com o xerife. Se tivesse me contado... - Whitney corou.
- Bem, isso não importa. De qualquer modo, peço desculpas. Você tinha todo o direito de ficar furioso.
- Você não me embaraçou. Nunca ninguém fez por mim o que você fez. Jamais alguém acreditou em mim, da maneira como você acreditou. Tenho vontade de me ajoelhar e beijar seus pés. - Gabriel riu. - Faria isso, se soubesse que me limitaria aos pés. Eu quero beijar você inteirinha.
Whitney fitou-o, enternecida.
- Você pode ter tudo de mim - murmurou, sorrindo timidamente, então tomou um gole de chocolate.
- Irlandesa...
Gabriel lembrou-se de que ela lhe trouxera paz, aconchego e alegria. E o que ele dera em troca? E se a desapontasse?
- Não me importo com o perigo - Whitney declarou. - As pessoas podem ser atacadas por um urso, mas isso não as impede de ir à floresta. Quero que fique, mas, se não puder ficar, vou com você, seja para onde for.
Ele se perguntava o que faria, se ela não fosse feliz a seu lado.
- Eu te amo, Gabriel - ela confessou.
- Oh, Deus...
Whitney não conseguiu desviar o olhar do dele, permanecendo em silêncio. Gabriel viu dor nos olhos azuis e soube que não suportaria vê-la magoada, nem que fosse para o próprio bem dela.
- Vai ficar? - ela perguntou.
- Se quiser que eu fique...
- Claro que quero. Quero isso desde que o vi pela primeira vez.
- Quando eu estava caído na neve, com o pé preso na armadilha. Uma presa fácil.
- É, mas eu o vi antes disso. Observei-o com meu binóculo, durante uma semana.
- Eu sabia que estava sendo observado.
- Quando o trouxe para casa, pensei... Whitney enrubesceu, calando-se.
- Diga o que pensou - ele pediu.
- Eu o encontrei. Foi como se você pertencesse a mim.
Gabriel ficou de joelhos diante dela e abraçou-a. Incomodada, Whitney também ajoelhou-se. Ele tomou o rosto dela entre as mãos.
- Vai dividir seus sonhos comigo? - indagou. - Eles são grandes o bastante para incluir outros?
- São. Tenho muitos sonhos para nós, para nosso futuro. Beijaram-se apaixonadamente. Ela desejava mais do que um beijo, e movimentou o corpo sensualmente contra o dele
- Ainda não - ele murmurou. - Vamos esperar
- Não, chega de planos. Eu o quero agora.
- Temos que dar à cidade um tempo para acalmar-se e me aceitar, já que vou ficar por aqui. Rafael e o xerife testemunharão a meu favor, e...
- Não precisa de ninguém para testemunhar a seu favor. Se as pessoas não conseguem ver o homem maravilhoso que você é, então deixe-as com suas desconfianças. Elas não sabem o que estão perdendo.
Gabriel fitou-a. Achava que não a merecia, mas Whitney parecia pouco se importar. Ela o amava e estava disposta a correr qualquer risco para que ficassem juntos.
- Case comigo, irlandesa. Este pedido é um último teste para sua confiança.
- Não é nenhum teste. Sei que é um bom homem, desde que nos conhecemos.
- Como?
- Minha avó me dizia para casar com um fazendeiro. Que fazendeiros eram os melhores partidos.
Gabriel ergueu-se e ajudou-a a levantar-se. Sentando no sofá, puxou-a para o colo.
- Sua avó era uma mulher sábia - murmurou, beijando-a com paixão e ternura.
CAPÍTULO XI

Whitney e Gabriel caminhavam de mãos dadas por uma trilha. Um floco de neve caiu no nariz dela, o que a fez rir. Gabriel parou e tirou o floco com os lábios, numa carícia sensual.
Estavam nas terras dele, local que trazia tristes lembranças para Gabriel, mas Whitney pensava apenas nas coisas boas que ele podia ter conhecido ali.
- Eu imagino você criança, correndo pelos campos, pulando a cerca, indo ao rio para pescar - ela disse, sonhadora.
- Eu adorava correr por aí. Lembro-me de meu primeiro cavalo, tão pequeno que parecia um pônei - falou. - Eu queria um garanhão, como o cavalo de meu pai.
Durante as três semanas em que estavam casados, Whitney contara sobre sua infância e a família, induzindo Gabriel a fazer o mesmo.
Fora difícil, mas ele acabara abrindo o coração e falara sobre a infância e a juventude, quando tivera a alma cheia de esperanças.
- As vezes, sinto-me muito perto da natureza, mas de outras ela se vira totalmente contra mim, o que me faz refletir que existem forças muito maiores do que nós.
Uma noite, depois de fazerem amor, Whitney conhecera a história da mãe de Gabriel e soubera do vazio que ela deixara ao morrer.
- Meu pai deve ter ficado arrasado - Gabriel comentara. - Ele sempre foi um homem calado, e depois da morte de minha mãe, tornou-se um ermitão inflexível e rude.
Virando-se de lado, apoiara-se sobre o cotovelo e fitara Whitney.
- Está tão feliz quanto parece, meu bem?
- Oh, estou, sim, meu amor - ela respondera, sorrindo e acomodando-se contra o corpo másculo.
Voltaram a caminhar lado a lado e acabaram entrando no cemitério da família Deveraux. Gabriel aguardou até que Whitney lesse todos os nomes gravados nas lápides, então parou diante do túmulo de seus pais. Ela ficou em silêncio, enquanto ele contemplava os nomes e as datas de nascimento e falecimento.
- Jamais entendi meu pai - Gabriel confidenciou. - Ele nunca abriu seu coração. Fiz o mesmo, talvez por orgulho. Acho que ele me passou a crença de que expor sentimentos é indigno de um homem. Espero educar melhor meus filhos, quero ensiná-los a amar e a demonstrar seu amor.
Abraçou Whitney com firmeza.
- Eu te amo, irlandesa - murmurou, beijando-a com ímpeto. - Tirei a sorte grande, ao encontrá-la. Você é minha vida, meu grande amor.
Uma movimentação no outro lado do campo chamou a atenção de Whitney. Ela se aproximou da janela e viu o homem na fazenda Deveraux. É ele de novo, pensou. Era a terceira vez que o estranho aparecia na antiga fazenda abandonada, e sempre ficava na orla do bosque de pinheiros.




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